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Capítulo 3

作者: Pequeno P
A chuva castigava o vidro do carro, criando uma barreira líquida entre Flora e o mundo lá fora. Fábio esmurrava a janela do motorista, e sua voz chegava abafada pelo temporal:

— Flora! Abra! Me deixe explicar!

Sentada ao volante, Flora tamborilava os dedos no volante, observando a cena patética dos dois encharcados na chuva. Um riso amargo, sem humor algum, escapou de seus lábios. Ela baixou o vidro lentamente.

— Você chegou quando? — Perguntou Fábio, invadindo o espaço com sua ansiedade.

— Acabei de chegar. — Respondeu ela, com um sorriso gélido.

A expressão de Fábio mudou, e ele começou a despejar palavras numa velocidade desesperada:

— Ela é como uma irmãzinha para mim, uma vizinha antiga! A casa dela ficou sem luz e eu só vim dar uma olhada, juro!

Cansada daquelas mentiras esfarrapadas, Flora estendeu a mão para fechar o vidro.

— Flora, espera! — Cecília surgiu de repente, colocando-se na frente do carro. O vestido branco, agora molhado e transparente, colava-se ao corpo, dando-lhe um ar de fragilidade calculada. — A culpa é toda minha! Não temos nada, por favor, não brigue com o Fábio por minha causa!

Flora franziu o cenho, ligou o motor e girou o volante, manobrando para desviar daquela encenação. Foi quando ouviu um baque surdo. Cecília se jogou contra a lateral do carro em movimento, cambaleou para trás e desabou no asfalto molhado.

Flora pisou no freio com violência, o coração falhando uma batida.

— Cecília! — Berrou Fábio, correndo para amparar a amante. Ele virou o rosto para Flora, e o olhar que lançou à esposa era de pura fúria.

— Eu... eu estou bem. — Gemeu Cecília, pálida e trêmula. — Fábio, vai lá... vai acalmar a Flora.

— Eu passei anos acalmando ela! — Explodiu Fábio, a voz rouca de ódio. — Cansei de viver rastejando como um cachorro! Olhe o que você fez! A Cecília é uma alma boa, e você tem coragem de atropelá-la?

Flora paralisou no banco do motorista, os dedos cravados no volante até as pontas ficarem brancas. Jamais ouvira aquele tom vindo dele. Era agudo, carregado de repulsa, como se a máscara finalmente tivesse caído.

— Ela se jogou no carro. — Disse Flora, após um longo silêncio.

— Chega! — Cortou ele. — Já não basta ter entendido tudo errado, agora quer difamá-la? Você tem noção de que ela está grávida?

Cada palavra era uma lâmina rasgando o peito de Flora.

— O filho é seu? — Perguntou ela, direta.

A pergunta fez Fábio travar. Ele pareceu se dar conta do que havia revelado e seus lábios tremeram.

— Flora, não fala besteira...

— Ai! — O grito de dor de Cecília interrompeu a conversa. Ela amoleceu nos braços dele, desmaiada.

— Cecília! — O pânico tomou conta de Fábio. Ele abriu a porta do motorista num puxão violento. — Sai! Preciso do carro para levá-la ao hospital!

Flora foi relegada ao banco do passageiro. Observou as mãos de Fábio tremerem enquanto ele segurava o volante com força excessiva. No banco de trás, Cecília jazia imóvel, embora Flora notasse o leve tremor em seus cílios.

— Você está tão nervoso... Pelo visto a criança é mesmo sua. — Comentou Flora, com a voz vazia.

Fábio pisou fundo no acelerador, costurando o trânsito perigosamente.

— É uma vida em jogo! Será que dá para você parar de fazer cena numa hora dessas?

Flora virou o rosto para a janela. Conhecia bem aquele trajeto e aquela velocidade. Três meses antes, quando teve uma crise aguda de gastrite, Fábio dirigira daquele mesmo jeito insano. Naquele dia, ele estava tão desesperado que saíra com os sapatos trocados, repetindo "Fica comigo, Flora" o caminho todo.

— Parabéns, Fábio. — Murmurou ela, exausta, encostando a cabeça no vidro frio.

Ele buzinou agressivamente, ultrapassando outro veículo.

— Em casa a gente conversa!

Ao chegarem na emergência, o carro mal havia parado quando Fábio saltou, pegou Cecília no colo e correu para a entrada. Flora desceu devagar, observando as costas do marido se afastarem. A cena era um espelho cruel do passado: ele correndo com ela nos braços quando teve febre alta.

— Sai da frente! — Gritou Fábio para alguém no caminho, e ao girar o corpo, seu cotovelo atingiu o ombro de Flora com força.

Pega de surpresa, ela perdeu o equilíbrio e caiu no chão áspero e úmido da entrada do hospital. As palmas das mãos arderam ao raspar no concreto, mas a dor física era irrelevante. Ela ergueu a cabeça a tempo de ver Fábio desaparecer pelas portas automáticas com a outra mulher, sem sequer olhar para trás.

— Senhora? A senhora se machucou? — Uma enfermeira correu para ajudá-la.

Flora balançou a cabeça negativamente e usou a parede como apoio para se levantar. Os joelhos pulsavam, mas nada doía mais do que o buraco que se abrira em seu peito. De dentro da sala de triagem, a voz embargada de Fábio ecoou:

— Doutor! Como ela está? E o bebê? Salve o meu filho!

A enfermeira lhe estendeu um lenço de papel. Só então Flora percebeu que seu rosto estava banhado em lágrimas. Aceitou o lenço, mas era inútil. O choro era torrencial. Era curioso como, mesmo quando a alma morre, o corpo continua sentindo dor.

A porta da emergência se abriu. Fábio saiu apressado e estancou ao vê-la ali, parada e ferida. Seus olhos desceram até as mãos esfoladas e sujas de sangue da esposa. Ele abriu a boca, hesitou, e então disse:

— Vá para casa. Depois te dou uma explicação.

Flora assentiu silenciosamente. Mas, ao tentar se virar, o chão pareceu fugir de seus pés. O mundo girou violentamente e a escuridão a acolheu antes mesmo que seu corpo tocasse o solo.
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