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A Assinatura do Predador

last update publish date: 2026-10-14 22:53:52

{Marcos}

 

Observar a silhueta de Bruna desaparecer pelo corredor do restaurante foi um espetáculo à parte.

 

A maneira como seus ombros tremiam sutilmente, o desespero velado em seus passos e o medo cru estampado naqueles olhos amendoados faziam cada gota do meu sangue pulsar com uma intensidade que eu não sentia há anos.

Ajustei os punhos do meu paletó no espelho do hall de acesso ao sair do banheiro masculino e caminhei com passos tranquilos de volta ao salão principal.

Quando cheguei à mesa, Matheus já estava sentado, acompanhando com o olhar a porta de vidro do restaurante por onde a garota acabara de passar. A cadeira ao lado dele estava vazia, e o guardanapo de pano dela repousava amassado sobre a mesa — a única prova física de que a minha nora tinha acabado de fugir do próprio pesadelo.

Acomodei-me na minha poltrona com a mesma calma calculada de sempre e pousei os braços sobre a mesa.

— Ela já foi? — perguntei, mantendo a voz firme e perfeitamente neutra.

— Foi, sim... — Matheus suspirou, virando o restante do vinho na taça. Ele parecia genuinamente preocupado, esfregando a nuca com ar de frustração. — Ela disse que estava com um enjoo forte. Fiquei chateado de não levar, mas ela insistiu tanto para eu ficar com vocês... A Bruna é assim, sempre pensando nos outros antes dela.

Segurei o riso por trás da expressão séria. Sempre pensando nos outros. Se o meu filho soubesse onde os pensamentos daquela garota estavam travados desde o momento em que pisei neste restaurante...

— Uma pena — comentou Renata, cortando um pedaço da sobremesa. — Ela me pareceu uma menina adorável, Matheus. De onde ela é mesmo? Quero saber tudo sobre ela!!

— O nome completo dela é Bruna Trombelli — respondeu Matheus, e um sorriso bobo se abriu em seus lábios enquanto ele começava a discorrer sobre a mulher da sua vida. — A família dela é super tradicional do interior, mas ela mora sozinha em Botafogo, no Edifício Residencial Solaro. É formada em Arquitetura e trabalha no conceituado Opus Design & Arquitetura na Zona Sul... Ela é incrível, mãe. Uma menina boa, pura, doce... e incrivelmente inocente para o mundo de hoje.

Levei a minha taça de uísque aos lábios bem no exato momento em que a palavra inocente saiu da boca do meu filho.

O líquido desceu rasgando, e o ar trancou na minha garganta. O contraste brutal entre a descrição do garoto e a imagem daquela mesma mulher gemente, totalmente entregue e descontrolada sob os meus dedos na suíte do hotel me fez engasgar de forma audível.

Tossi duas vezes, cobrindo a boca com o guardanapo de linho.

— Marcos? — Renata franziu a testa, encarando-me com uma sobrancelha erguida. — Você está bem?

— Sim... apenas a bebida subiu errado — respondi com a voz ligeiramente rouca, limpando os lábios com calma e recompondo a postura imponente. — Continue, Matheus.

Matheus nem percebeu a ironia da cena. Ele se inclinou para a frente, apoiando os cotovelos na mesa e olhando de mim para a mãe com uma seriedade solene.

— O ponto é que eu sei que vacilei feio com aquela confusão da secretária no meu apartamento. Eu quase perdi a Bruna por causa daquela bobagem. Mas ter quase perdido ela me fez acordar para o que eu realmente quero. Eu tomei uma decisão.

Ele fez uma pausa dramática, buscando o meu olhar.

— Eu vou pedir a Bruna em casamento.

Renata soltou um pequeno suspiro de surpresa, levando a mão ao peito, enquanto eu sustentava o olhar do meu filho em silêncio. A audácia do garoto era quase cômica.

— Casamento, Matheus? — perguntei, abaixando o tom de voz para aquela gravidade que costumava impor respeito em qualquer mesa de diretoria. — Você tem certeza absoluta de que ama essa mulher a esse ponto? Casamento é um compromisso sério. Definitivo. Não é um jogo de namorados para consertar briguinhas e inseguranças de momento.

Renata soltou uma risada curta, carregada de um sarcasmo antigo, e balançou a cabeça.

— Ah, por favor, Marcos! Não venha você dar sermão sobre a gravidade do casamento! — alfinetou ela, encarando-me com ironia. — Você passou a vida inteira fugindo de qualquer compromisso sério, tratando relacionamentos como se fossem contratos descartáveis da sua empresa, e agora quer palestrar sobre amor e maturidade para o seu próprio filho? Deixe o menino amar!

Sustentei o olhar ácido de Renata sem me dar ao trabalho de alterar o tom de voz. Discussões rasas sobre o meu passado com a ex-mulher não me interessavam em nada, especialmente agora que eu tinha assuntos muito mais urgentes para resolver.

— Bom, já que a conversa tomou este rumo... vou aproveitar a deixa — declarei, empurrando a taça para o centro da mesa e ajustando o botão do meu paletó enquanto me levantava. — Tenho um compromisso de extrema urgência ainda hoje e preciso ir.

— Já, Marcos? O jantar nem terminou direito — reclamou Renata.

— O meu tempo é escasso, Renata, você sabe disso — respondi friamente. Dei um tapinha no ombro de Matheus, encarando o garoto nos olhos. — Pense bem no que você está planejando, meu filho. As escolhas que fazemos na vida costumam ter consequências irreversíveis.

Caminhei até a recepção do restaurante antes mesmo que eles pudessem protestar. Saquei o cartão de crédito de dentro do paletó, paguei a conta inteira do jantar sem olhar o valor, assinei o recibo e atravessei as portas de vidro para a noite fria do Rio de Janeiro.

O meu SUV preto já estava parado no meio-fio, com o motor ligado e as luzes baixas acesas.

O motorista abriu a porta traseira no mesmo instante em que pisei na calçada, batendo no teto do carro em cumprimento respeitoso.

— Boa noite, senhor Buckhard. Voltamos para a cobertura na Barra? — perguntou ele, ajustando o espelho retrovisor assim que fechei a porta e me acomodei no banco de couro escura.

Desabotoei os dois primeiros botões da minha camisa, sentindo o ar condicionado do carro aliviar o calor da minha pele. A imagem de Bruna fugindo no táxi, o cheiro do perfume dela que ainda parecia impregnado nos meus dedos e as palavras de Matheus ecoavam na minha mente como um desafio imposto diretamente à minha autoridade.

Bruna Trombelli. Botafogo.

Um sorriso sombrio, lento e inflexível curvou o canto dos meus lábios na penumbra do veículo.

— Não, Valdir — respondi, com a voz grave sob a iluminação fraca da rua. — Vamos para Botafogo. Vou te passar o endereço exato agora.

 

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