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Um dia

Author: Sah Flor
last update Petsa ng paglalathala: 2026-07-19 01:05:34

Sentei-me à mesa para almoçar, mas mal conseguia olhar na direção dela.

De vez em quando nossos olhares se cruzavam e eu sentia o rosto queimar. Rebeca conversava animadamente com Luna, enquanto eu permanecia em silêncio, cutucando a comida no prato.

— Está tudo bem, filho? - perguntou Rebeca, curiosa.

— Está - respondi seco.

— Por que você está tão calado?

— Não tenho assunto.

Ela desistiu. O silêncio que se seguiu foi desconfortável.

— Bom, terminei - falei, levantando-me rapidamente e levando o prato para a pia.

Pela janela, o sol brilhava forte e Alby corria pelo jardim. Tentei escapar para o quarto antes que Luna lembrasse do passeio que eu, idiotamente, havia concordado em fazer.

— Josh? - a voz dela me parou no meio do caminho. — Você não esqueceu do nosso passeio, né?

— Ah, que ótimo! Você conseguiu convencer ele, Luna? - comemorou Rebeca, toda animada.

As duas me encaravam. Engoli em seco, procurando uma desculpa.

— Na verdade… eu tenho que organizar as caixas, a mochila, as roupas… Semana que vem começam as aulas e eu ainda não…

— Eu posso organizar tudo pra você - interrompeu Rebeca, destruindo minha saída. — Não vou sair hoje. Deixa que eu cuido disso.

Fiquei sem escapatória.

Luna inclinou a cabeça, com aqueles olhos grandes e brilhantes.

— Por favor, Josh… - pediu baixinho.

Droga. Eu simplesmente não conseguia dizer não para ela.

— Okay - suspirei. — Eu vou. Satisfeita?

— Aeee! - as duas comemoraram ao mesmo tempo.

Revirei os olhos, mas, por dentro, sorri, um frio estranho percorreu meu estômago.

— Eu vou escovar os dentes e trocar de roupa.

— Okay, eu também — respondeu ela.

Entrei no quarto e tranquei a porta.

Não queria ir, mas não consegui negar.

Das duas vezes em que ela pediu, eu disse “sim”, querendo dizer “não”.

— O que há comigo? — sussurrei, encarando o reflexo no espelho.

Passei as mãos no rosto, respirei fundo. Me arrumei em seguida e saí. Luna estava na sala, me esperando.

Ela estava linda.

Saia azul-escura com pequenas flores, camiseta branca, jaqueta jeans clara e tênis. O cabelo negro solto, um toque leve de maquiagem... e aquelas pintinhas no rosto que, por algum motivo, a deixavam ainda mais bonita... peculiar...Era a palavra certa pra ela.

Fui despertado dos meus devaneios por Rebeca que sorria maliciosa.

— Luna não está linda, Josh?

Nós dois ficamos constrangidos. Ela corou. Eu apenas assenti, sem conseguir formar uma frase decente.

— Bom, eu vou deixar vocês irem - disse Rebeca, pegando algo na bolsa.

— Tome - ela estendeu a mão com um punhado de dinheiro.

— Não preciso, eu tenho - recusei.

— Tome, ao menos guarde pra você.

— Okay - aceitei, guardando na carteira.

— Vamos? - disse a Luna.

Assenti.

Saímos em silêncio. Alguns metros depois, ela quebrou o gelo.

— Então, Josh... o que você gostava de fazer em Nova York?

— Ah, de tudo um pouco. Sair com meus amigos, andar de skate com meu pai, ir à academia... - suspirei ao lembrar.

— Eu sinto muito por ele - disse ela, em tom baixo.

Assenti com um olhar.

— Sei que aqui não chega aos pés de Nova York, mas você se acostuma. Tem muita coisa legal pra fazer aqui.

— Como o quê? - perguntei, debochado.

— Temos excursões, trilha, passeios ao ar livre, uma biblioteca ótima... sua mãe disse que você adora ler. Ah, e o museu! Eu amo aquele lugar, passo quase todos os meus fins de semana lá.

— Engraçada você.

— Por quê?

— Uma garota da sua idade empolgada com... museu?

— As pessoas me acham estranha, eu sei - disse, cabisbaixa.

— Não. Não é estranho. É... diferente.

E isso é bacana.

Ela sorriu.

— É, mas a maioria não pensa assim.

— Pensa o quê?

Os olhos dela se encheram de lágrimas.

— Acham que eu e minha família somos loucos. Fora do padrão. Acham horrível a gente viver em um ônibus.

— Você mora em um ônibus?

— Sim. A gente tem uma casinha pequena, mas quase não usamos. Guardamos pra quando algum parente vem nos visitar.

— Uau... que legal.

— Sério? Você acha?

— Claro. Imagine poder viajar levando sua casa junto.

Ela riu, encantada.

— Meus pais sempre viajaram. Até eu nascer. Quando fiquei em idade escolar, decidiram parar e ficar aqui até eu me formar. Minha mãe é artesã, meu pai, músico. A gente vive de forma simples, mas feliz.

Ela tocou o colar no pescoço.

— Esse aqui... eles me deram quando fiz quinze anos. Minha mãe que fez. Tem um valor enorme pra mim. Eu nem sei como te agradecer por tê-lo encontrado.

— Tudo bem, não foi nada - sorri.—Mas eu quero conhecer esse ônibus-casa.

— Você vai gostar. Estou feliz por você estar aqui, Josh. Eu quase não tenho amigos da minha idade. Vai ser bom ter alguém pra conversar.

Engoli em seco e mudei de assunto.

— Então... pra onde vamos?

— Adivinha.

— Museu?

— Aham - respondeu, sorrindo.

— E o fliperama?

— Era só pra te tirar de casa.

— Ah, isso não vale, trapaceira - ri.

— Olha... — ela disse.

— O quê?

— Você sorriu.

Fiquei sem jeito. E o frio na barriga voltou.

Continuamos andando, conversando sem perceber o tempo passar.

Ela falou sobre a mãe hippie, o pai músico, os livros que amava, as músicas favoritas.

— E você, Josh? Me fala de você.

— Não tem muito o que falar.

— Claro que tem!

— Tá bom, dona Luna... - disse, com ironia. — Tenho 17 anos, adoro ler. E leio de tudo - até propaganda de shampoo no banheiro.

— O quê?! - ela gargalhou.

— É sério.

— Tá vendo? - ela disse.

— O quê?

— Você não é tão ranzinza quanto parece

— Ah, então você me acha ranzinza?

Ela torceu o nariz, com um sorriso travesso.

Meu coração disparou.

Andamos em silêncio por um tempo, ouvindo apenas o som dos passos e da natureza ao redor.

— Chegamos! - disse ela, animada.

— Uau... é bonito aqui.

— É meu lugar favorito. Gosto de estudar o passado, imaginar como era viver em outras épocas.

— O passado... às vezes dói - murmurei.

— Você fala da sua mãe, não é?

- perguntou com delicadeza.

Fiquei quieto. A alegria de antes deu lugar a uma sombra no peito.

— Ela é uma boa pessoa, Josh. Só precisa de uma chance.

— Ela te pediu pra dizer isso?

— Claro que não. Eu só vejo o quanto ela sente por tudo. Ela te ama. Só quer consertar as coisas.

— Por favor, Luna... eu não quero falar sobre isso - disse, firme.

Ela se calou, cabisbaixa.

— Se não fosse por ela, eu nem conseguiria juntar dinheiro pra faculdade. Ela é especial pra mim.

— Pena que só age assim com os filhos dos outros - rebati, frio.

— Ah, Josh... não fale assim. Sua mãe é tão legal.

— Duvido que um dia isso mude. Assim que eu tiver uma chance, eu vou embora daqui.

Ela suspirou, triste.

— É uma pena você não querer tentar.

— Luna... para.

— Tá bom. Desculpa. Eu não devia me meter. Só... gosto muito dela. E gosto de você também, mesmo você sendo esse rabugento - ela riu.

— Isso é um elogio, uma bronca ou deboche?

— Digamos que os três. Agora vamos turistar?

— Vamos - respondi, rindo de leve.

Percorremos o museu em silêncio.

Eu pouco prestava atenção às exposições - estava mais distraído com o brilho nos olhos dela ao falar sobre o que amava.

— E agora, o que fazemos? - perguntei.

— Bom... acho que ainda dá tempo do fliperama.

— Ué, você não disse que não tinha?

— Te enganei de novo! Se eu contasse, você não viria.

— É, confesso que não. Mas o museu não foi de todo ruim... ainda mais com a companhia certa.

As palavras escaparam antes que eu pudesse conter.

Ela corou, sorrindo.

— Então eu sou uma boa companhia?

— É... não é de todo mal - fiz sinal de “mais ou menos” com a mão.

— Engraçadinho - respondeu, rindo e me puxando pelo braço.

Luna tinha uma alegria contagiante.

Era impossível não se sentir bem perto dela. Talvez a única coisa boa que essa cidade me trouxe, até agora, fosse ela.

A garota das pintinhas no rosto e pele quase pálida...

aquela que, sem perceber, estava tornando meus dias menos pesados.

Luna...

O nome dela ecoou dentro de mim, suave — como se carregasse luz.

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