Compartilhar

Capítulo 4: Boca afiada

Autor: Aldinha B.
last update Data de publicação: 2026-02-11 09:22:58

Pietro Cavallini

A porta do elevador se fechou com ela bufando e me xingando mentalmente.

Eu ainda conseguia ouvir o som das pantufas batendo no chão, marcando o ritmo da fúria.

Mulher maluca.

Boca afiada.

Olhar mortal.

Delícia.

Permaneci ali, parado, de braços cruzados e com um sorriso safado no rosto, como quem assiste a um espetáculo.

Eu adorava mulheres difíceis. Mas aquela ali?

Aquela era um desafio com estampa de donuts e cara de ressaca existencial.

Me virei pro porteiro, ainda sentindo o perfume doce e revoltado que ela deixou no ar.

— E aí, seu Jorge... qual o nome da vizinha nova?

O velho levantou a cabeça devagar, tentando manter a pose de funcionário ético e discreto.

— Não posso informar, senhor Pietro. Coisas do condomínio... privacidade dos moradores, o senhor entende.

— Entendo. — sorri, me encostando no balcão com a mesma cara que usava pra convencer clientes a derrubar uma parede. — Mas olha, imagina que eu só quero mandar flores. Uma caixinha de desculpas. Uma gentileza de vizinho civilizado.

Ele me olhou com desconfiança.

— O senhor parece mais um furacão do que um vizinho civilizado.

— Toquei na buzina sem querer, ué — dei de ombros, com cara de inocente. — Ela se jogou no capô. E ontem foi ela quem veio bater aqui, lembra? Tava com sangue nos olhos. Quase me exorcizou.

Seu Jorge apertou os olhos e bufou.

— Só o primeiro nome. E o senhor finge que não veio por mim.

— Fechado.

— Fernanda. O nome dela é Fernanda.

— Fernanda... — repeti em voz baixa, deixando o nome escorregar pela língua. — Combina com ela. Tem cara de quem te manda pra merda e depois faz drama no chuveiro.

Voltei pro meu apartamento satisfeito.

As duas mulheres que estavam ali na noite passada já estavam vestidas, rindo e procurando as bolsas.

— Pietro, você é um caso perdido. — disse uma delas, ainda me olhando como se eu fosse sobremesa.

— Sou um caso delicioso, meu bem. Mas com prazo de validade curto. Foi um prazer. Literalmente.

Fechei a porta assim que elas saíram.

Tirei a cueca que já tava implorando por paz, fui pra cozinha, tomei um café preto e amargo como minha reputação, e depois fui direto pro banho.

A água caiu nos meus ombros enquanto eu pensava na minha vizinha.

Fernanda.

A mulher que queria dormir e me mandou calar a suruba.

A que andava de pantufa e conseguia ser sexy até com pijama infantil.

— Isso vai ser divertido... — murmurei.

Minutos depois, já estava saindo, cabelo alinhado, camisa social escura com os primeiros botões abertos e o relógio de pulso marcando minha pontualidade duvidosa.

Desci do prédio, entrei no carro e rumei direto pra minha empresa.

Cavallini Arquitetura & Design.

Minha paixão.

Meu império.

E o único compromisso que eu ainda mantinha fielmente.

Mulheres vinham e iam.

Mas as estruturas que eu criava...

Essas sim, duravam.

Mas confesso...

Tava começando a ficar tentado a construir alguma coisa bem sólida na cabeça daquela vizinha.

Nem que fosse um altar pro meu ego.

(***)

O dia na Cavallini Arquitetura foi uma bomba relógio.

Três reuniões, dois projetos emperrados e uma cliente neurótica que queria transformar um banheiro de dois metros em um spa com jacuzzi.

Porra.

Quando cheguei no prédio, já passava das oito da noite. Meu corpo implorava por banho, comida e silêncio. Mas assim que me aproximei da minha porta... o silêncio que eu tanto desejava foi substituído por um monólogo furioso e dramático vindo do apartamento ao lado.

A vizinha.

Fernanda.

A voz dela cortava o corredor com emoção de novela mexicana. Fiquei parado com a chave na fechadura, só ouvindo.

— EU NÃO QUERO MAIS SABER DE HOMEM, CLARA! Juro! Tô cancelando o gênero masculino da minha vida!

Uma pausa. E mais gritos.

— Só arrumo canalha! Tudo farinha do mesmo saco. Um mais imbecil que o outro!

Parei, inclinei a cabeça, apoiado na porta.

Isso tava ficando bom...

— E o pior é que... — a voz dela ficou mais baixa, meio trêmula — ...eu ainda amo aquele desgraçado. AINDA AMO, CLARA! Me diz como que desliga isso?

Odiava ver mulher chorando.

Mas confesso que a mistura de fúria e vulnerabilidade nela... era absurdamente sexy.

Me aproximei mais, e ela me viu pelo olho mágico ou sentiu meu cheiro, sei lá. Porque em dois segundos, a porta se abriu com violência e ela apareceu.

De moletom, coque mal feito e olhos brilhando.

— TÁ ME ESPIONANDO, SEU CANALHA? — ela cuspiu, sem nem me dar tempo de dizer oi.

— Tava só tentando entrar em casa — dei um sorriso lento, provocativo —, mas ouvi uma alma rasgada se esgoelando no corredor... e pensei: será que mataram um gato?

— Vai se ferrar, bonitão! Se quiser bancar o engraçadinho, vai fazer stand-up em outro lugar. Aqui é zona de guerra emocional!

Cruzei os braços, encostando no batente da porta dela como quem não tinha o menor senso de limite.

— Então quer dizer que alguém foi trocada?

Ergui uma sobrancelha.

— Que pena... e você parece ser tão... dedicada.

Ela travou. Por um segundo, a ferida bateu nos olhos. Mas logo o sarcasmo voltou com força.

— Eu sou dedicada, sim. A me foder emocionalmente com cada embuste que aparece. E olha só... você tá no topo da lista só de respirar perto de mim.

— Mas que honra, Fernanda. — sorri, com a cara mais debochada do mundo. — Só pra constar: eu não sou embuste. Eu aviso antes que não presto.

Ela cruzou os braços, o moletom subindo um pouco e revelando parte da cintura.

— Nenhum homem presta.

— Discordo.

Dei um passo à frente.

— Eu presto. Em todos os sentidos.

Ela piscou.

Engoliu seco.

Mas não recuou.

— Presta pra mim o silêncio, então.

E BATEU A PORTA NA MINHA CARA.

Eu ri. Alto.

Essa mulher é um furacão.

E pela primeira vez em muito tempo...

Eu tava afim de entrar no olho dele.

Continue a ler este livro gratuitamente
Escaneie o código para baixar o App

Último capítulo

  • Manual do Homem certo (que é todo errado)   Capítulo 120: O Peso do Vidro e o Sabor do Oásis

    Pietro CavalliniUma semana. Sete dias que, no fuso horário insano de Dubai, pareceram durar um ano inteiro. Minha rotina havia se transformado em um looping exaustivo de plantas de engenharia estendidas sobre mesas de reunião, relatórios metalúrgicos e discussões ásperas com o consórcio de seguros. Eu e o Lucas praticamente não dormíamos. Passávamos as madrugadas revisando cada linha de código dos sistemas de automação predial da Torre Leste, alterando as especificações de segurança conforme as exigências — muitas vezes absurdas e puramente políticas — do Príncipe Al-Asmakh.Mudar o que um membro da família real manda em Dubai não é uma questão de sugestão técnica; é uma ordem de Estado. Se ele queria uma redundância tripla nos sprinklers e o isolamento térmico importado da Alemanha em tempo recorde, nós tínhamos que redesenhar o cronograma inteiro e fazer acontecer, custasse o que custasse.No meio desse turbilhão de cálculos, prazos sufocantes e a pressão esmagadora de segurar as a

  • Manual do Homem certo (que é todo errado)   Capítulo 119: Promessas de Sol e Açúcar

    Fernanda VasquesA luz do deserto não pede licença; ela inunda o espaço com uma claridade dourada, quase mística, que atravessa os imensos panos de vidro da Sky Pool Villa. Quando meus olhos se abriram, vagarosos, a primeira coisa que registrei foi o silêncio absoluto daquele palácio suspenso, quebrado apenas pelo rumorejar distante e quase imperceptível do sistema de climatização do hotel. A segunda coisa — e infinitamente mais interessante — foi o peso reconfortante do braço de Pietro cruzado sobre a minha cintura.Virei-me de lado com extrema cautela, apoiando o peso do meu corpo sobre o cotovelo, cuidando para não fazer o colchão absurdamente macio se mover. Fiquei ali, flutuando numa preguiça deliciosa, apenas admirando o homem adormecido ao meu lado.Sem a armadura impecável dos ternos de alta costura, sem o olhar afiado de engenheiro e a postura de comando que costumava intimidar até os bilionários árabes, Pietro parecia quase vulnerável. Quase. Suas feições fortes e a mandíbul

  • Manual do Homem certo (que é todo errado)   Capítulo 118: A Purificação na Água

    Pietro Cavallini Quando entrei na suíte do Atlantis The Royal, a tensão acumulada nos meus ombros pesava toneladas. A fúria racional que usei para desmontar os argumentos de Youssef começava a dar lugar a uma necessidade brutal de descompressão. Joguei a pasta de couro e o celular na mesa de entrada. O silêncio do quarto era quebrado apenas pelo som abafado da água caindo no banheiro principal.Caminhei até lá, despindo-me pelo caminho. A camisa social azul-escura, impregnada com o cheiro sutil de fumaça e fuligem da obra, foi jogada no chão, seguida pelos sapatos, pela calça de alfaiataria e pelas meias. Eu precisava me limpar daquela sujeira, daquela conspiração que tentava me cercar.Abri a porta de vidro fumê do imenso banheiro de mármore Carrara. O ambiente estava imerso em uma névoa densa e aquecida, perfumada com o aroma do sabonete de verbena que a Fernanda usava. Através do vidro jateado do box monumental, vi a silhueta dela. As curvas do seu corpo desenhadas de forma suave

  • Manual do Homem certo (que é todo errado)   Capítulo 117: A Anatomia do Caos e do Desejo

    Pietro CavalliniO canteiro de obras da Torre Leste exalava o cheiro acre de concreto queimado, fiação derretida e plástico carbonizado. A opulência de Dubai, que brilhava a poucos quilômetros dali, parecia pertencer a outro mundo sob a luz dura dos refletores temporários que iluminavam o vigésimo quarto andar.Eu usava capacete de segurança, botas reforçadas e uma expressão que fazia até os engenheiros mais experientes evitarem contato visual. Cada passo ecoava sobre os destroços, enquanto eu analisava os danos causados pelo incêndio.Logo atrás de mim, Lucas me acompanhava com o tablet corporativo nas mãos, registrando imagens, relatórios e cada detalhe da destruição estrutural. O silêncio entre nós dizia tudo.Aquilo não era apenas um acidente.Era um prejuízo milionário.E eu pretendia descobrir exatamente quem iria pagar por ele.No centro da área isolada pelas fitas amarelas da perícia, o encarregado-geral da obra aguardava minha chegada. Youssef, um engenheiro libanês respeitad

  • Manual do Homem certo (que é todo errado)   Capítulo 116: Oásis de Vidro e Ouro

    Fernanda VasquesSe alguém me dissesse, há algum tempo atrás, que eu cruzaria o oceano a bordo de um jatinho particular para pousar no coração do Oriente Médio, eu provavelmente riria com aquele tom de ironia de quem já não acreditava em reviravoltas do destino. Mas o mundo capota, e as estruturas que o Pietro constrói não são apenas de concreto; elas mudam a geografia da minha própria vida.Depois de longas horas de voo, observando o céu mudar de tonalidade sobre continentes que eu só conhecia pelos livros de geografia, o comandante anunciou o procedimento de descida. Olhei pela janela da cabine e perdi o fôlego. Dubai, vista de cima, não parece real. É uma miragem geométrica que desafia a vastidão implacável do deserto da Arábia. Arranha-céus que parecem agulhas de cristal rasgando as nuvens, ilhas artificiais em formatos impossíveis que redesenham o golfo Pérsico e uma opulência que brilha mesmo sob o sol forte da tarde.Quando os pneus do jato tocaram a pista do terminal executivo

  • Manual do Homem certo (que é todo errado)   Capítulo 115: O Voo dos Falcões

    Pietro CavalliniO trânsito da Marginal Pinheiros parecia zombar da minha urgência. O reflexo dos faróis vermelhos no para-brisa do carro era a moldura perfeita para a fúria gélida que ditava o ritmo dos meus pensamentos. Eu estava possesso. A arrogância dos príncipes, a incompetência da equipe técnica em Dubai e a sombra cada vez mais nítida de uma conspiração internacional contra a Cavallini Arquitetura & Design faziam meu sangue ferver. Minhas mãos apertavam o volante de couro com tanta força que os nós dos meus dedos estavam brancos. Trinta e seis horas. Esse era o prazo que o Al-Maktoum me dera antes de puxar o gatilho jurídico que poderia congelar meu império.Quando estacionei o carro na garagem do prédio, o eco dos meus sapatos contra o concreto do subsolo parecia uma marcha de guerra. Subi pelo elevador privativo sentindo o peso do mundo esmagar meus ombros. Eu não queria aquela viagem. Não agora. Não quando a estrutura da minha vida pessoal finalmente exalava o perfume de um

Mais capítulos
Explore e leia bons romances gratuitamente
Acesso gratuito a um vasto número de bons romances no app GoodNovel. Baixe os livros que você gosta e leia em qualquer lugar e a qualquer hora.
Leia livros gratuitamente no app
ESCANEIE O CÓDIGO PARA LER NO APP
DMCA.com Protection Status