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Três

Author: Monik Régis
last update publish date: 2026-10-29 21:12:03

Jéssica

— Entra, a porta está aberta, senhor não sou digno, mas vim te adorar. Entra, a porta está aberta, quero que comigo venhas cear. Entra senhor, Jesus, em meu coração, vem inundar meu ser com tua presença, quero sentir o amor que nunca tive, porque não quero ser igual, quando amanhecer... — De olhos fechados ouço quando a música e todos cantando servem a oração do senhor.

Com minhas duas mãos contra meu peito abro um sorriso fraco e de muita bondade no coração. Abro meus olhos devagar, obtendo o contato com a claridade da igreja. Em pé no banco, engulo o acúmulo da minha própria saliva pela secura.

Falar sobre Jesus é algo tão bom, é algo que faz nossos corações saberem o quanto precisamos dele. Eu sigo, eu sou, eu louvo, eu adoro! Mas eu entendo que cada um tem sua escolha em relação a religião, nem todos pensam iguais. Porém, para entrar aqui eu me sinto bem a cada louvor e adoração, eu sinto o contato dele na minha vida, ele vive em mim.

— Merece cantar com essa sua voz perfeita. — A voz do Alan é direcionada a minha direção. — Linda como a própria dona.

— Obrigada — respondo, olhando de canto para ele ao meu lado, e seguro a bíblia em mãos.

Alan é o tipo de rapaz certo aos olhos de qualquer um, porém, eu não acho isso tudo... creio que todos sem seus defeitos e ele tem o dele. Mesmo ele sendo meu amigo, eu o conheço perfeitamente.

— Será que não dá pra nós marcamos de nos vermos hoje mais tarde? Levo você pra tomar um açaí. — Diz.

— Tudo bem, mas só que primeiro preciso estar com meus pais. Eles tem a mania de tomar o café da tarde juntos. — analiso ele confirmar levemente.

— Vou te esperar.

— Tudo bem.

O canto acontece por mais alguns minutos. Quando o louvor é encerrado, todos nós saímos de dentro da igreja

— Vou pegar o caminho de casa, mais tarde te mando mensagem, pode ser? — Alan avisa.

— Pode.

— toma cuidado, qualquer coisa me liga. — Despeço com um beijo no rosto.

Hm. Alan como sempre preparado com meus passos pela favela.

Mas meu caminhar é tranquilo em direção à minha casa. Bom, estava sendo tranquilo até eu me encontrar com um grupo de rapazes. O cheiro de maconha paira sobre o ar da rua. O medo e a vergonha intensificam as batidas do meu coração.

Em passos calmos começo a descer a ladeira, implorando para minha respiração acalmar. Prestes a passar em frente, um comentário nojento atinge minha audição.

— A crentona do corpo quente.

Não retruco, não falo nada, apenas sinto um olhar emanando sobre o meu corpo, além do mais, são três rapazes me olhando, mas a minha energia é como se fosse sentida por apenas um deles.

Viro meu rosto um leve ângulo. Dessa vez meus olhos são fixados diante de um rosto sério, maxilar levemente travado por baixo de um boné preto e eu estudo: Seu baseado entre seus dedos. Camiseta na cor cinza e uma bermuda escura. Meu estômago simplesmente atrai um gélido, nossos olhares se encontram por um simples triz de segundos. Mesmo demonstrando raiva na minha íris, seus olhos me examinam.

Traficantes.

Volto minha atenção nos meus passos conforme meu cabelo cacheado balança e continuo andando com a sensação de ser apalpada só pelo olhar escuro que fica guardado na minha mente.

Não o conheço, mas pela forma que o observei, determino que seja um traficante, assim como os outros que estavam com ele. Complexo da pedreira é cheia de homens assim. Vários saem em sites de fofocas e aqui é repleto por eles.

(...) 6:00pm

São seis horas da tarde e o barulho da discussão torna algo mais tenso.

— Já falei pra você parar de seguir isso! — A voz do meu pai Marcos exala pela casa mais uma vez.

— Blá... Blá...

Essa é Jasmin, minha irmã. A ovelha negra do ninho como meu pai diz.

Jasmin, respeita seu pai. Imagino como deve ser a próxima frase dentro da casa. Joana, minha mãe.

— Jasmim, respeita o seu pai.

Eu disse. Minha mãe é autoritária, mas nada adianta.

— Eu só quero pelo menos um minuto de silêncio, é meu jeito de ser, é minha religião. Já discutimos isso várias vezes, que saco! — Jasmin deixa o resto do pão que estava comendo em cima da mesa e levanta, arrastando a cadeira para trás.

O barulho da cadeira caindo no chão ecoa sobre meu ouvido. Jasmin olha para o meu rosto apenas mais uma vez, sua expressão é como se pedisse desculpas antes de sair em direção ao seu quarto no corredor.

Eu convivo isso dentro de casa pelo meu pai pastor e minha irmã da religião candomblé.

Dentro da nossa igreja são várias palavras bonitas do meu pai por ser pastor. Hoje com seus 57 anos de idade, Marcos convive com a certeza que seria pastor, e assim ele conseguiu..

Vai de qualquer uma religião, as escolhas de cada uma das suas filhas, mas dentro de casa ele é não tudo isso, tem preconceito e intolerância. Não aceita de modo algum ser tocado em assuntos de outras religiões, bebidas e homens. Eu não concordo com isso, pois nossa religião é algo maravilhoso, assim como qualquer outra, todos merecem respeito.

Sou a certinha da minha família, aquela que nunca deu decepção e segue todos os cultos. Talvez apenas por medo de ser negada por meus pais que são persistentes na religião. Sou a mais nova, a que nunca fez algo de errado na vida, mas também não sou santa. Já perdi minha virgindade há um ano atrás, mesmo sem o conhecimento e nunca ter ouvido essas coisas aqui dentro. O que sei, sempre aprendi com minha irmã e amigas.

— Vamos comer, Marcos. — Minha mãe diz.

— Estou cansado disso. — apenas ouço ele levantar da cadeira e deixando as coisas em cima da mesa, saindo pela porta de casa.

Em silêncio eu e minha mãe tomamos o resto do café, praticamente engolindo a força.

Resolvo tomar um banho rápido, colocando um vestido mais solto e simples, meu cabelo seco todo pra trás e solto, antes de sair de casa um desodorante e um hidratante.

Não foi tão difícil sair de casa pelo clima que ficou, então rapidamente consigo me encontrar com o Alan.

— Foi difícil sair de casa?

— Depende... Eles estavam discutindo novamente.

— Você está bem? — Confirmo, trazendo uma colher do meu açaí até minha boca, desfrutando do gosto bom. — Conversei esses dias com minha mãe... Vocês precisam se juntar mais e um tentar entender o outro.

— Eu sei, mas como tentar explicar isso ao meu pai?— Ergo meu olhar, fitando-o. — Não tem como.

— Sua irmã também dá muito trabalho, Jéssica.

— Mas o que fazer com ela? Só ele expulsar ela de casa, o que acho que não vai demorar muito.

Jasmin também é ser humano e só acho que ela é "rebelde" hoje em dia pela falta da liberdade na adolescência, assim como eu, hoje com os vinte de três anos dela, faz o que dá na cabeça, no dia seguinte são vizinhos fofocando para os meus pais.

Talvez essa forma de vivência limita um pouco, e descontamos quando somos mais velhas.

— Está sujo aqui, Jess.— Sinto a mão do Alan no meu rosto e seu dedo deslizar sobre o canto da minha boca, limpando.

Afasto levemente, sorrindo levemente para ele, envergonhada. Passo minha mão em seguida, tentando limpar.

— Estava sujo.

— obrigada. — agradeço.

— Vou pagar o açaí. — Dito isso, ele selevanta até o balcão do lado de dentro.

O vento fresco b**e contra o meu corpo, mantenho minhas pernas cruzadas, levando meu olhar para a rua quase escura.

Sentada na cadeira, consigo analisar através da iluminação emanando apenas um rapaz... É o mesmo de mais cedo.

Nossos olhos se encontram, meus olhos sustenta seu olhar por baixo do mesmo boné preto. Ele está olhando na minha direção. Seus olhos no meu.

Na minha direção…

Na minha direção?

Na minha direção! Um certo medo aflige minha mente, percorro minha língua por meus lábios, apertando minhas pernas uma na outra. Meu olhar oscila para onde a arma é exposta na sua cintura, o que me causa um certo arrepio por todo meu corpo. Ele está sem camiseta, está jogada no seu ombro.

Desvio meu olhar para frente, orando mentalmente para o Alan chegar urgente. Meu santo me proteja...

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