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Capítulo 6

Autor: Pequeno P
Flora acordou com o cheiro acre de antisséptico invadindo suas narinas. O baixo ventre ainda pulsava com uma dor surda e insistente. Instintivamente, levou a mão à barriga, mas seus dedos encontraram apenas o frio da agulha de soro presa à sua veia.

— Acordou? — A voz de Fábio veio da direita.

Ela virou a cabeça e o viu sentado à beira da cama. Ele se inclinou como se fosse tocar sua barriga, mas parou no meio do caminho, recolhendo a mão.

— Aprendeu a lição? — Perguntou ele.

Flora apenas fechou os olhos, recusando-se a encarar o marido.

Diante do silêncio, Fábio estendeu a mão e acariciou o rosto dela.

— Teria sido tão melhor se você tivesse sido obediente desde o começo. — Murmurou ele, o polegar roçando os lábios ressecados dela. — Não precisaria passar por esse sofrimento.

— Fazer sua esposa grávida se ajoelhar por causa de uma filha da vizinhança... — Flora virou o rosto, fugindo do toque dele. — Você acha isso razoável?

A mão de Fábio parou no ar, e ele franziu a testa, irritado.

— Julgo o certo e o errado, não me deixo levar por sentimentos.

— Preciso descansar. — Disse Flora, puxando o cobertor até o queixo. — Por favor, saia.

Fábio pareceu surpreso com a frieza dela. Após encará-la por alguns segundos, conferiu o relógio no pulso.

— Tenho uma emergência na empresa. Volto mais tarde. — Ele caminhou até a porta, mas parou subitamente e olhou para trás. — Que exame você vai fazer amanhã? Ouvi você comentando com o médico agora há pouco.

— Pré-natal de rotina. — Mentiu Flora, com um leve sobressalto.

O olhar de Fábio varreu o rosto dela, desconfiado. Ele voltou, pegou o celular de Flora no criado-mudo e exigiu:

— Senha?

— Meu aniversário. — Respondeu ela, com um sorriso cínico. — Você se lembra qual é?

Fábio errou duas vezes. Só na terceira tentativa o aparelho desbloqueou. Ele vasculhou as chamadas recentes rapidamente e, não encontrando nada suspeito, jogou o celular de volta na cama.

— A Cecília está no quarto ao lado. Não vá incomodá-la, se você sabe o que é bom para você. — Avisou ele. Diante do silêncio de Flora, ele riu. — Ciumenta. Ela é só uma amiga de infância, pare com essas paranoias.

Flora esboçou um sorriso de escárnio e assentiu. Assim que a porta se fechou, ela apertou a campainha para chamar o médico.

— A curetagem está confirmada para amanhã às nove? — Conferiu o médico, folheando o prontuário.

— Sim. — Respondeu Flora, num fio de voz. — E não é para contar a ele.

Mal o médico saiu, a porta foi aberta com estrondo. Cecília invadiu o quarto vestindo um pijama hospitalar, mancando teatralmente, mas com os olhos brilhando de malícia.

— Você vai tirar o filho do Fábio? — Disparou ela.

Flora se sentou devagar na cama. Cecília já não tinha nenhum traço daquela fragilidade de antes; parecia uma predadora encurralando a presa.

— Se for esperta, aborta e pede o divórcio logo. — Disse a amante, agarrando a grade da cama com força. — Se esperar o Fábio te chutar, você vai sair desse casamento sem nenhum centavo!

Flora soltou uma risada seca, quase incrédula.

— O Fábio não te contou? Quem sustenta a empresa dele é a minha família.

— Cala a boca! Pare de falar bobagens! — Guinchou Cecília, com a voz estridente. — O Fábio me disse que nunca te amou! Casou com você só por causa da família Castilho. Se não fosse aquele projeto, ele já teria...

O som do tapa estalou no ar, cortante. O rosto de Cecília virou com a força do golpe, e a marca vermelha surgiu instantaneamente em sua pele pálida.

— Esse é por você ser amante e se orgulhar disso. — Disse Flora, sacudindo a mão que formigava.

O segundo tapa foi ainda mais forte. Cecília cambaleou para trás.

— E esse é por ter armado aquela cena suja para me prejudicar.

Cecília recuou com a mão no rosto, os olhos fuzilando ódio. Mas, ao notar pelo canto do olho uma sombra se aproximando no corredor, sua expressão mudou num instante para puro sofrimento. Ela deu um grito agudo, jogou-se contra a parede e deslizou até o chão, fingindo um desmaio.

A porta foi escancarada. Fábio entrou como um furacão, as chaves do carro ainda na mão. Ao ver Cecília caída, ele se voltou para Flora, transbordando fúria.

— Flora! Se acontecer alguma coisa com a Cecília, eu acabo com você! Você vai pagar com a própria vida!

— Por que não pergunta antes o que ela me disse? — Rebateu Flora, com uma calma assustadora.

— O que uma mulher doente poderia dizer? — Fábio zombou, com Cecília nos braços. Seu olhar caiu sobre a palma avermelhada de Flora. — Pelo visto, você não tem pena mesmo. Que tipo de monstro você é?

Enfermeiros entraram correndo no quarto e, atrapalhados, colocaram Cecília numa maca.

Antes de sair acompanhando a maca, Fábio parou na porta e ordenou aos seguranças:

— Vigiem ela. — Ele lançou um olhar sombrio para a esposa. — Se a Cecília ou o bebê tiverem qualquer problema, você vai se arrepender de ter nascido.

Quando o corredor finalmente ficou vazio e o som dos passos desapareceu na curva, Flora se recostou nos travesseiros. Pegou o celular e encarou a tela de bloqueio, era a foto do casamento deles. Na imagem, o sorriso de Fábio era tão sincero, os olhos transbordando amor e promessas.

Agora, aquele mesmo homem prometia destruí-la por causa de outra mulher.

Seu dedo pairou sobre o número do pai, trêmulo, mas ela hesitou e acabou bloqueando a tela novamente. Passos pesados soaram lá fora; dois seguranças de terno preto montavam guarda diante do vidro, implacáveis como carcereiros.

Flora se encolheu na cama, encostando a testa nos joelhos, abraçando o próprio corpo. A dor no ventre vinha em ondas, pontadas agudas de aviso, mas a sensação de rasgo no peito era muito pior.

Cinco anos de casamento. E, no fim, não restava absolutamente nada.
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