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Capítulo 5: Segunda vez na noite

last update Data de publicação: 2026-07-13 11:10:56

Capítulo 5: Segunda vez na noite

Katherine

— Isso.

Me aproximei rapidamente, quebrando qualquer distância entre nós, e o beijei.

No início, o movimento foi desajeitado. Mesmo com o efeito do álcool nublando meus sentidos, a velha Katherine ainda estava ali, a Kat reprimida, que passou a vida inteira tentando ser perfeita, pisando em ovos com medo de ousar ou errar e acabar sendo rejeitada novamente. 

Meus lábios tocaram os dele com uma hesitação quase infantil, um desespero desajeitado de quem só queria calar os próprios pensamentos. Mas, para a minha total surpresa, o estranho lindo correspondeu.

Ele não me afastou. Em vez disso, senti sua mão firme subir devagar pela minha nuca, os dedos longos se enroscando no meu cabelo com uma possessividade que me fez estremecer. 

O beijo mudou de ritmo instantaneamente. O que começou como um impulso meu transformou-se em algo avassalador ditado por ele. A boca dele era quente, firme, e me dominou com uma facilidade assustadora, sugando minha alma de um jeito que Adam jamais havia feito em anos de relacionamento.

Quando finalmente quebrei o contato, o ar faltou nos meus pulmões. Recuei um pouco, encarando-o, e a realidade me atingiu como um balde de água gelada.

O choque do que eu tinha acabado de fazer dissipou parte da névoa da bebida. Olhei para o maxilar marcado dele, para os olhos cinzas que me fitavam com uma intensidade analítica, e senti minhas bochechas queimarem de pura vergonha.

— Desculpe... — sussurrei, a voz trêmula enquanto eu tentava me levantar do estofado. — Eu não sei... eu acho que eu... me desculpe.

Ele não disse uma única palavra. Vi algo brilhar naquelas íris tempestuosas, uma faísca de reconhecimento ou curiosidade que não consegui decifrar. Ele apenas esticou o braço com calma, pegou o copo de uísque sobre a mesa e deu um gole lento, mantendo os olhos cravados em mim.

Me afastei da mesa dele com pressa, quase tropeçando nos meus próprios pés. Voltei para o balcão do bar, sentindo o rosto arder tanto que tinha certeza de que estava vermelha. Aquilo não era do meu feitio. Eu nunca fui o tipo de mulher que beija desconhecidos em bares de hotel.

— Mais uma dose, por favor — pedi ao barman, precisando de qualquer coisa para afogar o constrangimento.

O homem assentiu e encheu meu copo. Eu estava prestes a levá-lo à boca quando um homem de meia idade se aproximou, sentando-se no banco ao meu lado com um sorriso pretensioso.

— Uma mulher bonita assim não deveria beber sozinha a essa hora da noite — ele começou, inclinando-se na minha direção.

— Prefiro beber sozinha, obrigada — respondi com polidez, cortando o assunto de imediato e me virando ligeiramente para o lado oposto.

Nesse exato momento, a tela do meu celular acendeu sobre o balcão. O nome de Adam brilhava no visor pela vigésima vez. Ele não tinha parado de ligar desde o segundo em que saí cantando pneu da mansão. 

Olhei para o foto dele na tela e senti apenas repulsa. Ignorei a chamada, virando o aparelho com a tela para baixo.

— Sabe, eu posso te fazer companhia... — o homem chato insistiu, ignorando completamente o meu fora. Ele se aproximou mais, o cheiro de loção barata misturado com álcool me incomodando. — Você parece precisar de um amigo.

Exausta, decidi que já tinha dado pra mim aquela noite. Tudo o que eu mais queria era subir para o meu quarto, me trancar, dormir por dez horas e tentar esquecer que o dia de hoje sequer existiu.

Mas, assim que fiz menção de me levantar do banco, a mão do homem se fechou firme ao redor da minha cintura, me puxando de volta com força para perto do corpo dele.

— Calma aí, gatinha. Não precisa fugir assim — ele disse, com um hálito pesado.

— Me solta — pedi, tentando me desvencilhar do aperto dele, mas os dedos dele se enterraram na minha pele, mostrando que ele era bem mais forte do que aparentava.

Olhei em súplica para o barman. O funcionário entendeu o recado na hora, largando o pano de prato e dando um passo à frente no balcão.

— Senhor, acho que o ideal seria deixar a senhorita ir — o barman interveio, o tom profissional, mas firme.

O homem ignorou o funcionário e os meus protestos, rindo com escárnio.

— Não se mete. Vamos lá, gatinha, vamos subir para o meu quarto. Assim a gente se conhece muito melhor...

Ele começou a me arrastar à força em direção à saída do bar. O pânico subiu pela minha garganta, e eu estava prestes a gritar quando uma presença maciça se projetou atrás de nós. O ar ao redor pareceu esfriar instantaneamente.

— Três segundos — uma voz grave, absurdamente fria e autoritária ecoou logo atrás do homem. — É o tempo que te dou para soltá-la.

O sujeito congelou. Ele virou a cabeça devagar e deu de cara com o estranho dos olhos cinzas. O homem era consideravelmente mais alto, mais forte e exalava uma aura de perigo que faria qualquer um recuar.

— Cara, não se mete, ela está comigo... — o chato tentou blefar, mas a voz dele vacilou.

O estranho não se deu ao trabalho de responder com palavras. Ele simplesmente deu um passo à frente, e a promessa de violência silenciosa em sua postura foi o suficiente. O homem soltou a minha cintura num sobressalto, ergueu as mãos em sinal de rendição e deu passos para trás, sumindo apressado pela saída do bar.

No segundo em que o aperto sumiu, o cansaço e o efeito das doses de uísque cobraram o preço. Minha cabeça girou e meu corpo pendeu para o lado. Eu teria desabado no chão se dois braços fortes e firmes não tivessem me amparado com precisão, colando minhas costas ao seu peito robusto.

— Opa. Segure-se — a voz dele soou perto do meu ouvido.

— Obrigada... — murmurei, tentando me firmar nas próprias pernas, mas o mundo ainda balançava.

Ele me soltou devagar, mas manteve uma das mãos casualmente perto do meu cotovelo, garantindo que eu não caísse. Ele olhou para mim de cima a baixo, a expressão ilegível.

— Você está hospedada aqui? — perguntou, educadamente.

— Sim. No décimo andar.

— Eu a acompanho até o seu quarto. Você mal consegue parar em pé, menina.

Apenas assenti, grata demais para recusar. Caminhamos em um silêncio tenso até o elevador. O trajeto até o décimo andar pareceu eterno; o perfume amadeirado dele preenchia o espaço fechado, me deixando ainda mais tonta, mas não pela bebida.

Quando as portas se abriram, caminhei até a minha porta e passei o cartão magnético, ouvindo o bipe verde. Me virei para ele com um sorriso tímido.

— Obrigada de verdade. Por me defender e por me trazer até aqui. Eu fui uma idiota lá embaixo... e mais uma vez me desculpe pelo… 

Parei no meio da frase, eu era a pessoa mais ridícula que existia em me desculpar por algo que provavelmente ele já se esqueceu. Ele deu um aceno sutil com a cabeça, os lábios colados em uma linha séria.

— Boa noite, garota.

Para a minha total surpresa, ele deu dois passos para o lado, tirou o próprio cartão do bolso e abriu a porta vizinha à minha. O quarto dele era exatamente ao lado do meu. Ele entrou e fechou a porta com um clique suave.

Fiquei parada no corredor deserto, olhando para a madeira escura da porta ao lado.

Meu coração começou a martelar contra as minhas costelas. Mordi o lábio inferior, sentindo o sangue pulsar quente nas minhas veias. A adrenalina da traição do Adam, a humilhação do meu pai, o sabor do uísque e, principalmente, a memória daquela boca quente e possessiva me dominando lá embaixo... tudo colidiu dentro de mim.

Pela primeira vez na vida, cansei de ser a garota certinha que aceita as pancadas e vai chorar no quarto.

Respirei fundo, enchendo os pulmões de coragem. Dei os dois passos necessários, parei em frente à porta dele e bati. Três batidas firmes.

Alguns segundos se passaram. Quando a maçaneta girou e a porta se abriu, eu esqueci completamente como se respirava.

O homem estava sem camisa.

A luz suave do quarto iluminava um peito largo, esculpido, com músculos definidos que desciam em linhas perfeitas até o cós da calça social escura que ele ainda usava. Ele era a personificação absoluta da beleza masculina, imponente e magnética.

Ele notou o meu olhar fixo, descendo pelo seu abdômen. Um brilho divertido e perigoso passou por aqueles olhos cinzas.

— Perdeu alguma coisa aqui, menina? — ele chamou a minha atenção, a voz ainda mais grave no silêncio do quarto.

Senti minhas bochechas queimarem.

— Eu... eu só... eu queria... — gaguejei, as palavras sumindo da minha mente como fumaça.

Ele arqueou uma das sobrancelhas escuras, cruzando os braços musculosos sobre o peito, desfrutando visivelmente do meu claro desespero. Eu travei. Mas olhar para ele ali, tão real e tão absurdamente atraente, me fez engolir o nervosismo. 

Dei um passo à frente, cruzando o batente da porta e entrando no território dele.

O estranho descruzou os braços e deu um passo na minha direção, fechando o espaço que eu tinha tentado criar, me olhando bem no fundo dos olhos.

— O que você realmente quer, garota? — ele perguntou, o tom baixo, quase como um desafio.

Fechei os poucos centímetros que restavam entre nós, sentindo o calor da pele dele emanar contra o meu corpo. Pela segunda vez naquela noite, mandei a Katherine reprimida para o inferno e deixei a ousadia falar mais alto.

Olhei fixamente para a boca dele e respondi com firmeza:

— Você.

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