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Capítulo 8

Author: Aquino
last update Petsa ng paglalathala: 2021-08-05 10:27:19

Matheson

A "Branquinha" não sai da minha cabeça. É uma obsessão silenciosa, um tipo de ruído branco que fica no fundo da minha mente, não importa o quanto eu tente me concentrar em plantas, orçamentos ou reuniões. Aquela atrevida não apareceu mais na boate, e o fato de eu não saber nada sobre ela — nem o nome, nem onde mora, nem quem era aquele idiota que ela estava beijando — está me deixando possesso.

Definitivamente, a mulher sabe ser gostosa. Mas não é só isso. É o jeito que ela me desafiou com o olhar, a forma como o corpo dela se encaixou no meu naquele beijo roubado no corredor. Isso é uma droga. Eu, Matheson, o cara que sempre tem o controle da situação, estou aqui, agindo como um adolescente que levou um fora no baile da escola.

Tento me distrair com a Simone. O sexo com ela é fenomenal, técnico e apaixonado ao mesmo tempo, mas não passa disso. Amizade. Eu sempre deixei as cartas na mesa: nada de sentimentos, nada de cobranças. Talvez, se eu me apaixonasse por ela, minha vida seria um mar de rosas. Ela é uma mulher maravilhosa, tem um coração de ouro e uma inteligência que me fascina. Nós éramos apenas bons amigos até o dia em que a tensão acumulada explodiu. Eu vi aquela pele negra e lisa, aquela vagina perfeita me convidando, e meu pau não conseguiu se controlar. Caí em tentação e, desde então, nos usamos esporadicamente para aliviar o estresse. Mas o coração? Esse continua trancado.

Juro que tentei nutrir algo a mais por ela, mas o sentimento não se fabrica. E ultimamente, o espaço que deveria ser da Simone está sendo ocupado por uma loira furacão que eu só vi duas vezes.

Para o mundo, sou o arquiteto de sucesso e o administrador da boate mais quente de São Paulo. Mas meu papel favorito é o de pai. Rafaela, minha ex-mulher, e eu somos a prova de que um divórcio não precisa ser uma guerra. Nosso príncipe de sete anos, o Thiago, cresce em um ambiente de paz.

Eu sou protetor ao extremo. Quando a Rafaela começou a namorar o atual sujeito, eu não descansei até puxar a ficha inteira do cara. Amigos na polícia servem para essas coisas. Eu precisava saber quem ia dividir o teto com o meu filho. Não deixo meu garoto conviver com qualquer um. Ele é esperto, rápido, e é a única pessoa no mundo que me dobra com um olhar.

O Kevin é o único que sabe da existência do Thiago. Eu protejo a privacidade do meu filho como um leão. Kevin vive me chamando para levar o moleque na casa dele, mas eu ainda hesito. Quero que o mundo dele seja puro, longe da fumaça de cigarro e do brilho artificial da noite.

Penso em me casar de novo? Sim. Eu amei a vida de casado enquanto durou. Fui feliz com a Rafa, mas a chama simplesmente virou brasa e depois cinzas. Viramos amigos morando sob o mesmo teto, e decidimos parar antes que a traição batesse à porta. Eu não engulo essa desculpa de que "quem não tem em casa, procura na rua". Se não está bom, conversa. Se não resolveu, separa. Honestidade é a base de tudo, e eu nunca tive motivo para mentir para a mãe do meu filho.

Saí da cama com o gosto amargo do beijo da loira ainda assombrando meu paladar. Eu me recuso a bater uma punheta pensando nela; eu quero o corpo real, o calor real.

Tenho um dia pesado no escritório de arquitetura. O projeto atual é uma pousada de luxo, um projeto grande que exige perfeição. Iluminação, fluxo de hóspedes, segurança estrutural... Eu supervisiono cada tijolo. Se algo desabar, o nome no rodapé da planta é o meu. E eu não aceito erros.

Tomei um banho gelado para despertar os sentidos, vesti meu melhor terno, calcei os sapatos italianos e caprichei no perfume. Tomei café na rua, como de costume, e encarei o caos do trânsito de São Paulo com uma paciência que eu não sabia que tinha. Cheguei ao prédio e fui recebido pela Cláudia, minha secretária, que é mais pontual que um relógio suíço.

— Bom dia, senhor Matheson. O senhor tem reunião com os sócios agora — ela avisou, com a eficiência de sempre.

— Obrigado, Cláudia. Já estou indo.

Entrei na sala, liguei o notebook, mas em vez de focar nas curvas do terreno da pousada, meus olhos buscavam as curvas da "Branquinha". Será que ela vai na boate este final de semana? Eu preciso vê-la. É uma urgência física.

Enquanto rabiscava o projeto, pensei no Kevin. Meu amigo sumiu de novo, provavelmente perdido nos olhos daquela Hadiya. Eu o vi no restaurante outro dia; o cara é um possessivo de marca maior. Quase surtou quando um cliente tocou no braço da menina. Eu nunca o vi olhar para ninguém do jeito que ele olha para ela. O amor de infância realmente o fisgou.

Meu celular tocou. O visor mostrava "Thiaguinho". Sorri instantaneamente, mas o sorriso morreu assim que ouvi a voz dele.

— Papai, você vai vir me ver hoje? Estou com saudade de você.

Senti uma pontada de culpa no peito. O trabalho na boate de sexta a domingo consome minha energia, e o escritório durante a semana drena o resto.

— Meu amor, o papai tem muito trabalho hoje, mas prometo que se der tempo, eu passo aí à noite.

— Papai, já tem um monte de dias que você não vem brincar comigo — a voz dele estava embargada.

— Lindo, o papai promete que vai tentar. Se não der hoje, amanhã sem falta.

Houve um silêncio do outro lado, um silêncio que doeu mais que qualquer grito.

— Poxa, papai... você sempre me enrola, sabia? Você nem me levou no campeonato de futebol da escola. Quem me levou foi a mamãe e o tio Ricardo.

O nome do namorado da Rafaela na boca do meu filho, associado a um momento que deveria ser meu, foi como uma facada.

— Filho... o Ricardo é um cara legal, ele só estava ajudando...

— Ele não é meu pai! — Thiago gritou, e eu pude ouvir o choro explodindo. — Eu quero o meu pai!

O sinal de chamada encerrada ecoou no meu ouvido como um tiro. Ele desligou na minha cara. Fiquei ali, segurando o celular, cercado por plantas de luxo e projetos de milhões de reais, sentindo-me o homem mais pobre e fracassado do mundo.

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