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Dois

作者: Monik Régis
last update publish date: 2026-10-29 21:09:25

Guerreiro

Bato devagar no meu baseado uma tragada demorada. Estou encostado na parede de uma casa, calado como sempre. A fumaça do baseado sai entre meus lábios.

Meu olhar sério por baixo do meu boné analisa Patatá e Ratinho comentando alguns assuntos, algumas palavras entram no meu ouvido e saí no outro de tão desinteressantes.

Dois dias passaram desde o assalto e nesse momento estamos na comunidade da Pedreira. Minha vida sempre girou em volta do crime, desde menor atuando em vários cargos. Na hierarquia sou considerado como um 157 mais amplo possível.

— A crentona do corpo quente! — a voz do Patatá soou alto, sentado na calçada.

Tiro meu olhar do baseado, mirando minha visão na garota, que desce ainda em uma distância grande.

Em passos lentos seu corpo se move com uma bíblia em suas mãos. A saia molda até os joelhos, marcando a curva do corpo dela e blusa social por dentro, tampa a parte de cima do peito. Cabelo cacheado e enorme balançam na medida dos seus passos. Olhar baixo, ela está envergonhada, parceiro.

Acompanho seus passos com meus olhos. O exato momento que ela passa em frente, percorro minha língua por meus lábios. Abaixo a mão onde seguro o baseado.

Minha atenção passa pela lateral do seu rosto, nariz empinadinho, pele lisa mesmo tendo o cabelo cacheado cobrindo seu rosto.

— Fala tú, crente, mas você é doidinho pra se envolver…— Ratinho gasta sarcástico.

— Não estou a fim de ver a visão da amazônia, deve estar toda... cheia. Bom que deve ser apertadinha.

Eles soltam umas risadinhas irônicas, fazendo a mandada trazer os olhos pelo canto dos olhos.

Minha visão se encontra direto com seus olhos. Nossos olhos se encontram com uma fixação única. Sua atenção é retraída em uma íris de quem está brava, de imediato muda a atenção para frente novamente ao perceber minha atenção diretamente nela.

A visão agora que tenho é dela de costas, dessa vez a saia não marca tanto seu quadril, mas tenho a visão do cabelão cacheado na cor clara sendo refletido pela luz do sol. Olho pelos próximos minutos até ela tomar uma distância pela ladeira, entrando na primeira rua sem olhar para trás.

— Qual é o nome da garota? — minha voz rouca pergunta.

— Qual foi, não é do seu porte não. — Ratinho diz.

— Eu te perguntei o nome — ergo o olhar na sua direção. Fito seu rosto e seu corpo quase do meu lado.

Sua pele negra reflete sobre o sol das cinco horas da tarde desta sexta-feira.

— Ela é a crente, filha do pastor do beco do lado, estou ligado que é Jéssica. — Patatá avisa na frente.

Suspendo minha mão esquerda, fazendo um joia na sua direção e apago o baseado com a outra mão, guardo-o no bolso junto com o isqueiro.

Mulher comigo são as interesseiras, deixo explícito o único encontro e quando me der vontade novamente, eu aciono, caso contrário não quero contato. Não me prendo nessas paradas, odeio dar satisfação pra mulher, mané. Na minha criação aprendi dessa forma, meu pai me influenciou desde quando eu era criança. Cresci revoltado por ter que aprender cada ato dele com a minha mãe, mas cresci com isso em mente. Ambiente de lar é um aprendiz.

Sou errado. Sou todo fechado para me expressar, quando falam que bandido não tem sentimentos acreditem, não tem! Sem massagem, sem maquiagens. Sou 157 e 33. Tudo que eu acompanhei nessa vida jamais desejo para alguém.

Afastado da minha mãe e da minha irmã. A falta de opção e oportunidades me levou a essa escolha. Talvez minha arrogância também me afaste de perto da vida delas, e assim eu prefiro.

O crime não influenciou em nada na minha mente cabeça, sempre fui assim. Eu era moleque fechado, mais briguento e sempre envolvido em confusões, cabeça ruim desde da época que estudava. Primeira peça, primeiro assalto e ódio na mente, foi nessa que subiu mais um com a balaclava na cabeça.

Doze anos e me envolvendo com paradas erradas. Achava maneiro demais, porém, não sabia que essa vida é puro sangue, o crime é onde não tem amor, nem compaixão a ninguém. Tem regras e superiores, desrespeita que você é cobrado. No certo ou errado, não tem meio termo. Bandido que é bandido não pensa em vacilar.

Facção perigosa. Já participei de vários tiroteios onde minha mãe ligava desesperada em choros, tentando entender se eu estava vivo. Como falei, eu prefiro ela longe da minha vida.

Geralmente tentam a sorte, mas o azar é o certo para todos. Incentivo por alguém que eu considerava demais, meu pai.

Quantas vezes avistava cenas onde os policiais entravam dentro de casa procurando pelos entorpecentes dele, mas não encontravam nada, só minha mãe tentando defender o marido dela. No final sempre apanhava pelas mãos de policiais, essa tinha sido a escolha dela. No final acabou que meu "pai" pegou quinze anos de cadeia desde os meus quinze anos de idade.

Um dia você é caçador, no outro é a caça.

Mexo minhas mãos do bolso da minha bermuda quando avisto um moleque mais novo descendo a nossa direção. Seu rosto erguido na minha direção é desviada até o Ratinho e o Patatá.

— Aconteceu um assalto dentro da favela. O moleque está apanhando muito lá em cima. — o menino do vulgo Pequeno aponta com a cabeça, passando a mão no peitoral sem camiseta.

— Manda eles tirar a perna dele pra servir de aviso nos becos. — murmuro, Pequeno trás o rosto na minha direção dessa vez, ficando calado.

Como eu mermo disse, o tráfico tem leis, vai de cada um aceitar ou se dar mal.

— Boto fé nisso.— Patatá abre um sorriso entre seus lábios, olhando na minha direção. — Torturar até não querer mais, rapá. — Gargalha sarcástico. — Vai aprender a roubar com uma perna agora, ô igual o saci-pererê, vai ficar pra lenda esse aí. — arrastou o assunto, imitando um saci com uma só perna.

— Vamos ir até lá. — Ratinho avisa para o Patatá.

— Já é, vou com você. — Olho Patatá confirmar. Ele leva as duas mãos até o pescoço, tirando o cordão onde tem a chave da moto 160.

— Vou subir com você, Patatá — Pequeno sobe na garupa do Patatá assim que ele confirma.

O barulho da mota sendo ligada invade minha audição.

— Daqui a pouco estou lá — ouço Ratinho aumentar seu tom de voz quando Patatá acelera a moto pela ladeira. — Sobre aquela garota... — Se aproxima do meu encontro.

Rolo os olhos.

Seus olhos castanhos vem na minha direção. Franzo minhas sobrancelhas e travo meu maxilar. Aguardo qualquer palavra que saia da sua boca.

— Ela é menina, pô. — Fala.

— Estranho seria se fosse homem. — Reviro os olhos. — Onde quer chegar com esse assunto?

— Pra você não se envolver com uma garota assim.

— Tu acha que eu tenho cabeça pra ficar de papinho com uma garotinha assim? — olho no seus olhos.

— Estou apenas aconselhando como um parceiro.

— Tá na Disney? Volta pra realidade aqui, comunidade, crime. Acorda pra vida, rapaz. — resmungo, pego a chave da minha xre branca e tiro minha mão esquerda do meu bolso com a chave na palma da minha mão. — Anda vendo muito filme mermo. — falo mais baixo.

Caminho em direção à minha moto e nego devagar, subindo na minha moto.

Deixo ele lá mermo, sem ouvir um assunto a mais que for. Ajeitando meu corpo na minha moto, levo a chave na ignição para ligar. Antes de sair tiro meu celular do meu bolso e desbloqueio o celular na cor preta. As mensagens da minha irmã Rafaela.

Rafaela:

A mamãe está muito estranha ultimamente, cara.

Rodrigo?

Ela não fica mais dentro de casa, sai de manhã e chega de madrugada...

Assim que ver me retorna!

Guerreiro:

O filho aqui sou eu, não ela.

Ela tem 49 anos, sabe o que faz.

Fé pra tu aí.

Bloqueio a tela do celular, guardando-o no meu bolso novamente. Viro o boné pra trás antes de sair com minha moto pela favela.

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