Daise raramente via Juliana demonstrar interesse por algo que não fosse suas pesquisas científicas ou o próprio marido, então aproveitou a oportunidade para despejar tudo o que sabia sobre as regras ocultas do mercado de luxo e como as grandes marcas selecionavam suas clientes.
Juliana ouvia cada detalhe em um silêncio profundo, mas sua mente estava longe dali, revisitando a noite em que o marido não voltou para casa e o lenço de seda que ele tirara do bolso pela manhã, entregue a ela sem qualquer embalagem ou capricho.
Com o olhar fixo na direção por onde Melissa havia saído, Juliana comentou em um tom pensativo:
— Aquela bolsa da Srta. Melissa parecia ser novinha, não acha?
— E é nova mesmo, ela comprou ontem à noite. — Daise respondeu prontamente, sem hesitar.
Juliana virou o rosto para encará-la, surpresa com a precisão da informação, enquanto Daniel, que também acompanhava a conversa, questionou como ela tinha tanta certeza disso.
— Acabei cruzando com o Sr. Henrique conversando com a Melissa hoje na hora do almoço. Ele notou a bolsa e até deu um puxão de orelha nela, dizendo para ser mais discreta e tomar cuidado com a imagem na empresa. Ela se defendeu na hora, dizendo que tinha sido um presente de um amigo na noite passada e que seria um desperdício não usar algo tão especial. — Daise soltou um suspiro de inveja. — Imagina só, uma bolsa que custa o preço de um apartamento de luxo... Onde será que eu encontro amigos generosos assim?
Ao ouvir a palavra "amigo", Juliana sentiu um aperto no peito, pois fora exatamente essa a explicação que Cláudio dera naquela manhã.
— E por acaso... — Ela começou, tentando disfarçar o tremor na voz. — Esse modelo de bolsa costuma vir acompanhado de algum lenço de seda?
— Vem sim, e não é só um lenço não! Vem muita coisa junto, o lenço é só um dos mimos que acompanham o pacote, embora também possa ser comprado separadamente. — Explicou Daise, sem notar que cada palavra sua fazia o mundo de Juliana oscilar.
Sentindo que não conseguiria manter a compostura por muito mais tempo, Juliana se virou para o colega:
— Daniel, não vou conseguir ir ao jantar hoje à noite. Surgiu um imprevisto sério em casa.
Daniel percebeu a mudança no semblante dela e perguntou, preocupado:
— É algo muito grave, Juliana?
— É sim. — Ela respondeu de forma curta, sentindo como se o céu estivesse prestes a desabar sobre sua cabeça.
— Sendo assim, pode deixar que eu falo com a Srta. Melissa. — Daniel tentou tranquilizá-la com um sorriso gentil. — Vá cuidar das suas coisas. O projeto já está na reta final e o ritmo diminuiu, então não precisa ficar vindo ao instituto todos os dias como antes. Se surgir algo urgente, nós te ligamos.
— Obrigada. — Juliana murmurou enquanto ajustava a máscara no rosto e se retirava sozinha.
Em vez de ir para casa, ela pegou um táxi e foi direto para a frente do edifício da Universo Tech. Para sua surpresa, assim que chegou, deu de cara com Cláudio saindo do prédio, mas ele não a viu. Talvez fosse pela máscara, ou talvez pelo movimento intenso de funcionários saindo do trabalho, somado ao fato de ele estar compenetrado em uma ligação telefônica. Era irônico pensar que, após quatro anos de casamento, ela pudesse se tornar invisível para ele tão facilmente.
Ela começou a segui-lo a uma distância segura, conseguindo captar trechos da conversa quando ele parou por um momento.
— Você vai jantar fora com o pessoal? Então não precisa que eu passe para te buscar? — Cláudio perguntou ao telefone, fazendo uma pausa. — Tudo bem, então. Quando terminar o jantar, me avisa que eu vou te buscar.
Ele desligou, girou o corpo e passou novamente ao lado de Juliana sem notar sua presença. No entanto, ao se aproximar do elevador, Cláudio hesitou, como se uma imagem familiar tivesse cruzado sua visão periférica. Ele olhou para trás, confuso.
— Está procurando alguma coisa, Sr. Cláudio? — Perguntou o assistente que o acompanhava.
— Não, nada. — Cláudio balançou a cabeça, tentando afastar o pensamento. Devia ser impressão sua. Afinal, àquela hora Juliana estaria certamente na cozinha preparando o jantar, e não ali na porta da empresa. Lembrando-se que não voltaria para comer, ele decidiu enviar uma mensagem para que ela não se desse ao trabalho de cozinhar muito.
O celular de Juliana vibrou. Ela olhou para a frase curta na tela e permaneceu em silêncio, sentindo um vazio crescer. Ela esperou pacientemente até que Cláudio descesse novamente e pegou outro táxi para segui-lo.
Do outro lado da rua, Juliana observou Melissa saindo por uma porta giratória. Com uma naturalidade que doía de ver, a mulher entrelaçou o braço no de Cláudio, e os dois seguiram em direção ao carro entre risos e confidências. Juliana viu seu marido abrir a porta para outra mulher, protegendo a cabeça dela com a mão para que não batesse no teto, um gesto carregado de cuidado e ternura. Ela conhecia o lado gentil dele, mas nunca tinha visto aquele brilho de adoração nos olhos dele. Era um olhar doce e profundo, fixo em Melissa como se nada mais importasse no mundo.
O carro partiu, levantando uma leve poeira diante dela. Lá dentro, Cláudio franziu o cenho e olhou mais uma vez pelo vidro lateral.
— O que foi, Cláudio? O que você está olhando? — Melissa perguntou, curiosa.
— Não é nada. — Ele respondeu, tentando se convencer de que era apenas cansaço. — Devo estar precisando descansar, tive a impressão de ter visto a Juliana de novo.
Enquanto ele se perguntava vagamente se a esposa estava jantando bem sozinha, Juliana permanecia imóvel na calçada. Ela tirou da bolsa o lenço de quatro mil reais. Durante quatro anos de casados, aquele era o presente mais caro que ele já lhe havia dado, mas agora ela sabia a verdade, que era apenas um brinde, um acessório que sobrou da bolsa de milhões que ele comprou para Melissa.
Juliana apertou o tecido com tanta força que suas unhas cravaram na palma da mão, usando a dor física para tentar abafar o aperto no coração.
Antes que pudesse processar o luto da traição, seu celular começou a tocar naquele instante. Era Rosiane Santos, sua cunhada. Assim que atendeu, foi bombardeada por um choro escandaloso.
— Juliana! Ai, meu Deus, Juliana! — A voz do outro lado soluçava sem parar.
A família Santos sempre a tratou com desdém por ela ser órfã, especialmente depois que Cláudio subiu na vida. Rosiane, em particular, nunca a chamou de "cunhada", preferindo dar ordens e tratá-la como empregada. Só a procurava quando fazia alguma besteira e tinha medo de enfrentar o irmão.
— O que aconteceu dessa vez, Rosiane? — Juliana perguntou, mantendo a voz plana.
Rosiane tinha provocado um acidente de trânsito. Havia atropelado uma pessoa e agora precisava pagar as despesas médicas e a cirurgia do ferido, além de estar ela mesma em uma cama de hospital com ferimentos leves. Na ligação, a garota implorou para que Juliana não contasse nada para o restante da família.
Juliana concordou e foi direto para o hospital. Assim que entrou no quarto, Rosiane já começou a berrar:
— Por que demorou tanto? Estou morrendo de dor aqui e você vem nesse passo de tartaruga, parece que não tem sangue nas veias!
Receber aquela enxurrada de reclamações após ter saído correndo para ajudar fez algo mudar dentro de Juliana. Ela olhou para a cunhada com um olhar tão frio e cortante que a garota emudeceu por um segundo.
— Por que está me olhando assim? — Rosiane recuperou a petulância. — Se continuar me encarando, vou dizer para o Cláudio que você está me tratando mal!
Rosiane sabia que o amor de Juliana pelo irmão era o seu maior trunfo. No entanto, dessa vez, a chantagem não surtiu o efeito esperado.
— Se você não quer que eu conte nada para o Cláudio... — Rosiane mudou o tom para uma falsa doçura, embora os olhos brilhassem com malícia. — Estou morrendo de fome. Vai lá buscar uma canja de galinha caipira daquelas bem caras, de um restaurante bom, e traz para mim agora.
Era um prato caro e demorado, que Juliana sempre pagava do próprio bolso. Mas agora, pensando no dinheiro que Cláudio economizava em casa para gastar com presentes para Melissa, o coração de Juliana esfriou de vez.
— Pode contar para ele agora mesmo se quiser. — Juliana respondeu com indiferença, virando as costas e saindo do quarto. No corredor, ela simplesmente pediu para a enfermeira ligar para Cláudio e avisar sobre o acidente.
A família do atropelado estava criando confusão na recepção. Em outros tempos, Juliana teria ido lá acalmar os ânimos e resolver tudo, mas agora ela apenas se encostou na parede e observou a cena como uma espectadora distante. Pouco depois, Pedro Santos e Maria Santos, seus sogros, chegaram esbaforidos.
Vestidos com roupas elegantes, os dois tentavam se esquivar das pessoas que pediam explicações, olhando ao redor com superioridade. Ao avistarem Juliana, lançaram um olhar de reprovação para ela, prontos para mandá-la resolver o problema com os familiares da vítima. Percebendo a intenção deles, Juliana se aproximou antes que pudessem falar.
— Pai, mãe, vou levar vocês até o quarto da Rosiane. — Ela disse, e depois se voltou para os parentes do ferido com uma voz firme. — Fiquem tranquilos. O irmão da Rosiane é o Sr. Cláudio, presidente da Universo Tech. Ele é um homem de posses e muita reputação, por isso não vai fugir das responsabilidades. Tudo o que for de direito será pago.
As palavras dela acalmaram o grupo, mas o irmão da vítima aproveitou a deixa:
— Universo Tech, não é? Se tentarem dar uma de espertos, a gente vai fazer barulho na porta da empresa dele!
Pedro e Maria ficaram furiosos com a exposição do nome do filho. Eles tentaram intervir, mas já era tarde. Assim que os familiares da vítima se afastaram, Pedro disparou:
— Desde quando você ficou tão linguaruda?
Ajeitando o xale nos ombros, Maria continuou o ataque:
— Juliana, você não serve para nada mesmo! Não ganha dinheiro, não nos deu netos e agora nem da Rosiane consegue cuidar. Se aquela menina ficar com uma cicatriz no rosto ou um defeito na perna, como vai conseguir um bom casamento? E ainda por cima arrasta o nome do seu marido para essa lama... Você é uma péssima esposa!
— Você é burra e maldosa, isso sim! — Pedro completou.
— Maldosa? — Juliana sentiu uma vontade amarga de rir.
Desde que se casara, a responsabilidade de cuidar de Rosiane era empurrada para ela. Se a menina tivesse um arranhão, a culpa era de Juliana. Foram quatro anos de servidão sem nenhum respeito. — A Rosiane é responsabilidade de vocês e do Cláudio. Minha, ela nunca foi. — Retrucou Juliana.
Os sogros ficaram em choque com a resposta. Como ela ousava falar assim com eles?
— Enquanto você estiver casada com meu filho, os problemas da família Santos são seus problemas também! — Pedro gritou, perdendo a paciência. — O que está fazendo aí parada? Pegue o dinheiro e vá pagar essa gente logo! Se isso vira um escândalo, vai acabar com a carreira do Cláudio!
— Eu não tenho dinheiro. — Juliana disse, mantendo a postura ereta.
— Não tem dinheiro? — Maria explodiu. — Meu filho é um homem rico, ele ganha milhões! Não venha me dizer que você gastou tudo!
Os dois sempre acreditaram que Cláudio entregava toda a fortuna para Juliana administrar, já que ele sempre dava desculpas quando pediam dinheiro para viajar. Eles viam o filho vivendo de forma simples e achavam que Juliana era uma mão-de-vaca que controlava cada centavo dele.
— Ele disse que o dinheiro estava comigo? — Juliana sentiu o coração afundar mais um pouco. — Ele me dá apenas três mil reais por mês para as despesas. Posso mostrar os comprovantes bancários agora mesmo, se quiserem.
— Deixe de teatro! Vai ver você editou essas fotos. — Maria desdenhou.
— Será que você não perdeu tudo jogando na bolsa de valores? — Pedro sugeriu, desconfiado.
Juliana apenas fechou a expressão, cansada daquela humilhação.
— Acreditem no que quiserem, mas eu não tenho dinheiro e o dinheiro do Cláudio não está comigo.
Ela se virou para ir embora, mas parou bruscamente. Cláudio havia acabado de chegar ao hospital. Mas, dessa vez, ele não estava sozinho. Melissa o acompanhava, caminhando ao seu lado.
O olhar de Cláudio cruzou com o de Juliana por um breve momento antes de ele se aproximar do grupo, perguntando com frieza o que estava acontecendo. Maria, que segundos antes gritava com a nora, mudou instantaneamente ao ver Melissa. Ela abriu um sorriso radiante e segurou as mãos da visitante.
— Melissa! Querida, quanto tempo! Como foi a vida no exterior? Você parece tão magrinha, a comida lá fora devia ser horrível, mas você continua linda como sempre!
— Dona Maria, a senhora continua radiante, com uma pele maravilhosa. — Melissa retribuiu o elogio com um sorriso ensaiado antes de fazer uma cara de preocupação. — Soube do acidente da Rosiane e vim correndo com o Cláudio. Me perdoem por não trazer um presente, mas na próxima eu faço questão de visitá-los com calma.
— Mas é claro, será um prazer! — Maria respondeu, encantada.
Melissa então deu um passo à frente, olhando diretamente para Juliana com um ar de superioridade que não conseguia esconder totalmente.
— Cláudio, você não vai me apresentar?
Cláudio suavizou o olhar, falando com uma doçura que raramente usava em casa:
— Melissa, esta é Juliana, minha esposa. Juliana, esta é Melissa, uma grande amiga dos tempos de faculdade e uma profissional brilhante.
— Sra. Santos, então seu nome também é Juliana? — Melissa sorriu, medindo-a de cima a baixo com desdém. — Que coincidência. Tenho uma doutora em um dos meus projetos que também se chama Juliana.