Se connecterCapítulo 5 – O olhar que queima
Anelise Lightmoon
A carruagem parou com um solavanco seco.
Eu abri os olhos. A escuridão da madrugada ainda dominava o céu, mas as tochas nas muralhas da fortaleza lançavam um brilho alaranjado sobre a pedra antiga. O ar que entrou pela fresta da janela era diferente. Mais frio. Mais limpo. Carregado de neve e de algo que fez Meire se erguer dentro de mim com uma urgência quase dolorosa.
O cheiro de um alfa poderoso.
A porta se abriu. Eu desci sozinha, sem aceitar a mão que um guarda desconhecido ofereceu. O vestido branco farfalhou ao redor das minhas pernas. O véu ainda cobria meu rosto, transformando o mundo em uma névoa leitosa. Eu preferia assim. Enquanto o tecido estivesse entre nós, eu ainda podia fingir que não estava ali de verdade.
Gileon desceu logo atrás. Sua postura mudou na hora. Os ombros se abriram, o queixo se ergueu, o sorriso falso de pai orgulhoso se espalhou pelo rosto como uma máscara bem ensaiada. Ele estava interpretando o papel que escolheu: o Alfa das Terras Altas entregando a filha amada.
Eu odiava cada segundo daquela farsa em silêncio.
Passos pesados ecoaram na escadaria de pedra.
Eu não precisei ver para saber. A presença dele descia como uma tempestade prestes a desabar. Cada passo fazia o ar ficar mais denso, mais difícil de respirar. Meire parou de se mexer. Ficou absolutamente quieta, atenta, como uma predadora que acabou de farejar o próprio destino.
Ele parou diante de mim.
Mesmo através do véu eu sentia o peso daquele olhar. Ele era alto, de ombros largos. O cheiro de neve, madeira queimada e algo selvagem me atingiu em cheio. Meu corpo reagiu antes que eu pudesse impedir. Um calor indesejado subiu pelo ventre. Eu cerrei os dentes até doer.
Dedos desconhecidos puxaram o tecido do véu para trás.
O mundo voltou a ter cores nítidas demais.
Arthur Blackburn estava a menos de dois metros de distância. Cabelos pretos cortados de forma irregular. Maxilar cerrado. Olhos escuros que me percorriam com uma intensidade que queimava. Não havia palavras. Apenas aquele olhar. Como se ele estivesse memorizando cada traço do meu rosto para odiar melhor depois.
Ele não falou meu nome. Não falou de vingança. Não fez discurso.
Apenas inclinou a cabeça levemente para um dos guardas ao lado.
— Preparem a cerimônia. Agora.
A ordem foi seca.
Gileon tentou se adiantar, a voz melosa pronta para discursar sobre acordos e alianças. Arthur nem se deu ao trabalho de olhar na direção dele. Um simples gesto de mão foi o suficiente para silenciar meu pai. Gileon engoliu as palavras como se fossem veneno.
Eu fui levada para um aposento amplo e frio. Nenhuma palavra foi dirigida a mim. Duas mulheres silenciosas ajustaram o véu, colocando ele novamente no meu rosto. Eu deixei. Depois me mandaram esperar. Meire permanecia em estado de alerta absoluto, farejando o ar como se o perigo estivesse escondido em cada sombra.
Quando a porta se abriu novamente, a luz cinzenta do amanhecer já entrava pelas janelas altas.
Chegou a hora.
O salão principal da fortaleza estava repleto. Guerreiros alinhados em silêncio disciplinado. Mulheres da alcateia observando com expressões fechadas. O cheiro de tantos lobos misturados fazia minha garganta apertar. No centro, sob um arco de pedra antiga, Arthur já esperava.
Ele usava preto do pescoço aos pés. Sem adornos. Apenas a presença esmagadora de um Alfa que não precisava de coroa para provar o que era.
Gileon me acompanhou pelo corredor improvisado entre os presentes. Seu braço estava ofertado, o sorriso falso no rosto. Eu não segurei o braço dele. Ao invés disso, Arthur mandou que ele ficasse onde estava. Caminhei sozinha. Cada passo ecoava no silêncio pesado do salão como um tambor distante.
Quando parei diante de Arthur, ele finalmente me olhou, mas não tocou em mim.
Não havia discurso. Não havia ameaça verbal. Apenas os olhos escuros cravados nos meus e a forma como lobo dele se agitava do outro lado do laço ainda não consumado. Meire respondeu na mesma hora. Eu senti o reconhecimento atravessar o peito como uma lâmina quente.
O ancião da alcateia começou a falar, removi o véu quando ele mandou. As palavras antigas subiam e desciam, falando de união, de sangue, de dever e de lua. Eu mal as ouvia. Meu coração batia tão forte que doía contra as costelas.
Arthur estendeu a mão apenas quando o ancião ordenou.
Eu coloquei a minha sobre a dele.
A pele dele era quente. Áspera de quem segurava armas com frequência. O contato durou apenas o tempo necessário para o ancião amarrar a fita de couro escuro ao redor dos nossos pulsos. O nó foi puxado com firmeza.
— Sob a luz da deusa e perante a alcateia — a voz do ancião ecoou pelo salão, eu os declaro unidos. Alfa e Luna da Garra de Pedra.
Um silêncio absoluto caiu sobre todos.
Arthur não soltou minha mão imediatamente. Seus dedos apertaram os meus por um segundo a mais do que o protocolo exigia. O polegar dele roçou a parte interna do meu pulso, exatamente onde o sangue corria mais rápido.
Então ele soltou minha mão, como se queimasse a dele.
Virou-se para os guardas que haviam vindo com a comitiva das Terras Altas e, com a mesma calma mortal, ordenou:
— Levem o Alfa Gileon e todos os que o acompanharam de volta. Imediatamente. O acordo foi cumprido. A presença deles não é mais necessária
Gileon abriu a boca, surpreso. Arthur nem piscou.
Enquanto os homens do meu pai eram discretamente conduzidos para fora do salão, eu permaneci parada sob o arco de pedra, a fita de couro ainda marcada na pele.
Arthur se virou de novo para mim.
Os olhos escuros desceram até minha boca e depois subiram devagar. Pela primeira vez desde que o véu foi retirado, eu vi algo além do ódio neles.
Então ele falou comigo. A voz baixa, controlada, dirigida apenas a mim, mas alta o suficiente para que os mais próximos ouvissem.
— Agora você é minha
As palavras dele fizeram Meire estremecer dentro de mim, eu não sabia se isso era uma promessa ou uma sentença...
Capítulo 11 O que ficou na pele Annelise LightmoonA porta dos aposentos dele se fechou atrás de mim com um som seco demais.Eu não corri. Forcei cada passo a ser medido, controlado, exatamente como tinha aprendido a fazer quando ainda era obrigada a atravessar os corredores das Terras Altas com as costas queimando de chicotadas. Os guardas no corredor baixaram o olhar quando passei. Nenhum deles falou. A vigilância já tinha sido dobrada, como ele ordenou. Eu sentia o peso daqueles olhares na minha nuca até a curva do corredor.Só então minhas pernas fraquejaram.Apoiei a mão na parede de pedra fria e fechei os olhos por um segundo. O corpo inteiro ainda tremia. Não de medo. De outra coisa. Uma coisa quente e vergonhosa que latejava entre as minhas pernas e fazia Meire andar em círculos dentro do peito com uma urgência quase dolorosa.O toque dele ainda estava na minha cintura.Eu ainda sentia a marca invisível dos dedos fortes segurando a carne, puxando meu corpo para trás até minh
Capítulo 10 – O cheiro que ficou em mimArthur BlackburnA porta se fechou atrás dela com um baque seco demais.Eu fiquei parado no meio do quarto, a respiração ainda pesada, o corpo ainda tenso, o cheiro dela impregnado em tudo como uma mancha que eu não conseguia limpar. Rosas brancas. Suor. Desejo contido. E por baixo de tudo, aquele maldito reconhecimento que fazia Trevor andar em círculos dentro do meu peito.Eu passei as duas mãos pelo cabelo, puxando os fios com força até doer. Não ajudou.A imagem dela de joelhos no chão ainda estava queimada atrás dos meus olhos. O jeito como o vestido escuro grudava nas coxas. O tremor que passou pelo corpo dela quando eu a puxei para cima. O momento exato em que o cheiro mudou, ficando mais doce, mais aberto, mais traidor. Tinha sentido o laço puxar com uma violência que quase me fez morder ali mesmo.Eu soltei um palavrão baixo e caminhei até a lareira.O fogo ainda queimava, mas não esquentava o suficiente. Eu apoiei as duas mãos na pedra
Capítulo 9 – O peso do olharArthur Blackburn Eu deveria ter continuado andando.Em vez disso, fiquei parado no alto da escadaria de pedra, os braços cruzados, observando a mulher que agora carregava meu nome sujar as mãos com fuligem e água suja. Ela esfregava os caldeirões com a mesma disciplina fria de quem já tinha nascido ajoelhada. Sem reclamar. Sem levantar a voz. Sem me dar o prazer de vê-la quebrar.Trevor não gostava daquilo.O lobo se mexia inquieto cada vez que o cheiro dela, rosas brancas agora misturado com cinzas e suor subia até mim. Eu forcei o animal para baixo com mais força do que o necessário. Não importava o que o instinto gritasse. Aquela mulher ainda carregava o sangue do meu irmão nas mãos, mesmo que eu ainda não tivesse provas concretas o suficiente para arrancar a verdade dela na frente de toda a alcateia.Quando o balde caiu e ela foi ao chão, algo dentro do meu peito puxou com violência.Eu desci os degraus antes de conseguir me impedir.Ela estava de
Capítulo 8 – Cinzas e orgulho Anelise LightmoonEu estava encolhida na cama estreita, coberta com o lençol, usando apenas peça intimas, o vestido branco amassado no canto escuro do quarto. O corpo inteiro doía. Não era só o cansaço da viagem nem as feridas antigas. Era o peso de tudo que tinha acontecido nas últimas horas. O casamento. O laço latejando. A forma como Arthur tinha me olhado antes de sair.Meire permanecia quieta, mas atenta. Como se estivesse esperando.A chave girou do lado de fora. A porta se abriu sem batida. Uma mulher de meia-idade entrou carregando uma bacia de água fria e um vestido simples de tecido grosso e escuro. Ela não me cumprimentou. Apenas deixou as coisas sobre a única cadeira do aposento e falou com a voz sem emoção.— O Alfa mandou você se vestir e descer para a cozinha. Agora.Eu me levantei sem responder. A água gelada cortou a pele quando lavei o rosto. O vestido novo era largo demais nos ombros e curto demais nos braços, feito para alguém que
Capítulo 7 – Maldito LaçoArthur BlackburnNa manhã seguinte, Trevor estava inquieto demais. O lobo não parava de farejar o ar, buscando o rastro doce e teimoso daquela que agora pertencia oficialmente a mim. Abri a porta e entrei no quarto dela.Ela estava no centro do aposento.De costas para mim. O vestido branco ainda estava colado ao corpo como uma ofensa. Os cabelos loiros presos de forma simples, alguns fios soltos na nuca. Eu sentia o cheiro dela mesmo dali. Rosas brancas e algo mais quente por baixo, junto com o cheiro fraco de jasmim. Algo que fazia Trevor arranhar as paredes da minha mente com uma urgência que eu odiava.— Vire-se.A ordem saiu mais baixa do que eu pretendia.Ela obedeceu devagar. Quando os olhos cor de mel encontraram os meus, eu senti o impacto no peito como um soco. Não havia medo puro naquele olhar. Havia contenção. Havia uma armadura antiga demais para alguém tão jovem. E havia o laço. Maldito laço que latejava entre nós como se não se importasse com
Capítulo 6 – As regras do inferno Anelise LightmoonA fita de couro escuro permaneceu amarrada ao redor dos nossos pulsos por mais alguns segundos, o nó apertado demais, a pele sob ela latejando com o calor do contato. Depois ele puxou o próprio lado com um movimento seco. O tecido escorregou do meu pulso e caiu no chão de pedra entre nós.Ninguém no salão se moveu.Arthur virou o rosto apenas o suficiente para que a ordem saísse clara e sem espaço para discussão.— A cerimônia terminou. Todos podem se retirar.O silêncio se quebrou em murmúrios baixos e passos pesados. Guerreiros e mulheres da alcateia começaram a se dispersar com a disciplina de quem sabia que desobedecer não era opção. Eu permaneci parada sob o arco de pedra, o coração batendo tão forte que doía.Gileon tentou se aproximar uma última vez. O sorriso falso já havia desaparecido. Agora havia apenas a expressão de um homem que percebeu, tarde demais, que acabou de perder qualquer poder de barganha.Arthur nem o olhou.







