LOGINNa manhã seguinte, Helena acordou com a sensação estranha de que havia dormido pouco e, ainda assim, descansado. Ficou alguns instantes deitada, olhando para a luz suave que entrava pela janela. A casa estava calma. Claire e Raimond continuavam longe, e aquela ausência ia transformando a rotina em algo novo — não exatamente vazio, mas diferente.Havia Théo. Havia os animais. As tarefas, as refeições, as conversas. E havia também uma intimidade silenciosa crescendo entre eles, que Helena ainda não sabia nomear.Levantou-se, arrumou os cabelos e desceu. Ele estava no corredor. Os dois pararam ao mesmo tempo. Por um instante, apenas se olharam. Então ele sorriu — leve, verdadeiro. — Bom dia.— Bom dia.Era simples. Quase normal. E Helena percebeu que aquele sorriso fez algo dentro dela se aquietar. — Dormiu melhor? — perguntou ele.— Muito melhor. E você?— Também. Parece que estamos aprendendo a caminhar de novo.— Talvez.Passaram um pelo outro sem se tocar, sem constrangimento. E qu
Na manhã seguinte, Helena acordou antes mesmo de o sol começar a clarear o horizonte. Abriu os olhos devagar e permaneceu imóvel, deitada, encarando o teto escuro como se as respostas estivessem escritas ali. Sua mente era um turbilhão de pensamentos que ela não conseguia organizar. Não conseguia parar de voltar.A cachoeira.A água corrente.O rosto dele aproximando-se.O beijo.Helena fechou os olhos com força, como se assim pudesse apagar a imagem.— Não. — Sussurrou para si mesma, a voz quase perdida no silêncio do quarto. — Isso não aconteceu.Mas a lembrança já estava gravada. O calor do hálito dele. As mãos segurando-lhe o rosto com um cuidado que a partia ao meio. A suavidade dos lábios dele tocando os seus, como se estivesse descobrindo algo sagrado. E, pior do que tudo: a forma como o seu próprio corpo havia respondido antes que a razão pudesse intervir. Um arrepio. Um instante em que o mundo pareceu parar. Uma fraqueza que ela não deveria ter sentido.Helena sentou-se de um
O sol daquela manhã parecia ter sido feito para convencer qualquer pessoa a sair de casa. Helena percebeu isso assim que abriu as cortinas. O céu estava limpo, de um azul profundo e quase sem nuvens, e a luz dourada atravessava o quarto inteiro, aquecendo o chão de madeira. Depois de tantos dias de chuva e frio, Saint Armand finalmente parecia respirar outra vez.Helena sorriu. Havia semanas que não acordava com aquela leveza no peito. Não era felicidade completa. Adrian continuava longe, e ainda havia dias em que a ausência dele pesava. Mas a saudade já não ocupava todos os espaços. Agora havia também os cafés, as conversas, as tarefas pequenas, as caminhadas… e, principalmente, os momentos ao lado de Théo.Sem perceber, haviam criado uma rotina. Ela aprendera os horários dos cavalos, quais eram mais agitados e até quais pareciam esperar por ela. Théo fingia se incomodar.— Eles só gostam de você porque você os mima com comida.— E você não faz exatamente a mesma coisa?— Eu sou resp
Na manhã seguinte, a casa dos Valmont parecia diferente.Os mesmos móveis estavam nos mesmos lugares. O relógio da sala marcava as horas com seu som calmo e metálico. O cheiro de café vinha da cozinha, e lá fora os cavalos relinchavam como sempre. Nada havia mudado. E ao mesmo tempo, tudo parecia ter se transformado. Porque Raimond e Claire estavam prestes a partir.E pela primeira vez desde que Helena chegara, seriam apenas três.Ela.Théo.E a casa inteira.— Tem certeza de que não preferem levar ela junto? — perguntou Théo, encostado no batente da porta, observando o pai fechar uma das malas.Raimond ergueu uma sobrancelha.— Está sugerindo que sua mãe e eu levem Helena para uma viagem de negócios cheia de contratos e discussões?— Estou sugerindo ficar em casa sozinho e aproveitar para resolver umas coisas.Claire soltou uma risada doce enquanto organizava papéis sobre a mesa.— Ficar em casa dormindo o dia todo não é "resolver umas coisas".— Eu não disse isso!— Não precisava.H
Os dias seguintes se desenrolaram numa calma que Helena já havia quase esquecido ser possível. Nada de extraordinário acontecia. E talvez fosse justamente isso — a simplicidade, a ausência de cobranças, a leveza de cada hora — que tornasse aqueles dias tão raros e tão preciosos.Acordava cedo, antes mesmo de a casa despertar. Algumas manhãs encontrava Claire no jardim, de joelhos entre as roseiras, com as luvas sujas de terra e um ar de contentamento que parecia brotar do próprio chão. Em outras, descia e ajudava nas pequenas tarefas da casa: arrumava uma bandeja, escolhia as frutas, organizava os vasos nos corredores. No início, Claire tentou impedi-la.— Você é minha hóspede. Hóspedes não trabalham. Helena sorria, sem parar.— Então não estou trabalhando. Estou ajudando uma amiga.Claire parou, segurando um vaso, e olhou para ela em silêncio. Depois sorriu de volta.— Você é impossível.Helena aprendeu a gostar daquela palavra. Impossível. Soava diferente de deveria. Diferente de n
A primeira manhã de Helena na casa dos Valmont começou diferente de todas as outras que tivera nos últimos meses. Não havia aquele silêncio pesado, absoluto, que parecia espreitar nos corredores esperando por uma notícia que nunca chegava. Não havia aquela tensão no peito que a fazia escutar cada ruído da estrada, tentando distinguir se eram passos, rodas de carruagem ou apenas o vento. Não havia uma janela diante da qual pudesse passar horas, com os olhos cansados de procurar uma silhueta que não aparecia.Ali havia vozes. Passos rápidos. Portas abrindo e fechando. O som de Claire discutindo com uma criada sobre onde haviam guardado certos tecidos, com firmeza mas sem raiva. E, vindo do lado de fora, o relinchar dos cavalos, vivo e forte, misturado ao canto dos pássaros que se agitavam nos ramos mais altos.Helena abriu os olhos devagar. A luz entrava suave pelas cortinas, e por alguns instantes ela não reconheceu o quarto — o papel de parede, os móveis, o cheiro de rosas que pairava







