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Capítulo 2

Penulis: Pequeno P
Flora repousava na cama, com o olhar fixo na luz suave do teto, uma escolha cuidadosa de Fábio, que insistira naquela lâmpada específica para não cansar a visão dela. Ao se virar e afundar o rosto no travesseiro, o aroma familiar do amaciante a envolveu. Era a marca que ele sempre comprava, alegando ser a única delicada o suficiente para a pele sensível da esposa. Flora fechou os olhos, tentando escapar da realidade, mas a escuridão apenas projetou em sua mente as imagens da câmera de segurança, com Fábio abraçando aquela garota do vestido azul-claro, sorrindo enquanto acariciava seus cabelos com uma ternura devastadora.

Ela conhecia bem aquele sorriso. Era o mesmo de três anos atrás, quando Fábio, então apenas o filho bastardo recém-reconhecido pela família Moretti e isolado num coquetel da elite, reuniu toda a coragem que tinha para abordá-la. Com as orelhas queimando de vergonha, ele perguntara: "Srta. Flora, concederia-me esta dança?". Na época, ela o ignorou, mas a persistência dele foi inabalável. Ele a esperava todos os dias com marmitas feitas à mão, plantado na calçada da empresa, mesmo sem receber sequer um olhar em troca.

Quando ela finalmente aceitou um encontro, três meses depois, a alegria dele foi infantil e genuína. Ele chegava a passar a noite inteira em pé, vigiando a entrada do prédio dela, só para garantir que estaria lá pontualmente na manhã seguinte. No dia do casamento, ajoelhado no tapete vermelho e segurando as mãos dela, ele jurou: "Flora, eu nunca vou decepcioná-la nesta vida".

E ela acreditou.

Os três anos seguintes foram impecáveis. Se ela se irritava, ele a acalmava. Se desejava algo, ele providenciava. Certa vez, quando Flora sentiu vontade de comer um bolo específico no meio da noite, ele atravessou a cidade de carro só para comprá-lo. Ela pensava que aquilo era amor verdadeiro. Mas agora...

A porta do quarto foi empurrada devagar. Fábio entrou, trazendo consigo o cheiro de refogado e temperos caseiros. Sentou-se na beira da cama e estendeu a mão para acariciar o rosto da esposa.

— Flora, o jantar está pronto. — Disse ele, num tom suave.

Flora se esquivou do toque, mantendo o silêncio. A testa de Fábio franziu imediatamente.

— O que houve? Não está se sentindo bem? — Ao notar os olhos avermelhados dela, sua voz ganhou um tom de alarme. — Você chorou? É enxaqueca? Quer ir ao hospital?

Era sempre assim. Qualquer desconforto dela o deixava em pânico. Flora observou a expressão ansiosa no rosto do marido e sentiu uma pontada aguda no peito. Aquela preocupação toda... seria real ou apenas mais uma camada de sua atuação?

— Estou bem. — Respondeu ela, finalmente, com a voz rouca. — Só com fome.

Fábio soltou um suspiro de alívio e apertou de leve a bochecha dela, sorrindo.

— Sua gulosa. Vamos, levante-se.

Na mesa de jantar, o aroma adocicado das costelinhas ao molho agridoce, do peixe caramelizado e da raiz de lótus com mel embrulhou o estômago de Flora. O coração dela afundou. Ela detestava pratos doces, e Fábio sabia disso melhor do que ninguém. Erguendo o olhar, ela o encarou fixamente.

— Por que tudo está doce hoje?

A mão de Fábio, que servia o arroz, travou por um instante. Ele forçou um sorriso rápido.

— Pensei que, como você tem trabalhado muito, um pouco de açúcar ajudaria a melhorar o humor.

Flora continuou encarando-o, sem dizer uma palavra. O sorriso de Fábio vacilou e desapareceu, substituído por uma expressão desconcertada. Ele largou a tigela, visivelmente nervoso.

— Se não gostou... posso fazer outra coisa rapidinho. O que acha?

— Tudo bem. — Concordou ela.

Ele se levantou de imediato para ir à cozinha, mas o toque do celular interrompeu o movimento. Ao verificar a tela, o semblante de Fábio mudou de solícito para apreensivo.

— Surgiu uma urgência na empresa, preciso sair agora. — Mentiu ele, agarrando o casaco. — Coma alguma coisa por enquanto, eu prometo que faço um jantar novo assim que voltar.

— Quero comer a sua comida hoje. Agora. — Retrucou Flora, pousando os talheres com força.

Fábio parou no meio do caminho, a impaciência vincando sua testa.

— Você precisa ser tão mimada assim? Comida é comida, Flora!

Assim que as palavras saíram, ele pareceu perceber o erro. Flora o olhou, atônita, sentindo como se uma mão invisível esmagasse seu coração. Fábio tentou consertar, suavizando a voz:

— Desculpe, amor, não foi isso que eu quis dizer. É realmente urgente. Volto logo.

Sem esperar resposta, ele saiu. O clique suave da porta se fechando soou para Flora como uma bofetada. Em todos esses anos, ele jamais a tratara com tamanha rispidez.

Sentada diante daquele banquete feito para o paladar de outra mulher, Flora sentiu a bile subir. Levantou-se e foi até a cozinha: na tábua, legumes cortados pela metade. Na panela, a água já quase seca. Ela desligou o fogo, pegou as chaves do carro e saiu, decidida.

A chuva começava a cair quando ela avistou o carro de Fábio e passou a segui-lo até um prédio residencial desconhecido. O elevador parou no 12º andar. Assim que as portas se abriram e ela entrou no corredor, uma voz manhosa chegou aos seus ouvidos.

— Querido! Até que enfim você chegou.

— Bobinha. — Respondeu a voz de Fábio, com aquela doçura que Flora conhecia tão bem. — Você comeu direitinho hoje?

— Sem você aqui, eu não consigo engolir nada. — Choramingou a garota.

— Mas eu já estou aqui, não estou? — Consolou ele, num sussurro carinhoso. — Você precisa se alimentar, senão nosso filho também passa fome. Se comporta, tá?

As chaves do carro escaparam dos dedos de Flora, atingindo o piso com um som metálico agudo.

Fábio se virou num solavanco. Ao ver a esposa parada ali, seu rosto drenou de cor.

— Flora... o que você está fazendo aqui?

Flora deu as costas imediatamente. Cecília estava grávida! A revelação atingiu-a como um soco físico. Ela correu para o carro, ignorando a chuva e as lágrimas que embaçavam sua visão, enquanto via pelo retrovisor Fábio correndo atrás dela, a boca se movendo em gritos mudos que ela se recusava a ouvir.

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