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Capítulo 7

Author: Aquino
last update publish date: 2021-08-05 10:25:32

Lara

É muito bom requebrar o esqueleto e sentir que, por algumas horas, eu não sou a filha decepcionante de ninguém. Mas, mesmo no meio da pista, minha mente não para. Eu quero muito entender o que está acontecendo entre a Hadiya e o Sr. Martinez. É uma coisa estranha; eles mal se conhecem, mas ele a protege com uma ferocidade que não parece ser apenas de um patrão zeloso.

Graças a Deus ela encontrou aquele "senhor gostoso" para se preocupar com ela, porque, se dependesse da sorte, a coitada estaria perdida. Só espero que esse excesso de proteção não seja uma gaiola dourada. Hadiya já viveu em gaiolas demais.

Já estava de banho tomado, pronta para encarar a maratona: café da manhã com a "família feliz", trabalho na clínica e, depois, a faculdade. Meu dia é um moedor de carne, mas eu amo o que faço. Estudar odontologia é o meu passaporte para a liberdade.

Desci as escadas e o clima na cozinha estava estranhamente animado. Assim que coloquei os pés no último degrau, o silêncio caiu como uma cortina de ferro. Aposto minha coleção de sapatos que estavam falando de mim, da minha roupa, das minhas saídas ou da minha "falta de rumo". Eu nem ligo mais. A opinião deles sobre mim é como barulho de fundo: irritante, mas ignorável.

— Bom dia, gente! — soltei, com um sorriso que não chegava aos olhos.

Peguei uma maçã e nem dei tempo para ninguém abrir a boca. Saí antes que o primeiro sermão fosse proferido. Só assim evito me estressar. Aprendi que, nesta casa, o silêncio é a minha melhor arma. É melhor se calar do que gastar saliva em discussões que não levam a lugar nenhum e acabar de mau humor o dia todo. Deixa a Lara linda, bela e focada no futuro, longe das provocações da dona Marcia, por favor!

Cheguei na clínica e mergulhei nas tarefas. Organizar prontuários, esterilizar instrumentos, preparar a sala... o trabalho manual ajuda a acalmar meus nervos. Mas, no fundo, eu só conseguia pensar no Matheson. Aquele negro gostoso tomou conta até dos meus sonhos. Tive um sonho com ele que, senhor amado, acordei sentindo a pegada dele na minha cintura.

Cacete, o homem me deixou molhada com apenas uma fantasia inconsciente! Misericórdia! Não sei o que está acontecendo com o meu corpo, ou melhor, com a minha vagina, que parece ter desenvolvido uma obsessão própria por um homem que eu jurei detestar. É o clássico "ódio que vira tesão", e eu estou odiando o quanto estou gostando disso.

Hoje estou até desanimada para a faculdade, o que é um pecado. Estou no último ano de odontologia e logo, logo serei a Dra. Lara. Coisa boa! Faço o que gosto e não o que minha mãe queria. Ela tinha a ideia fixa de que eu deveria ficar enfurnada no mercado da família, servindo de caixa.

— A Leila já cuida do administrativo, você podia ficar no caixa para termos alguém de confiança lá — ela costumava dizer, como se estivesse me oferecendo a presidência de uma multinacional.

Na cabeça louca dela, eu deveria abandonar meus sonhos para economizar o salário de um funcionário estranho. Eu nem me dava ao luxo de responder a um absurdo desse. Tirar o emprego de alguém que realmente precisa para me colocar em um lugar onde eu seria infeliz? Nem em um milhão de anos.

Estava perdida nesses pensamentos quando uma voz grossa e aveludada me trouxe de volta:

— Bom dia, Lara!

Era um dos dentistas da clínica. Olhei para cima e encontrei o sorriso impecável dele.

— Bom dia, Doutor.

Percebo que ele fica me olhando demais. Sinceramente, acho que esse homem tem algum problema de visão ou de noção. Já falei mais de mil vezes que não vou sair com ele. Sim, ele é muito gostoso, mas eu tenho uma regra de ouro: não misturo trabalho com prazer. Não quero drama no escritório nem fofoca de corredor. Preciso cuidar da minha carreira, especialmente hoje, que tenho uma prova que promete me deixar com os neurônios fritos.

A hora de ir embora finalmente chegou, mas o cansaço só aumentou. Estudar é bom, mas o último ano suga a alma da gente. Já comecei a planejar meu sábado: vou para a boate e vou provocar o Matheson até ele perder a linha. Lara, para de pensar nesse homem! Foco na realidade.

Mandei uma mensagem para a Hadiya para saber como ela estava depois do despejo cruel daquela Maria. Aquela velha tem um monte de casas de aluguel e, mesmo assim, quis o teto da minha amiga. Se a Maitê tivesse passado a casa para o nome da Hadiya... mas a coitada era tão idosa que nem pensou na maldade dos parentes.

“Oi amiga, como você está? Melhorou?”

A resposta veio rápida, mas me deixou preocupada:

“Oi amiga, estou no restaurante, mas não estou me sentindo bem... Muita dor de cabeça e acho que estou com febre. Vou falar com o meu pecado Martinez para ver se ele me libera.”

Fiquei possessa.

“Que merda, Hadiya! Como você vai trabalhar passando mal? Vou aí agora te levar ao médico!”

“Não precisa, Lara. Eu falo com ele. Depois te aviso. Beijos.”

Fiquei apreensiva. Morro de medo de a Hadiya se isolar novamente, de cair naquele buraco de tristeza onde ela se enterrava antigamente. Mas, se no próximo fim de semana ela estiver bem, nós vamos para aquela boate e eu vou beijar muito. Quero transar até me cansar. Que mal tem em querer ser bem fodida? Poxa vida... será que não encontro um homem que meta gostoso e me faça esquecer até meu CPF?

Saí da faculdade desnorteada depois de uma prova infernal. Para completar, hoje vim de ônibus. Que treva. Ir de pé, com um bando de marmanjo tentando "encostar" na gente, é o teste definitivo de paciência. Consegui um lugar, cochilei e quase perdi o ponto, mas cheguei em casa.

Ao entrar, dei de cara com a "família perfeita" e o namorado da minha irmã, o Rodrigo. O cara só falta me lamber com os olhos. É nojento.

— Boa noite, família! — disse, com o meu melhor sorriso irônico.

— Boa noite, cunhada! Como foi seu dia? — o tarado respondeu, ganhando um olhar mortal da minha irmã.

— Foi ótimo, Rodrigo. Obrigada por perguntar — respondi, só para ver a Leila espumar de raiva.

Se eu fosse uma pessoa ruim, pegaria o namorado dela só para provar que ele não vale nada. Mas tenho pena dela. Ela atura esse nojento, provavelmente por pressão da minha mãe que o vê como um "bom partido".

Subi para o meu quarto e a primeira coisa que fiz foi trancar a porta. Tenho um motivo: já peguei o Rodrigo tentando me espiar enquanto eu me trocava. Vi o reflexo dele pela fresta da porta e, desde então, meu quarto é um forte.

Tomei um banho demorado, lavei o cabelo e o sequei, tentando tirar o peso do dia dos ombros. Mas, assim que me deitei, o silêncio trouxe a imagem dele de volta. O terno escuro, a pele brilhante, o beijo que quase me fez desmaiar no banheiro da boate.

Matheson.

Pronto, estou ficando louca de verdade. Como é que uma mulher pode detestar um homem e querer que ele a jogue na cama ao mesmo tempo? O fim de semana não pode chegar logo?

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