LOGINFernanda Vasques
Já passava da meia-noite quando o som começou.
Primeiro, uma batida baixa.
Depois, uma música. Em seguida... risadas. Femininas. Altas. Chilreantes. Daquelas que só podem ser feitas por quem tá em posição horizontal com algum tipo de brinquedo na mão ou uma intenção sexual bem clara.Me virei na cama bufando, tentando ignorar.
"É coisa da sua cabeça, Fernanda. Vai passar..."Mas não passou.
Pelo contrário, aumentou.Agora tinha o quê? Duas? Três vozes? E tinha um gemido.
Um gemido! EU TAVA OUVINDO UM FILME ADULTO AO VIVO PELA MINHA PAREDE!— NÃO! — gritei, jogando o travesseiro no chão. — Isso é tortura. Eu só quero dormir! Amanhã tenho que procurar emprego, parecer uma adulta funcional, não um zumbi raivoso!
O som de uma risada aguda explodiu de novo.
Levantei da cama.
Pisei no chão com fúria. Enfiei o primeiro roupão que achei e desci pro corredor do andar com o cabelo preso num coque bagunçado e cara de quem ia processar a NASA, se fosse necessário.Até onde eu sabia, o apartamento ao lado estava vazio. Mas pelo visto, o novo morador chegou fazendo orgia e esquecendo o conceito de respeito ao silêncio noturno.
Toquei a campainha uma vez.
Nada.Toquei a segunda vez.
Mais barulho.Então... eu bati. BATI DE VERDADE. Estilo cobrador de aluguel com fatura vencida.
A porta se abriu devagar e...
DUAS MULHERES. De lingerie. Rindo, com o cabelo bagunçado e cara de "acabei de gozar e quero repetir".— Boa noite, flor do dia! — disse uma, rindo.
Eu não respondi. Só levantei uma sobrancelha e mandei:
— Querida, isso aqui é um prédio residencial. Não o OnlyFans. Dá pra baixar o volume da suruba? Eu tô tentando dormir e não tô recebendo comissão por ouvir essa palhaçada.
— Ai, desculpa... — disse a outra, sem disfarçar o deboche. — A gente vai...
Mas antes que ela terminasse, ELE apareceu.
Cueca branca.
Cabelos bagunçados. Corpo nu molhado de suor. O homem que tinha me atropelado. Maldito. Ali. Com cara de satisfeito, sorriso sacana e a audácia de um sem-vergonha.— Ora, ora... — disse ele, se encostando no batente da porta como se estivesse num comercial de cueca Calvin Klein. — A miragem falante voltou.
— Não tô com paciência pra piadas. Manda as tuas funcionárias pro carro de volta e BAIXA O SOM. Eu quero dormir. Ou preferem que eu chame a polícia e explique que tô sofrendo assédio sonoro e psicológico por causa dos seus gemidos e dos gritos de "Ai, gostoso, mais forte!"?
Ele riu.
Com gosto.— Quer entrar? Acho que ainda tem vaga na cama. Só precisa deixar a raiva no cabide e trazer a bunda grande.
Eu paralisei.
Pisquei duas vezes.— Você... — respirei fundo — ...é a mistura de canalhice com testosterona vencida? Porque olha... que talento pra ser insuportável.
— E você é sempre assim? Rabugenta, linda e com um sarcasmo afiado? Perigoso. Vai acabar me dando tesão.
— Vai se ferrar, babaca! — cuspi, virando as costas. — E guarda essa cueca. Tem criança nesse prédio!
Ele gargalhou lá dentro.
— Boa noite, vizinha! Qualquer coisa, é só bater de novo. Ou gemer mais alto, quem sabe?
— Vai tomar no seu...
PAM!
Porta fechada. Fúria ativada. Tesão reprimido. E um desejo estranho de dar na cara dele com a minha pantufa.E assim começou minha guerra com o vizinho gostoso, irritante e totalmente proibido.
Mal sabia eu que aquela cueca branca ainda ia tirar meu sono de muitas formas diferentes.
(***)
Acordei com a cara amassada, o cabelo grudado num lado só da cabeça e uma vontade absurda de assassinar o mundo.
Especialmente o pedaço de mundo que morava no apartamento ao lado e que, aparentemente, achava que gemido era trilha sonora noturna.Me arrastei pela casa até a cozinha, com o estômago roncando mais alto que meu orgulho ferido.
Nada.
Geladeira: vazia. Armário: ar seco. Café: faltando.— Ai, vai tomar no c* — murmurei pro universo, amarrando o robe por cima do pijama de estampa de donuts e saindo do apartamento como se estivesse indo salvar a humanidade.
Descendo no elevador, tentei evitar o espelho. Mas fui obrigada a encarar meu reflexo e ver o que o Desgraçado do Capô — aquele que me atropelou — veria se me visse: cara de ressaca emocional, olheira nível zumbi e pantufas de coelho.
Perfeito.
Mas o universo é sádico.
E claro... lá estava ele. Na portaria.Sem camisa.
Apoiado no balcão, rindo com o porteiro, com aquele maldito sorriso de "sei que sou gostoso e ainda faço questão de esfregar isso na cara de quem tenta fingir que não nota".— Bom dia, vizinha — ele disse, assim que me viu. — Saiu pra comprar pão ou só tá desfilando esse pijama sexy mesmo?
Revirei os olhos com tanta força que quase vi o passado.
— Vai à merda.
— Uau. Um charme logo cedo. Gosto de mulher difícil, mas você tá quase me dando um tesão filosófico.
— Dá pra parar de falar comigo?
Ele se aproximou com calma, como se cada passo fosse feito pra provocar mais.
— Esqueci de me apresentar ontem, com a emoção da sua visita noturna — disse, estendendo a mão como se estivesse me oferecendo um contrato com o capeta. — Pietro Cavallini... E o seu?
Ah. Ótimo. Agora o canalha tinha nome.
Pietro. Cavallini. Nome de vinho caro e problema emocional.Olhei pra mão dele.
Depois pra cara dele. Depois virei de costas.— O meu nome não é da sua conta. Mas se quiser me chamar de "Vai Se Foder", tô atendendo por esse apelido hoje.
Ouvi a gargalhada dele ecoando no saguão do prédio.
E segui andando, com as pantufas batendo no chão e a bunda balançando de raiva.Esse homem vai me levar pra cadeia.
Ou pra cama. Mas, com certeza, antes disso... vai me deixar completamente LOUCAPietro CavalliniUma semana. Sete dias que, no fuso horário insano de Dubai, pareceram durar um ano inteiro. Minha rotina havia se transformado em um looping exaustivo de plantas de engenharia estendidas sobre mesas de reunião, relatórios metalúrgicos e discussões ásperas com o consórcio de seguros. Eu e o Lucas praticamente não dormíamos. Passávamos as madrugadas revisando cada linha de código dos sistemas de automação predial da Torre Leste, alterando as especificações de segurança conforme as exigências — muitas vezes absurdas e puramente políticas — do Príncipe Al-Asmakh.Mudar o que um membro da família real manda em Dubai não é uma questão de sugestão técnica; é uma ordem de Estado. Se ele queria uma redundância tripla nos sprinklers e o isolamento térmico importado da Alemanha em tempo recorde, nós tínhamos que redesenhar o cronograma inteiro e fazer acontecer, custasse o que custasse.No meio desse turbilhão de cálculos, prazos sufocantes e a pressão esmagadora de segurar as a
Fernanda VasquesA luz do deserto não pede licença; ela inunda o espaço com uma claridade dourada, quase mística, que atravessa os imensos panos de vidro da Sky Pool Villa. Quando meus olhos se abriram, vagarosos, a primeira coisa que registrei foi o silêncio absoluto daquele palácio suspenso, quebrado apenas pelo rumorejar distante e quase imperceptível do sistema de climatização do hotel. A segunda coisa — e infinitamente mais interessante — foi o peso reconfortante do braço de Pietro cruzado sobre a minha cintura.Virei-me de lado com extrema cautela, apoiando o peso do meu corpo sobre o cotovelo, cuidando para não fazer o colchão absurdamente macio se mover. Fiquei ali, flutuando numa preguiça deliciosa, apenas admirando o homem adormecido ao meu lado.Sem a armadura impecável dos ternos de alta costura, sem o olhar afiado de engenheiro e a postura de comando que costumava intimidar até os bilionários árabes, Pietro parecia quase vulnerável. Quase. Suas feições fortes e a mandíbul
Pietro Cavallini Quando entrei na suíte do Atlantis The Royal, a tensão acumulada nos meus ombros pesava toneladas. A fúria racional que usei para desmontar os argumentos de Youssef começava a dar lugar a uma necessidade brutal de descompressão. Joguei a pasta de couro e o celular na mesa de entrada. O silêncio do quarto era quebrado apenas pelo som abafado da água caindo no banheiro principal.Caminhei até lá, despindo-me pelo caminho. A camisa social azul-escura, impregnada com o cheiro sutil de fumaça e fuligem da obra, foi jogada no chão, seguida pelos sapatos, pela calça de alfaiataria e pelas meias. Eu precisava me limpar daquela sujeira, daquela conspiração que tentava me cercar.Abri a porta de vidro fumê do imenso banheiro de mármore Carrara. O ambiente estava imerso em uma névoa densa e aquecida, perfumada com o aroma do sabonete de verbena que a Fernanda usava. Através do vidro jateado do box monumental, vi a silhueta dela. As curvas do seu corpo desenhadas de forma suave
Pietro CavalliniO canteiro de obras da Torre Leste exalava o cheiro acre de concreto queimado, fiação derretida e plástico carbonizado. A opulência de Dubai, que brilhava a poucos quilômetros dali, parecia pertencer a outro mundo sob a luz dura dos refletores temporários que iluminavam o vigésimo quarto andar.Eu usava capacete de segurança, botas reforçadas e uma expressão que fazia até os engenheiros mais experientes evitarem contato visual. Cada passo ecoava sobre os destroços, enquanto eu analisava os danos causados pelo incêndio.Logo atrás de mim, Lucas me acompanhava com o tablet corporativo nas mãos, registrando imagens, relatórios e cada detalhe da destruição estrutural. O silêncio entre nós dizia tudo.Aquilo não era apenas um acidente.Era um prejuízo milionário.E eu pretendia descobrir exatamente quem iria pagar por ele.No centro da área isolada pelas fitas amarelas da perícia, o encarregado-geral da obra aguardava minha chegada. Youssef, um engenheiro libanês respeitad
Fernanda VasquesSe alguém me dissesse, há algum tempo atrás, que eu cruzaria o oceano a bordo de um jatinho particular para pousar no coração do Oriente Médio, eu provavelmente riria com aquele tom de ironia de quem já não acreditava em reviravoltas do destino. Mas o mundo capota, e as estruturas que o Pietro constrói não são apenas de concreto; elas mudam a geografia da minha própria vida.Depois de longas horas de voo, observando o céu mudar de tonalidade sobre continentes que eu só conhecia pelos livros de geografia, o comandante anunciou o procedimento de descida. Olhei pela janela da cabine e perdi o fôlego. Dubai, vista de cima, não parece real. É uma miragem geométrica que desafia a vastidão implacável do deserto da Arábia. Arranha-céus que parecem agulhas de cristal rasgando as nuvens, ilhas artificiais em formatos impossíveis que redesenham o golfo Pérsico e uma opulência que brilha mesmo sob o sol forte da tarde.Quando os pneus do jato tocaram a pista do terminal executivo
Pietro CavalliniO trânsito da Marginal Pinheiros parecia zombar da minha urgência. O reflexo dos faróis vermelhos no para-brisa do carro era a moldura perfeita para a fúria gélida que ditava o ritmo dos meus pensamentos. Eu estava possesso. A arrogância dos príncipes, a incompetência da equipe técnica em Dubai e a sombra cada vez mais nítida de uma conspiração internacional contra a Cavallini Arquitetura & Design faziam meu sangue ferver. Minhas mãos apertavam o volante de couro com tanta força que os nós dos meus dedos estavam brancos. Trinta e seis horas. Esse era o prazo que o Al-Maktoum me dera antes de puxar o gatilho jurídico que poderia congelar meu império.Quando estacionei o carro na garagem do prédio, o eco dos meus sapatos contra o concreto do subsolo parecia uma marcha de guerra. Subi pelo elevador privativo sentindo o peso do mundo esmagar meus ombros. Eu não queria aquela viagem. Não agora. Não quando a estrutura da minha vida pessoal finalmente exalava o perfume de um







