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Um encontro inesperado

Author: Sah Flor
last update publish date: 2026-07-19 01:05:07

Na manhã seguinte, o caminhão com minhas coisas chegou bem cedo. Meu quarto logo ficou abarrotado de caixas, quase todas cheias de lembranças do meu pai.

Rebeca sugeriu que eu doasse alguns livros para a biblioteca da escola, mas recusei. Aqueles livros eram parte dele… e, por consequência, parte de mim. Organizei o que consegui, mas muitas caixas ainda permaneciam empilhadas no canto, intocadas.

Os dias seguintes foram silenciosos. Eu me trancava no quarto, lendo por horas a fio. Rebeca e eu quase não nos víamos e, sinceramente, eu preferia assim.

Só saía para comer ou levar Alby para passear. Batizei o cachorrinho em homenagem a Albert Einstein.

Naquele sábado, acordei cedo. Tomei banho, me arrumei e fui para a cozinha. Preparei um achocolatado e um misto-quente, comendo encostado na bancada enquanto jogava migalhas para Alby, que me observava com as orelhas em pé.

Quando terminei, lavei a louça e me preparei para voltar ao quarto. Foi então que, ao passar pela sala, notei alguém dormindo no sofá.

Aproximei-me devagar. O rangido do assoalho a fez se mexer.

Era Luna.

— Desculpa, não quis te acordar - falei, sem jeito.

Ela se espreguiçou e abriu um sorriso sonolento.

— Tudo bem. Eu precisava acordar mesmo.

Olhou o celular e bocejou.

— São só sete e meia - comentei. — É sábado.

— Eu sei. Costumo acordar cedo, mas ontem fiquei estudando até tarde e acabei dormindo aqui.

Nesse momento, a porta da frente se abriu. Rebeca entrou suada, vestindo roupas de corrida.

— Bom dia, querido! Já conheceu a Luna, né?

Assenti em silêncio.

— Ela vai ficar uns dias conosco - explicou Rebeca. — Os pais dela viajaram e eu não quis que ela ficasse sozinha.

Com o filho dos outros ela se importa…, pensei.

— Okay - murmurei.

Rebeca sorriu, animada.

— Vocês dois são jovens! Está um dia lindo lá fora. Que tal darem uma volta pela cidade?

— Não posso. Tenho coisas pra fazer no quarto.

— Tipo o quê? Dormir o dia todo? -rebateu ela.

Fiquei calado.

— Josh, você precisa sair um pouco, filho. Conhecer gente nova. Já faz quase uma semana que chegou e mal falou com alguém.

— E quem disse que eu quero conhecer alguém? - explodi, elevando a voz. — Você me obrigou a vir pra esse fim de mundo! Eu estava bem em Nova York. Agora quer que eu faça amizade com esses caipiras? Me deixa em paz!

Virei as costas e bati a porta do quarto com força.

Joguei-me na cama, peguei um dos livros do meu pai, mas não consegui me concentrar. Fui até a janela. O sol brilhava forte. Rebeca tinha razão, o dia estava lindo. E isso só me irritou mais.

Minutos depois, escutei batidas na porta. Ignorei. As batidas insistiram.

— Josh, por favor… abre.

Suspirei e abri a porta.

Luna estava ali, com uma expressão séria.

— Quero conversar com você.

Voltei para a cama. Ela puxou a cadeira da escrivaninha e se sentou de frente para mim.

— Eu sei que está sendo difícil pra você - começou. — Mudar de cidade, perder o pai, ter que se adaptar… Eu entendo.

Fiquei em silêncio. — Mas talvez você devesse dar uma chance pra essa nova vida. Quem sabe você até goste de Beaufort? Ela não é tão ruim quanto parece.

Ela sorriu. E eu, pela primeira vez, realmente olhei para ela. Cabelo negro um pouco bagunçado, pintinhas no nariz, boca delicada. Um arrepio estranho percorreu minha espinha.

— E então? - perguntou. — Topa dar uma volta? Tem um fliperama legal no centro.

— Okay - respondi, sem pensar.

— Sério? - Os olhos dela brilharam.

— Eu vou com você.

Ficamos nos encarando por alguns segundos. Senti um frio na barriga. Limpei a garganta, levantei e fui até a mesa de cabeceira. Abri a gaveta e peguei o colar que ela havia deixado cair dias antes.

— Tome. Você esqueceu isso.

— Você encontrou! - exclamou, aliviada.

— Eu pensei que tinha perdido…

— O fecho estava quebrado. Eu consertei.

Luna pegou o colar com cuidado, os olhos brilhando de gratidão.

— Obrigada, Josh. Você não faz ideia do quanto ele significa pra mim.

Sem aviso, ela se inclinou e deu um beijo rápido no meu rosto. Meu coração disparou.

— Às duas da tarde, então? - perguntou, sorrindo.

Só consegui assentir.

Luna saiu do quarto, deixando para trás um perfume doce que ficou pairando no ar.

Fechei a porta e encostei a testa na madeira.

O que está acontecendo com você, Josh?

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