FAZER LOGINÍsis Soares
— Desculpem o atraso. Guilherme se aproximou com a postura segura e um sorriso se formando nos lábios. Ele cumprimentou meus pais, depois os dele, com a mesma elegância tranquila de sempre. E então o olhar dele fixou em mim novamente e ele veio na minha direção, até parar diante de mim. Fiquei tão nervosa que acabei esquecendo como reagir. — Ísis — disse meu nome, soando diferente na voz dele. Ele segurou minha mão com delicadeza e a levou até os lábios. O toque foi leve, mas o suficiente para me deixar completamente sem reação. Ele fez questão de não desviar o olhar por nenhum segundo, extremamente focado em mim. — É um prazer finalmente falar com você. Eu tentei responder, juro que tentei, mas as palavras simplesmente não vieram. Só consegui assentir levemente, sentindo o calor subir pelo meu rosto. — Meu filho, sempre impecável. — a voz de Melânia surgiu carregada de orgulho. Ela se aproximou de nós e pousou a mão no braço do filho, olhando para ele com admiração. Então seus olhos passaram para mim. — E vocês dois, formam um belo par. Meu coração deu um salto e naquele momento a ideia de me casar com Guilherme me deixou eufórica. — Henrique não vem? — meu pai perguntou, quebrando o momento. O nome do irmão do meu futuro noivo, trouxe algo estranho ao ambiente. — Deve atrasar, mas não vamos esperar. Por favor, vamos para a mesa. — Teodoro, respondeu como se não importasse e por algum motivo aquilo ficou guardado em mim com uma certa estranheza. Guilherme então voltou a olhar para mim e seus dedos envolveram os meus com naturalidade. — Você está bem? — Guilherme perguntou num tom baixo, só para mim. — Estou. Caminhamos lado a lado até a mesa e cada passo parecia confirmar tudo o que eu tinha imaginado. Guilherme era atento, gentil e seguro. O tipo de homem que sabia exatamente o que fazer, o que dizer e como agir. Tudo o que eu tinha construído sobre ele parecia se tornar real. Guilherme puxou a cadeira para mim com cuidado, esperando que eu me acomodasse antes de sentar ao meu lado, sua atenção não parecia ensaiada. Talvez ele estivesse satisfeito com a ideia do casamento, ou pelo menos era o que eu queria acreditar. — Está confortável? — ele perguntou, inclinando-se levemente na minha direção. — Sim. Ele sorriu e a conversa na mesa começou a fluir com naturalidade. Nossos pais falavam sobre negócios, projeções e números. Toda aquela conversa era uma base invisível daquele encontro. Ao meu lado, Guilherme parecia criar uma bolha diferente, mais leve e pessoal. — Você está muito bonita, Ísis, mas sinto que está muito nervosa. — É impossível não ficar nervosa na situação em que nos encontramos. Senti o leve toque dos dedos dele próximo ao meu rosto. Fiquei imóvel sem entender, até que com delicadeza ele limpou o canto dos meus lábios com o guardanapo. — Tinha um pouco de molho aqui. — disse, quase num sussurro. O gesto foi simples, íntimo e completamente inesperado. O calor subiu pelo meu rosto, e quando ergui o olhar, encontrei o da minha mãe atento e satisfeito em nós. Tentei disfarçar voltando o olhar para o prato. — E o que você acha desse casamento? Você está de acordo com tudo, Ísis? — Guilherme de repente me perguntou direto e sem hesitar. Antes que eu pudesse responder, a voz cortou o ambiente. Grave, fria e direta: — Vejo que começaram sem mim. O ar de repente mudou, levantei o olhar e vi Henrique parado na entrada da sala de jantar com o semblante fechado. Mais alto que o Guilherme, a presença dele parecia ocupar mais espaço do que deveria. Não apenas fisicamente, mas de alguma forma mais intensa. Ele é inegavelmente bonito. Já tinha o visto em eventos, mas diferente do irmão, ele era sempre distante e reservado, sempre à margem das conversas superficiais. Moreno claro, com o porte forte que não precisava ser exibido para ser notado. Os olhos castanhos carregavam uma intensidade silenciosa. Os cabelos impecavelmente alinhados e a barba sempre bem feita. — Henrique — Teodoro chamou, contido. — Achei que não viria. — Resolvi aparecer — respondeu, seco. Os olhos dele percorreram a mesa, até pararem em mim. Era um olhar direto e avaliativo. Meu coração começou a acelerar por outro motivo. — Achei que esse tipo de reunião exigia todos os envolvidos — disse, sentando-se do outro lado da mesa de frente para mim. — Estamos todos aqui. — Seu pai respondeu, em tom neutro, tentando manter as aparências. Guilherme ao meu lado permaneceu em silêncio. — Interessante — Henrique continuou. — Decisões sendo tomadas com o futuro de duas pessoas e ninguém achou relevante perguntar para os dois se eles estão de acordo com isso. — Henrique! Não é o momento. — Melania chamou em tom de aviso. — Claro que é? Quando seria? O clima era pesado, me mantive em silêncio observando o desenrolar. — Estamos tratando de algo importante. Um acordo que beneficia ambas as famílias. — Meu pai interveio com firmeza. — Isso aqui não é um acordo. É uma decisão já tomada. Vocês já perguntaram para o Guilherme se ele realmente quer isso? O silêncio na mesa foi pesado. Guilherme não se atreveu a dizer nada. — E você, Ísis? Quer de verdade casar com meu irmão? Você nem o conhece… Olhei de um lado para o outro sem saber o que dizer. — Não se trata do que eu quero. — meu tom de voz saiu baixo. — Então do que se trata? Porque meu irmão é covarde demais para dizer que não quer. As palavras dele caíram diretas e pesadas. — Isso é um exagero! — Melania interveio com um sorriso forçado. — Estamos apenas formalizando algo que há tempos vem sendo discutido. Eu e seu pai, assim como os pais da Ísis estão de acordo e acredito que isso seja o suficiente. Henrique encarou o irmão e por um instante algo rápido e silencioso passou entre os dois, com um peso que eu não conseguia decifrar. Ele então voltou a olhar para mim, sem ironia ou deboche. — Você não sabe no que está se metendo, Ísis! — Me disse direto e sem rodeios. Ele finalmente se levantou da cadeira e saiu da mesa, mas o clima não voltou ao que era antes. Alguma coisa tinha sido exposta e mesmo sem entender o quê, eu sabia de alguma forma que era o começo de algo que já nasceu errado.Ísis Anos se passaram desde aquela tarde em Positano, mas algumas lembranças continuam tão vivas que parecem ter acontecido ontem. Aquela manhã, tinha um sabor diferente. Estávamos numa viagem especial no resort em Punta Cana.Para quem estiver se perguntando, a resposta é sim. O mesmo resort da nossa lua de mel.Parei diante da entrada do cais, segurando Beatriz nos braços. Minha pequena tem apenas um ano e está distraída brincando com a alça da minha bolsa enquanto observo Henrique carregar Benício.Meu pequeno já tem três anos e é a cara do pai.Meu pai se aproxima e meu filho se j**a nos braços do vovô.— Vem cá, meu neto. Não precisam se preocupar. Cuidaremos bem dos dois, minha filha. — papai fala completamente apaixonado pelo neto.— Comporte-se, campeão. — Henrique entrega nosso filho para o avô.— Vá tranquila, minha filha. — Minha mãe se aproxima de mim e pega Beatriz nos braços.Olho para minha filha mais uma vez com uma pontinha de preocupação. Coisa de mãe. Beijo delicad
TeodoroO rei atrás das grades…Posso estar vivendo em uma cela, mas isso não significa que deixei de ser o homem que sempre fui. Senti-me numa poltrona confortável que foi providenciada para mim. Sobre a pequena mesa, repousava uma xícara de café recém-passado.A porta da minha cela foi aberta e Melânia entrou carregando diversas sacolas com uma expressão de desgosto. Como sempre ela olha ao redor como se tivesse acabado de pisar em um lugar imundo.— É muita humilhação ter que vir a esse lugar para visitar você.— Não seja dramática. — Revirei os olhos.Ela colocou as sacolas sobre a mesa.— Você está preso, Teodoro.— Por enquanto. — Cruzo as pernas. — Continuamos ricos, meu amor e com os contatos que tenho, em no máximo dois anos estarei em domiciliar.— Você realmente acredita nisso?— Eu não acredito. Eu sei.Aponto para as sacolas antes de continuar.— Fez as ligações para as pessoas que pedi?— Todas. O senador e o juiz estão a par.Quando ela abre uma das sacolas, meu sorris
ÍsisHenrique permaneceu ao meu lado, acariciando meus cabelos e, de vez em quando, beijava minha testa. Aquela sensação de segurança era tudo o que eu precisava.— Tadeu e a Ingrid mandaram fotos mais cedo… — comentei, tentando mudar o rumo dos pensamentos. — Estão curtindo demais a lua de mel em Santorini. As paisagens de lá são surreais.— Sabe de uma coisa, meu amor? Depois de ver o casamento deles, acho que nós também precisamos de uma cerimônia especial. Uma renovação dos nossos votos. Nossa cerimônia de casamento não foi nada memorável. O que acha?— Eu adorei a ideia, Henrique. — respondi, animadamente. — O que acha de fazermos em Positano? Só a gente, cercados pela nossa família e amigos mais íntimos? Com a Yolanda, o Francesco e o Matteo. Uma celebração simples, mas cheia de amor.— Então está decidido. — Henrique concordou com brilho nos olhos.— Depois do nascimento do Benício, começamos a organizar tudo, amor.Guilherme e Tiziano concordaram de imediato com a ideia. Nossas
TadeuAssim que estacionei o carro em frente a nossa nova casa, caminhei até o lado da Ingrid e abri a porta.— Preparada, Sra. Andere? — perguntei, estendendo a mão.Ela deu uma risadinha gostosa, segurando a saia volumosa do vestido. Quando ela colocou os pés no chão, não pensei duas vezes. Peguei minha esposa no colo.— Tadeu! Meu Deus, você vai me derrubar com esse vestido gigante! — gritou entre gargalhadas, jogando os braços ao redor do meu pescoço.— Seu maridão aqui, tá em dias com a academia.Caminhei com ela nos braços e destravei a porta com um pouco de dificuldade, depois empurrei com o pé. Ingrid olhou ao redor, admirando a sala ampla e silenciosa.— Eu me sinto literalmente numa cena de filme. Daqueles romances bem clichês que amo assistir.Abaixei o rosto e selei nossos lábios em um beijo profundo e cheio de promessas.— Pois acostume-se, Senhora Andere. — sussurrei contra os lábios dela. — Esta é a nossa primeira noite de casados, na nossa nova casa. E é só o começo… a
TadeuO ar dentro da igreja estava carregado de expectativa e cheiro de flores. Meu coração batia tão forte contra o meu peito que às vezes eu tinha a impressão que todos os nossos convidados sentados nos bancos podiam ouvir. Minhas mãos estavam geladas, suando frio.Olhei para o Henrique ao meu lado, meu padrinho. Meu amigo. Um dos poucos homens que conheceu tudo o que precisei enfrentar para chegar até aqui. Ele percebeu meu nervosismo e colocou a mão sobre meu ombro.— Calma, Tadeu. Respira. Soltei uma risada nervosa sentindo meus lábios tremerem. Henrique tentava manter a postura firme, mas seus olhos mostravam o quanto ele também estava nervoso.— Como você consegue falar isso com tanta tranquilidade? — Perguntei.— Porque quem está casando não sou eu.— Muito engraçado. — acabei sorrindo.Quase de frente para nós, estava Ísis sentada no banco reservado nos observando com um olhar doce. Ela acariciava devagar sua barriga grande e redonda. O gesto calmo dela era um contraste compl
Ísis Aos oito meses de gestação, eu já havia aprendido que meu corpo não me pertencia completamente. Cada movimento exigia um pouco mais de esforço. Levantar da cama. Calçar os sapatos. Subir alguns degraus. Até dormir havia se tornado uma espécie de desafio. Mas se existia alguém que fazia tudo parecer mais fácil, esse alguém era o Henrique.Ele cuidava de mim com uma atenção, que às vezes, chegava a ser exagerada.— Devagar.— Você já bebeu água?— Está com fome, meu amor?— Não fica muito tempo de pé.— Quer que eu faça uma massagem?E, quando eu reclamava que ele estava me tratando como se eu fosse feita de porcelana, ele simplesmente sorria.— É a mulher da minha vida carregando nosso filho. Acho que tenho direito de exagerar um pouco.Henrique conversava com minha barriga, fazia planos e gostava de escolher músicas. E todas as noites ficava um bom tempo com a mão sobre ela para sentir os movimentos do nosso bebê. Às vezes, eu acordava durante a madrugada e encontrava Henrique do







