INICIAR SESIÓNO Irmão Que Ninguém Pediu
(POV Mari) 🌸 🌸 🌸 Segunda-feira. Oito horas em ponto. Eu tinha o diagnóstico pronto, a metodologia mapeada, o primeiro mês estruturado em três frentes. Tinha dormido seis horas — que pra mim, em véspera de início de projeto, é quase luxo. Saí de Pinheiros às seis e meia, peguei o metrô até a Faria Lima porque estacionar naquele pedaço de São Paulo num dia de semana é uma decisão que só quem quer sofrer toma, e cheguei ao prédio do Grupo Serrão com tempo suficiente pra comprar um café na padaria da esquina antes de subir. O café da padaria era melhor do que o de reunião. Isso eu já sabia do dia anterior. Saí do elevador no trigésimo segundo andar com o notebook no ombro, o café na mão direita e a cabeça organizada. Exatamente como eu precisava estar. O que eu não esperava era encontrar alguém apoiado na mesa de Raquel antes de encontrar a própria Raquel. Ele tinha uns trinta e poucos anos, terno cinza bem cortado, postura de quem aprendeu cedo que o sobrenome abre porta e nunca esqueceu disso. Cabelo escuro como o do Gabriel, mas o rosto diferente — mais aberto, mais calculado na superfície, daquele jeito que algumas pessoas confundem com simpatia porque é exatamente o que parece até você prestar atenção nos olhos. Vinícius Serrão. Eu já tinha pesquisado. CFO do Grupo Serrão há seis anos. Competente, pelo histórico financeiro — as margens do braço de logística tinham crescido consistentemente no período dele, embora com alguns números que eu ainda não tinha conseguido fechar direito na planilha. Queria o cargo de CEO há tempo suficiente pra isso ter virado parte da identidade dele, não só da ambição. Esse tipo de querer é diferente. É mais quieto. E mais perigoso. Ele me viu entrar e sorriu. O tipo de sorriso que chega antes de qualquer decisão sobre o que a outra pessoa merece — aquele sorriso de protocolo que as pessoas bem criadas usam enquanto estão decidindo o que fazer com você. — Mariana Salave'a. — Veio até mim com a mão estendida, passo confiante, como se estivesse recebendo alguém na própria sala. — Vinícius Serrão. Já ouvi falar da sua empresa. — Bom dia. — Aperto firme, curto. — Coisas boas, espero. — Claro. — Ele ficou com o sorriso no lugar enquanto me avaliava com aquela discrição que não é discreta de jeito nenhum. Dois segundos, de cima a baixo, conclusão guardada. — Boutique pequena, mas trabalho consistente. Você tem um portfólio interessante pra uma empresa do seu tamanho.Pra uma empresa do seu tamanho. Cinco palavras. Eu as guardei todas, na ordem que ele tinha dito, sem deixar nada aparecer no rosto. — Obrigada. — Virei levemente em direção à sala de reunião ao fundo. — O Gabriel já chegou? — Deve chegar a qualquer momento. — Vinícius ficou no lugar, sem sinalizar que ia sair da frente. — Você conhece bem o setor de holding? Porque o Grupo Serrão tem uma complexidade operacional que nem sempre é evidente pra quem olha de fora. — Fiz o diagnóstico durante o fim de semana. Acho que consigo me orientar. — Diagnóstico de fim de semana. — Ele repetiu com aquele tom de quem está sendo cuidadoso demais pra estar sendo completamente honesto. — É um começo, com certeza. Raquel apareceu pelo corredor nesse momento, tablet na mão, com aquela expressão de quem acabou de encontrar algo no lugar errado e está decidindo como lidar com isso sem fazer cena. — Mariana. — Me cumprimentou com um aceno direto e virou pra Vinícius com uma temperatura visivelmente mais baixa. — Vinícius, a reunião do Gabriel começa em cinco minutos. Ele pediu a sala três. — Eu sei onde é a sala três, Raquel. — Ele disse isso com uma gentileza que tinha alguma coisa errada embaixo, o tipo de gentileza que lembra à outra pessoa quem tem hierarquia sobre quem sem precisar dizer em voz alta. Depois voltou pra mim com o sorriso intacto. — Bom trabalho, Mariana. A gente se vê por aí. Foi em direção aos elevadores sem pressa, as mãos no bolso, como quem não precisa de pressa porque o prédio inteiro já é familiar de um jeito que nenhum visitante vai ter nunca. Fiquei olhando pro corredor por um tempo depois que ele entrou no elevador. Raquel chegou do meu lado. — Ele não devia estar aqui hoje. Não era reclamação. Era informação, entregue com a precisão de quem escolhe bem o que compartilha e com quem. Ela disse aquilo do mesmo jeito que diria o ar-condicionado da sala três não tá funcionando — uma informação que eu precisava ter antes de entrar na reunião. — Ele faz isso com frequência? Aparecer quando não foi chamado? — Só quando tem alguma coisa que ele quer ver de perto. — Ela considerou por um segundo. — Ou alguém. Ótimo. Primeiro dia, oito da manhã, e o CFO já tinha me medido, pesado e arquivado em algum lugar da cabeça dele. A questão era qual gaveta. Ameaça pequena, monitorar ou ameaça pequena, ignorar. Ainda era cedo pra saber, mas a visita não programada numa segunda cedo me dizia que pelo menos uma das duas era verdade. A porta da sala três abriu e Gabriel saiu por ela — o que significava que ele já estava lá dentro enquanto eu conversava com o irmão no corredor. Camisa branca, calça preta, aquele jeito de andar de quem não tá com pressa mas chega antes de todo mundo de qualquer forma. Olhou pro corredor. Depois pra mim. — Vi meu irmão saindo. — A gente se cumprimentou. — O que ele disse? — Que minha empresa é pequena. — Fiz isso sem drama, no mesmo tom que ele usaria. — E que diagnóstico de fim de semana é um começo. Gabriel ficou me olhando por tempo suficiente pra eu perceber que ele estava processando não só o que eu tinha dito, mas como eu tinha dito. A ausência de mágoa. A ausência de reação. — Pode ignorar. — Já ignorei. — Bom. — Abriu a porta da sala três de novo. — Então começa. Entrei, coloquei o notebook na mesa, abri na primeira página do diagnóstico. Gabriel se instalou na cadeira de frente, café do lado, sem cerimônia. Eu conduzi. Ele ouviu. Quarenta minutos sem interrupção, sem comentário fora de hora, com aquela atenção dele que não aparece no rosto mas aparece nas perguntas — todas cirúrgicas, todas no ponto exato onde eu tinha deixado uma margem de interpretação. Quando terminei, ele ficou olhando pro mapa de ação na tela. O Sol já tinha passado pela janela e a cidade lá embaixo era barulho distante e movimento constante, aquela São Paulo de meio de manhã que não para nem pra respirar. Dentro da sala, era diferente. Era aquele silêncio de quando duas pessoas estão pensando no mesmo problema por ângulos diferentes. — Tem uma coisa que você não vai encontrar em nenhum relatório. — Ele falou sem tirar o olhar da tela. Eu esperei. — Meu irmão tem acesso ao conselho que eu não tenho. Seis anos construindo relação com cada membro. — Virou pra mim. — Ele vai usar isso. — Eu sei. — E mesmo assim o seu plano não contempla isso. — Ainda não. — Fechei o notebook. — Por isso eu precisava que você me contasse antes de eu montar a segunda fase. Não dá pra neutralizar movimento que eu não vi acontecer. Gabriel ficou me olhando por um segundo. Depois virou pra janela. — Vinícius é competente. Ele merecia o cargo se eu não tivesse voltado. Era a primeira vez que ele dizia alguma coisa sobre o irmão sem ser em resposta direta. Eu registrei cada palavra sem deixar aparecer que tinha registrado. — Isso muda alguma coisa no que você quer construir? — Não. — Direto, sem hesitação. — Mas muda o que eu preciso que você entenda sobre ele. Ele não é vilão. Ele é alguém com razão do lado errado. Fechei o notebook e olhei pra ele. Trinta e dois anos, oito na Europa, voltou quando o pai morreu. Resistia ao cargo mas sabia exatamente o que estava em jogo. E acabava de me dar, voluntariamente, a informação mais importante sobre o maior obstáculo do processo. Isso também me dizia alguma coisa sobre Gabriel Serrão que eu ainda estava aprendendo a ler. 🌸 🌸 🌸 🔗 Ela apresentou o diagnóstico em quarenta minutos. Gabriel ouviu tudo sem interromper. Quando ela terminou, ele ficou olhando pro mapa de ação na tela e disse: "Tem uma coisa que você não vai encontrar em nenhum relatório." Ela esperou. "Meu irmão tem acesso ao conselho que eu não tenho. Seis anos construindo relação com cada membro. E ele vai usar isso."Nota da Autora ❤️E assim termina a história de Mari e Gabriel.Ou pelo menos a parte deles que vocês puderam ver.Obrigada por cada comentário, cada teoria, cada surto e cada mensagem ao longo dessa jornada. Vocês fizeram Meu CEO Impossível ( Não Estava no Contrato) crescer capítulo após capítulo.Se você gostou dessa história, aproveita para conhecer também meus outros livros aqui na plataforma:📚 Meu Chefe é o Pai do Meu Bebê📚 Capturada pelo Alfa da Floresta Negra📚 O Contrato Dizia Esposa, Ele Entendeu Propriedade📚 O Dono do TigrinhoAgora eu preciso fazer uma pergunta.Porque existe um homem nesta história que muita gente não conseguiu esquecer.Vinícius Serrão.Controlador.Frio.Obcecado por vencer.Acostumado a ter tudo sob controle.E que acabou de perder a única coisa que acreditava que jamais perderia.Mas existe uma história que eu ainda não contei.Uma história mais intensa.Mais sombria.Mais obsessiva.Mais perigosa.E definitivamente mais quente.🔥O problema é
POV: GABRIELO barulho da máquina de expresso cortou o silêncio do apartamento às sete da manhã.A terça-feira começou igual a qualquer outra. Sem viagem marcada. Sem data especial. Sem nenhum aviso no calendário dizendo que aquele dia era diferente.E, ainda assim, era.A prova mais simples de que aquilo que a gente tinha vivido no Rio não tinha sido exceção. Não tinha sido um intervalo bonito dentro da correria. Era a nossa vida. A vida real. A rotina. O que sobrava quando ninguém estava tentando impressionar ninguém.Tirei as duas canecas da máquina.A fumaça subiu devagar. O cheiro do café se espalhou pela cozinha enquanto o ar frio entrava pela fresta da varanda.Mari passou por mim usando calça social de alfaiataria e uma camisa de seda clara, segurando um salto em uma mão e o celular na outra, os olhos correndo por algum e-mail que provavelmente já tinha chegado com problema.Coloquei a caneca dela sobre a bancada.Encostei o quadril no mármore e cruzei os braços.— Eu queria t
POV: MARIO café virtual da minha mãe virou uma intimação irrevogável para um almoço de domingo na casa dela, no Rio de Janeiro.O calor úmido do fim de manhã grudava na roupa quando a gente passou pelo portão.Eu já tinha vindo imaginando a casa cheia de voz, cheiro de comida e minha mãe na cozinha fazendo mil coisas ao mesmo tempo. O que eu não esperava era parar no meio da entrada e encontrar Caetano sentado à mesa da varanda, como se tivesse nascido ali.Ele levantou o copo de cerveja que estava na mão e abriu um sorriso escandalosamente satisfeito.— Até que enfim — ele falou. — Eu já tava achando que a ponte aérea tinha caído.Eu pisquei uma vez, ainda tentando entender como ele tinha chegado antes de mim.Gabriel parou do meu lado. O olhar dele foi de Caetano pra mim e voltou, sem nenhuma pressa.— O que você tá fazendo aqui? — perguntei, apontando pra ele com a mão livre.— Dona Isabel me adotou faz meia hora — ele respondeu, sem o menor remorso. — E eu aceitei.A risada da m
POV: MARI A agência estava em festa desde o fim da tarde. Salgado frito, espumante aberto, papelão de caixa de entrega, gente falando alto demais. Tudo misturado no andar térreo do sobrado, que naquela noite parecia menor do que era e mais cheio de vida do que em qualquer outro dia. Eu estava na copa, tentando passar cem brigadeiros para bandejas de acrílico sem derrubar nada, quando a Tati entrou com o celular na mão e a playlist estourando baixo no bolso. — Se o próximo estagiário mexer nesse som, eu juro que mato — ela resmungou, já olhando para a tela. — A essa altura, o crime seria deixar tocar Evidências — falei, sem tirar os olhos das forminhas. Ela me lançou um olhar rápido e veio pegar um brigadeiro antes que eu pudesse impedir. — Você tá estranha desde ontem — ela disse, mastigando. Não respondi na hora. Eu ainda estava com aquele abraço do Gabriel preso no corpo. O jeito como ele tinha entrado na minha cozinha, me puxado pra perto e ficado quieto como se estivesse
POV: GABRIEL O despertador vibrou mudo em cima da mesa de cabeceira. Seis da manhã. A claridade ainda era cinza lá fora. Terminei de dar o nó da gravata de frente pro espelho, mas meu olho não saía do reflexo da cama. Mari dormia de bruços. O lençol jogado na altura da cintura, a pele das costas subindo e descendo devagar. O quarto inteiro ainda cheirava a ontem à noite. Peguei a chave do carro. Fui até a porta. Parei com a mão na maçaneta e voltei. Sentei na beira do colchão. O peso fez ela se mexer um pouco, mas não acordou. Afundei a mão no cabelo embaraçado dela e encostei a boca na curva quente do pescoço. Fiquei ali mais tempo do que devia, respirando a pele dela, engolindo a vontade de cancelar a agenda inteira. Levantei de vez. * A sala de reunião do conselho mantinha o ar-condicionado cravado no limite do frio. Eu estava na cabeceira da mesa de vidro fumê. O diretor de operações trocou o slide, e o calendário da operação europeia piscou na parede. — O cronograma por
"Você achou seu lugar." A voz da minha mãe repetiu em loop na minha cabeça. O ar frio do escritório batia nas minhas costas. Minha perna direita, que sempre balançava debaixo da mesa quando a ansiedade atacava, estava fincada no chão. Dura. Estável. Na minha frente, Beatriz arrastou o dedo por cima da planta baixa impressa. — Faria Lima, Mari. Um escritório de verdade. A gente precisa tirar a base daqui se quiser dobrar o faturamento. Você sabe disso. Minha garganta não fechou. Meu estômago não despencou. Apoiei as mãos espalmadas no papel. — Não. Beatriz parou a tampa da caneta no ar. — A gente aluga o galpão da zona sul só para a logística. — A minha voz saiu raspando, mas firme. — A base fica aqui. A gente expande a loja, derruba a parede do fundo. Mas a raiz não sai daqui. O silêncio engoliu a sala por três segundos inteiros antes da Tati encostar no batente da porta. Braços cruzados, aquele meio sorriso de sempre. — Você não precisa escolher entre crescer e f







