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Capítulo 2

last update publish date: 2025-04-08 01:30:10

DIANA

Sete anos depois

Lobos.

Desde que me lembro, adoro lobos. Eles são seres lindos, fiéis, rápidos e poderosos. Eles têm uma pelagem invejável e graças a isso proporcionam muito calor no tempo frio.

Quando eu era criança, costumava fugir para a floresta para brincar com eles e, embora tenham a capacidade de se transformar em humanos, eu preferia vê-los em suas formas originais, pois são muito mais divertidos e majestosos. Passei muitas horas imersa na natureza, acompanhada dos meus amigos peludos que nunca tentaram me machucar ou me manipular por ser de uma raça diferente da deles.

Infelizmente, o meu padrasto descobriu o que eu fazia à noite e, a partir daquele momento, começou a me repreender, chegando a me dizer que os lobos eram inimigos da raça humana devido a conflitos que eu nunca tive interesse em saber. Ele tentou me assustar sobre eles, mas eu nunca dei ouvidos porque a conexão que eu tinha com eles era mais profunda do que a que eu tinha com a minha família.

O grande caçador do clã Kinigoi, ou seja, o meu padrasto, percebeu essa conexão, e foi naquele preciso momento que ele me proibiu terminantemente de entrar novamente na floresta, mas é claro que nunca o ouvi porque até hoje continuo voltando ao lugar majestoso cheio de árvores e do cheiro de liberdade que tanto gosto, mesmo que isso signifique receber os seus golpes brutais que, segundo ele, “são para me endireitar”.

Os galhos sob as minhas botas estalam a cada passo que dou e, longe de temer ser ouvida, caminho com muita calma, gostando de estar longe daquela casa abusiva onde não há figura materna porque a minha mãe abandonou o meu padrasto quando ele queimou mais de cem lobos com o seu clã nojento há sete anos.

Sinceramente, não a culpo. Se o meu marido tivesse feito algo assim, eu não teria fugido. Eu teria cravado uma estaca em seu peito. Porque os lobos, e qualquer outra criatura noturna em geral, não merecem perder as suas vidas só porque os humanos não conseguem aceitar que o mundo não é completamente governado por eles.

A respiração difícil de um felino me faz parar no meio do caminho e, antes que eu possa dizer uma palavra, sou jogada no chão enquanto uma força bruta me puxa para baixo. Felizmente, consegui colocar as mãos no rosto, e é por isso que não quebrei os dentes nem o nariz, o que é um alívio, porque senão, como eu conseguiria justificar ao meu padrasto que precisava de uma nova rinoplastia ou aparelho?

O leve rosnado daquele que me atacou me faz sorrir e afastar tais pensamentos, porque eu o reconheceria mesmo a mil milhas de distância.

— Como vai, Oli?

— Senti tanta sua falta, Diana!

Uma pequena mordida cai no meu ombro, fazendo o meu sorriso se alargar porque Oliver, desde que aprendeu a se transformar em lobo, gosta de cravar os dentes em tudo que olha, especialmente se for eu. É a sua maneira de se expressar.

— Eu também senti sua falta, Oli. Você fez os exercícios de escrita que deixei para você esta manhã?

O meu irmão não biológico, mas de alma, se levanta e me ajuda a fazer o mesmo. Quando estou de pé, tenho que levantar o rosto para vê-lo melhor porque, para um garoto de dezoito anos, ele é mais alto que eu.

A brancura da sua pele sempre me impressiona, pois ela parece um floco de neve. Ele tem cabelos pretos e bagunçados, com alguns galhos e folhas, e os seus olhos verdes como a selva brilham de emoção e amor por mim.

Eu o encontrei na noite em que o meu padrasto matou sua matilha. Quando o vi escondido atrás de um arbusto chorando, não hesitei em me jogar nele para abraçá-lo, porque se tem uma coisa que parte meu coração, é ver gente como ele sofrer. Eu o protegi o melhor que pude porque não permitiria que o meu padrasto e seu clã retornassem para terminar o seu trabalho nojento que o deixou sem família.

Graças à minha melhor amiga, Adeline, consegui escondê-lo em uma pequena caverna que enchemos com suprimentos básicos para mantê-lo vivo. Nós alternávamos os horários para que Oliver não ficasse sozinho em nenhum momento, mas ele sempre chorava quando chegava a hora de eu ir para casa, porque ele rapidamente criou um vínculo de irmandade comigo que o fazia sofrer quando estávamos separados.

Cuido dele há sete anos. Ele é meu irmão em todos os sentidos da palavra, e eu o amo muito porque cuidar dele me faz sentir menos um merda em relação às coisas que papai me obriga a fazer.

— Eu fiz todos eles. Ele responde orgulhoso, pegando a minha mão. A tia Addie foi vê-los algumas horas atrás, me deu uma estrelinha dourada para colar na minha testa, também me deu um doce de presente e disse que eu poderia sair para caminhar um pouco, mas como eu queria te ver, cancelei a minha caminhada para vir te esperar porque Oliver sente falta da sua alma gêmea.

Meu coração dói de alegria porque nunca pensei que o meu relacionamento com esse lobo seria tão lindo. Seu frescor, sua inocência, seu amor por mim e sua inteligência tornam o inferno em casa suportável.

— Nesse caso, vamos para casa. Hoje aprendi uma maneira diferente de preparar o macarrão que você tanto gosta de comer.

— Sim! Ele pula ao meu redor de alegria, os seus lábios curvados em um sorriso genuíno. — Eu tenho a melhor irmã do mundo!

As suas palavras tocam o meu coração com prazer. Pego a sua mão e com ele caminho o trecho restante até chegar em casa porque, embora aquela caverna não tenha tudo o que a casa de Dimitri Mitchels tem, é muito mais quente e o lugar onde eu gostaria de viver a vida inteira, mas até completar vinte e cinco anos não posso abandonar esse pesadelo, pois essa é a "maioridade" neste lugar.

‍​‌‌​‌‌‌​​‌​‌‌​‌​​‌‌‌‌​‌‌​​​‌‌​​‌‌​‌‌​​​‌‌‌‍Oliver me conta o quão fácil foi o exercício que dei a ele, e é por isso que ele me pede para subir de nível, porque ele quer ser um lobo inteligente, já que essa é a única maneira de se tornar um alfa quando crescer.

Toda vez que ele menciona esse intervalo, fico assustada, porque não quero que ele cresça, pois então ele será danificado. Quero que ele seja sempre um lobo normal, que fique nas sombras onde ninguém possa machucá-lo, mas também sei que é injusto mantê-lo aqui quando ele merece viver com sua própria espécie.

No oeste do país há uma nova matilha cujo nome não sei, mas eles acabaram de chegar e se estabeleceram com os outros membros. Não os conheci pessoalmente, mas sei sobre eles porque o meu pai e seu clã estão à espreita, tentando exterminá-los, assim como massacraram os Belmonts, a família de Oliver.

Eu gostaria muito de ir avisá-los de que eles estão em perigo aqui, mas levaria cinco dias de caminhada e não posso ficar longe da Cidade Humana por tanto tempo ou meu padrasto suspeitaria, e se ele suspeitar, não hesitará em vir aqui, onde descobrirá o segredo que mantive escondido por anos.

E eu posso suportar qualquer coisa, até mesmo seus golpes e gritos, mas não ter meu irmão lobo tirado de mim.

— Ponha a mesa, Oli. Peço ao lobo magricelo, quando estamos dentro da caverna.

O cheiro da chuva domina o meu olfato, me avisando que vai chover, e isso não é bom, porque da última vez que choveu houve uma enchente, dificultando muito minha saída da floresta. Rezo internamente para que não seja uma chuva torrencial, mas algo leve.

Deixo escapar um suspiro e começo a trabalhar, lembrando dos passos do vídeo que assisti, porque o macarrão tem que ficar perfeito. Por sorte, encontrei os ingredientes dentro de caixas de madeira que comprei em um supermercado que fechou recentemente. Adeline me deu um pouco de tinta para que eu pudesse decorá-las. Elas são completamente brancas, mas têm pequenos desenhos de flores. É onde eu guardo, tudo que compro para estocar.

— Posso ligar o rádio, Adelfi? Oliver questiona, então olho para a esquerda, vendo que ele tem o gadget em mãos.

"Adelfí" é a maneira que ela tem de me chamar de irmã, já que é isso que significa em sua língua nativa, que é o grego.

— Óbvio!

Meu irmão lobo abre um sorriso largo e contagiante e aperta o botão enquanto a música de Aurora ecoa por toda a caverna.

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