Compartilhar

Luzes Sobre o Papel do Divórcio
Luzes Sobre o Papel do Divórcio
Autor: Pequeno P

Capítulo 1

Autor: Pequeno P
Flora Castilho estava acomodada na poltrona macia da sala VIP do salão de beleza, aguardando o início do serviço, quando a funcionária se aproximou com uma expressão constrangida.

— Sra. Flora, sinto muito, mas o sistema indica que o saldo do seu cartão é insuficiente.

Aquelas palavras fizeram Flora paralisar por um instante, incapaz de compreender a situação. No mês anterior, seu marido, Fábio Moretti, havia lhe entregado aquele cartão de presente, garantindo com um sorriso carinhoso que havia depositado trinta mil reais para os cuidados dela. Como era a primeira vez que ela tentava utilizá-lo, o erro parecia impossível.

A atendente voltou a digitar no computador, conferindo os registros antes de virar a tela discretamente.

— Sra. Flora, consta aqui uma despesa de vinte e oito mil reais realizada na última quinta-feira à tarde.

— Quinta-feira? Vinte e oito mil? — Flora franziu a testa, tamborilando os dedos no braço da cadeira enquanto buscava na memória. — Impossível. Nesse dia eu passei a tarde inteira em reuniões na empresa.

A funcionária hesitou, desviando o olhar antes de finalmente revelar o que o sistema mostrava, gaguejando levemente:

— É que... o registro mostra que o Sr. Fábio veio pessoalmente. Ele trouxe uma moça e, na saída, ela pediu para debitar vinte e seis mil como gorjeta para uma de nossas manicures, dizendo que o restante era pelo serviço.

O coração de Flora acelerou violentamente, provocando um zumbido surdo em seus ouvidos. Naquela quinta-feira, Fábio havia ligado avisando que encontraria um cliente difícil e só retornou para casa depois das oito da noite, exausto e reclamando do trabalho. Ela se lembrava nitidamente de ter encerrado o expediente mais cedo apenas para preparar uma sopa revigorante para ele, preocupada com seu cansaço.

— Quero ver as gravações das câmeras de segurança. — Exigiu Flora. Sua voz saiu baixa, quase um sussurro, enquanto uma sensação gélida tomava conta de seu peito.

Quando as imagens surgiram na tela do monitor, a realidade a atingiu como um golpe físico. Fábio entrou no salão abraçado à cintura de uma jovem que usava um vestido azul-claro. Em determinado momento, a garota ergueu o rosto para dizer algo e ele riu, acariciando os cabelos dela com uma ternura que Flora conhecia bem. A intimidade dos gestos fazia com que parecessem um casal de namorados no auge da paixão. Isso, era claro, se Fábio não fosse casado com ela.

De repente, a cena mudou. Sob a orientação risonha da manicure e da própria garota, Fábio se ajoelhou no chão do salão. Com uma dedicação chocante, ele começou a pintar as unhas dos pés da amante. Ao terminar, segurou o pé da moça com as duas mãos e, num gesto de adoração submissa, beijou-o delicadamente.

O sangue de Flora pareceu coagular em suas veias. Seu marido, o orgulhoso empresário, havia se rebaixado para pintar as unhas de outra mulher. O estômago dela revirou violentamente ao constatar que, naquela mesma noite, ao voltar para casa, ele a beijara com aquela mesma boca que havia tocado os pés da amante. Flora levou a mão à boca, segurando um acesso de ânsia de vômito.

O vídeo continuou a rodar. Fábio permaneceu ao lado da garota durante todo o atendimento e, na saída, pegou a bolsa branca dela com naturalidade, carregando-a como um cavalheiro. Flora fixou o olhar no acessório, sentindo os olhos arderem. Aquela bolsa era idêntica à que repousava em seu closet, um presente "exclusivo" que ele havia trazido da última viagem de negócios. Pelo visto, a exclusividade se estendia a ambas.

— Envie esse vídeo para o meu e-mail agora mesmo. — Ordenou Flora, levantando-se abruptamente. Suas pernas tremiam tanto que ela precisou segurar a própria bolsa com força para não desabar enquanto saía apressada do estabelecimento.

Ao chegar à mansão, correu direto para o escritório e trancou a porta. Com os dedos trêmulos e mal obedecendo aos seus comandos, discou o número de um detetive particular de confiança.

— Preciso de um levantamento completo da agenda e dos passos de Fábio nos últimos meses. Quero tudo.

Três horas depois, uma notificação pingou em sua caixa de entrada. Eram dezenas de fotos. Fábio e a garota, identificada como Cecília Cunha, fazendo compras no supermercado como um casal doméstico. Os dois de mãos dadas na fila do cinema, e a imagem mais dolorosa de todas. Era uma foto de uma certidão de casamento. A data indicava que eles estavam "casados" há mais de um ano.

O corpo de Flora foi sacudido por um tremor incontrolável. A memória de seu casamento invadiu sua mente, o momento exato em que Fábio, ajoelhado no altar, jurou: "Flora, eu prometo que nunca vou trair você, por toda a minha vida".

Aparentemente, a "vida toda" dele era muito mais curta do que ela imaginava.

O celular vibrou novamente com informações complementares do detetive: [Cecília Cunha, 24 anos, professora de uma escola internacional. A certidão de casamento é falsa, Fábio pagou trezentos reais para um falsificador. Ele frequenta o apartamento dela todas as quartas e sextas à tarde.]

Sentindo o mundo desmoronar, ela ligou para o pai.

— Pai... Se o Grupo Moretti perder o investimento naquele projeto de energia renovável... — Ela começou, mas a voz falhou.

— O que aconteceu? — O tom do Pedro Castilho mudou instantaneamente, tornando-se grave e alerta. — O Fábio fez alguma coisa com você?

A preocupação na voz do pai foi o golpe final para sua compostura. Flora se lembrou do dia do casamento, quando seu pai, com os olhos marejados, entregou sua mão a Fábio e avisou: "Se você ousar fazer minha filha sofrer, garanto que você não terá mais lugar no mundo dos negócios".

— Ele... — Flora tentou falar, mas a garganta parecia bloqueada por algodão.

Uma lembrança do ano anterior veio à tona. Quando ela teve uma pneumonia grave, Fábio a carregou nas costas até a emergência no meio da noite e permaneceu ajoelhado ao lado da cama do hospital por três dias, segurando sua mão. Como aquele homem, que ficava com os olhos vermelhos de tanto chorar por medo de perdê-la, podia ter "se casado" com outra?

— Por enquanto não é nada grave. — Mentiu ela, mordendo as costas da mão para sufocar um soluço. — Apenas aguarde minhas notícias, pai.

Assim que desligou, ouviu o som inconfundível do portão da garagem se abrindo.

Segundos depois, Fábio entrou na casa. Segurava uma pasta de documentos e exibia no rosto aquele sorriso gentil de sempre, como se fosse o marido perfeito.

— Chegou cedo hoje, querida? — Perguntou ele, aproximando-se para beijá-la.

— Sim, fui fazer as unhas. — Respondeu Flora, estendendo as mãos para que ele visse, observando cada micro expressão no rosto dele. — Usei aquele cartão que você me deu.

O corpo de Fábio ficou tenso por uma fração de segundo. Embora ele tivesse se recuperado rapidamente, Flora, que agora conhecia a verdade, percebeu o vacilo.

— A propósito... — Continuou ela, mantendo o tom de voz casual. — A recepcionista comentou que você levou uma garota lá na quinta-feira passada. Quem era?

O sorriso de Fábio congelou. Ele a estudou cautelosamente, tentando detectar qualquer sinal de raiva, mas, diante da expressão tranquila de Flora, relaxou e adotou sua melhor máscara de inocência.

— Ah, isso? Era a filha da vizinha Vera. A menina queria fazer as unhas, mas estava com vergonha de ir sozinha, então recomendei o salão que você gosta e dei uma carona. Só uma gentileza.

Ele caminhou até ela e a envolveu em um abraço caloroso, beijando o topo de sua cabeça.

— Deve estar com fome, né? Vou preparar o jantar para nós.

Flora observou as costas dele enquanto ele se dirigia à cozinha, sentindo um gosto amargo na boca. Será que ele achava que ela era tão estúpida a ponto de nunca descobrir? Ou planejava mantê-la nesse teatro para sempre?

Pegou o celular novamente e digitou uma mensagem rápida e definitiva para o pai: [Pode retirar o investimento na semana que vem. Vou me divorciar.]

Ao levantar os olhos, viu Fábio cortando legumes na bancada da cozinha americana. Os movimentos eram ágeis e precisos. Durante todo aquele tempo, ela elogiara a evolução repentina dele na culinária, sem desconfiar que aquela habilidade havia sido aprimorada na cozinha da amante, durante aquele ano de vida dupla.

Flora se levantou do sofá. Removeu a aliança de casamento, sentindo o peso do metal e do significado deixarem seu dedo, e a depositou silenciosamente sobre a mesa de centro antes de caminhar em direção ao quarto.
Continue a ler este livro gratuitamente
Escaneie o código para baixar o App

Último capítulo

  • Luzes Sobre o Papel do Divórcio   Capítulo 28

    A notícia da gravidez chegou numa tarde dourada de sol, mudando para sempre a rotina da casa. Eduardo segurava o exame de laboratório com as pontas dos dedos brancas de tensão, e sua voz, sempre tão firme nos negócios, falhou:— É... é verdade mesmo?O médico sorriu, acostumado com aquela reação:— Meus parabéns. Já são seis semanas.Num impulso de euforia, Eduardo se virou e ergueu Flora num abraço, girando-a no ar. Mas, no segundo seguinte, uma expressão de pânico cruzou seu rosto e ele a colocou no chão com um cuidado exagerado, como se ela fosse feita de vidro.— Meu Deus, será que machuquei o bebê? Apertei muito? — Perguntou ele, tateando desajeitadamente a barriga ainda plana da esposa.Flora soltou uma gargalhada, apertando as bochechas tensas dele.— Amor, não é tão frágil assim, calma.Mas a calma passou longe de Eduardo nos meses seguintes. No caminho de volta para casa, ele dirigiu numa lentidão irritante, freando a cada quebra-molas como se estivesse transportando explosivo

  • Luzes Sobre o Papel do Divórcio   Capítulo 27

    No dia do casamento, a igreja parecia ter prendido a respiração quando Flora surgiu à porta. Ela caminhava pelo tapete vermelho num vestido de um branco imaculado, o braço entrelaçado ao do pai, exibindo nos lábios um sorriso de uma ternura desarmante. Ao seu lado, Pedro lutava para manter a compostura. Seus olhos estavam marejados e a mão, que sustentava a da filha, tremia levemente denunciando a emoção do momento.Ele respirou fundo, tentando estabilizar a voz, e sussurrou apenas para que ela ouvisse:— Flora, minha filha, o maior desejo da minha vida sempre foi ver você feliz.Sentindo o nariz arder e as lágrimas ameaçarem cair, Flora apertou a mão do pai com carinho e respondeu:— Pai, eu sou imensamente feliz agora.Pedro assentiu, engolindo o choro preso na garganta, e a conduziu passo a passo em direção ao altar, onde Eduardo a aguardava.O noivo, impecável em um terno preto de corte perfeito, mantinha o olhar fixo nela. Seus olhos queimavam com uma intensidade que dispensava pa

  • Luzes Sobre o Papel do Divórcio   Capítulo 26

    Flora observava a paisagem pela janela do quarto quando sentiu os braços de Eduardo envolverem sua cintura. Ele apoiou o queixo no topo da cabeça dela com ternura.— No que você está pensando? — Sussurrou ele, o hálito quente roçando a orelha dela e causando um arrepio suave.Flora se recostou no peito dele, sentindo os cantos da boca subirem involuntariamente.— Estava lembrando daquela vez em que nos vimos e você colocou um sapo na minha mochila. — Respondeu ela, divertida.Eduardo riu baixo, e a vibração de seu peito ecoou nas costas dela, transmitindo uma sensação de segurança.— E você sabe que eu só fiz aquilo porque tive pesadelos por três dias depois que você me empurrou na fonte, não sabe? — Retrucou ele.Risadas animadas subiam do andar de baixo, invadindo o quarto com a promessa de felicidade. No jardim, Pedro e Gustavo disputavam uma partida de xadrez acirrada, enquanto Renata, a mãe de Eduardo, discutia os detalhes do menu do casamento com o chef da família Castilho. Desde

  • Luzes Sobre o Papel do Divórcio   Capítulo 25

    Fábio estava parado diante do imponente portão da mansão da família Castilho, os dedos apertando com força a alça daquela bolsa de edição limitada que custara uma fortuna. Embora os punhos do seu terno estivessem puídos e seus sapatos de couro tivessem perdido o brilho, seus olhos queimavam com uma persistência quase febril.Ao ver Flora sair de casa, ele avançou apressado, tentando ignorar a distância social que agora se abria entre eles.— Flora! Veja, eu comprei a bolsa que você queria. — Exclamou ele, estendendo o objeto como se fosse uma oferenda capaz de apagar o passado.Flora vestia um conjunto bege impecável e seus cabelos estavam presos de forma despretensiosa, conferindo-lhe um ar de nobreza indolente e inatingível. Ela lançou um olhar indiferente para a bolsa nas mãos de Fábio, e um sorriso que mal chegava aos olhos curvou seus lábios.— Ah, é? — Murmurou ela, estendendo a mão para pegar o presente.Mas, sob o olhar expectante do ex-marido, ela soltou a alça de repente.O b

  • Luzes Sobre o Papel do Divórcio   Capítulo 24

    Flora repousava preguiçosamente nos braços de Eduardo, seus dedos brincando distraidamente com os botões da camisa dele, enrolando-se no tecido. A luz dourada da manhã banhava o casal enquanto Eduardo, com uma destreza impressionante, descascava uvas para ela, depositando a polpa suculenta e translúcida em uma tigela de cristal.— Eduard, estou com desejo daqueles "macarons da confeitaria do lado leste. — Murmurou ela, com um tom manhoso e doce.Sem hesitar, Eduardo largou as uvas e pegou o celular sobre a mesa.— Vou mandar buscarem agora mesmo. — Garantiu ele, focado em atendê-la.Flora estreitou os olhos como um gato satisfeito. Ser mimada e colocada num pedestal daquela maneira era uma sensação viciante e acolhedora. Ela se inclinou para beijá-lo, mas um grito estridente vindo da rua estilhaçou o momento de paz:— Flora! Vou provar a minha determinação!Do lado de fora dos imponentes portões da mansão da família Castilho, Fábio se mantinha de pé, ainda vestindo o pijama hospitalar

  • Luzes Sobre o Papel do Divórcio   Capítulo 23

    Fábio despertou lentamente, os sentidos sendo agredidos pelo cheiro acre de antisséptico que impregnava o ar. Uma dor lancinante nas costas o fez inspirar com força, o ar sibilando por entre os dentes, enquanto a luz do sol se filtrava pelas persianas, desenhando faixas irregulares de luz e sombra sobre o leito hospitalar e ferindo seus olhos sensíveis.Sua mente, ainda entorpecida pelo sono, agarrava-se desesperadamente aos fragmentos do sonho que acabara de ter. Naquela ilusão reconfortante, a traição jamais acontecera. Ele e Flora viviam felizes, pais de gêmeos adoráveis, e o sorriso dela era tão vívido e terno que ele jurava ainda sentir o perfume de jasmim de seus cabelos.O sorriso em seus lábios persistiu por um breve instante, até que a realidade desabou sobre ele como um balde de água gelada. O quarto estava vazio, preenchido apenas pelo bip rítmico e impessoal dos monitores; não havia o calor de um lar, muito menos a esposa carinhosa para lhe ajeitar os cobertores.Um riso am

Mais capítulos
Explore e leia bons romances gratuitamente
Acesso gratuito a um vasto número de bons romances no app GoodNovel. Baixe os livros que você gosta e leia em qualquer lugar e a qualquer hora.
Leia livros gratuitamente no app
ESCANEIE O CÓDIGO PARA LER NO APP
DMCA.com Protection Status