Compartir

Capítulo 3

Autor: Marina Leal
Cecília tentou não dar importância ao que acontecera naquele dia.

Para começar, nunca tivera a menor intenção de aparecer naquela festa e se submeter àquela humilhação.

Além disso, no estado em que estava, nem sequer tinha autorização médica para deixar o hospital.

O que ela não imaginava era que Vicente fosse levar aquilo tão longe.

Depois de caminhar um pouco pelo corredor, voltou ao quarto para descansar.

Mal tinha entrado quando a porta se abriu de repente.

Um grupo de seguranças vestidos de preto invadiu o quarto, e Sérgio, secretário de Vicente, entrou logo atrás deles.

Cecília franziu a testa.

— Sérgio, o que significa isso?

— O senhor Vicente me mandou buscar a senhora para a festa de aniversário da senhorita Lili.

Cecília passou os olhos pelos homens à sua frente.

— É assim que vocês convidam alguém?

Sérgio ergueu levemente o queixo, sem fazer questão de esconder o desprezo.

— Senhora, é melhor cooperar. Afinal, para o senhor Vicente, a senhora não vale nem um fio de cabelo da senhorita Lili.

Então era isso.

Sérgio só estava ali porque Vicente havia autorizado.

Cecília conteve a raiva.

— Tudo bem. Eu vou. Mas você não espera que eu apareça numa festa vestida assim, espera?

Sérgio a examinou de cima a baixo.

Naquelas condições, ela dificilmente conseguiria aprontar alguma coisa.

— A senhora tem três minutos. Depois disso, eu mesmo entro para buscá-la.

Ele saiu com os seguranças.

Assim que a porta se fechou, Cecília puxou o celular que escondera debaixo do travesseiro.

Com os dedos trêmulos, digitou às pressas uma mensagem pedindo socorro a Patrícia e apertou enviar.

Estava tão nervosa que nem conferiu o destinatário.

A mensagem que deveria ter ido para Patrícia acabou sendo enviada para outro número.

Exatos três minutos depois, a porta se abriu novamente.

Sérgio entrou sem bater.

— Vamos, senhora.

Durante todo o trajeto, os seguranças ficaram atentos a cada movimento de Cecília, com medo de que ela tentasse escapar.

Só relaxaram um pouco quando chegaram ao hotel.

Assim que entrou no salão de festas, Cecília deu de cara com um ambiente lotado de empresários, socialites e gente influente.

Mas não foi nenhum deles que chamou sua atenção.

No centro do salão, cercados pelos convidados, estavam os três.

Vicente vestia um terno branco sob medida.

Ali, longe da frieza e da dureza que costumava exibir no mundo dos negócios, parecia outra pessoa. Um sorriso discreto suavizava seus traços normalmente severos.

Nos braços, carregava uma garotinha encantadora de vestido rosa.

Os traços delicados da menina lembravam muito os da mulher ao lado dele.

Lavínia.

Ela usava um vestido sereia marfim e mantinha os cabelos presos em um penteado elegante. Sua beleza era suave, luminosa.

Lavínia permanecia naturalmente próxima de Vicente, íntima o bastante para que, aos olhos de qualquer pessoa naquele salão, parecesse ser ela a verdadeira senhora Sampaio.

— Senhor Vicente, o senhor escondeu o jogo muito bem! Com uma esposa e uma filha tão lindas, só resolveu apresentar as duas agora?

As brincadeiras se espalharam entre os convidados, acompanhadas por comentários de admiração.

Vicente baixou os olhos para Lavínia.

A ternura em sua expressão fez o estômago de Cecília se contrair.

Quando falou, sua voz carregava um carinho que ela jamais ouvira dirigido a si.

— Se dependesse de mim, eu já teria contado ao mundo inteiro. Mas a Lavi sempre preferiu manter a vida pessoal longe dos holofotes, e eu respeito isso.

— O papai ama mais a mamãe e a Lili!

Aninhada nos braços de Vicente, Lílian ergueu o rostinho, toda orgulhosa.

— Lili, não fala assim.

Lavínia corou de leve, embora o sorriso satisfeito denunciasse o quanto estava feliz.

Ver aquela família de três tão unida diante de seus olhos foi como sentir uma lâmina de gelo atravessar o peito de Cecília.

Cecília sentiu uma náusea repentina.

Por alguns segundos, tudo à sua frente pareceu oscilar.

Ela perdeu o equilíbrio e esbarrou em um garçom que passava ao lado.

A bandeja de prata despencou no chão.

O estrondo das taças se quebrando abafou o burburinho do salão.

Todos se viraram.

Vicente também.

Assim que viu Cecília, o sorriso desapareceu de seu rosto.

Ele atravessou o salão a passos largos, agarrou-a pelo braço e baixou os olhos para sua barriga já bastante volumosa.

— Por que você não tirou essa criança?!

Então ela realmente ouvira a conversa.

Sabia que o bebê não era dele.

Como ainda podia ter decidido levá-lo adiante?

Cecília não esperava que ele reagisse daquele jeito. Tentou se soltar.

— Vicente, me solta!

— Vini!

Lavínia correu até eles acompanhada dos pais, Antônio Nogueira e Ana Silva.

Ela segurou o braço de Vicente. Por um breve instante, a preocupação em seu rosto deu lugar a uma tensão difícil de disfarçar, misturada a algo mais sombrio.

Antônio se apressou em tranquilizar os convidados.

Ana, porém, ficou onde estava e lançou a Cecília um olhar cheio de reprovação.

— Sua ingrata. Você veio aqui de propósito para estragar tudo, não foi?

Ana cravou os dedos no braço de Cecília e baixou a voz, ameaçando-a entre os dentes:

— Hoje é o aniversário da Lili. Se você ousar causar confusão, esqueça que tem mãe!

Cecília encarou aquela mulher.

— E a senhora alguma vez me tratou como filha?

O aperto dos dedos de Ana doía, mas Cecília não desviou o olhar.

— A senhora e o papai já sabiam há muito tempo que Lavínia e Vicente estavam juntos. Sabiam até que eles tinham uma filha. Mesmo assim, esconderam tudo de mim e ficaram assistindo enquanto eu me jogava de cabeça nesse inferno. Vocês são mesmo meus pais?

Anos antes, quando Lavínia engravidara sem estar casada, recusara-se a dizer quem era o pai.

Dizia que interromper a gravidez poderia prejudicar sua saúde e, ao mesmo tempo, morria de vergonha da situação. Passava os dias chorando dentro de casa.

Antônio e Ana viviam angustiados.

Foi justamente por vê-los daquela forma que Cecília acabou cedendo e entregou a Lavínia a oportunidade que conseguira para estudar no exterior.

Naquela época, Vicente já era um homem bem-sucedido.

Por isso, até hoje, Cecília nunca conseguira entender.

"Se eles sabiam de tudo, por que nunca me contaram?

Por que ficaram em silêncio enquanto eu, irmã mais nova de Lavínia, me casava com Vicente?"

Se não tivesse se casado com ele, também não teria aberto mão daquele status...

— Que absurdo você está falando?!

Ana vacilou por um instante, mas se recompôs depressa.

— Você faz ideia de quantas mulheres sonham em se tornar a senhora Sampaio? Se sua irmã não tivesse ido estudar no exterior e construído uma boa imagem para si mesma, acha que seus sogros teriam aceitado a Lavínia? Teriam feito com ela exatamente o que fizeram com você.

Cecília ficou imóvel.

Levou alguns segundos para compreender o que acabara de ouvir.

— Então eu só servi para ocupar o lugar de senhora Sampaio até a Lavínia poder assumir?

Ana revirou os olhos.

— Não precisa falar desse jeito. Você também aproveitou durante três anos tudo o que vinha com o título de senhora Sampaio, não aproveitou?

Como se Cecília tivesse recebido um privilégio pelo qual devesse agradecer.

Ridículo.

Naquele instante, ela percebeu que, para aquelas pessoas, sua vida inteira não passava de algo que podia ser usado quando conveniente e descartado depois.

Ana mantivera a voz baixa, e Vicente não ouvira a conversa.

Quando tornou a falar, ele já havia recuperado a compostura, embora o tom continuasse firme.

— Mãe, Lavi, deixem isso comigo. Vão cuidar da Lili. Não deixem uma coisa dessas estragar a festa de aniversário dela.

— Tudo bem. Vamos fazer como você quer, Vini.

Lavínia assentiu docilmente e levou Ana para longe.

Vicente voltou a atenção para Cecília.

Mais precisamente, para a barriga dela.

Uma irritação incômoda cresceu dentro dele.

Tudo começara porque queria humilhá-la. Fazer Cecília descobrir que carregava o filho de outro homem deveria ter sido suficiente para quebrá-la.

Mas vê-la ali, ainda grávida, despertava nele uma raiva que não conseguia explicar.

— Por que você não tirou essa criança?

Cecília ergueu o rosto.

— E por que eu deveria tirar?

Três anos de mágoa, humilhação e desespero finalmente romperam a barreira que ela mantivera de pé por tanto tempo.

Sua voz saiu mais alta, rouca de emoção.

— Vicente, não era exatamente isso que você queria ver?!

O salão inteiro se calou.

Por alguns segundos, ninguém ousou dizer nada.

— Mulher má! Não grita com o meu papai!

Lílian se soltou dos braços de Lavínia e correu furiosa na direção de Cecília, segurando com força uma varinha de princesa.

Por reflexo, Cecília desviou o corpo.

No mesmo instante, Lílian escorregou.

A menina caiu sobre o tapete.

O choro explodiu pelo salão.

— Lili!

Vicente reagiu sem pensar.

Empurrou Cecília para o lado e se abaixou para pegar a menina.

O impacto lançou Cecília ao chão.

Instintivamente, ela tentou proteger a barriga.

Sua mão foi direto sobre os cacos de vidro espalhados pelo piso.

As pontas afiadas rasgaram sua palma, e o sangue logo começou a escorrer.

Vicente nem percebeu.

Pegou Lílian no colo com todo o cuidado e deu leves tapinhas em suas costas, tentando acalmá-la.

Só depois voltou a olhar para Cecília.

Sua voz saiu gelada.

— Se acontecer alguma coisa com a Lili, eu vou fazer você desejar estar morta.

Lavínia verificou rapidamente se a filha havia se machucado.

Ao constatar que não, soltou o ar aliviada.

Então se aproximou de Cecília e estendeu a mão, assumindo novamente aquela expressão preocupada e gentil que usava tão bem.

— Ceci, você está bem? Levanta logo, o chão está cheio de vidro...

— Sai de perto de mim!

Lavínia recolheu a mão devagar.

Em vez de se irritar, suspirou e a encarou com uma paciência quase condescendente.

— Ceci, se você gosta do seu cunhado, podia ter me contado. Eu poderia ter deixado o Vini com você. Pra que transformar tudo nisso e passar por essa humilhação?

Cecília se virou para ela, incrédula.

Dessa vez, porém, enxergou algo que nunca havia percebido naquela irmã sempre tão doce e compreensiva.

Satisfação.

Lavínia estava fazendo aquilo de propósito.

Os comentários ao redor começaram imediatamente.

— Eu nunca imaginei que a filha mais nova da família Nogueira fosse tão sem-vergonha. Desejar o próprio cunhado? Que absurdo!

— Com essa barriga enorme e ainda correndo atrás de homem casado... Que nojo!

— Espera... Será que esse bebê nem é do senhor Vicente?

Ninguém soube dizer quem fizera a pergunta.

Mas bastou aquilo.

O salão inteiro mergulhou em um silêncio estranho.

Continúa leyendo este libro gratis
Escanea el código para descargar la App

Último capítulo

  • Meu Marido Me Fez Engravidar de Outro Homem   Capítulo 30

    O corpo de Cecília ficou completamente tenso.Ela conseguia aceitar a ideia de que o bebê pudesse crescer sem a presença do pai.Mas isso não significava que fosse capaz de falar sobre aquela noite com outra pessoa como se não tivesse importância.Henrique pareceu perceber seu desconforto.— Não precisa ficar nervosa. Só quero que você veja uma pessoa.Só então Cecília decidiu permanecer ali, embora ainda estivesse rígida.O horário exibido na gravação já passava das nove da noite. Àquela altura, quase não havia mais ninguém circulando pelo corredor do hotel.Alguns minutos depois, uma figura conhecida surgiu nas imagens e entrou no quarto 1811, do outro lado do corredor, bem em frente ao quarto onde Cecília estivera naquela noite.Ela franziu a testa."O que Felipe estava fazendo naquele hotel naquela noite?"Mas Henrique certamente não a chamara até ali apenas para mostrar aquilo.A gravação continuou.Poucos minutos depois, outra pessoa apareceu no corredor.Estava coberta da cabeça

  • Meu Marido Me Fez Engravidar de Outro Homem   Capítulo 29

    — Quando adotei Cecília, foi justamente pensando em usá-la no futuro em um casamento por interesse e abrir caminho para os negócios da família Nogueira. Se querem culpar alguém, culpem a si mesmas. Foram vocês que fizeram de tudo para juntar os dois. Agora ainda querem reclamar de quê?— E eu tinha escolha?Ana lançou um olhar irritado para Antônio, embora sua voz já não tivesse a mesma firmeza.Se não fosse pelo que acontecera com Lavínia naquela época, jamais teria cogitado uma ideia tão absurda.— Mãe, pensa em alguma coisa. Me ajuda.Durante o jantar, Lavínia quase revelara diante de todos que o bebê de Cecília era filho de outro homem.Mas, depois que Vicente a impediu, ela pensou melhor e chegou até a agradecer por ter se calado.Se a família Rodrigues começasse a desconfiar da verdadeira paternidade daquele bebê, ninguém poderia garantir que, cedo ou tarde, não acabariam investigando Lili também.Por isso, nem que fosse apenas para proteger a si mesma, Lavínia não podia contar a

  • Meu Marido Me Fez Engravidar de Outro Homem   Capítulo 28

    — Cecília, você também está exagerando. Problemas de marido e mulher devem ser resolvidos entre vocês dois. Precisava trazer isso à tona agora e ainda preocupar sua sogra?Por dentro, Ana já tinha amaldiçoado Cecília incontáveis vezes.Ela precisava mesmo tocar naquele assunto justamente naquele momento? Não podia ter escolhido outra hora?Aquilo era praticamente enfiar a mão no bolso da filha e arrancar dinheiro de lá.Cecília soltou a mão de Vanessa.— A culpa é minha. Fui eu que deixei todo mundo numa situação difícil. Quanto ao bebê... O que tiver que acontecer, vai acontecer.— Que conversa é essa?Vanessa conhecia o próprio filho melhor do que ninguém.Ao perceber que o cartão adicional provavelmente estava com Lavínia, voltou-se diretamente para ela.Dessa vez, seu tom já não escondia a insatisfação.— Ainda vamos conviver por muitos anos. Não torne as coisas difíceis para mim.As palavras foram claras demais para que Lavínia fingisse não entender.Engolindo a raiva, abriu a bol

  • Meu Marido Me Fez Engravidar de Outro Homem   Capítulo 27

    Cecília apertou os lábios e ofereceu a Beatriz um sorriso discreto.Quando tornou a olhar para os outros, porém, toda a suavidade havia desaparecido de seu rosto.— Afinal, o que vocês estão tentando fazer com tudo isso?Ninguém esperava que Cecília interrompesse a conversa de repente, muito menos com tamanha frieza.O silêncio caiu sobre a mesa.Ela passou os olhos pelos presentes até parar em Vicente e Lavínia.— Vicente, você ainda nem se divorciou de mim e já traz sua amante para a casa dos seus pais, na minha frente, só para me provocar. O que você pensa que eu sou?Vanessa imediatamente lançou um olhar cortante para Antônio e Ana.— Então é isso? Vocês vieram aqui falar um monte de coisa sem nem antes resolver a situação com a própria filha? Agora querem simplesmente trocar a esposa do Vini? O que vocês pensam que a nossa família é?— Não fique brava, Vanessa. Ela só ainda não conseguiu aceitar a situação. Eu converso com ela.— Conversar? Ela está grávida de um filho da família

  • Meu Marido Me Fez Engravidar de Outro Homem   Capítulo 26

    — Senhor Felipe, senhora Vanessa, boa noite. Eu sou a Lavínia. Desculpem o atraso.Vicente e Lavínia entraram juntos.Os dois traziam várias sacolas e caixas de presente. Pelo horário, tudo indicava que Vicente só havia sido avisado daquela reunião pouco antes.Ele colocou as coisas de lado. Seus olhos passaram rapidamente por Cecília antes de se voltarem para os pais.— Pai, mãe, o pessoal de Pesquisa e Desenvolvimento está correndo com o lançamento de novos produtos. A Lavi ficou trabalhando até agora. Ela já tinha separado esses presentes para vocês fazia um tempo.Assim que viu Lavínia, Felipe abriu um sorriso.— Lavi, você veio! Venha, sente-se aqui com o Vini e jante com a gente.Desde que Cecília chegara, Felipe não lhe dirigira uma única palavra. Mal havia olhado em sua direção. Com Lavínia, porém, foi diferente. Bastou ela aparecer para que Felipe se mostrasse muito mais receptivo, deixando de lado a postura fria e séria que mantivera até então.Cecília não conseguiu esconder

  • Meu Marido Me Fez Engravidar de Outro Homem   Capítulo 25

    — Cunhada, toma cuidado hoje. Não sei explicar, mas seus pais estão me parecendo estranhos... Acho que estão armando alguma coisa.— Tá bom. Vou ficar atenta.Cecília sabia que, se até Beatriz, tão ingênua, tinha percebido que havia algo errado, então não devia ser apenas impressão.Beatriz acabara de se formar na faculdade naquele ano. Talvez por passar pouco tempo em casa, não tivesse absorvido o temperamento difícil de boa parte dos Sampaio. Pelo contrário, era alegre, espontânea e ainda conservava certa inocência.Cecília se lembrava perfeitamente da primeira vez em que fora à casa deles.Os sogros a receberam de cara fechada. Beatriz foi a única que se aproximou. Com as bochechas levemente coradas, entregou-lhe uma pequena escultura.— Cunhada, é a primeira vez que a gente se encontra, e eu não sabia do que você gostava. Esse trabalho ganhou um prêmio na faculdade. Espero que você goste.A peça estava cuidadosamente embalada e enfeitada com um laço.Até hoje, Cecília a mantinha so

Más capítulos
Explora y lee buenas novelas gratis
Acceso gratuito a una gran cantidad de buenas novelas en la app GoodNovel. Descarga los libros que te gusten y léelos donde y cuando quieras.
Lee libros gratis en la app
ESCANEA EL CÓDIGO PARA LEER EN LA APP
DMCA.com Protection Status