Mag-log inA noite caiu rápido em San Clemente.
O céu ainda guardava um resquício de laranja no horizonte quando a área externa da Surf House começou a ganhar vida. A churrasqueira já estava acesa, e os rapazes se revezavam entre virar hambúrgueres, discutir o ponto ideal da carne e disputar quem tinha a melhor técnica — ainda que, claramente, nenhum deles fosse um chef ou soubesse realmente o que estava fazendo.
Tyler estava responsável pelas viradas dramáticas da carne, exagerando nos movimentos. John reclamava que tudo estava cru e ele estava morrendo de fome. Peter observava em silêncio, como se estivesse avaliando a cena inteira com um cronômetro invisível na cabeça.
A fogueira crepitava logo à frente, lançando uma luz quente sobre o quintal. Ao redor dela, as meninas estavam sentadas em troncos e cadeiras improvisadas, conversando, rindo, contando histórias de campeonatos, viagens e tombos ridículos no mar.
Luna se sentou entre Jordan e Meg, ainda se sentindo levemente deslocada, mas menos tensa do que horas antes. O cheiro do fogo, o som das ondas mais ao longe e as risadas ao redor criavam uma sensação estranha de pertencimento — como se aquele lugar estivesse, aos poucos, tentando acolhê-la.
— Relaxa — sussurrou Jordan em algum momento, percebendo o jeito tenso e atento de Luna. — Todo mundo fica meio travado no primeiro dia. Nós já nos conhecemos faz um tempo, mas você vai se enturmar rápido.
Luna sorriu de canto e assentiu.
O jantar foi simples, barulhento e inesperadamente leve. Hambúrgueres servidos em pratos de plástico, guardanapos insuficientes, dedos gordurentos e piadas internas que Luna ainda não entendia — mas ria mesmo assim, só pelo tom cômico em que eram contadas.
Foi então que Ethan apareceu com o violão.
Ele se sentou em um tronco próximo ao fogo, apoiou o instrumento sobre a perna e começou a tocar sem anúncio algum. A melodia era simples, mas envolvente. Logo, conversas foram se calando aos poucos, como se a música ocupasse naturalmente o espaço.
Alguém começou a cantar, depois outro, até que todos estavam participando do momento. Risadas surgiram quando uma letra saia errada, quando alguém entrava fora do tempo ou desafinava.
Luna ficou observando, meio distante, abraçando os joelhos, sentindo o ritmo da música vibrar no peito.
Ethan tocava com facilidade, mas não com exibicionismo. Era como se aquilo fosse tão natural quanto respirar. De tempos em tempos, Luna percebia — mesmo sem olhar diretamente — que ele a encarava. Um segundo a mais, um sorriso leve, ou um olhar rápido e de volta para o violão.
Ela se desviava, não porque não quisesse olhar, mas porque não queria pensar sobre o que aquilo significava, ou onde a poderia levar.
Em algum momento, sua garrafa de água ficou vazia.
— Vou pegar água — avisou à Jordan, que estava envolvida em outra conversa.
O cooler ficava um pouco mais afastado, perto da lateral da casa. O barulho da pequena festa diminuía à medida que ela se afastava.
Ao abrir a tampa, o vapor gelado subiu, e ela se abaixou para pegar uma garrafa.
Foi aí que percebeu que não estava sozinha.
— Melhor não se iludir.
A voz veio seca, firme, pegando Luna de surpresa.
Luna se virou devagar.
Kira estava parada ali, braços cruzados, o rosto parcialmente iluminado pela luz da casa. O sorriso não chegava aos olhos.
— Oi? — perguntou Luna, mantendo a voz calma.
— O Ethan. — Kira deu um passo à frente. — Ele é meu. Sempre foi. E vai continuar sendo.
Luna sentiu o peito apertar, mas manteve a expressão neutra.
— Eu não...
— Não importa — interrompeu Kira. — Ethan e eu temos um lance. Além disto, eu sou a melhor surfista dessa casa. Esse lugar pertence a mim. E ninguém chega do nada achando que vai tomar meu espaço.
Ela se aproximou ainda mais.
— Muito menos você.
Luna segurou a garrafa de água com mais força. O silêncio entre elas parecia pesado.
— Eu vim aqui para construir a minha própria carreira, não para roubar o lugar de ninguém — respondeu, por fim. — Só isso.
Kira riu sem humor.
— Todo mundo diz isso no começo. Fica na sua. O aviso está dado.
Com isso, virou-se e foi embora, deixando Luna sozinha, com a água gelada na mão e o coração mais acelerado do que gostaria de admitir.
Não era medo. Era irritação.
Sem voltar para a fogueira, Luna pegou um livro que estava em sua mochila deixada na sala, e seguiu diretamente para uma rede que ficava no meio das árvores, mais afastado da casa. Ela tirou os chinelos, se deitou, e tentou se concentrar nas palavras.
Mas sua mente voltava, insistente, para a música, os olhares de Ethan, e a ameaça nada velada de Kira.
Depois de um tempo a música já tinha parado e não se ouviam mais vozes vindas da fogueira, a rede se moveu levemente.
— O que você está lendo? — perguntou uma voz baixa.
Luna fechou o livro sem levantar o olhar.
— Nada que você precise saber.
Ethan pareceu surpreso, como se tivesse tomado um golpe, mas tentou sorrir.
— Uau. Direta.
Ela finalmente o encarou.
— Olha, em não quero confusão. Eu vim aqui para treinar e desenvolver minha carreira. Não estou aqui para arrumar namorado ou arrumar briga com meninas raivosas.
— Ok... Mas de onde veio tudo isto?
— Só faltou a Kira fazer xixi em você como se fosse um cachorro e você uma árvore sendo demarcada.
Ele piscou algumas vezes e fez-se silêncio. E então ele começou a gargalhar.
— Obrigado. Agora eu nunca mais vou conseguir apagar essa imagem perturbadora da cabeça.
Luna suspirou, levando a mão ao rosto.
— Desculpa. Não fui justa com você. — Fez uma pausa. — Eu estou cansada. Foi um dia longo, e amanhã começam os treinos. Eu só preciso dormir. Não quero me atrasar no meu primeiro dia.
Ethan assentiu, compreensivo.
— Claro. Eu entendo.
Ela se levantou, pegando seu livro e calçando os chinelos.
— Boa noite, Ethan.
— Boa noite, Luna.
Ela foi até a casa e entrou pelas portas dos fundos sem olhar para trás.
Ethan ficou ali, parado, olhando na direção da casa. Pelo jeito teria que conversar com Kira.
Ethan estava sentado na areia com o violão apoiado no colo, os dedos repousando sobre as cordas sem realmente tocá-las. O sol se espalhava pelo mar em uma faixa dourada quase líquida, e o vento morno trazia o cheiro familiar de sal, protetor solar e vida. Àquela hora do dia, a praia estava em paz, como se o mundo tivesse concordado em desacelerar por alguns instantes apenas para que ele pudesse assistir àquela cena.Luna estava no raso com a filha deles, que parecia uma versão em miniatura dela, segurando uma prancha infantil enquanto tentava ensiná-la a ficar em pé sobre ela. A água lhes batia na altura dos joelhos, e cada onda pequena que se formava virava um acontecimento digno de celebração.A menina, com os cabelos claros presos de forma torta e um maiô colorido, concentrava-se com a seriedade absoluta que só as crianças muito pequenas conseguem ter. Franzia a testa, apertava os lábios, dobrava um pouco os joelhos como tinha acabado de aprender. Luna a orientava com paciência, seg
Luna desceu as escadas ao lado de Ethan com a sensação desconfortável de que a conversa que tinham acabado de ter não os tinha levado a lugar nenhum.Ethan parecia tão decidido a se ajustar à vida dela, a encontrar uma forma de permanecer por perto, que aquilo, em vez de tranquilizá-la, só a deixava mais angustiada.Luna não suportava a ideia de vê-lo renunciando a algo importante por sua causa. Não suportava a possibilidade de que, um dia, ele olhasse para trás e percebesse que tinha trocado sonhos próprios por um amor que talvez nem se sustentasse.E, se chegasse a esse ponto, se a única forma de o proteger fosse afastando-se, então ela faria. Doeria, ela sabia. Mas faria. Porque, por mais que o amasse, não seria a razão de ele desistir de qualquer parte de si mesmo.Esse pensamento ainda ecoava em sua mente quando chegaram ao andar de baixo e perceberam que todos estavam reunidos na sala principal. Havia um movimento estranho no ar, um tipo de expectativa que Luna não conseguiu nome
Depois de dias em que tudo girava em torno de horários, baterias, estratégia, tensão e expectativa, aquela noite tinha um peso diferente.A etapa de Pipeline tinha terminado, e Ethan também tinha se sagrado campeão. Isso, por si só, já teria sido motivo suficiente para transformar a casa numa festa.A churrasqueira acesa no quintal, o som de vozes e risadas misturadas com música tocada um pouco mais alto do que deveria.Alice e Noah tinham ficado para comemorar também. Só isso já fazia a noite parecer impossível de ser mais perfeita para Luna.Luna observava tudo com um copo na mão, sem realmente beber. A mãe ria perto da bancada externa, com o rosto mais solto do que ela costumava ver, e Harris estava ao lado dela, curvando-se um pouco para ouvi-la melhor no meio do barulho. Havia algo de tão natural entre os dois que Luna sentiu vontade de sorrir.Do outro lado do quintal, Noah tentava, sem o menor talento para discrição, parecer casual ao redor de Meg. Era tão óbvio que chegava a se
Alice estava uma pilha de nervos. Era possível perceber isso na forma como ela andava de um lado para o outro, apertando as próprias mãos.Por mais improvável que parecesse, Luna estava calma. Era como se, em algum ponto da noite anterior, tivesse entregado a própria sorte aos deuses havaianos e decidido que aceitaria o que o mar escolhesse lhe dar. Se viesse a vitória, ela a receberia inteira. Se viesse a derrota, aceitaria em paz.Quando chegaram à praia, a primeira coisa que Luna percebeu foi que todos os seus amigos estavam ali. Todos visivelmente mobilizados pela mesma energia.E então Luna viu Harris discretamente pegar a mão de Alice, apertando-a com calma, como se emprestasse a ela um pouco da estabilidade que parecia faltar. A cena a fez sorrir. Mais engraçado ainda era ver os dois agindo juntos em torno dela, trocando observações curtas sobre o mar, o vento e a escolha da prancha como se formassem, sem nunca ter anunciado isso, um mesmo time.Luna ouvia tudo, assentindo quand
Quanto mais a competição avançava, mais Luna sentia que certas dúvidas deixavam de existir dentro dela. O cansaço acumulado no corpo, os músculos exigidos até o limite e o coração oscilando entre adrenalina e exaustão não embaralhavam seus pensamentos; ao contrário, pareciam arrancar dela tudo o que era ruído, até restar apenas o que era essencial.E o essencial era simples demais para continuar sendo negado. O sonho de ser surfista profissional permanecia intacto. Não era um impulso passageiro, nem uma fantasia juvenil alimentada pelas primeiras oportunidades. Era a vontade mais verdadeira que ela conhecia, a direção para a qual tudo dentro dela apontava desde muito antes de aprender a nomear o que sentia quando estava sobre uma prancha.Mas estar ali, surfando no Havaí, colocava outra verdade diante dela com a mesma firmeza. Aquele lugar não era apenas palco de uma competição importante, nem uma lembrança bonita de tempos mais simples. Era casa. Sempre tinha sido. E, por mais que a C
Naquela noite, Luna foi até a casa da equipe. Sua mãe e Harris tinham dito que ela poderia compartilhar com os demais o que tinha descoberto, se era isto que ela queria. Preferiam que fosse ela a contar, do que ficassem sabendo por fofocas.Assim que entrou na casa, percebeu que todos estavam em seu modo pré-competição. Não era exatamente tenso, mas era concentrado.Jordan foi a primeira a notar seu semblante.— O que foi? — perguntou, imediatamente alerta. — Você está com cara de quem sabe de uma fofoca das grandes.Luna soltou uma respiração curta pelo nariz e se jogou no sofá da sala.— Eu tenho mesmo uma coisa para contar.Aquilo bastou para que todos se reunissem, curiosos.Luna passou a mão pelos joelhos, organizando as palavras.— Minha mãe e o Harris estão... se vendo.Por dois segundos inteiros, ninguém reagiu.Então a casa explodiu.— O quê?! — Tyler foi o primeiro a gritar. — O nosso Harris?— Eu sabia que tinha alguma coisa estranha! — John completou, apontando para o nada.







