MasukA última coisa que saiu da minha boca foi provavelmente a mais honesta que já
disse na vida. Ária era mais perigosa do que qualquer tiro . E agora, observando-a procurar o celular na bolsa com movimentos fortes, percebi que a culpa era minha. “Vou ligar pra Sofia.” Anunciou quando conseguiu achar o celular. Senti algo desagradável se contorcer no meu peito. Decepção, talvez. Mas mantive a expressão neutra, uma habilidade que aperfeiçoei ao longo dos anos. “Claro.” Respondi em uma voz tão sussurrada que não tenho certeza que ela tenha escutado. Ela se afastou enquanto aguardava a ligação ser atendida. Começou a explicar a situação no canto do quarto, falando baixo. Não podia ouvir a conversa, mas pela linguagem corporal as coisas não estavam saindo como planejado. Bom, não que eu quisesse que ela ficasse, muito menos queria que ela me deixasse. Foi então que a porta se abriu e o médico entrou, acompanhado de uma enfermeira. Troca de plantão, presumo. O Dr. Alguma coisa, não prestei atenção no nome quando ele se apresentou. Estava ocupado observando como os olhos dele se fixaram em Ária, instantaneamente. “Boa noite, Frederico.” ele disse pegando meu prontuário. Ah, como eu odeio esse nome! Mesmo com o prontuário em mãos, ele não tirava os olhos dela. Que ainda estava no celular. A conversa com Sofia parecia mais profunda do que só um breve aviso da minha internação. “Como está se sentindo?” Por um momento esqueci a presença do médico. A enfermeira me olhava parecendo compreender tudo que não foi dito, mas ela estava ocupada trocando o saco de soro. “Melhor.” Respondi secamente. Minha atenção estava dividida entre ele e Ária, que agora parecia estar discutindo com Sofia. Ela desligou o celular com um suspiro frustrado e se virou para nós. “Parece que vou ter que passar a noite aqui.” E foi quando a coisa ficou interessante. O médico, Dr. Carvalho, li no crachá, sorriu para ela de uma forma que fez meu maxilar se contrair involuntariamente. “Que bom.” Ele disse, e o tom foi casual demais para ser profissional. “Quero dizer, é importante que o paciente tenha um acompanhante. Sou Dr. Carvalho, responsável pelo plantão noturno.” “Ária.” Ela respondeu aceitando o aperto de mão que durou alguns segundos mais do que o necessário. “Nome interessante. É italiano?” Ela sorriu pra ele. Sorriu. Senti algo primitivo e desagradável crescer no meu peito. “Sim e não. Em italiano se refere tanto ao ar quanto à melodia. Em albanês significa tesouro. Quem me deu o nome foi meu avô. Ele ama música.” “Fascinante. Tesouro, ar e melodia. Com certeza é um nome criado para você. Eu fiz residência em Roma. Cidade incrível. Já visitou?” E lá estavam eles, conversando animadamente sobre a porra da Itália enquanto eu jazia como um móvel do quarto. Ária estava claramente interessada na conversa e no médico, fazendo perguntas sobre os lugares que ele havia visitado, rindo das pequenas anedotas que ele contava. A fúria que senti foi tão intensa quanto irracional. Eu não tinha direito algum de estar com ciúmes. Não tínhamos nada além de uma tensão sexual e uma amizade recente e complicada. Mesmo assim estava de punhos cerrados, observando outro homem flertar descaradamente com ela. Quando ele mencionou algo sobre mostrar as fotos de Roma que tinha no celular, foi meu limite. Me levantei da cama bruscamente, ignorando a dor lancinante que atravessou minha coxa como uma lâmina. A ferida protestou violentamente, mas eu precisava fazer alguma coisa. Me sentei na beira da cama esperando a dor passar. “Fred!” Ária se aproximou imediatamente, estendendo as mãos para me ajudar. A enfermeira, olhou com um franzido na testa e deixou o quarto. Ela não deveria me ajudar? “Fred, o que você está fazendo? Você não deveria…” “Estou bem.” Cortei, mais brusco do que pretendia, afastando-me de seu toque. Ela recuou como se tivesse levado um tapa. Mas eu não podia aceitar sua ajuda, não quando estava me sentindo assim… feito um idiota. Queria amassar aquele narizinho do tal doutor, assim ele não teria tempo de manter os olhos nela. “Senhor Frederico.” A voz do médico soou profissional novamente. “Realmente não é recomendável que o se levante sem assistência. A sutura ainda está…” “Eu sei perfeitamente qual é o estado da minha sutura. “ Respondi, minha voz carregada de uma frieza que fez o ar do quarto esfriar alguns graus. O médico me observou por um momento, e eu vi o exato instante que ele compreendeu a situação. Um meio sorriso surgiu em seus lábios. “Claro.” Disse ele guardando o prontuário. “Vou deixá-los à vontade. Qualquer coisa é só me chamar.” Ele saiu levando consigo aquele sorrisinho irritante e deixando para trás um silêncio pesado. Ária cruzou os braços e me encarou. “Posso saber que diabos foi isso?” Algo dentro de mim se rompeu. Talvez fosse a fúria, talvez, desejo reprimido ou simplesmente o fato de ter passado o mês inteiro longe dela pensando no beijo que eu não dei. Antes que pudesse processar racionalmente o que estava fazendo, atravessei os poucos passos que nos separavam e a puxei pra mim. Minha boca encontrou a dela com uma força que beirava a violência. Não foi gentil, não foi romântico. Foi pura necessidade primitiva explodindo depois de tanto tempo de contenção. Minha mão se enterrou em seus cabelos, inclinando sua boca para aprofundar o beijo, enquanto a outra pressionava suas costas contra meu corpo. Ela gemeu suavemente contra meus lábios, e esse som quase me destruiu. O gosto dela era tão maravilhoso quanto da primeira vez que nos beijamos, com um toque especial de saudade doce e intoxicante, com um traço de café que ela havia bebido mais cedo. Sua língua encontrou a minha em uma dança desesperada e senti cada fibra do meu corpo reagir àquele contato. “Eu queria isso há muito tempo.” Murmurei contra sua boca, as palavras escapando sem permissão. “Cristo, Ária, eu não deveria… mas eu te quero tanto…” Era agonia e êxtase ao mesmo tempo. Cada segundo daquele beijo era simultaneamente a coisa mais certa e mais errada que eu já havia feito. Suas mãos se agarraram ao meu pijama feio dado pelo hospital, puxando-me para mais perto e eu podia sentir o calor de seu corpo se misturando com o meu. Ela se entregou completamente ao momento, seus lábios respondendo aos meus com uma paixão que combinava perfeitamente com minha fúria e desejo. Não havia hesitação em seus movimentos, apenas a necessidade desesperada que me consumia. Mas então a dor, que por um momento eu esqueci, me atingiu como um raio. Minha perna protestou violentamente contra os movimentos bruscos e o peso, enviando ondas de agonia no meu corpo. Precisei me separar dela com um gemido abafado, uma mão pressionando a perna instintivamente. “Merda!” Xinguei entre os dentes, cambaleando de volta para a cama. Quase caí no chão, ofegante, não apenas pela dor, mas pelo que havia acabado de acontecer. Minha respiração estava descompassada, o coração batendo como se tivesse corrido uma maratona. Ária permaneceu onde estava, congelada no lugar onde eu a havia deixado. Seus lábios estavam inchados e vermelhos, os cabelos desalinhados onde meus dedos haviam se enterrado. Também ofegante, os olhos arregalados como se tentasse processar o que acabara de acontecer. O silêncio era ensurdecedor. Eu pude ver o momento exato em que a realidade voltou a atingi-la, a mesma que agora me encarava como um balde de água fria. Eu havia acabado de cruzar uma linha que não queria. Que não podia. E pelo seu olhar, ela sabia disso também.Acordei antes do despertador tocar. Seis da manhã e eu já estava de olhos bemabertos, olhando para o teto do quarto. Sem Ária ao meu lado, foi bem difícil pegar no sono.Ela dormiu na casa de Sofia, dizendo que a noiva precisava manter um certo mistério. Eunão queria mistério Eu queria ao meu lado sempre. Cinco meses haviam se passado desdeque ela aceitou se casar comigo. Compramos uma casa no mesmo bairro que Sofia eGabriel, logo minha sobrinha nasceria e eu queria estar presente. Cinco longos meses entreobras, decoração, brigas bobas sobre coisas como a cor das paredes da sala ereconciliações ainda mais doces. Cinco meses construindo nosso lar, tijolo por tijolo, sonhopor sonho.E hoje era o dia. O grande dia do resto de nossas vidas.Me levantei e fui até a janela. O jardim já estava perfeitamente arrumado. Migueltrabalhava na cozinha com seus auxiliares preparando tudo. Clarice, dona Mercedes eSônia estavam cuidando dos últimos detalhes da decoração. As flores brancas e l
Senhor Marcelo Granda, Infelizmente, ainda não tivemos a oportunidade de nos conhecermos. Contudo, esta carta vem de um lugar de gratidão. Também de uma verdade que preciso compartilhar com respeito e clareza. Primeiro, quero agradecer pelo que fez quando fui sequestrada. Soube que sua coragem foi um farol quando mais precisei, e isso, nunca será esquecido. Sobre a descoberta de que o senhor é meu pai biológico, devo esclarecer que essa foi parte de mim preenchida apenas por perguntas silenciosas. Sempre imaginei que um dia entenderia de onde vim e devo confessar que me surpreendi com a resposta e com a maneira como essa informação chegou. Talvez o destino seja como uma criança brincalhona. A vida me deu um pai de outra forma, meu avô assumiu esse papel tão importante para qualquer pessoa. O velho Gaspar foi o único pai que conheci e assim permanecerá. Foi ele quem me ensinou os primeiros passos, quem cuidou de mim nos momentos mais difíceis, quem celebrou minha conquistas. Foi e
Finalmente, chegou o grande dia! Eu sabia que Sofia se casaria na Serra, no resort dos pais de Gabriel. Fiquei muito nervosa durante o caminho, mas ali era um lugar muito especial, quase mágico. Nada parecido com o terror que eu havia vivenciado. O resort era de tirar o fôlego, no meio das montanhas verdejantes com vista para os vales cobertos pela mata atlântica. A arquitetura, rústica - chique, combinava perfeitamente com a natureza exuberante ao redor, criando um ambiente ao mesmo tempo, sofisticado e acolhedor. A cerimônia foi marcada para o final da tarde, quando o sol dourado da serra criava aquela luz mágica que os fotógrafos tanto adoram. Os organizadores haviam transformado o jardim principal em uma verdadeira catedral ao ar livre. Arcos de flores brancas e rosas, lírios e samambaias criavam um corredor natural que conduzia até o altar sob uma pérgola coberta por hortênsias e luzes de led delicadas. Mais de duzentos convidados ocupavam as cadeiras de madeira clara
Ária estava recostada no meu peito, parecia tranquila depois de um dia tão longo e difícil. Eu estava exausto, precisando desesperadamente de uma noite de sono. Foi quando ela me disse que sabia que eu escondia alguma coisa e que por isso, ainda não se sentia segura. Mesmo achando que ela também precisava descansar, que não precisava de mais nenhum tipo de emoção, não tive outra saída. Talvez não existisse mesmo um momento certo para revelar esse tipo de coisa. “Ária…” Comecei, minha voz tensa. “Preciso te contar uma coisa. Essa informação me foi dada no momento do seu sequestro.” Senti seu corpo enrijecer contra o meu. “O que foi? Eu sabia. Fala, Fred!” Ela se afastou um pouco para me olhar de frente. Passei os dedos pelos cabelos dela. “Durante o sequestro… o pedido de resgate não foi feito só pra mim. Sua mãe pediu resgate para o seu pai, também.” O silêncio que se seguiu foi tão profundo que eu podia ouvir meu próprio coração batendo. Ela me encarou por longos segundos
Acordei com uma sensação estranha, como se estivesse flutuando entre sonho e realidade. Havia uma dor surda na minha testa e minha boca estava seca como lixa. Por um momento não sabia onde estava. As paredes brancas, o quarto claro, vozes ao longe… tudo parecia irreal. Uma mulher me tocou por algum motivo. O pânico me atingiu como uma onda. Por um segundo voltei aquele quarto sujo, as cordas, a voz de Thiago nos meus ouvidos. Tentei me sentar rapidamente, mas meu corpo não reagiu como eu esperava. “Calma, calma!” A mulher sussurrou, colocando uma das mãos no centro do meu peito e a outra no meu ombro me mantendo no lugar. “Você está segura. Está no hospital. Olha em volta. Acabou. Acabou.” Ela colocou um pouco de água no copo e me ofereceu. Aceitei ainda assustada. “Beba devagar. Sou a enfermeira Sandra.” Ela continuou verificando o soro que gotejava no meu braço. “O médico te deu um tranquilizante, então talvez você esteja um pouco desnorteada. Mas isso passa logo.” Foi e
O helicóptero cortava a madrugada com um ruído ensurdecedor que reverberava emmeu peito. Através dos fones de ouvido, ouvia as coordenações finais entre as equipes,Polícia Federal, Civil Militar e minha própria equipe de segurança. Uma força tarefa incrívelque trabalhou intensamente sem parar até encontrar a minha mulher, que ao que tudoindicava estava em um sítio abandonado deplorável em uma zona rural na Serra do Rio deJaneiro.“Cinco minutos para o LZ” Anunciou o piloto através do interfone. O plano era pousara uns dez quilômetros de distância e completar o percurso de carro. Não podíamos arriscarque eles percebessem o barulho dos helicópteros. Olhei pela janela, as montanhas daregião serrana se estendiam abaixo de nós como um mar verde ondulado, pontilhado porclareiras e pequenas propriedades rurais. O dia começava a despontar. Era necessáriocorrer para aproveitar a pouca luz. Ao meu lado, Marcos conferia o equipamento pelaterceira vez. Coletes, armas, rádios, armas. Mi







