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A Fuga na Penumbra

last update Petsa ng paglalathala: 2026-10-13 23:19:57

{Bruna}

Precisei de alguns segundos no corredor para obrigar minhas mãos a pararem de tremer e fazer o ar voltar aos meus pulmões. O toque de Marcos ainda queimava no meu queixo; a ameaça velada que ele sussurrara na minha orelha continuava ecoando como um alerta de perigo iminente.

Ajustei a postura, engoli o nó grosso que arranhava minha garganta e passei as mãos pelo vestido para desamassar o tecido. Quando voltei ao salão principal do restaurante, meus pés pareciam pesados, como se eu estivesse caminhando direto para um tribunal.

Ao me aproximar da mesa, Matheus me olhou com preocupação imediata e se levantou ligeiramente da cadeira.

— Amor, tudo bem? Você demorou... está muito pálida — disse ele, puxando a minha cadeira com o cuidado de sempre.

— Está tudo bem, sim... — forcei um sorriso fraco, evitando olhar para a frente enquanto me sentava. — Apenas uma leve tontura, nada demais.

— Tem certeza? Se quiser, podemos pedir a conta agora — ele se inclinou, baixando a voz com carinho.

— Não precisa, querido, não estrague o jantar por minha causa — respondi, tentando manter o tom mais natural do mundo.

No entanto, o verdadeiro pesadelo não era a preocupação de Matheus; era a presença silenciosa do homem sentado à minha frente.

Marcos continuava ali, perfeitamente sereno, cortando seu corte de carne com uma precisão impecável. Ele conversava com Renata sobre o mercado de investimentos e a expansão da Buckhard Holdings, mantendo a postura refinada de um magnata em uma noite comum. Mas, a cada pausa na conversa, a cada gole de vinho, seus olhos cinzentos deslizavam lentamente em minha direção.

Não era um olhar qualquer. Era um escaneamento lento, calculista e profundamente dominador. Toda vez que nossos olhos se cruzavam por fração de segundo, a lembrança dos seus dedos em mim e da sua voz rosnando no banheiro do restaurante fazia um arrepio gelado subir pela minha espinha. Ele estava saboreando o meu pavor. Sabia exatamente o poder que tinha nas mãos e o quanto eu estava acuada.

— A Bruna me parece um pouco cansada, Matheus — a voz grave de Marcos soou sobre a mesa, cortando meus pensamentos. Ele levou a taça aos lábios, o olhar cravado no meu. — O trabalho na arquitetura deve estar exigindo bastante dela ultimamente. Não deveríamos forçá-la a um jantar longo.

— É verdade — concordou Renata, olhando para mim com empatia. — Você parece exausta, querida.

A pressão sobre o meu peito ficou insustentável. Estar naquela mesa, dividida entre o amor inocente de Matheus e o controle sádico de Marcos, era pior do que qualquer punição. O ar no restaurante parecia estar acabando.

— Eu... eu realmente não estou me sentindo bem — murmurei, apoiando as mãos na mesa e me levantando antes que qualquer um pudesse me conter. — Acho que foi algo que comi mais cedo. Peço mil desculpas, dona Renata, Marcos... mas acho melhor eu ir para casa descansar.

— Eu vou com você! — Matheus disse no mesmo instante, já pegando o paletó sobre a cadeira e buscando a carteira no bolso. — Vou te levar agora mesmo, Bruna.

— Não, Matheus, por favor! — fechei a mão sobre a dele, a voz saindo ligeiramente desesperada demais. — Não faça isso. Você passou semanas sem jantar com seus pais reunidos assim. Fique e aproveite a noite com a sua mãe. Eu insisto.

— Mas amor, você está mal, eu não vou te deixar ir sozinha...

— É sério, Matheus — apelei para o meu tom mais firme, tentando disfarçar a urgência no meu olhar. — Eu só preciso de um banho e da minha cama. Um táxi me deixa na porta de casa em dez minutos. Por favor, fique.

Renata interveio, tocando o braço do filho:

— Deixe a menina ir descansar, Matheus. Ela tem razão, você pode pedir um carro do aplicativo para ela e nos acompanhamos até a porta.

Matheus hesitou, visivelmente contrariado, mas acabou cedendo com um aceno de cabeça. Ele se levantou e me deu um beijo carinhoso na testa.

— Me avise assim que chegar, tá bom? Eu te amo.

— Eu também... — menti com o coração esmagado pela culpa.

Marcos permaneceu sentado. Ele apenas ergueu a taça de vinho em um brinde silencioso e imperceptível para os outros, com o canto dos lábios curvado naquele mesmo sorriso sombrio e perigoso do banheiro.

— Melhoras, Bruna. Tenho certeza de que nos veremos em breve — disse ele, a voz carregada de um duplo sentido que me fez piscar rápido e dar as costas imediatamente.

Praticamente corri em direção à saída do restaurante. O ar frio da noite carioca atingiu meu rosto assim que passei pelas portas de vidro do estabelecimento, funcionando como um alívio temporário para o sufocamento.

Um táxi amarelo que passava pela avenida diminuiu a velocidade ao ver meu sinal. O motorista encostou no meio-fio e destravou a porta. Entrei apressada no banco traseiro, batendo a porta com força.

— Para onde, moça? — perguntou o motorista pelo retrovisor.

— Botafogo, por favor. Pode ir rápido — pedi, desabando contra o estofado de couro sintético.

Olhei para trás através do vidro fumê do carro enquanto o táxi acelerava. Na entrada do restaurante, vi Matheus ao lado de Renata, me dando um tchauzinho de longe. E, um pouco mais atrás, na sombra da cobertura do restaurante, a figura imponente de Marcos observava o meu carro partir.

Apertei a bolsa contra o peito, sentindo as lágrimas contidas finalmente transbordarem e sujarem minha maquiagem. Eu tinha conseguido fugir daquele jantar, mas sabia que era uma vitória ilusória. A tempestade apenas começara, e Marcos Buckhard não era o tipo de homem que deixava suas presas escaparem tão fácil.

 

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