INICIAR SESIÓNPietro Cavallini
Depois da confusão com a vizinha esquentadinha e do caos no trabalho, tudo que eu queria era um banho quente, paz e um pouco de silêncio. Entrei no meu apartamento, joguei a camisa no chão, fui direto pro chuveiro e deixei a água cair sobre mim enquanto passava pela cabeça o combo completo do dia: clientes loucos, vizinha insana e uma vontade crescente de fazer merda. Saí do banho só com uma calça de moletom baixa no quadril, peguei um copo de uísque e me joguei no sofá. Dois goles depois... Ding dong. A campainha tocou. Franzi o cenho. Quem caralhos me procura a essa hora? Me aproximei da porta devagar e olhei pelo olho mágico. Merda. Suzana. A trepada mais insistente que eu já tive. Bonita? Muito. Boa de cama? Até demais. Mas uma vez foi o suficiente pra ela agir como se fosse dona do meu RG e do controle da minha TV. "Como ela descobriu meu endereço?" pensei, ainda sem abrir. Ela tocou de novo. E bateu. E falou: — Pietro! Eu sei que você tá aí! Vi seu carro lá embaixo, não adianta se esconder! Puta merda. Olhei em volta, desesperado. A porta era uma má ideia. Se eu abrisse, ela ia entrar, sentar no sofá e só sair com exorcismo. Então, olhei pra janela. Minha sala dava direto pra varanda do apartamento vizinho. O da Fernanda. E o mais absurdo? Era perto. MUITO perto. Não pensei. Só fui. Apoiei o pé no parapeito, agarrei a borda com cuidado e pulei com a leveza de quem tava fugindo de um casamento forçado. Aterrissei na varanda dela, abri devagar a porta de correr que, graças a Deus, tava encostada e entrei no apartamento vizinho como se fosse meu. E aí... Eu vi. Fernanda. De costas. De lingerie. Preta. Rendada. Pequena. E linda. — PUTA QUE PARIU! — ela gritou, virando com a mão no peito. — VOCÊ TÁ LOUCO? COMO É QUE ENTRA AQUI DESSE JEITO? — FICA CALADA! — sussurrei, levantando as mãos. — Tô fugindo de uma doida! Ela vai me matar se me achar aqui. — UMA DOIDA?! EU É QUE TÔ GRITANDO E TU VEM ME MANDAR FICAR CALADA?! SAI DO MEU APARTAMENTO, SEU INVASOR SAFADO! Ela gesticulava igual uma italiana possessa, e o pior: a lingerie mexia junto com cada movimento. Meu amigo ali embaixo se animou mais do que devia. — Fernanda... por Deus... só um minuto. Ela vai embora. Eu pulo de volta e sumo da sua vida por hoje. Prometo. Ela arregalou os olhos, apontou o dedo e soltou: — Você é DOENTE, Cavallini! Juro por Deus! O que tem de bonito, tem de louco! E eu não quero ser parte do teu show de horrores, NÃO! — Tá... mas você podia ser um espetáculo à parte. — soltei, olhando pra ela de cima a baixo, com aquele sorrisinho filho da mãe. — Vai à merda! — ela gritou. — E para de olhar pra mim como se eu fosse sobremesa! E foi nesse exato segundo que ela se deu conta. — AI MEU DEUS, EU TÔ DE LINGERIE! — cobriu o corpo com a almofada do sofá, com a cara vermelha de ódio. — VOCÊ É UM TARADO! — Eu sou arquiteto. Mas posso fazer reforma no seu coração, se quiser. — SAI DO MEU APARTAMENTO ANTES QUE EU TE JOGUE PELA MESMA JANELA QUE VOCÊ ENTROU! — Mas e se eu cair no seu coração? — VAI TOMAR NO SEU C... PAM! Joguei a porta da varanda de novo. Pulei de volta pro meu apartamento. E a risada dela ainda ecoava baixinha atrás da vidraça. Fernanda. Minha vizinha maluca. A mulher de língua afiada, bunda de outro planeta... E agora, dona oficial da minha curiosidade.Pietro CavalliniUma semana. Sete dias que, no fuso horário insano de Dubai, pareceram durar um ano inteiro. Minha rotina havia se transformado em um looping exaustivo de plantas de engenharia estendidas sobre mesas de reunião, relatórios metalúrgicos e discussões ásperas com o consórcio de seguros. Eu e o Lucas praticamente não dormíamos. Passávamos as madrugadas revisando cada linha de código dos sistemas de automação predial da Torre Leste, alterando as especificações de segurança conforme as exigências — muitas vezes absurdas e puramente políticas — do Príncipe Al-Asmakh.Mudar o que um membro da família real manda em Dubai não é uma questão de sugestão técnica; é uma ordem de Estado. Se ele queria uma redundância tripla nos sprinklers e o isolamento térmico importado da Alemanha em tempo recorde, nós tínhamos que redesenhar o cronograma inteiro e fazer acontecer, custasse o que custasse.No meio desse turbilhão de cálculos, prazos sufocantes e a pressão esmagadora de segurar as a
Fernanda VasquesA luz do deserto não pede licença; ela inunda o espaço com uma claridade dourada, quase mística, que atravessa os imensos panos de vidro da Sky Pool Villa. Quando meus olhos se abriram, vagarosos, a primeira coisa que registrei foi o silêncio absoluto daquele palácio suspenso, quebrado apenas pelo rumorejar distante e quase imperceptível do sistema de climatização do hotel. A segunda coisa — e infinitamente mais interessante — foi o peso reconfortante do braço de Pietro cruzado sobre a minha cintura.Virei-me de lado com extrema cautela, apoiando o peso do meu corpo sobre o cotovelo, cuidando para não fazer o colchão absurdamente macio se mover. Fiquei ali, flutuando numa preguiça deliciosa, apenas admirando o homem adormecido ao meu lado.Sem a armadura impecável dos ternos de alta costura, sem o olhar afiado de engenheiro e a postura de comando que costumava intimidar até os bilionários árabes, Pietro parecia quase vulnerável. Quase. Suas feições fortes e a mandíbul
Pietro Cavallini Quando entrei na suíte do Atlantis The Royal, a tensão acumulada nos meus ombros pesava toneladas. A fúria racional que usei para desmontar os argumentos de Youssef começava a dar lugar a uma necessidade brutal de descompressão. Joguei a pasta de couro e o celular na mesa de entrada. O silêncio do quarto era quebrado apenas pelo som abafado da água caindo no banheiro principal.Caminhei até lá, despindo-me pelo caminho. A camisa social azul-escura, impregnada com o cheiro sutil de fumaça e fuligem da obra, foi jogada no chão, seguida pelos sapatos, pela calça de alfaiataria e pelas meias. Eu precisava me limpar daquela sujeira, daquela conspiração que tentava me cercar.Abri a porta de vidro fumê do imenso banheiro de mármore Carrara. O ambiente estava imerso em uma névoa densa e aquecida, perfumada com o aroma do sabonete de verbena que a Fernanda usava. Através do vidro jateado do box monumental, vi a silhueta dela. As curvas do seu corpo desenhadas de forma suave
Pietro CavalliniO canteiro de obras da Torre Leste exalava o cheiro acre de concreto queimado, fiação derretida e plástico carbonizado. A opulência de Dubai, que brilhava a poucos quilômetros dali, parecia pertencer a outro mundo sob a luz dura dos refletores temporários que iluminavam o vigésimo quarto andar.Eu usava capacete de segurança, botas reforçadas e uma expressão que fazia até os engenheiros mais experientes evitarem contato visual. Cada passo ecoava sobre os destroços, enquanto eu analisava os danos causados pelo incêndio.Logo atrás de mim, Lucas me acompanhava com o tablet corporativo nas mãos, registrando imagens, relatórios e cada detalhe da destruição estrutural. O silêncio entre nós dizia tudo.Aquilo não era apenas um acidente.Era um prejuízo milionário.E eu pretendia descobrir exatamente quem iria pagar por ele.No centro da área isolada pelas fitas amarelas da perícia, o encarregado-geral da obra aguardava minha chegada. Youssef, um engenheiro libanês respeitad
Fernanda VasquesSe alguém me dissesse, há algum tempo atrás, que eu cruzaria o oceano a bordo de um jatinho particular para pousar no coração do Oriente Médio, eu provavelmente riria com aquele tom de ironia de quem já não acreditava em reviravoltas do destino. Mas o mundo capota, e as estruturas que o Pietro constrói não são apenas de concreto; elas mudam a geografia da minha própria vida.Depois de longas horas de voo, observando o céu mudar de tonalidade sobre continentes que eu só conhecia pelos livros de geografia, o comandante anunciou o procedimento de descida. Olhei pela janela da cabine e perdi o fôlego. Dubai, vista de cima, não parece real. É uma miragem geométrica que desafia a vastidão implacável do deserto da Arábia. Arranha-céus que parecem agulhas de cristal rasgando as nuvens, ilhas artificiais em formatos impossíveis que redesenham o golfo Pérsico e uma opulência que brilha mesmo sob o sol forte da tarde.Quando os pneus do jato tocaram a pista do terminal executivo
Pietro CavalliniO trânsito da Marginal Pinheiros parecia zombar da minha urgência. O reflexo dos faróis vermelhos no para-brisa do carro era a moldura perfeita para a fúria gélida que ditava o ritmo dos meus pensamentos. Eu estava possesso. A arrogância dos príncipes, a incompetência da equipe técnica em Dubai e a sombra cada vez mais nítida de uma conspiração internacional contra a Cavallini Arquitetura & Design faziam meu sangue ferver. Minhas mãos apertavam o volante de couro com tanta força que os nós dos meus dedos estavam brancos. Trinta e seis horas. Esse era o prazo que o Al-Maktoum me dera antes de puxar o gatilho jurídico que poderia congelar meu império.Quando estacionei o carro na garagem do prédio, o eco dos meus sapatos contra o concreto do subsolo parecia uma marcha de guerra. Subi pelo elevador privativo sentindo o peso do mundo esmagar meus ombros. Eu não queria aquela viagem. Não agora. Não quando a estrutura da minha vida pessoal finalmente exalava o perfume de um







