Share

Três

Author: Laura Ivanish
last update publish date: 2026-07-21 00:55:51

Yasmin

Eu saio do banheiro ainda com a sensação de que o ar não entra direito nos pulmões. Tiro o pijama sem pressa, sem realmente prestar atenção no que estou fazendo. O aperto no peito não diminui, só muda de lugar, como se procurasse um ponto novo para incomodar. Passo a mão pelo cabelo, tentando organizar não só os fios, mas os pensamentos, e encosto a porta atrás de mim lentamente.

Eu sei que não posso continuar assim, não dá mais. Ficar aqui, vivendo à custa dos meus pais, ocupando um espaço que abandonei por escolha, me corrói de um jeito que não consigo mais ignorar.

A vergonha é constante, silenciosa, mas sempre presente. Eles me acolheram quando eu não tinha mais nada, quando eu mesma me destruí, e, ainda assim, sinto como se estivesse devendo algo impossível de pagar.

Meu olhar cai sobre a cômoda, nos porta-retratos, e travo por um segundo. Na primeira foto, Mila ainda é uma criança, com o sorriso largo e despreocupado, enquanto eu, mais velha, estou ao lado dela com um braço apoiado nos ombros finos.

Na segunda, quinze anos: o vestido, a felicidade estampada no rosto, e eu ali, orgulhosa, presente. A última foto foi última vez que estivemos juntas daquele jeito, antes de eu ir embora, de a abandonar.

Minha garganta aperta e meus olhos ardem, mas não choro. É como se a dor já tivesse ultrapassado esse ponto.

— Eu sinto tanto a sua falta — murmuro, quase sem voz.

Eu nunca imaginei que ela fosse se perder assim. Nunca. E talvez esse tenha sido o meu maior erro.

Uma batida leve à porta me faz piscar, voltando para o presente.

— Yasmin? — A voz da minha mãe vem suave, mas carregada de cuidado. — Está tudo bem?

Eu viro o rosto automaticamente para o relógio na mesinha de cabeceira. Quase onze e meia. Meu estômago revira de leve. Dormi demais, de novo. Os calmantes da noite anterior ainda pesam no meu corpo, deixando tudo mais lento, mais arrastado. Isso está se tornando frequente demais e sei que não deveria.

Eu nunca dei trabalho para eles. Fui uma criança tranquila, uma adolescente responsável, e agora sou exatamente o oposto disso.

— Está sim — respondo, forçando estabilidade na voz. — Pode entrar, a porta está aberta.

Ela abre devagar, como se sempre tivesse medo de me encontrar quebrada demais. E talvez tenha.

— Bom dia — digo, tentando esboçar um sorriso. — Desculpa, eu perdi a hora.

Ela me observa por um instante, avaliando mais do que eu gostaria, e então entra.

— Está tudo bem mesmo? — O olhar dela passa pelos porta-retratos e eu sei exatamente o que está pensando. — Não fique se martirizando, minha filha, você não tem culpa.

Engulo em seco. Eu tenho culpa, mas estou sem forças para discutir isso agora.

— Está tudo bem — repito, mais baixo.

Ela se aproxima um pouco mais, com aquele cuidado que só ela tem.

— Vai se arrumar e comer alguma coisa. Você nem jantou ontem.

— A senhora está me vigiando? — Levanto uma sobrancelha, tentando aliviar o clima.

Ela ri, um riso leve, acolhedor.

— Não estou vigiando. Estou cuidando de você.

Isso aquece e dói ao mesmo tempo.

— Obrigada — digo, sincera. Respiro fundo, tentando me manter presente. — O papai já foi trabalhar?

— Foi. — Ela assente. — Mas está preocupado.

— Com o quê?

— O administrador da fazenda pediu demissão, do nada. Seu pai vai ter que resolver tudo por lá, e rápido, você sabe como ele fica com essas coisas.

Eu sei. Meu pai sempre foi organizado, metódico, e gosta de ter controle, de entender cada detalhe.

A fazenda. A palavra acende algo distante na minha memória. Lembro-me vagamente das vezes que fomos para lá, anos atrás. Não eram muitas, mas eram boas: ar puro, silêncio, uma sensação de espaço que não existe na cidade. Morro Alto. Eu demoro um segundo, mas o nome vem, o lugar onde meus pais sempre sonharam em viver de verdade. A produção de suínos, principalmente. Gado, galinhas, mas os porcos sempre foram o foco.

— Eu não vejo a hora do seu pai se aposentar — minha mãe comenta, suspirando levemente. — Ele quer tanto ir para lá de vez.

Fico em silêncio por um instante, pensando, e então a ideia surge, inesperada, quase absurda. Eu nem entendo direito de fazenda, nada técnico, nada prático. Minha vida sempre foi escritório, números, planejamento, ainda assim, talvez…

— Mãe — começo, devagar.

Ela me olha.

— O que você acha de eu ir para a fazenda por um tempo?

— Como assim? — Ela pisca, surpresa.

— Ficar lá. Ajudar o papai, ver o que precisa para ele não ficar preocupado e nem ter que ficar indo para lá. — Respiro fundo, tentando organizar o que estou dizendo enquanto falo. — Eu sei que não entendo muito, mas posso aprender. Posso pelo menos tentar organizar alguma coisa, ajudar com gestão, sei lá…

Ela continua me olhando, claramente pega de surpresa.

— Você não precisa se preocupar com isso, Yasmin. Se preocupe em ficar bem.

— Eu sei — interrompo, com mais firmeza do que eu esperava. — Mas quero tentar.

O silêncio se instala por um segundo.

— Eu não posso ficar para sempre aqui desse jeito. — Minha voz sai mais baixa agora, mas mais honesta. — Preciso fazer alguma coisa com a minha vida. — Seguro o olhar dela, mesmo com tudo dentro de mim tremendo. — E talvez isso seja um começo.

Continue to read this book for free
Scan code to download App

Latest chapter

  • Me Apaixonei por um Cowboy Arrogante   Oitenta e quatro

    Fernando A música começa suave, lenta e perfeita. E, pela primeira vez desde o início da festa, tudo ao redor parece desaparecer e só existe Yasmin em meus braços. Eu deslizo uma mão por sua cintura enquanto a outra segura a dela e, por um instante, apenas observo a mulher que se tornou meu lar.O vestido branco parece ter sido feito para ela, com os detalhes delicados da renda, os cabelos presos de forma elegante, com algumas mechas escapando e moldando seu rosto, os olhos brilhando e o sorriso... aquele sorriso que me derrubou muito antes de eu admitir que estava apaixonado. Ela ergue o rosto, os olhos encontram os meus e eu sinto exatamente a mesma coisa da primeira vez que a vi sorrir de verdade. Uma sensação absurda de que o mundo ficou melhor só porque ela existe.— O que foi? — ela pergunta baixinho.— Nada. — Eu balanço a cabeça.— Mentira. — Ela arqueia uma sobrancelha.Rio, porque ela me conhece bem demais.— Eu só estava pensando no quanto você está linda.Ela dá

  • Me Apaixonei por um Cowboy Arrogante   Oitenta e tres

    Yasmin Se alguém me dissesse há dois anos que eu estaria aqui, eu teria rido. Provavelmente, teria achado cruel, uma piada de mau gosto, porque naquela época eu não conseguia enxergar futuro, felicidade ou amor. Eu sobrevivia um dia de cada vez carregando perdas, culpa e cicatrizes que acreditava que nunca desapareceriam.Mas a vida tem uma forma curiosa de nos surpreender. Às vezes ela quebra tudo e, depois, quando menos esperamos, começa a reconstruir de um jeito mais bonito e mais verdadeiro.Hoje, estou parada diante da janela observando as luzes espalhadas pelo jardim lá fora. O sol já desapareceu, a noite tomou conta do céu e o jardim inteiro parece saído de um sonho, com cordões de luzes douradas iluminando as árvores, música tocando ao fundo e risadas ecoando por toda parte. Pessoas dançam, conversam, brindam e celebram a nós, a nossa história, a nossa felicidade.Meus dedos deslizam inconscientemente pela aliança em minha mão. O ouro brilha sob a luz suave do quarto, e l

  • Me Apaixonei por um Cowboy Arrogante   Oitenta e dois

    Yasmin O céu de Goiânia está limpo. Depois da tempestade dos últimos dias, das lágrimas, dos medos e das verdades que vieram à tona, o mundo parece mais silencioso e mais calmo. O vento balança suavemente a copa das árvores ao redor do cemitério, e eu permaneço parada diante da lápide, observando o nome gravado na pedra.Mila Constantino.Por muito tempo, esse nome significou apenas dor, luto, culpa e saudade. Uma ferida que nunca cicatrizava completamente. Mas hoje existe algo diferente. A dor continua ali, sempre vai continuar, só que agora ela divide espaço com amor, gratidão e uma parte dela que continua viva.Engulo em seco e finalmente começo a falar.— Oi, Mila. — Minha voz falha imediatamente, como sempre acontece quando penso nela. Eu sorrio entre as lágrimas. — Faz tanto tempo.O vento sopra devagar, movendo alguns fios do meu cabelo, e por um instante consigo imaginá-la revirando os olhos com impaciência, dizendo para eu parar de chorar, exatamente como fazia quando é

  • Me Apaixonei por um Cowboy Arrogante   Oitenta e um

    Yasmin A chuva continua caindo sobre nós, forte e fria, mas eu mal sinto, porque existe uma dor muito maior ocupando espaço dentro do meu peito. E também existe amor, tanto amor que chega a assustar.Fernando está diante de mim com os ombros curvados, os cabelos encharcados grudados na testa e os olhos vermelhos. Ele sempre pareceu tão forte, seguro, capaz de enfrentar qualquer coisa, mas agora eu vejo o homem por trás disso tudo. O homem que teve medo e que entrou em pânico, o homem que ama uma menina de cinco anos mais do que ama a própria vida. O homem que me ama.— Não se afaste de mim. Por favor, Yasmin — implora, com a voz falhando.— Fernando... — Uma lágrima escorre pelo meu rosto.— Eu sei que errei, eu sei. — A voz dele quebra — Eu sei que decepcionei você, eu sei que machuquei você. Eu sei. — Ele passa a mão pelo rosto molhado. — Mas eu preciso que você entenda uma coisa.Eu permaneço em silêncio, porque não confio na minha voz.— Eu não queria fugir de você. Não

  • Me Apaixonei por um Cowboy Arrogante   Oitenta

    FernandoA chuva cai forte sobre o para-brisa. As palhetas trabalham sem descanso, indo de um lado para o outro, mesmo assim, a água parece engolir tudo à minha frente. A estrada de terra está escura e escorregadia, o céu parece desabar sobre Morro Alto.Minhas mãos apertam o volante com força, porque eu não estou indo embora, não estou fugindo. Yasmin precisa saber a verdade e tem que ser por mim.Eu estava disposto a fugir da mulher que amo, da única mulher que conseguiu entrar no meu coração, da família dela, de pessoas que sequer tinham feito algo contra mim, tudo por causa do medo. E agora esse medo parece menor do que a vergonha que sinto de mim mesmo.Vejo uma caminhonete vindo em minha direção e parando mais à frente, atravessada na estrada. Meu coração dispara. Eu reconheceria essa caminhonete em qualquer lugar. Freio imediatamente e desço antes mesmo do motor desligar completamente, com a chuva encharcando minha roupa em segundos. Então eu a vejo vindo na minha direção c

  • Me Apaixonei por um Cowboy Arrogante   Setenta e nove

    Yasmin As lágrimas da minha mãe continuam caindo sem controle, silenciosas e pesadas. Meu pai permanece ao lado dela, com a mão apoiada em seu ombro, como se precisasse segurá-la no lugar. Então eu me agarro a essa imagem, a ideia de que eles estão enganados. Porque a outra possibilidade é absurda. Absurda demais.— Yasmin — Renatinho, que esteve em silêncio durante todo esse tempo, fala.Eu me viro e o vejo perto da porta, com os braços caídos ao lado do corpo. Seu rosto está pálido e os olhos estão carregados com uma tristeza que eu nunca vi nele. Pela primeira vez desde que o conheço, ele não parece o garoto que está sempre fazendo piadas, provocando Fernando ou transformando qualquer situação em brincadeira. Ele parece alguém que carrega um peso enorme, e isso faz meu estômago afundar.— O quê? — pergunto, com a voz falhando.— É verdade — responde depois de alguns segundos.Meu coração tropeça dentro do peito, como se tivesse tropeçado em algo invisível.— O que é verdade?

More Chapters
Explore and read good novels for free
Free access to a vast number of good novels on GoodNovel app. Download the books you like and read anywhere & anytime.
Read books for free on the app
SCAN CODE TO READ ON APP
DMCA.com Protection Status