Masuk— Você receberá de volta depois.
— Não toque nas minhas coisas.
— Sua prioridade deveria ser continuar respirando.
— E a sua deveria ser aprender que não pode me dar ordens.
Cole abriu a porta.
— Estamos perdendo tempo.
Emily olhou para os homens no chão.
— Não podemos deixá-los aqui.
— Um telefonema anônimo trará uma ambulância.
— E se morrerem?
— Um deles tentou cortar sua garganta.
— Isso não significa que eu queira ser responsável pela morte dele.
Cole a observou como se ela tivesse dito alguma coisa incompreensível.
— Você ainda está preocupada com eles?
— Estou preocupada comigo. Não quero me tornar alguém que olha para uma pessoa ferida e decide que ela merece morrer.
Por um instante, Emily viu algo nos olhos dele.
Reconhecimento.
Talvez inveja.
Cole pegou o telefone do invasor e digitou rapidamente.
— Uma ambulância chegará em seis minutos.
— Como sabe?
— Porque conheço a resposta de emergência desta região.
— Claro que conhece.
Ele guardou o aparelho e conduziu Emily ao corredor.
Os vizinhos começavam a abrir as portas.
Uma mulher idosa do apartamento em frente apareceu usando um robe.
— Emily? Está tudo bem?
Emily abriu a boca.
Cole respondeu antes:
— Um cano estourou. Ela ficará fora por alguns dias.
A vizinha olhou para o rosto dele, depois para Emily.
— Tem certeza?
Emily poderia pedir ajuda.
Poderia gritar.
Mas ouviu as sirenes aproximando-se e lembrou-se da seringa.
Lembrou-se da facilidade com que os homens entraram no prédio.
— Tenho — respondeu.
A senhora continuou desconfiada, mas fechou a porta.
Cole levou Emily pelas escadas dos fundos.
— Você mente com muita facilidade — disse ela.
— Você entrou em uma festa usando uma identidade falsa.
— Para investigar um crime.
— Todo mundo acredita que suas próprias mentiras são justificadas.
A frase pareceu mais pessoal do que deveria.
No beco, um carro preto esperava com o motor ligado.
Emily parou.
— Não entro nesse carro.
Cole abriu a porta do passageiro.
— Entre.
— Não.
— Emily.
— Diga alguma coisa verdadeira.
Ele ficou imóvel.
— O quê?
— Desde que apareceu, você só me deu ordens, ameaças e meias respostas. Quer que eu entre no carro? Diga alguma coisa verdadeira.
A chuva fina voltara a cair.
Gotículas se acumulavam nos cabelos de Cole.
Ele olhou para a rua, para as janelas do prédio, para qualquer lugar que não fosse ela.
— Eu não sabia que mandariam matá-la.
Emily sentiu a respiração prender.
— Mas sabia que viriam.
— Sim.
— Por causa do dispositivo?
— Por causa do que você ouviu.
— E por causa do meu pai?
Cole finalmente a encarou.
— Talvez.
— Você o conheceu.
Silêncio.
— Você estava envolvido na morte dele?
O maxilar de Cole se contraiu.
— Entre no carro.
— Responda.
— Agora não.
— Então não vou.
Emily deu um passo para trás.
Cole fechou a porta devagar.
Por um momento, ela achou que ele usaria a força novamente.
Em vez disso, aproximou-se até ficar diante dela.
— Há homens procurando por você — disse. — Eles sabem seu nome, seu endereço e o que seu pai investigava. Seu apartamento não é seguro. Seu editor pode não estar seguro. A polícia pode não ser segura. E eu sou a única pessoa neste momento que sabe como essas pessoas pensam.
— Porque é uma delas.
— Sim.
A resposta direta atingiu Emily.
Cole não tentou suavizá-la.
— Essa é a verdade que queria — continuou. — Não sou um homem bom. Não sou inocente. E não deveria confiar em mim.
— Então por que eu entraria nesse carro?
Ele se inclinou um pouco, mantendo os olhos presos aos dela.
— Porque todos os outros querem você morta.
O som de pneus surgiu no fim do beco.
Dois carros escuros dobraram a esquina.
Cole olhou para eles.
— Agora.
Emily hesitou apenas um segundo.
Entrou.
Cole contornou o carro e assumiu o volante. Antes mesmo de fechar completamente a porta, acelerou.
Os dois veículos vieram atrás.
Emily agarrou o cinto.
— Quem são eles?
— Ainda não sei.
— Você parece dizer isso com frequência.
Cole virou bruscamente à direita, lançando-a contra a porta.
— Segure-se.
— Estou tentando!
O carro atravessou uma avenida com o sinal prestes a fechar. Buzinas explodiram ao redor deles.
Os perseguidores continuaram próximos.
Emily olhou pelo vidro traseiro.
— Eles estão armados?
— Provavelmente.
— Isso é o tipo de informação que você deveria saber antes de sequestrar alguém.
Cole desviou de um caminhão e entrou em uma rua estreita.
— Abra o porta-luvas.
— Por quê?
— Abra.
Emily encontrou uma arma.
Fechou imediatamente.
— Você é louco.
— Há também um telefone.
Ela pegou o aparelho.
— Ligue para quem?
— Ninguém. Tire o cartão e quebre.
— Você quer destruir meu telefone?
— O seu está sendo rastreado.
— Como sabe?
— Porque eu faria isso.
Emily removeu o chip do telefone dela, que Cole havia colocado no console, e o partiu.
Os carros continuavam atrás.
— Para onde estamos indo?
— Para fora da cidade.
— Não.
— Não temos alternativa.
— Eu tenho uma vida aqui.
— Tinha.
A palavra a feriu mais do que deveria.
— Você não pode apagar minha vida em uma noite.
— Eu não fiz isso.
— Sua família fez.
Cole não respondeu.
Emily olhou pela janela.
As ruas de Chicago passavam em manchas de luz. Tudo o que conhecia estava ficando para trás: o apartamento, o trabalho, Noah, as caixas do pai, a rotina que levara anos para construir.
Ela segurou o casaco contra o corpo.
— Para onde exatamente?
— Um lugar seguro.
— Isso não é uma resposta.
— Colorado.
Emily virou-se para ele.
— Colorado?
— Sim.
— Você pretende me levar para outro estado?
— Pretendo mantê-la viva.
— Contra minha vontade.
— Se necessário.
— Isso continua sendo sequestro.
— Você já mencionou.
Um dos carros se aproximou pela lateral.
Cole desviou e bateu contra ele.
Metal raspou contra metal.
Emily gritou.
O veículo perseguidor perdeu o controle por alguns segundos, mas voltou.
Cole apertou o volante.
— Abaixe-se.
— O quê?
O vidro traseiro explodiu.
Emily se jogou para frente.
Fragmentos caíram sobre o banco.
Cole acelerou.
— Eles estão atirando!
— Eu percebi.
— Pare de dizer isso!
Ele fez uma curva brusca e entrou em um estacionamento subterrâneo. Desceu dois níveis em alta velocidade, apagou os faróis e parou atrás de uma fileira de colunas.
Emily respirava de forma irregular.
Cole desligou o motor.
O silêncio pareceu enorme.
— Eles vão nos encontrar — sussurrou ela.
— Talvez.
— Essa palavra não ajuda.
Cole retirou a arma e observou o retrovisor.
Luzes surgiram na rampa.
Um carro entrou no primeiro nível.
Depois o segundo.
Emily sentiu o pânico apertar seu peito.
Cole tocou seu braço.
— Olhe para mim.
Ela obedeceu.
— Quando eu mandar, saia pela porta e corra até a escada vermelha.
— E você?
— Vou atrasá-los.
— Não.
Cole pareceu surpreso.
— Não vou deixá-lo aqui.
— Há dez minutos você me chamou de assassino.
— E ainda acho que é.
— Então vá.
— Não vou carregar mais uma morte causada por essa investigação.
Algo atravessou o rosto dele.
— Você não é responsável pelo que essas pessoas fazem.
— Foi o que disseram sobre meu pai. Que procurou problemas. Que foi longe demais. Que deveria ter parado.
Cole apertou a arma com mais força.
— Seu pai não morreu porque foi longe demais.
Emily parou.
— O que isso significa?
As luzes do veículo perseguidor se aproximaram.
Cole abriu a porta.
— Significa que alguém decidiu que ele sabia demais.
— Quem?
Ele saiu do carro.
Emily segurou seu braço.
— Quem decidiu?
Cole olhou para ela.
A resposta parecia presa em sua garganta.
Então um disparo atingiu a coluna ao lado.
Cole empurrou Emily para baixo e revidou.
O estacionamento encheu-se de ecos.
Ele fechou a porta e voltou ao volante.
— Mudança de plano.
O motor rugiu.
Cole acelerou em direção à saída oposta. O carro atravessou uma cancela e subiu para a rua.
Os perseguidores ficaram para trás.
Por alguns minutos, nenhum dos dois falou.
Emily mantinha as mãos fechadas sobre o colo, tentando controlar o tremor.
Cole dirigia em silêncio, olhando constantemente para os retrovisores.
Quando finalmente alcançaram uma estrada mais vazia, ele reduziu a velocidade.
Chicago começou a desaparecer atrás deles.
— Meu editor — disse Emily. — Preciso avisá-lo.
— Não pode usar telefone.
— Noah pode estar em perigo.
— Enviarei alguém.
— Alguém seu?
— Sim.
— Não quero ninguém da Blackwood perto dele.
— Neste momento, meus homens são a melhor chance que ele tem.
Emily virou o rosto para a janela.
O dispositivo de Thomas continuava no bolso de Cole.
— Devolva o que pegou.
— Não.
— É meu.
— Não sabemos isso.
— Traz as iniciais do meu pai.
— E estava no escritório do meu pai.
— O que só prova que sua família roubou dele.
Cole apertou o volante.
— Você sempre chega à conclusão que mais deseja?
— Este instituto foi construído para que nenhum homem, família ou empresa possua sozinho a verdade ou a segurança de quem fala. Nem mesmo nós.Cole deixou o microfone.Não houve aplauso imediato.Depois uma mulher na primeira fila levantou-se.Era a esposa do homem preso pelas provas plantadas por Cole.Ela não sorriu.Apenas começou a bater palmas.Outros acompanharam.Cole fechou os olhos por um instante.Não era perdão.Ele sabia.Era reconhecimento do trabalho.Talvez fosse mais difícil de receber.Depois da cerimônia, os convidados ocuparam o jardim.Margaret conversava com representantes de organizações internacionais. Ethan mostrava uma sala de arquivos para a mãe de Emily. Noah tentava convencer uma senadora a financiar uma nova unidade.Cole desapareceu.Emily o encontrou na antiga área de leitura, agora vazia.Ele estava diante de uma janela.— Fugindo da própria inauguração? — perguntou.— Fazendo uma pausa.— Isso é saudável.— Não parece comigo?— Estou desconfiada.Emily
Noah transformou a série de reportagens em um projeto permanente de jornalismo investigativo. Recusou três ofertas milionárias para vender os direitos da história.— Muito dinheiro costuma vir acompanhado de notas criativas — explicou. — E ninguém colocará Cole como um herói incompreendido com mandíbula atraente.Emily olhou para ele.— A mandíbula é relevante?— Para os produtores, aparentemente.Cole estava sentado do outro lado da mesa.— Tenho direito de objeção?— Não — responderam Noah e Emily ao mesmo tempo.Noah criou uma rede de redações independentes que compartilhava documentos sensíveis de forma segura. A ideia partira do método de Thomas.A verdade não pertencia a quem a encontrava.Pertencia a quem conseguia fazê-la sobreviver.Margaret ampliou o fundo de reparação com parte da fortuna pessoal. Depois dos processos, ativos apreendidos da Blackwood Defense foram direcionados para indenizações, proteção de testemunhas e apoio a denunciantes.Mas Emily queria algo diferente
— Nenhum dos relacionamentos durou.Cole tentou esconder o alívio.Falhou.— Por minha causa? — perguntou.— Em parte.Ele baixou os olhos.— Sinto muito.— Não precisa. Eu também estava descobrindo quem era fora de você.— E descobriu?Emily pensou em Londres.Nas investigações.Na casa nova.Nas noites em que sentira falta dele e nas semanas em que não sentira.— Descobri que consigo viver sem você.Cole ficou imóvel.Ela estendeu a mão sobre a mesa.— E isso é importante.Ele olhou para os dedos dela.— Por quê?— Porque agora, se ficarmos juntos, não será porque preciso que me salve, porque estamos fugindo ou porque minha vida desmoronou. Será porque escolho.Cole colocou a mão sobre a dela.— Ainda escolhe?— Estou aqui.— Isso não respondeu.— Você está aprendendo a fazer perguntas diretas.— Emily.Ela apertou os dedos dele.— Sim. Ainda escolho.O alívio no rosto de Cole foi tão profundo que doeu observá-lo.— Mas — continuou ela — não vamos fingir que cinco anos desapareceram
A realidade foi mais silenciosa.Ela apenas ficou ali.Esperando que ele escolhesse caminhar.Cole avançou.Cada passo parecia retirar uma parte da prisão que ainda carregava dentro de si.Quando chegou perto, Emily o observou dos pés à cabeça.— Está magro.— A comida era ruim.— Poderia ter reclamado nas cartas.— Reclamei bastante.— Chamou de “nutricionalmente questionável”.— Linguagem monitorada.Emily quase sorriu.Os dois ficaram diante um do outro.Perto.Ainda separados por tudo que viveram.— Você veio — disse Cole.— Aparentemente.A mesma resposta da primeira visita.Ele reconheceu.— Não sabia se estaria aqui.— Eu também não.A honestidade não doeu.Não daquela vez.— O que decidiu? — perguntou.Emily olhou para o portão atrás dele.— Que não quero voltar ao que éramos.Cole sentiu o medo, mas permaneceu imóvel.— Certo.— Éramos duas pessoas vivendo dentro de uma emergência. Não sabíamos quem seríamos quando o perigo terminasse.— E agora sabe?— Sei quem sou.— E eu?
Cole encostou a testa à dela.— E se não houver mais nós?Emily sentiu o coração apertar.— Então ao menos teremos escolhido com honestidade.Ele assentiu.— Isso é terrivelmente sensato.— Odeio quando acontece.Cole beijou-a.Um beijo breve.Sem desespero.Sem promessa impossível.Quando se afastou, colocou alguma coisa em sua mão.A aliança.Emily olhou para ele.— Estava com seu advogado — explicou. — Não estou pedindo que use.— Então por que devolver?— Porque nunca pertenceu à mentira.Os agentes o levaram.Emily ficou no tribunal, segurando o anel.Não o colocou.Guardou no bolso.Os primeiros meses foram difíceis.Cole foi enviado para uma prisão federal de segurança média, longe de Chicago.As ligações tinham horário.As cartas eram examinadas.As visitas aconteciam em uma sala iluminada demais, com mesas presas ao chão.Emily foi vê-lo depois de seis semanas.Quando Cole entrou usando uniforme, o choque atingiu os dois.Ele parecia mais magro.O cabelo estava mais curto.As
— O senhor não será preso enquanto estiver internado — informou um deles. — Mas haverá vigilância e restrições assim que receber alta.Cole assentiu.— Entendo.O advogado esperou que saíssem.Depois fechou a porta.— Você entregou um caso que nenhum promotor seria capaz de construir sozinho.— Era a ideia.— Também entregou a eles sua condenação.— Eu sei.— Pare de dizer isso como se compreender a consequência tornasse a decisão inteligente.Cole olhou para Emily.Ela ainda segurava a aliança dentro da mão fechada.— Existe alguma possibilidade de acordo? — perguntou.O advogado soltou uma respiração.— Cooperação substancial. Testemunho contra Victor, Halpern e os outros. Localização de vítimas. Recuperação de provas. Talvez consigamos retirar algumas acusações e reduzir outras.— Quanto tempo? — perguntou Cole.— Não posso prometer.— Uma estimativa.O homem olhou para Emily antes de responder.— Se o governo aceitar uma negociação ampla, entre quatro e oito anos. Talvez mais.O m







