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Capítulo 4

Autor: Pequeno P
Ao abrir os olhos, Flora foi agredida por uma claridade branca e intensa, o que a fez erguer a mão instintivamente para proteger a visão. Antes que pudesse se situar, o rosto de Fábio surgiu em seu campo de visão, com os olhos brilhando de uma euforia que ela não esperava ver.

— Flora! — Exclamou ele, a voz vibrando de entusiasmo. — Você está grávida!

Ela paralisou. Seus dedos deslizaram inconscientemente até o ventre ainda plano. De fato, seu ciclo estava atrasado, mas a possibilidade de uma gravidez jamais cruzara sua mente naquelas circunstâncias caóticas. Fábio se sentou na beira da cama e segurou a mão dela com uma delicadeza calculada, o tom de voz baixando para uma suavidade quase teatral.

— Flora, a culpa é toda minha. — Disse ele, encarando-a com pesar. — Você entendeu tudo errado. O filho da Cecília é daquele ex-namorado maldito dela. Eu só estava ajudando porque fiquei com pena de vê-la sozinha e desamparada naquela situação.

Flora puxou a mão de volta bruscamente e soltou uma risada fria, sem se dar ao trabalho de responder verbalmente. Percebendo a resistência, Fábio suspirou e se levantou, adotando uma postura de marido atencioso e resignado.

— Descanse um pouco. Vou comprar algo para você comer. — Avisou ele, virando-se para sair.

Seus passos ecoaram pelo corredor até desaparecerem, deixando um silêncio pesado no ar. Flora fixou o olhar na porta fechada do quarto, a mão voltando a pousar sobre o abdômen por vontade própria. De repente, o silêncio foi quebrado por uma risada vinda do quarto ao lado. Era um riso manhoso, agudo e inconfundível: Cecília. Logo em seguida, ouviu-se a voz grave de Fábio, carregada daquela mesma ternura que, até pouco tempo, Flora acreditava ser exclusiva dela.

Sem hesitar, Flora pegou o celular e discou o número do segurança.

— Traga o acordo de divórcio que está na gaveta do escritório. — Ordenou ela, seca.

Meia hora depois, o segurança surgiu no quarto como uma sombra e lhe entregou uma pasta de documentos. Flora abriu a pasta, seus dedos pairando sobre o campo de assinatura. Ela sabia que o Fábio de agora, manipulador e ganancioso como havia se tornado, não assinaria aquilo facilmente.

A porta foi empurrada de repente. Num reflexo rápido, Flora escondeu os papéis sob os lençóis. Fábio entrou radiante, trazendo consigo uma leveza que contrastava com o clima pesado do quarto.

— Flora, já pedi desculpas à Cecília em seu nome. — Anunciou ele, satisfeito. — E ela perdoou você.

Flora ergueu os olhos, o olhar cortante como gelo.

— Preciso do perdão dela? — Questionou, incrédula.

O sorriso de Fábio vacilou por um segundo, mas logo a máscara de gentileza voltou ao lugar.

— Para compensar todo esse estresse, comprei ingressos para o teatro. Vamos nós dois e a Cecília hoje à noite, o que acha? Vai ser bom para espairecer.

Flora o encarou por alguns instantes, avaliando a audácia da proposta, e então curvou os lábios num sorriso enigmático.

— Tudo bem. Vamos.

Já no teatro, Cecília usava um vestido branco imaculado e mantinha uma postura dócil ao lado de Fábio, embora lançasse olhares furtivos para Flora, cheios de uma arrogância vitoriosa. Parada na entrada, Flora observou a plateia vazia e sentiu o coração falhar uma batida.

— O Sr. Fábio reservou o espaço inteiro, disse que não queria ninguém esbarrando na senhora. — Explicou o gerente do teatro, guiando-os com excesso de zelo. — Veja, são os mesmos lugares favoritos de anos atrás.

Eram as poltronas centrais da primeira fileira, idênticas às de sete anos antes. Naquela época, Fábio era apenas um funcionário irrelevante da família Moretti e precisou economizar três meses de salário para pagar aqueles dois ingressos. Durante toda aquela peça, os olhos dele não haviam desgrudado do rosto de Flora nem por um segundo.

— A Cecília pode se sentar conosco. — Sugeriu Fábio, indicando o lugar com um aceno de cabeça.

Cecília permaneceu num canto, torcendo o tecido do vestido com os dedos, encenando fragilidade.

— Eu... preciso ir ao toalete. — Murmurou ela, com os olhos marejados, como se tivesse sofrido a maior injustiça do mundo.

Fábio nem piscou enquanto puxava Flora para se sentar, ignorando o drama momentâneo da amante para focar na esposa.

— Lembra da primeira vez que vimos uma peça aqui? Você estava tão...

— Lembro. — Interrompeu Flora, ríspida. — Você disse que me acompanharia pelo resto da vida.

O sorriso dele travou, mas ele forçou uma risada descontraída logo em seguida.

— E é verdade! Quando nosso filho nascer, nós dois vamos trazer a princesa... ou o príncipe... para assistir conosco. Pela vida toda!

As luzes do palco se acenderam, dando início ao espetáculo. No começo, Fábio segurava a mão dela, mas não se passaram dez minutos antes que seus dedos começassem a tamborilar ansiosamente no braço da poltrona.

— Por que a Cecília está demorando tanto? — Sussurrou ele, checando o relógio pela terceira vez. — Vou ver se aconteceu alguma coisa.

Flora ficou sozinha na imensidão do teatro vazio. As falas dos atores ecoavam pelo ambiente, mas não faziam sentido algum para ela. Decidida, levantou-se e seguiu o marido.

O corredor do banheiro estava na penumbra. Flora parou na esquina ao ouvir uma respiração ofegante vindo lá de dentro, entremeada por sussurros.

— Aquilo lá no palco é só teatro para ela. — Dizia a voz de Fábio, num tom divertido e cúmplice. — Agora, o show é só para você.

Cecília riu, o choro anterior completamente esquecido.

— Então faz o coelhinho!

— Está bem, está bem. — Concordou ele, com uma voz melosa. — Olha só, pu-ji, pu-ji.

Flora apertou as mãos com força, as unhas cravando na palma. Três anos atrás, quando ela chorava escondida no trabalho por causa de um erro, Fábio fizera exatamente aquela cara de coelho para animá-la. Ele jurara, olhando nos olhos dela, que aquele gesto pertencia apenas a ela.

Sem emitir som, ela recuou e voltou passo a passo para a plateia. Fábio e Cecília retornaram logo depois, um atrás do outro, exalando o mesmo cheiro.

— Por que a demora? — Perguntou Flora, sem virar a cabeça.

— A Cecília não estava bem, fiquei fazendo companhia. — Respondeu ele, sentando-se com naturalidade, embora sua mão direita deslizasse furtivamente na direção da amante.

Pelo canto do olho, Flora viu os dedos deles se entrelaçarem na sombra das poltronas, separando-se bruscamente quando ela virou o rosto na direção deles.

— Flora... — Chamou Fábio, inclinando-se para beijá-la.

Ela desviou o rosto e, num movimento fluido, tirou o acordo de divórcio da bolsa.

— Você prometeu. Assine. — Disse ela, estendendo a caneta.

Na luz fraca do teatro, a expressão de Fábio congelou. Seus olhos varreram o papel rapidamente, o pomo de adão subindo e descendo num sinal claro de nervosismo.

— O que é isso? — Indagou, tenso.

— Uma carta de garantia. — Respondeu Flora, com a voz plana. — Como antigamente.

Os ombros de Fábio relaxaram visivelmente, e um sorriso condescendente surgiu em seus lábios.

— Ah, você... — Murmurou ele, sacando a caneta e assinando o nome com um floreio extravagante, sem ler uma linha sequer. — Vai ser mãe e continua com essas criancices.

Flora observou a assinatura familiar, lembrando-se de como, ao longo dos anos, Fábio assinava cada "garantia" que ela escrevia por impulso. "Prometo amar apenas a Flora para sempre. Prometo dar bom dia e boa noite todo dia. Prometo nunca jantar sozinho com outra mulher." Naquelas ocasiões, ele ria da infantilidade dela enquanto assinava, abraçando-a em seguida para declarar que era dela por toda a vida e que assinaria mil papéis se fosse preciso.

Agora, ele sequer lera o conteúdo antes de firmar o compromisso final.

— Pronto. — Disse Fábio, devolvendo o documento e apertando a bochecha dela com carinho fingido. — Quando foi que descumpri algo que prometi a você?

No palco, a atriz principal gritava com uma dor visceral: "Você não faz ideia do que acabou de perder!"

Flora soltou um riso curto, carregado de ironia, e guardou o arquivo na bolsa.
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