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Capítulo 2

Autor: Marina Leal
— A Lili quer o papai e a mamãe juntinhos!

Lílian abraçou a perna de Vicente. Bastou ouvir a voz doce da filha para qualquer hesitação desaparecer.

Vicente a pegou no colo com um braço e, com o outro, envolveu os ombros de Lavínia.

— Lavi, você é boa demais. Quando voltarmos, vou aproveitar a festa de aniversário da Lili para assumir vocês duas publicamente.

Lavínia se aconchegou contra ele.

Por um breve instante, não conseguiu esconder a satisfação, mas, quando falou, sua voz carregava uma preocupação cuidadosamente ensaiada.

— E o bebê que a Ceci está esperando?

Vicente soltou um riso debochado.

— Ela é louca por mim. Você acha mesmo que aceitaria carregar o filho de outro homem? A essa altura, já deve ter se livrado daquele bastardo.

Ele conhecia Cecília bem o bastante para acreditar que ela jamais suportaria tamanha humilhação.

E, acima de tudo, tinha certeza de que ela nunca teria coragem de dar à luz o filho de outro homem.

Quando Cecília acordou, já estava na UTI.

Quase por instinto, levou os olhos à própria barriga.

Ao vê-la ainda grande e arredondada, soltou o ar que nem percebera estar prendendo.

O bebê ainda estava ali.

Pouco depois, duas enfermeiras entraram no quarto. Conversavam em voz baixa, mas a admiração era evidente.

— O doutor Henrique é incrível mesmo! A gestante do leito dois chegou em estado gravíssimo, e ele conseguiu salvar tanto ela quanto o bebê!

— O doutor Henrique é uma das maiores referências da medicina. Dá para dizer que a paciente do leito dois teve muita sorte...

— Shh! Para de falar. O doutor Henrique chegou para a visita.

As duas se calaram imediatamente.

Henrique entrou acompanhado por alguns médicos mais velhos.

Sua presença, por si só, mudava o clima do ambiente. Assim que ele apareceu, todos se posicionaram atrás dele quase por reflexo.

Cecília continuava ligada aos monitores por fios e eletrodos. Qualquer movimento fazia uma dor fina atravessar seu peito.

Ela ergueu os olhos e encontrou Henrique parado junto ao leito.

Piscou devagar, ainda um pouco atordoada, e o encarou com uma súplica muda.

Henrique entendeu.

Voltou-se para o grupo que o acompanhava.

— A paciente acabou de sair de uma cirurgia e precisa descansar. Podem sair por enquanto.

Ninguém questionou.

O grupo deixou o quarto tão depressa quanto entrara, fechando a porta atrás de si.

Henrique tornou a olhar para Cecília.

— Então? O que foi?

Enquanto ajustava a gola do jaleco, manteve o mesmo tom impassível de sempre.

A garganta de Cecília doía tanto que falar parecia impossível.

Ela pegou o celular na mesa de cabeceira, digitou algumas palavras e mostrou a tela para ele.

[Doutor Henrique, me ajude a ter este bebê.]

— Está tentando me comprar?

Mesmo de máscara, Cecília percebeu a provocação no tom dele.

Arregalou os olhos e digitou às pressas.

[Não! Estou implorando. Por favor, me ajude a trazer este bebê ao mundo. Se ele puder nascer em segurança, eu faço qualquer coisa que o senhor pedir!]

— Não precisa implorar. Salvar você e seu bebê faz parte do meu trabalho.

Henrique fez uma breve pausa.

— Desde que os honorários sejam pagos.

Cecília sentiu as bochechas esquentarem.

Ele a havia desmascarado com uma única frase.

Era verdade.

Ela não tinha dinheiro.

Vicente podia ser absurdamente rico, mas nunca lhe dava nada.

Segundo ele:

— Já tem gente cuidando da sua comida, das suas roupas, da casa e de tudo o que você precisa. Pra que você quer dinheiro?

Por isso, mesmo que pedisse o divórcio naquele instante, Cecília sabia exatamente o que esperar.

Vicente faria de tudo para expulsá-la daquele casamento sem lhe dar um centavo.

Mas ela não aceitaria.

"Por quê?"

Durante três anos, abrira mão dos estudos e da própria carreira para cuidar de Vicente, da casa e de cada detalhe da vida dele.

"Por que eu deveria sair de mãos vazias, levando apenas as marcas de tudo o que sofri?"

Se aquele casamento realmente chegasse ao fim, Cecília recuperaria tudo o que lhe pertencia por direito.

— Eu não vou deixar nenhuma despesa médica sem pagar.

A voz saiu rouca e fraca, mas sua firmeza não deixou espaço para dúvida.

Henrique permaneceu em silêncio, observando-a.

Deitada naquele leito, Cecília parecia frágil demais, quase à beira de se partir. Ainda assim, havia nela uma determinação difícil de ignorar.

E, sem querer, Henrique se lembrou de sete meses antes.

Naquela noite, alguém o havia dopado.

Depois, uma mulher aparecera inesperadamente em seu quarto.

Quando os dois acabaram indo para a cama, Henrique percebeu que era a primeira vez dela. Ela tremia de dor, mas apenas cerrara os dentes e suportara tudo em silêncio.

Na manhã seguinte, quando Henrique acordou, ela havia desaparecido.

Ele chegara a mandar procurá-la.

Nada.

Era como se aquela mulher tivesse simplesmente evaporado.

Até então, nunca encontrara uma única pista.

Henrique levou a mão à gola da camisa e a afrouxou discretamente.

Depois, pegou o celular de Cecília.

Quando o devolveu, havia um novo número salvo na tela.

— Sou muito ocupado.

Os olhos de Cecília se iluminaram.

— Obrigada, doutor Henrique!

Quando ficou sozinha, o alívio desapareceu pouco a pouco de seu rosto.

Desde criança, sempre que fazia alguma coisa que os pais consideravam errada, era expulsa de casa como castigo.

Aquilo acontecera tantas vezes que sua saúde acabara prejudicada. Mais tarde, os médicos a alertaram de que teria muita dificuldade para sustentar uma gravidez.

Vicente sabia.

Claro que sabia.

Provavelmente, desde o início, contava com o fato de que ela não conseguiria manter aquele bebê.

Assim, podia humilhá-la sem correr o risco de realmente ver sua esposa dar à luz o filho de outro homem.

Porque, por mais que não a amasse, Vicente jamais toleraria isso.

Ele achava que tinha calculado tudo.

Pois, se fora capaz de armar para que ela se deitasse com outro homem, Cecília só esperava que ele ainda conseguisse sorrir quando aquela criança nascesse.

Ela permaneceu dois dias na UTI e só foi transferida para um quarto comum no terceiro.

Assim que conseguiu se levantar e caminhar alguns passos sozinha, o celular tocou.

Na tela, aparecia: Lavínia.

Cecília respirou fundo antes de atender.

— Ceci, eu te mandei um monte de mensagens. Por que você não respondeu?

A voz suave de Lavínia veio do outro lado da linha.

Ao ouvi-la, Cecília apertou o celular com mais força.

Sua irmã.

A pessoa em quem mais confiara durante toda a vida.

A pessoa de quem mais dependera.

Nunca imaginara que seria justamente Lavínia quem lhe enfiaria uma faca pelas costas.

Do outro lado da linha, Lavínia suspirou.

— Eu não quis tirar o Vini de você. É que nossos pais ficaram preocupados comigo por eu estar sozinha no exterior, e o Vini também vivia preocupado. Acabaram contando para ele onde eu estava. Ceci, se isso te magoou, eu posso devolver o Vini para você.

Sua voz ficou levemente embargada.

— Daqui a três dias é o aniversário da Lili. A festa vai ser no Hotel Bellavita. Eu queria te explicar tudo pessoalmente. Você vai, né?

Cecília conteve a onda de emoções que ameaçava dominá-la.

— Estou internada. Não vou poder ir.

— Me dá o celular.

A voz de Vicente surgiu de repente ao fundo.

Logo depois, foi ele quem falou diretamente com Cecília.

— Só de deixar você ir ao aniversário da Lili, já estamos sendo bons demais. Não abuse da minha paciência.

As palavras dele a atingiram em cheio, apertando seu peito até quase faltar ar.

De tanta raiva, Cecília acabou rindo.

— Você quer que eu vá ao aniversário da filha que meu marido teve com a amante e ainda acha que sou eu quem está passando dos limites?

— E daí? — Vicente riu com desprezo. — Seu corpo nunca seria capaz de levar uma gravidez até o fim. Agora, a Lili é minha única filha.

O frio percorreu Cecília da cabeça aos pés.

"Então ele sabia."

Sabia de tudo.

Sabia que ela estava grávida.

Sabia de sua condição.

E, ainda assim, ficara assistindo de longe enquanto ela fazia de tudo para manter no ventre o filho de outro homem.

Naquele instante, morreu o último vestígio de esperança que Cecília ainda guardava em relação a ele.

A raiva foi tão intensa que ela voltou a rir.

— Vicente, quem disse que eu não vou conseguir ter este bebê?

Do outro lado da linha, houve silêncio.

Cecília baixou a voz, deixando a ironia transparecer em cada palavra.

— Vicente, esta criança foi concebida durante o nosso casamento. Para todos os efeitos, é filho do casal Sampaio. Ou será que o senhor Vicente é generoso o bastante para admitir publicamente que colocou a própria esposa na cama de outro homem?

Sem lhe dar tempo para responder, desligou.

Na mansão da família Sampaio, Vicente ficou encarando a chamada encerrada.

No instante seguinte, arremessou o celular contra o chão.

O aparelho se despedaçou.

— Ela não tirou essa criança!

Cecília já sabia que o bebê era de outro homem.

E seu corpo mal tinha condições de sustentar uma gravidez.

"Então por quê?

Por que diabos ela ainda não se livrou daquela criança?"

A explosão de Vicente fez Lavínia estremecer.

Ela, porém, se recompôs depressa.

Aproximou-se, segurou de leve a barra da camisa dele e adotou um ar magoado.

— Vini... A Ceci provavelmente só está fazendo isso para chamar sua atenção. Ela quer que você se importe com ela.

Aquela explicação pareceu suficiente.

Aos poucos, a irritação de Vicente cedeu.

Ele soltou uma risada fria.

— Carregando o filho de outro homem e ainda acha que pode me ameaçar? Ela realmente está se achando importante demais.

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