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Capítulo 2: Acabou

last update Data de publicação: 2026-06-17 09:29:32

Capítulo 2: Acabou

Katherine

— Adam...?

O som do meu próprio sussurro pareceu ecoar pelo quarto, pesado e sufocante.

O movimento na cama parou abruptamente. Adam congelou por um milésimo de segundo, as mãos ainda presas ao tecido do meu vestido. Quando ele se virou, não vi pânico ou arrependimento em seus olhos. Ele apenas desceu da cama com pressa, ajeitando as calças enquanto caminhava a passos rápidos na minha direção.

— Kat? O que você está fazendo aqui?

Fiquei estática, olhando para ele. Minha mente, em um mecanismo de defesa ridículo, esperou que ele usasse os clichês de sempre. “Eu posso explicar” ou “Não é o que parece”. Mas não. A primeira reação dele foi me questionar. Foi perguntar o que eu estava fazendo na minha própria casa.

Uma fúria cega, quente e violenta subiu pelo meu peito, eliminando o choque. Desviei os olhos dele e olhei para a cama. Ester estava ofegante, os cabelos bagunçados, mas no rosto dela não havia vergonha. Havia um sorriso satisfeito, vitorioso. E ela usava o meu vestido de noiva.

Eu não pensei. Não raciocinei.

— Eu vou acabar com você! — o grito rasgou a minha garganta.

Avancei como um animal. Adam tentou segurar meu braço, mas a adrenalina me deu uma força que eu nem sabia que tinha; me desvencilhei dele com um empurrão. Cheguei à cama, agarrei Ester pelo cabelo com força e a joguei no chão. O baque do corpo dela foi abafado pela seda do vestido. Subi em cima dela, desferindo t***s, socos, o que a minha mão alcançasse, gritando e xingando com todo o oxigênio que restava nos meus pulmões.

— Sua desgraçada! Nojenta! Garota podre!

— Para! Adam, tira ela de cima de mim! — Ester gritava, tentando proteger o rosto.

Adam, terminando de fechar o cinto, correu até nós. Ele me envolveu por trás, travando meus braços contra o corpo e me erguendo à força.

— Kat, chega! Para com esse escândalo! Se acalma! — ele esbravejou, me arrastando para longe dela.

— Me solta, seu cretino! — Eu me bati contra o peito dele, chutando o ar, o choro finalmente subindo, misturado com a raiva. — Me solta que eu vou acabar com os dois! Eu vou matar vocês!

— Chega, Katherine! — Adam gritou mais alto, me sacudindo levemente até que eu parasse de me debater, exausta.

Aproveitei o milissegundo em que ele afrouxou o aperto para me soltar de vez. Dei dois passos para trás, limpando o suor da testa com o dorso da mão. Adam se colocou estrategicamente entre mim e Ester, que agora estava encolhida no chão, chorando alto e dramaticamente.

Olhei para o homem que eu achei que conhecia. O homem com quem eu subiria ao altar em sete dias.

— Por que...? — A pergunta saiu trêmula, pequena. — Por que você fez isso, Adam? Com a minha irmã? Na minha casa?

Adam me encarou. Ele olhou de relance para Ester no chão, depois voltou os olhos para mim. A expressão dele mudou de tensa para fria, uma rigidez desdenhosa que me deu náuseas.

— Por que, Katherine? Olhe para você — ele desdenhou, apontando o dedo na minha direção. — Você só pensa em trabalho. Vive trancada naquela agência com esses terninhos sem graça, não é feminina, não se arruma direito... Você é sonsa na cama, Kat. Uma parede. A Ester é completamente o oposto. Ela sabe como fazer um homem se sentir homem.

Prendi a respiração, sentindo o impacto de cada palavra como uma facada na minha autoestima, bem em cima da ferida de nunca ser o suficiente. 

— Então por que decidiu se casar comigo? — Minha voz saiu em um fio.

— Porque você é a opção mais sólida para eu chegar ao meu pai. 

Meus olhos arderam, mas forcei as lágrimas para dentro. Eu não ia chorar na frente deles. Não daria esse gosto.

Ester percebeu. No chão, ela soltou uma risada chorosa e debochada.

— Sólida… — ela disse com desdém. — Sem graça você quer dizer né? 

— Ester… — Adam chamou sua atenção mas ela o ignorou.

— O que foi? É a mais pura verdade. Olha pra mim! — ela mandou. — Olha como esse vestido ficou perfeito em mim. — seus olhos encontraram os meus e com um sorriso satisfeito ela continuou. — O Adam merece alguém melhor, alguém que saiba dar valor ao que ele tem. E ele é gostoso demais para ficar preso a uma mulher sem sal como você.

— Cala a boca, Ester! — Adam mandou, mas o aviso foi brando demais.

Aquela provocação foi o estopim. A fúria voltou com força total. Avancei novamente, passando por Adam antes que ele pudesse reagir. Agarrei o decote do vestido que Ester usava e puxei para baixo com toda a minha força. 

O som do tecido caro se rasgando ecoou pelo quarto. Eu havia pago uma fortuna por aquela peça, escolhendo cada detalhe só para agradar ao Adam, que sempre foi obcecado por status e aparências. Agora, eu só queria destruir tudo.

— O que está acontecendo aqui?! — A voz estrondosa do meu pai cortou o caos.

Arthur e Céline entraram no quarto, os rostos transformados em pura indignação. Adam me agarrou por trás mais uma vez, imobilizando meus braços e me mantendo presa contra ele.

— Pai! — Ester soltou um grito agudo, jogando-se no chão e cobrindo o corpo com os trapos do vestido rasgado. — A Katherine enlouqueceu! Ela entrou aqui me batendo, me xingando... e olha o que ela fez com o vestido! Ela rasgou tudo!

Meu pai deu passos largos na minha direção, os olhos faiscando de ódio.

— O que significa isso, Katherine? — ele exigiu saber, a voz vibrando de autoridade.

— Pergunta para ela! — gritei, tentando me soltar de Adam, a voz embargada. — Pergunta para a sua filhinha perfeita o que ela estava fazendo na cama com o meu noivo!

Arthur parou a centímetros de mim. Eu ainda estava imobilizada, com os braços presos por Adam, totalmente indefesa. Meu pai ergueu a mão e, sem um segundo de hesitação, desferiu um tapa violento contra o meu rosto.

O estalo ecoou no quarto. O impacto virou minha cabeça para o lado.

O quarto ficou em um silêncio absoluto. Adam afrouxou o aperto na mesma hora, chocado, e me soltou. Dei um passo cambaleante para o lado, a mão subindo devagar até a minha bochecha, que queimava. 

Mas a dor física não era nada. Absolutamente nada comparada ao rasgo que se abriu na minha alma. O homem que deveria me proteger acabou de me agredir para defender a filha da amante.

— Você mereceu — Céline cuspiu as palavras, aproximando-se de Ester para ajudá-la a se levantar. — Você sempre foi uma desequilibrada, Katherine. Invejosa. Se o Adam preferiu a Ester, é porque ela é mil vezes melhor do que você. Você nem se compara a ela. Nunca se comparou.

— Ela tem razão — meu pai endossou, a voz fria, sem um pingo de remorso pelo que tinha feito. — Você é uma vergonha. Olhe o escândalo que está fazendo por bobagem.

Uma dor aguda e física se instalou no meu peito. Eu não consegui conter. As lágrimas transbordaram, quentes e pesadas, escorrendo pelo meu rosto. Mas eu não solucei. Com as costas da mão, limpei a umidade com força, engolindo o choro e erguendo o queixo.

Encarei Céline. Encarei meu pai. E, finalmente, parei os olhos em Adam. Ele me olhava com uma ponta de desconforto agora, talvez percebendo o tamanho da monstruosidade que todos ali haviam cometido.

Puxei o ar, enchendo meus pulmões com a pouca dignidade que me restava, e falei em alto e bom som, com a voz firme:

— Já que a Ester é melhor... acabou.

Adam franziu o cenho e deu um passo na minha direção.

— Como assim, acabou? — ele perguntou, o tom mudando de defensivo para irritado.

Recuei um passo, mantendo a distância.

— Acabou, Adam Storn. Eu estou cancelando o nosso casamento.

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