LOGIN(Bruna) A noite já havia estendido seu manto escuro sobre o Rio de Janeiro quando atravessei a porta da cobertura na Barra da Tijuca. Usei o mesmo rigor de sempre: o estacionamento privativo, o elevador exclusivo e a discrição absoluta que nosso pacto exigia. Assim que pisei no hall, Marcos me esperava. Ele vestia uma blusa de tricô preta de gola alta que acentuava a imponência de seus ombros e a força de sua postura. Bastou um olhar atento para perceber que a calma habitual dele trazia uma tensão oculta nas linhas rígidas do maxilar. — Vejo que o seu dia foi movimentado — começou ele, a voz grave ecoando suavemente pelo espaço amplo antes mesmo que eu pudesse tirar o casaco. Parei em seco, arqueando uma sobrancelha. — Como você sabe? — perguntei, surpreendida. Marcos deu dois passos lentos até mim, pegou meu casaco com delicadeza e o pendurou, mantendo os olhos cinzentos fixos nos meus. — A segurança da torre e o sistema de monitoramento discreto que mantenho nos arredor
(Bruna)Os dias que se seguiram ao escândalo foram marcados por uma calmaria produtiva no escritório de arquitetura. Com o estúdio reorganizado e as regras do meu pacto com Marcos firmemente estabelecidas, dediquei cada hora do meu dia a fechar contratos para o novo projeto residencial e a consolidar minha independência profissional. A minha relação com Marcos continuava intensa, mas agora habitava o refúgio seguro das sombras, blindada contra os julgamentos externos.Até que, numa tarde de quinta-feira, a campainha da recepção do estúdio tocou.Eu estava curvada sobre a mesa de desenhos conferindo as especificações de iluminação quando minha assistente abriu a porta de vidro com uma expressão visivelmente constrangida.— Bruna... desculpa interromper — começou ela, a voz hesitante. — Tem alguém na recepção insistindo em falar com você. Ele não quis ir embora.Antes que eu pudesse perguntar quem era, uma figura esguia e abatida empurrou a assistente de leve e entrou no estúdio. Matheu
(Bruna)A entrada pelo estacionamento privativo da cobertura foi feita com o rigor de uma operação secreta. Deixei meu carro duas quadras antes, em um estacionamento rotativo, e peguei um veículo de aplicativo para não levantar suspeitas na portaria principal. Usei a chave magnética que Marcos me entregara semanas atrás, acessando o elevador exclusivo direto do subsolo, sem passar por nenhum funcionário ou condômino.Quando as portas de metal escovado se abriram silenciosamente no hall privativo, o contraste com a tensão do dia foi imediato. A iluminação indireta e acolhedora da cobertura criava uma atmosfera de puro refúgio. O aroma suave de um jantar recém-preparado e o som discreto de um jazz instrumental ao fundo preenchiam o espaço.Marcos veio ao meu encontro assim que me viu retirar os sapatos de salto alto. Ele vestia uma calça confortável de moletom e uma camisa de algodão cinza com as mangas dobradas até os cotovelos.— Ninguém a seguiu? — perguntou ele, abrindo um sorriso s
(Bruna)O beijo ainda ressoava em mim, quente e envolvente, quando o som metálico da maçaneta girando cortou o ar do escritorio.Em uma reação quase instintiva, tentei me afastar, mas os braços de Marcos ainda me seguravam pela cintura quando a porta de vidro se abriu de vez. Vanessa, uma das arquitetas do setor de projetos corporativos — com quem eu mantinha apenas uma relação profissional distante —, deu dois passos para dentro carregando uma pasta de pranchas.Ela parou estática no meio do caminho. Os olhos dela se arregalaram ao cruzar com a cena: eu, encurralada contra a mesa de reuniões, nos braços do homem mais influente do mercado imobiliário e pai do meu ex-namorado.— Ah! Meu Deus... Me... me desculpa, Bruna! — gaguejou Vanessa, empalidecendo e quase deixando a pasta cair das mãos. — Eu... eu não sabia que você estava em reunião... com o senhor Buckhard. Licença!Antes que qualquer um de nós pudesse pronunciar uma palavra, ela deu meia-volta desajeitada, quase tropeçando nos
(Bruna)O silêncio do meu escritório de arquitetura era o refúgio perfeito após os furacões dos últimos dias.Espalhadas sobre a grande mesa de reuniões, dezenas de amostras de revestimentos, plantas baixas e renderizações em 3D de um novo projeto residencial ocupavam todo o espaço. Prendi o cabelo em um rabo de cavalo alto, vesti uma calça de alfaiataria confortável e uma blusa de seda leve, mergulhando de cabeça no trabalho.A minha liberdade profissional nunca me pareceu tão doce. Sem a pressão de sustentar uma narrativa falsa, sem as cobranças sufocantes da minha família e de matheus e sem a obrigação de me encaixar em um molde que não me pertencia, a minha criatividade fluía livre e intensa.Concentrada em alinhar os detalhes da iluminação de uma fachada moderna, mal notei o movimento na recepção do estúdio. Só percebi que algo havia mudado quando o burburinho habitual das assistentes cessou de repente, substituído por um silêncio reverente e pelo som inconfundível de sapatos de
(Marcos) O sol da manhã entrava em feixes alinhados pelas janelas panorâmicas do quinquagésimo andar da Buckhard Holdings. Da minha poltrona executiva, o Rio de Janeiro parecia aos meus pés, mas o meu pensamento permanecia inteiramente focado na porta da frente. A xícara de café preto fumegava sobre a mesa de mogno impecavelmente arrumada — a mesma mesa que, na noite anterior, havia testemunhado a vergonha da minha linhagem. A porta da sala abriu-se com um estalo seco. Matheus entrou pisando duro, com a postura rígida e o cenho franzido. Não havia nenhum sinal de arrependimento genuíno ou de culpa sincera em seu semblante; o que transparecia em cada linha do seu rosto era uma irritação profunda e infantil, a revolta de um garoto mimado que teve o brinquedo favorito confiscado. Ele trazia a pasta debaixo do braço e jogou-se na cadeira diante da minha mesa sem sequer esperar um convite. — Pai, o que foi aquilo tudo ontem à noite? O senhor perdeu o juízo de vez?! — disparou Matheus l







