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CAPÍTULO 4

Author: Euridce
last update publish date: 2026-06-23 00:34:13

Naquela noite, elas haviam decidido fazer algo que há muito tempo não faziam, cozinhar juntas.

Sem trabalho.

Sem reuniões.

Sem celulares.

Apenas elas três.

Como nos velhos tempos.

Lisa apareceu na cozinha carregando uma garrafa de vinho.

— Senhoras, hoje ninguém fala de trabalho.

Lizzy colocou os talheres sobre a mesa.

— Concordo plenamente.

Beth mexia o molho da massa enquanto sorria discretamente.

— Finalmente uma decisão inteligente.

Lisa fingiu indignação.

— Está dizendo que normalmente não sou inteligente?

— Não, Estou dizendo que normalmente és caótica.

— Ousada.

As três caíram na gargalhada.

Era assim.

A amizade delas era leve.

Segura.

Confortável.

Como uma casa para a qual sempre podiam voltar.

A mesa foi sendo arrumada.

Velas acesas.

Flores brancas no centro.

Taças de vinho.

Pratos bem organizados.

Beth sempre foi detalhista.

Gostava de cuidar das pessoas que amava.

Mesmo quando seu próprio coração estava quebrado.

Depois de alguns minutos, elas se sentaram.

Lisa ergueu a taça.

— Um brinde.

— A quê? — perguntou Lizzy.

— A nós.

Beth sorriu.

— A nós.

As três brindaram.

Por alguns segundos, apenas aproveitaram o momento.

Então Lisa abriu um sorriso travesso.

— Hoje teremos um jogo.

Beth imediatamente desconfiou.

— Isso nunca termina bem.

— Vai terminar, sim.

— Que jogo?

Lisa apontou para as duas.

— Jantar das confissões.

Lizzy já começou a rir.

— Meu Deus.

— Cada uma fará uma pergunta e a outra terá que responder honestamente.

Beth balançou a cabeça.

— Perigoso.

— Perfeito. — respondeu Lisa.

****

A primeira pergunta foi para Lizzy.

Lisa apoiou os cotovelos na mesa.

— Qual foi a tua maior decepção amorosa?

Lizzy soltou um longo suspiro.

Ela ficou em silêncio por alguns segundos.

— O Ricardo.

Beth e Lisa imediatamente reconheceram o nome.

Ricardo havia sido um dos relacionamentos mais sérios de Lizzy.

Durou três anos.

Ela acreditava que seria definitivo.

— Eu amava aquele homem. — disse Lizzy.

Sua voz saiu baixa.

— Eu lembro. — respondeu Beth.

Lizzy sorriu tristemente.

— Eu também lembro.

Ela tomou um gole de vinho.

— Eu fazia tudo por ele, adaptava minha rotina, meus horários, meus sonhos para estar com ele.

Lisa a observava atentamente.

— E o que aconteceu?

— Ele me achava intimidadora.

Beth suspirou.

— Como assim?

Lizzy deu um pequeno sorriso amargo.

— Ele dizia que eu era inteligente demais, forte demais, independente demais.

— Que absurdo. — comentou Lisa.

— Pois é, até que um dia ele me disse uma frase que nunca esqueci.

As duas aguardaram.

Lizzy abaixou os olhos.

— Ele disse que nenhum homem gosta de competir com a própria mulher.

Um silêncio tomou conta da mesa.

Beth fechou a mão lentamente.

Lisa balançou a cabeça.

— Isso diz muito sobre ele e nada sobre você.

Lizzy sorriu.

— Demorei anos para entender isso.

Beth segurou a mão dela.

— Mas entendeu.

Lizzy assentiu.

— Entendi.

****

Agora era a vez de Lisa.

Beth sorriu.

— Minha pergunta é simples.

— Ai, meu Deus.

— Por que todos os teus relacionamentos terminam tão rápido?

Lisa começou a rir.

— Porque eu escolho mal.

— Isso já sabemos. — respondeu Lizzy.

— Muito obrigada pela delicadeza.

As três riram.

Lisa suspirou.

— Acho que o problema é que sou intensa.

Beth assentiu.

— Concordo.

— Quando gosto, gosto de verdade.

— Também concordo. — disse Lizzy.

— E acabo criando expectativas muito rápido.

Ela ficou pensativa.

— Talvez eu esteja apaixonada pela ideia do amor.

Beth sorriu.

— Isso faz sentido.

Lisa mexeu na taça.

— Eu quero alguém para dividir a vida.

Não quero jogos, desaparecimentos ou promessas vazias.

Ela deu uma risada.

— Será que estou pedindo demais?

— Não. — responderam as duas ao mesmo tempo.

Lisa sorriu emocionada.

— Obrigada.

****

Agora era a vez de Beth.

Ela já sabia que a pergunta seria delicada.

Lizzy respirou fundo.

— Você ainda ama o teu ex-noivo?

A pergunta ficou suspensa no ar.

Beth congelou.

A dor ainda existia.

Mesmo assim, ela decidiu responder.

— Não.

As amigas permaneceram em silêncio.

Ela continuou.

— O que eu amava era a pessoa que eu achava que ele era.

Beth respirou fundo.

— Mas aquela pessoa nunca existiu.

Seus olhos começaram a ficar marejados.

— Acho que o que dói não é a traição.

— Então o que é? — perguntou Lisa.

Beth sorriu tristemente.

— O luto pelos sonhos que morreram.

As amigas a observavam atentamente.

— Eu planejei uma vida inteira. Uma casa, uma família, filhos, viagens, envelhecer juntos.

Sua voz falhou.

— E de repente tudo desapareceu.

Lisa levantou-se imediatamente e a abraçou.

Lizzy também.

As três ficaram abraçadas por alguns segundos.

— Você vai ser feliz de novo. — disse Lizzy.

Beth sorriu.

— Eu sei.

— Só precisa dar tempo ao tempo. — acrescentou Lisa.

Beth assentiu.

— Mas por enquanto…

Ela sorriu.

— Quero ficar sozinha.

As duas respeitaram.

****

Depois de alguns minutos, a conversa ficou mais leve.

As três começaram a rir de histórias antigas.

Primeiros amores.

Vergonhas da adolescência.

Momentos embaraçosos da faculdade.

Até que Lisa pegou novamente o celular.

Lizzy já começou a rir.

— Lá vem.

— O quê? — perguntou Beth.

— A nossa nova obsessão.

Lisa abriu o site da empresa.

— Olhem só.

Beth revirou os olhos.

— Outra vez isso?

— Só por curiosidade.

Na tela apareciam algumas descrições.

Homens selecionados de acordo com a personalidade, necessidades e objetivos da cliente.

Lisa abriu um sorriso.

— Isso é genial.

Lizzy ria.

— Um pouco assustador também.

Beth balançou a cabeça.

— Vocês estão mesmo considerando essa loucura?

Lisa abriu um sorriso enorme.

— Talvez.

Lizzy tentou parecer séria.

— Talvez.

Beth apontou para as duas.

— Vocês perderam a cabeça.

As amigas começaram a rir.

Mas algo estava diferente.

A ideia já não parecia tão absurda.

Parecia curiosa.

Tentadora.

Perigosa.

E em algum lugar da cidade, três homens encerravam uma reunião empresarial sem imaginar que, muito em breve, suas vidas seriam completamente transformadas por três mulheres que ainda nem conheciam.

Porque o destino já estava trabalhando silenciosamente.

E o amor, às vezes, escolhe os caminhos mais improváveis para acontecer.

A chuva caía suavemente naquela noite.

As gotas deslizavam pelas enormes janelas da cobertura de Beth, criando um cenário acolhedor e silencioso.

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