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Capítulo 8

作者: Pequeno P
Flora jazia na cama do hospital, sentindo o corpo tomado por um frio intenso que parecia vir de dentro dos ossos. O mingau que Fábio mandara trazer ainda estava intocado na mesa de cabeceira, o calor dissipado há muito tempo. Ela tentou esticar o braço para pegar a tigela, mas seus dedos tremiam tanto que não conseguiu sequer segurar a colher.

De repente, uma dor lancinante atingiu seu ventre, como se uma lâmina estivesse revirando suas entranhas. Ela cerrou os dentes, suando frio.

— Doutor... — Chamou, com a voz falha e trêmula.

O médico de plantão entrou no quarto e, ao ver a palidez extrema da paciente, correu para examiná-la. Ao levantar o lençol, sua expressão mudou drasticamente para o horror. O tecido estava ensopado de sangue.

— Meu Deus! Uma pessoa com anemia grave corre risco de vida ao perder tanto sangue, ainda mais após uma doação forçada! — Exclamou ele, com urgência na voz. — Precisamos operar agora mesmo, ou a senhora não vai resistir!

Flora fechou os olhos por um momento, resignada, e assentiu levemente.

— Faça.

Antes que a maca começasse a se mover, ela reuniu forças e sussurrou um pedido rouco:

— Não deixe o Fábio saber.

Já na fria mesa de cirurgia, enquanto a anestesia começava a turvar sua consciência, Flora se sentiu viajar no tempo, voltando cinco anos. Lembrou-se do primeiro encontro, quando Fábio a esperara pacientemente sob a chuva, com um sorriso que prometia o mundo. Lembrou-se do dia do casamento, quando ele segurou suas mãos e jurou: "Flora, vou cuidar de você e te fazer feliz pela vida inteira."

Mas, com o tempo, ele mudou. Passou a criticá-la, dizendo que ela era dominadora demais, que lhe faltava a doçura de outras mulheres, que ela era arrogante. Flora acreditou que a culpa era sua. Passou anos tentando se moldar, aprendendo a ser submissa, a ser a esposa perfeita que ele queria.

Agora, no entanto, a verdade era clara e dolorosa. Não era questão de ela não ser boa o suficiente. O simples fato era que ele nunca a amara de verdade.

Quando os instrumentos cirúrgicos gelados tocaram sua pele, uma lágrima solitária escorreu pelo canto do olho dela e se perdeu no travesseiro.

O bebê se foi. E aqueles cinco anos de casamento e sacrifício terminaram ali, naquela sala estéril.

A cirurgia acabou e Flora foi levada de volta ao quarto. Uma enfermeira ajeitou os cobertores com cuidado e falou em tom maternal:

— Senhora, tente descansar agora. O pior já passou.

— O Fábio... ele veio aqui? — Perguntou Flora, com a voz fraca.

A enfermeira hesitou, trocando o peso de uma perna para a outra, e balançou a cabeça negativamente.

— Não, senhora. Ninguém apareceu.

Flora repuxou os lábios num sorriso triste e sem vida. Ela já esperava por isso.

Com um esforço sobre-humano, ela se apoiou na cama e se levantou, arrastando-se até a janela. Lá embaixo, no jardim do hospital, a cena que viu estraçalhou o pouco que restava de seu coração.

Fábio caminhava devagar, servindo de apoio para Cecília. A outra mulher, com o rosto corado e saudável, graças ao sangue que fora roubado de Flora, encostava a cabeça no ombro dele de forma manhosa. Fábio a olhava com uma ternura infinita, a mesma que um dia dedicara à esposa.

Flora observou em silêncio, sentindo como se cada gesto de carinho lá embaixo fosse um golpe de faca em seu peito.

Decidida, ela se virou e caminhou até sua bolsa. Tirou de lá o acordo de divórcio que já havia assinado dias atrás e o depositou suavemente sobre a cama branca e vazia.

Então, sem olhar para trás, saiu do quarto.

No final do corredor, um homem de terno preto aguardava com postura rígida. Era o motorista enviado por seu pai.

— Senhora Flora, o carro já está esperando na entrada principal. — Informou ele, respeitosamente.

Antes de entrar no elevador, Flora lançou um último olhar na direção da janela, de onde se via o jardim e o casal apaixonado. A porta de metal se fechou, selando seu destino. Ela não olharia para trás nunca mais.
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