— É apenas uma coincidência de nomes, pois ela é só uma funcionária comum de escritório e nada mais. — Cláudio deu sua explicação com um tom de voz neutro. — Mas, de certa forma, é uma honra para a Juliana ter o mesmo nome que alguém tão importante na sua equipe.
— É uma honra mesmo. — Melissa deu um sorriso suave. — A Juliana do nosso projeto é uma profissional muito boa.
Ela era tão boa no que fazia que Melissa não suportava a mulher. A outra Juliana aproveitava sua posição de liderança para excluí-la e bloquear seu acesso às partes mais secretas do trabalho, fazendo com que Melissa tomasse raiva de qualquer pessoa que carregasse aquele nome.
Sem se deixar abalar, Juliana olhou direto para o rosto da outra mulher e perguntou:
— Senhorita Melissa, que tipo de projeto você está liderando agora?
Antes que Melissa pudesse abrir a boca para responder, Cláudio se adiantou com um tom de reprovação.
— Você não entende dessas coisas, então não faça perguntas sem sentido. É um projeto federal sigiloso e nós não podemos falar sobre isso com pessoas de fora.
— Se o projeto é tão secreto assim, como é que todo mundo aqui parece saber dos detalhes? — Juliana rebateu com uma frieza na voz.
Melissa ficou sem reação por um segundo, e o jeito que ela olhava para Juliana mudou um pouco. Ela virou o rosto para o homem ao seu lado e comentou:
— Senhora Santos tem um jeito bem peculiar de falar.
Cláudio franziu a testa, cortando a esposa mais uma vez na frente de todos.
— Eu já disse que você não entende do assunto, então para de ficar fazendo perguntas.
Juliana sentiu um aperto repentino na garganta e uma vontade de chorar, mas Cláudio nem sequer olhou para ela, mantendo os olhos fixos em Melissa. A outra mulher deu um sorriso de canto, sentindo-se vitoriosa, mas logo disfarçou com uma expressão um pouco triste e mudou de assunto.
— Sabe, Cláudio, quando me contaram, achei que o seu casamento fosse alguma brincadeira. — As últimas palavras dela carregavam um tom de mágoa.
A expressão de Cláudio ficou tensa na mesma hora, e os dois ficaram se olhando em silêncio por um bom tempo, deixando o clima no quarto bastante pesado e desconfortável para quem estivesse por perto.
— Não era brincadeira. — Respondeu Cláudio, com a voz baixa.
Depois de mais um longo momento de silêncio, Melissa soltou um suspiro e falou em um tom ambíguo:
— Eu confesso que me arrependi um pouco.
Naquele instante, Juliana conseguiu sentir a mão de Cláudio, que estava encostada na dela, tremer de leve.
— Senhora Santos, por favor, não entenda errado o que eu disse. O que eu quis dizer é que o Cláudio me ligou na época e eu não consegui voltar para o país a tempo de ir ao casamento de vocês, e eu me arrependo disso. Achei de verdade que ele estava apenas querendo me provocar.
Enquanto falava, Melissa não tirava os olhos de Cláudio. Ela não dava a menor importância para Juliana, que usava roupas baratas de camelô e não tinha o costume de se arrumar muito.
Ouvindo aquilo, Juliana lembrou dos pequenos detalhes estranhos do dia do seu casamento. Na época, eles fizeram uma festa bem simples, apenas com os amigos mais próximos de Cláudio e a família Santos. Mesmo assim, Cláudio passou a noite inteira bebendo com os amigos e dando risadas, até voltar para o quarto cambaleando de madrugada. O homem estava tão bêbado que tropeçou na porta e caiu sentado no chão, segurando uma garrafa de bebida em uma mão e o celular apertado na outra. Os olhos dele estavam vermelhos e difíceis de ler, enquanto os dedos apertavam e soltavam o aparelho sem parar.
Quando ela se aproximou para ajudar, percebeu que havia lágrimas nos olhos do marido. Cláudio jogou o celular longe, puxou-a para um abraço apertado e começou a dizer que estava muito feliz por ter se casado, mas o sorriso no rosto dele era cheio de tristeza. Agora tudo fazia sentido. Cláudio havia ligado para Melissa no dia do casamento para tentar causar ciúmes e testar os sentimentos da outra. O único motivo para Juliana existir como esposa, pelo menos no começo, era servir de ferramenta para isso.
Com a garganta seca e amarga, Juliana sentiu vontade de rir da própria desgraça.
O grupo entrou no quarto de hospital onde Rosiane estava internada. A garota passou um bom tempo choramingando para os pais e para Cláudio, mas assim que bateu os olhos na visitante, seu rosto se iluminou de alegria.
— Melissa! Que surpresa boa!
— Rosiane, quanto tempo a gente não se vê. — Melissa se inclinou e apertou as bochechas da garota com carinho.
Rosiane abriu um sorriso enorme. Ela sempre foi cheia de vontades e adorava dar dor de cabeça para Cláudio, então era a primeira vez que Juliana via a cunhada sendo tão doce e carinhosa com alguém. Mas, claro, a garota não perdeu a chance de dar ordens.
— Juliana, descasca uma laranja para mim.
— Deixa que eu faço isso, eu tenho jeito com frutas. — Melissa pegou uma laranja da cesta e uma faca, mas antes que pudesse começar, Cláudio segurou o pulso dela com firmeza e disse:
— Melissa, não precisa fazer os gostos dela. As suas mãos não foram feitas para esse tipo de serviço.
— Ele tem toda a razão! — Rosiane concordou com entusiasmo. — Melissa, as suas mãos servem para conduzir pesquisas importantes e trabalhar com dados científicos. Você não pode fazer esse tipo de trabalho braçal. Deixa a Juliana fazer, ela já está acostumada com os serviços da casa.
Melissa olhou para Cláudio com uma expressão de dúvida.
— Eu não sei se isso é o certo a se fazer.
Cláudio empurrou a cesta de frutas inteira na direção da esposa e falou com desdém:
— Não tem problema nenhum. A Juliana pode não ter nenhum talento para os estudos ou para a carreira, mas ela é ótima com o trabalho de casa. Ela até consegue descascar a laranja sem quebrar a casca e montar um formato de flor.
No passado, Juliana não sabia fazer nada disso. Ela só aprendeu porque Cláudio não gostava de comer frutas, e como as frutas são importantes para a saúde, ela passava horas tentando convencê-lo a comer. Um dia, ele disse que só comeria se ela transformasse a fruta em uma flor. Juliana levou aquilo a sério e procurou vídeos na internet para aprender a cortar e enfeitar os pratos. E agora, todo aquele esforço feito por amor era visto por ele como um trabalho sem valor e humilhante.
Juliana pegou a laranja, passou um pano limpo para tirar o pó, não descascou e deu uma mordida com casca e tudo. O gosto doce misturado com o amargo da casca desceu pela garganta, ajudando a disfarçar a amargura que ela sentia no coração.
— Estou com as mãos ocupadas agora. É melhor a senhorita Melissa fazer isso.
Cláudio fixou o olhar nela, franzindo a testa com muita força. Nos últimos dois dias, Juliana estava diferente, cheia de respostas afiadas e se recusando a obedecer.
Enquanto mastigava a fruta fazendo barulho de propósito, Juliana ignorou os olhares de raiva da família e deu o seu recado:
— A pessoa que Rosiane machucou no acidente está esperando o dinheiro do acordo. O seu pai e a sua mãe disseram que todo o seu dinheiro fica comigo. Mas, tirando aqueles três mil reais que você me dá todo mês para as despesas, não lembro de ter visto a cor de mais nenhum centavo seu. Então, é melhor você mesmo ir lá resolver essa dívida.
A voz dela soou fria e distante. Cláudio sentiu um músculo do rosto tremer de irritação. O sorriso de Melissa sumiu do rosto na mesma hora e ela tentou arrumar uma desculpa para sair.
— Bom, já que a Rosiane está bem e fora de perigo, vou para casa.
— Eu levo você. — Cláudio se ofereceu no mesmo instante, mas logo percebeu que estava sendo muito atencioso com outra mulher na frente da própria esposa. Ele deu uma olhada sem graça para Juliana, puxou o cartão do banco do bolso e entregou a ela. — Vai lá e resolve o pagamento do acordo.
— Minhas mãos estão ocupadas. — Juliana deu dois passos para trás, segurando a fruta em uma mão e a bolsa na outra, com o rosto vazio de qualquer emoção.
A sensação de que Juliana estava fugindo do seu controle deixou Cláudio com uma raiva crescendo no peito. Mas ele não podia fazer um barraco ali, afinal, Melissa estava presente e ele não queria assustar a mulher com o seu temperamento.
— Tudo bem, vou lá pagar.
— Cláudio, vou com você para fazer companhia. — Ofereceu Melissa.
— Tá bom.
Os dois saíram andando pelo corredor, deixando Juliana para trás. Pouco tempo depois, ela também foi embora, recebendo os olhares de impaciência da família Santos.
O vento frio da tarde batia no rosto dela. O destino parecia estar de brincadeira, pois assim que Juliana chegou no portão do condomínio onde morava, deu de cara com os dois em uma despedida cheia de enrolação.
Melissa estava de lado, olhando para cima para encarar o homem alto e bonito na sua frente.
— Cláudio, você não precisa subir comigo até o apartamento hoje. Vai logo para casa. A sua esposa parecia chateada mais cedo, é melhor você ir lá conversar com ela.
— Moramos no mesmo condomínio, é rapidinho. Além disso, já está ficando tarde e eu não vou ficar tranquilo se não deixar você na porta de casa. — Cláudio reclamou.
— Cláudio, você é um homem casado agora, não pega bem a gente ficar andando assim. — Melissa deu um passo para trás de propósito.
Juliana sentiu o estômago embrulhar. A mulher estava de volta ao país há quinze dias, Cláudio servia de motorista para ela o tempo todo, e só agora ela resolveu dizer que não pegava bem.
— A sua esposa é uma pessoa muito boa. Pelo menos ela cuida de você direito. Não é como eu, que sempre precisei que você cuidasse de tudo. — Continuou a outra.
— Não tem nem como comparar as duas coisas. Ela é só uma dona de casa, nunca vai chegar aos seus pés. — A voz de Cláudio ficou irritada ao lembrar do comportamento estranho da esposa nos últimos dias. — Não vamos falar dela. Vou te levar até lá em cima.
— Não precisa mesmo, vai ser chato se a sua esposa descobrir. — Melissa recusou mais uma vez, usando um tom de voz doce. — Mas tem uma coisa que me deixou curiosa. Vocês estão casados há quatro anos, por que não tiveram filhos até hoje?
Essa era uma pergunta que muita gente fazia para Juliana. Ela também queria ter um filho com o marido.
Quando era criança, a diretora do orfanato, dona Virgínia, costumava dizer que depois do casamento, com um marido e filhos, ela teria uma família de verdade só para ela. Mas, toda vez que o clima esquentava entre os dois, Cláudio cortava o momento pela metade. Ele sempre inventava uma desculpa, dizendo que tinha que trabalhar cedo no dia seguinte ou que não suportava crianças.
Além disso, Juliana gastava quase todo o seu tempo acordada cuidando da casa, fazendo comida para o marido, ajudando os sogros com tudo o que precisavam e resolvendo as confusões que Rosiane arrumava toda semana. O cansaço era tanto que ela mesma acabou perdendo a vontade e o desejo no casamento. Às vezes, ela lia naqueles livros de romance sobre a união profunda entre um casal, sobre como eles se entregavam um ao outro, mas ela preferia respeitar as vontades de Cláudio.
Como alguém que cresceu sem família, ela achava que ter a pessoa amada por perto já era o bastante para não se sentir sozinha no mundo, e o resto não importava tanto assim.
Se Cláudio dizia que não queria filhos, então ela aceitava. Mas agora, ouvindo a conversa escondida, a verdade bateu forte: não era de filhos que Cláudio não gostava, ele não gostava era dela.
— Nós não temos filhos. — Respondeu Cláudio.
— Nossa, sério? E por que não? — Melissa perguntou com uma surpresa exagerada.
— Não tem motivo nenhum.
— Ah, entendi. — A voz de Melissa pareceu um pouco triste, e ela soltou um sorriso fraco. — Eu achei que você tinha levado a sério aquela nossa brincadeira do passado.
— Hã? Que brincadeira? — Cláudio levantou o olhar.
— Você disse que odiava crianças e que só teria um filho se fosse comigo. — Melissa olhou bem no fundo dos olhos dele com um sorriso encantador.
O silêncio tomou conta do homem.
— Ai, meu Deus, desculpa, eu não devia ter falado isso. Você é casado agora, vai logo para casa antes que a Juliana comece a imaginar coisas. Ela não é como eu, que tenho a minha carreira. Ela só tem você no mundo, e mulheres nessa situação costumam ser bem inseguras e ciumentas.
Dessa vez, Cláudio não insistiu para acompanhá-la. Melissa diminuiu o passo de propósito, e quando viu que ele não veio atrás, o sorriso simpático sumiu do seu rosto na mesma hora. No fundo, Cláudio ainda se importava com aquela esposa pobretona.
...
Quando Cláudio voltou para o quarto do hospital, não encontrou nem sinal de Juliana.
— Cadê a Juliana? — Ele perguntou para a irmã, que estava deitada na cama comendo as coisas que os pais davam na boca dela.
— Ela foi embora logo depois de vocês. Eu acho que ela viu a Melissa toda arrumada, chique e bem-sucedida, ficou morrendo de vergonha de ser tão feia e voltou correndo para o buraco dela. — Rosiane falou com os olhos brilhando de maldade. — Cláudio, já que a Melissa voltou, por que você não pede o divórcio? Pelo jeito que ela falou hoje, dá para ver que ela ainda gosta de você e não se importaria de casar com um homem divorciado.
— A Melissa cresceu em berço de ouro e tem dinheiro. Ela com certeza não seria igual a Juliana, que fica segurando o seu salário e contando moedas para tudo como se a gente fosse miserável. Cláudio, você não pode esquecer que prometeu pagar o meu intercâmbio.
— Rosiane, ela é a sua cunhada, e ela só economiza dinheiro para ajudar nas contas da casa. Não fale assim dela.
O homem apertou a ponta do nariz, sentindo o cansaço bater. Ele abriu a boca para falar alguma coisa, mas logo fechou de novo. Ele não tinha coragem de contar para a família a verdade de que oitenta por cento do dinheiro que ele ganhava ia direto para financiar as pesquisas de Melissa.
Agora que a mulher tinha voltado e estava no comando de um projeto federal importante, o futuro dela estava garantido. Ela não precisaria mais do dinheiro dele para as pesquisas, e ele finalmente poderia gastar o próprio salário com a família. Seria melhor manter o segredo para evitar que os pais pegassem raiva de Melissa. Ela era muito sensível e nunca brigava com ninguém, muito menos com pessoas mais velhas.
— Pai, mãe, vão para casa descansar um pouco. Vou contratar uma cuidadora para cuidar da Rosiane.
— Não precisa gastar com isso, ficamos aqui cuidando dela. Vai você para casa. — Maria aconselhou. — E não esquece de manter contato com a Melissa, seja prestativo com ela. Uma amizade com alguém assim só traz coisas boas para o seu futuro.
— Eu sei, mãe.
Cláudio voltou para casa. Juliana tinha acabado de sair do banho e estava no quarto. Ela usava apenas uma camisola de alças muito fina. O cabelo molhado pingava água pelos ombros, deixando o tecido colado no corpo e marcando bem as curvas dela.
O homem ficou parado na porta, encarando a esposa sem conseguir desviar o olhar.
— Juliana...