Compartilhar

Capítulo 7

Autor: Pequeno P
Flora foi arrancada das profundezas do sono por um solavanco violento. Ao abrir os olhos, ainda atordoada, deparou-se com o rosto sombrio de Fábio a poucos centímetros do seu. Nos olhos dele, não havia sequer um vestígio de calor humano.

— Cecília perdeu muito sangue e precisa de uma transfusão urgente. — Disse ele, com a voz grave e autoritária. — Vocês têm o mesmo tipo sanguíneo. Levante-se e vá agora.

Flora piscou, tentando processar a ordem, e balançou a cabeça em negação, sentindo o pânico crescer.

— Tenho anemia severa, Fábio. Se eu doar sangue agora, algo grave pode acontecer comigo.

— E por acaso você pensou nas consequências quando tentou matá-la? — Zombou Fábio, soltando uma risada curta e fria.

Ela arregalou os olhos, encarando-o com incredulidade.

— Eu? Matar a Cecília? Do que você está falando?

— Não se faça de idiota. — Cortou ele, sem paciência, e fez um sinal brusco com a mão.

Imediatamente, dois seguranças corpulentos avançaram, agarrando Flora um de cada lado e erguendo-a da cama como se ela não pesasse nada.

— Depois que tirar o sangue, considero sua dívida paga. — Sentenciou Fábio, virando as costas.

Flora tentou se soltar, debatendo-se contra as mãos firmes que a prendiam, mas sua força era insignificante contra a de dois homens treinados. Arrancada do quarto e arrastada pelo corredor do hospital, ela tropeçava nos próprios pés, enquanto a luz crua e branca das lâmpadas feria seus olhos. Sua visão turvou por um instante e, naquele momento de vertigem, uma lembrança dolorosa do início do casamento a invadiu.

Naquela época, quando ela sofria com tonturas devido à anemia, Fábio passava a noite acordado preparando mingau, alimentando-a colher por colher, com o olhar transbordando carinho e preocupação.

"Flora, se você sentir qualquer desconforto, precisa me avisar", dizia ele, com a voz suave de quem ama. "Não suporto ver você sofrer nem um pouco."

A memória se desfez diante da realidade cruel: agora, ele a observava com indiferença enquanto ela era pressionada contra a poltrona de coleta. A agulha perfurou sua veia e o sangue vermelho vivo começou a correr pelo tubo, enchendo a bolsa plástica.

A cor fugiu do rosto de Flora rapidamente. Seus lábios ficaram brancos e as pontas dos dedos, geladas. O médico responsável franziu a testa, preocupado, e sussurrou para o homem de pé ao lado:

— Senhor Fábio, a senhora está extremamente debilitada. Continuar com a coleta pode ser perigoso para a saúde dela.

Fábio fixou o olhar no rosto pálido de Flora e franziu o cenho, demonstrando uma hesitação momentânea. Mas a dúvida durou pouco.

— Continue tirando. — Ordenou ele, endurecendo a expressão.

Flora fechou os olhos, sentindo como se uma mão invisível esmagasse seu coração. A verdade era amarga e inegável. Ele realmente não se importava se ela vivesse ou morresse.

Quando o procedimento terminou, Flora mal conseguia se manter em pé. O mundo girava e escurecia ao seu redor. Percebendo que ela estava prestes a desabar, Fábio estendeu a mão para ampará-la, e seu tom de voz suavizou minimamente.

— Você está com uma aparência péssima.

Ela não respondeu. Apenas empurrou a mão dele, recusando o toque, e se apoiou na parede para conseguir dar o próximo passo. Incomodado com a rejeição, Fábio seguiu logo atrás.

— Mandei prepararem algo para você comer. Tome um pouco de caldo quente para se recuperar.

Flora estancou os passos e se virou para encará-lo. Seus olhos, embora cansados, brilhavam com um sarcasmo afiado.

— O que foi? Está com medo de que eu morra e não sobre ninguém para doar sangue para a sua preciosa Cecília?

O rosto de Fábio se fechou numa expressão sombria. Ele abriu a boca para repreendê-la, mas foi interrompido pelo médico, que correu até eles, afobado.

— Senhor Fábio! A senhorita Cecília teve outra hemorragia grave. O sangue coletado não foi suficiente!

As pupilas de Flora se contraíram e ela recuou instintivamente, o terror tomando conta de sua voz.

— Não... Eu não posso doar mais. É impossível.

Fábio olhou para a esposa, notando a palidez mortal em sua pele, e um conflito interno passou por seus olhos. No entanto, a urgência da situação falou mais alto. Ele cerrou os punhos e se virou para o médico.

— Continue a coleta.

Flora sentiu um frio percorrer sua espinha, como se tivesse sido jogada em um lago congelado. Ela o encarou, sussurrando com um fio de voz que mal saía da garganta:

— Fábio... eu vou morrer se fizer isso.

Ele desviou o olhar, incapaz de encarar o desespero dela.

— Não vai. Você aguenta.

Após a segunda coleta, Flora estava à beira da inconsciência. Recostada na poltrona, sua respiração era superficial e fraca, e a escuridão ameaçava engoli-la a cada segundo. Ao ver o estado cadavérico da esposa, o medo finalmente rompeu a máscara de frieza de Fábio.

— Flora! — Chamou ele, estendendo os braços para pegá-la no colo, num gesto de pânico tardio.

Num último surto de energia, ela o empurrou com violência. Apoiando-se nas paredes brancas, começou a caminhar de volta para o quarto, arrastando os pés, passo após passo, lenta e dolorosamente.

Fábio ergueu a cabeça e observou as costas dela; a figura era tão frágil e solitária que parecia prestes a quebrar. Ela não olhou para trás, nem uma única vez. Ele permaneceu imóvel, vendo-a se afastar, e uma sensação de angústia inexplicável apertou seu peito.

— Senhor Fábio, o quadro da senhorita Cecília estabilizou. — Informou o médico, quebrando o silêncio.

Ele despertou de seus pensamentos, assentiu com a cabeça e, no fim, decidiu não ir atrás de Flora.
Continue a ler este livro gratuitamente
Escaneie o código para baixar o App

Último capítulo

  • Luzes Sobre o Papel do Divórcio   Capítulo 28

    A notícia da gravidez chegou numa tarde dourada de sol, mudando para sempre a rotina da casa. Eduardo segurava o exame de laboratório com as pontas dos dedos brancas de tensão, e sua voz, sempre tão firme nos negócios, falhou:— É... é verdade mesmo?O médico sorriu, acostumado com aquela reação:— Meus parabéns. Já são seis semanas.Num impulso de euforia, Eduardo se virou e ergueu Flora num abraço, girando-a no ar. Mas, no segundo seguinte, uma expressão de pânico cruzou seu rosto e ele a colocou no chão com um cuidado exagerado, como se ela fosse feita de vidro.— Meu Deus, será que machuquei o bebê? Apertei muito? — Perguntou ele, tateando desajeitadamente a barriga ainda plana da esposa.Flora soltou uma gargalhada, apertando as bochechas tensas dele.— Amor, não é tão frágil assim, calma.Mas a calma passou longe de Eduardo nos meses seguintes. No caminho de volta para casa, ele dirigiu numa lentidão irritante, freando a cada quebra-molas como se estivesse transportando explosivo

  • Luzes Sobre o Papel do Divórcio   Capítulo 27

    No dia do casamento, a igreja parecia ter prendido a respiração quando Flora surgiu à porta. Ela caminhava pelo tapete vermelho num vestido de um branco imaculado, o braço entrelaçado ao do pai, exibindo nos lábios um sorriso de uma ternura desarmante. Ao seu lado, Pedro lutava para manter a compostura. Seus olhos estavam marejados e a mão, que sustentava a da filha, tremia levemente denunciando a emoção do momento.Ele respirou fundo, tentando estabilizar a voz, e sussurrou apenas para que ela ouvisse:— Flora, minha filha, o maior desejo da minha vida sempre foi ver você feliz.Sentindo o nariz arder e as lágrimas ameaçarem cair, Flora apertou a mão do pai com carinho e respondeu:— Pai, eu sou imensamente feliz agora.Pedro assentiu, engolindo o choro preso na garganta, e a conduziu passo a passo em direção ao altar, onde Eduardo a aguardava.O noivo, impecável em um terno preto de corte perfeito, mantinha o olhar fixo nela. Seus olhos queimavam com uma intensidade que dispensava pa

  • Luzes Sobre o Papel do Divórcio   Capítulo 26

    Flora observava a paisagem pela janela do quarto quando sentiu os braços de Eduardo envolverem sua cintura. Ele apoiou o queixo no topo da cabeça dela com ternura.— No que você está pensando? — Sussurrou ele, o hálito quente roçando a orelha dela e causando um arrepio suave.Flora se recostou no peito dele, sentindo os cantos da boca subirem involuntariamente.— Estava lembrando daquela vez em que nos vimos e você colocou um sapo na minha mochila. — Respondeu ela, divertida.Eduardo riu baixo, e a vibração de seu peito ecoou nas costas dela, transmitindo uma sensação de segurança.— E você sabe que eu só fiz aquilo porque tive pesadelos por três dias depois que você me empurrou na fonte, não sabe? — Retrucou ele.Risadas animadas subiam do andar de baixo, invadindo o quarto com a promessa de felicidade. No jardim, Pedro e Gustavo disputavam uma partida de xadrez acirrada, enquanto Renata, a mãe de Eduardo, discutia os detalhes do menu do casamento com o chef da família Castilho. Desde

  • Luzes Sobre o Papel do Divórcio   Capítulo 25

    Fábio estava parado diante do imponente portão da mansão da família Castilho, os dedos apertando com força a alça daquela bolsa de edição limitada que custara uma fortuna. Embora os punhos do seu terno estivessem puídos e seus sapatos de couro tivessem perdido o brilho, seus olhos queimavam com uma persistência quase febril.Ao ver Flora sair de casa, ele avançou apressado, tentando ignorar a distância social que agora se abria entre eles.— Flora! Veja, eu comprei a bolsa que você queria. — Exclamou ele, estendendo o objeto como se fosse uma oferenda capaz de apagar o passado.Flora vestia um conjunto bege impecável e seus cabelos estavam presos de forma despretensiosa, conferindo-lhe um ar de nobreza indolente e inatingível. Ela lançou um olhar indiferente para a bolsa nas mãos de Fábio, e um sorriso que mal chegava aos olhos curvou seus lábios.— Ah, é? — Murmurou ela, estendendo a mão para pegar o presente.Mas, sob o olhar expectante do ex-marido, ela soltou a alça de repente.O b

  • Luzes Sobre o Papel do Divórcio   Capítulo 24

    Flora repousava preguiçosamente nos braços de Eduardo, seus dedos brincando distraidamente com os botões da camisa dele, enrolando-se no tecido. A luz dourada da manhã banhava o casal enquanto Eduardo, com uma destreza impressionante, descascava uvas para ela, depositando a polpa suculenta e translúcida em uma tigela de cristal.— Eduard, estou com desejo daqueles "macarons da confeitaria do lado leste. — Murmurou ela, com um tom manhoso e doce.Sem hesitar, Eduardo largou as uvas e pegou o celular sobre a mesa.— Vou mandar buscarem agora mesmo. — Garantiu ele, focado em atendê-la.Flora estreitou os olhos como um gato satisfeito. Ser mimada e colocada num pedestal daquela maneira era uma sensação viciante e acolhedora. Ela se inclinou para beijá-lo, mas um grito estridente vindo da rua estilhaçou o momento de paz:— Flora! Vou provar a minha determinação!Do lado de fora dos imponentes portões da mansão da família Castilho, Fábio se mantinha de pé, ainda vestindo o pijama hospitalar

  • Luzes Sobre o Papel do Divórcio   Capítulo 23

    Fábio despertou lentamente, os sentidos sendo agredidos pelo cheiro acre de antisséptico que impregnava o ar. Uma dor lancinante nas costas o fez inspirar com força, o ar sibilando por entre os dentes, enquanto a luz do sol se filtrava pelas persianas, desenhando faixas irregulares de luz e sombra sobre o leito hospitalar e ferindo seus olhos sensíveis.Sua mente, ainda entorpecida pelo sono, agarrava-se desesperadamente aos fragmentos do sonho que acabara de ter. Naquela ilusão reconfortante, a traição jamais acontecera. Ele e Flora viviam felizes, pais de gêmeos adoráveis, e o sorriso dela era tão vívido e terno que ele jurava ainda sentir o perfume de jasmim de seus cabelos.O sorriso em seus lábios persistiu por um breve instante, até que a realidade desabou sobre ele como um balde de água gelada. O quarto estava vazio, preenchido apenas pelo bip rítmico e impessoal dos monitores; não havia o calor de um lar, muito menos a esposa carinhosa para lhe ajeitar os cobertores.Um riso am

Mais capítulos
Explore e leia bons romances gratuitamente
Acesso gratuito a um vasto número de bons romances no app GoodNovel. Baixe os livros que você gosta e leia em qualquer lugar e a qualquer hora.
Leia livros gratuitamente no app
ESCANEIE O CÓDIGO PARA LER NO APP
DMCA.com Protection Status