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Capítulo 7

Author: Vanessa Rossi
last update publish date: 2026-03-31 05:44:11

Luna acordou antes do despertador. Só isso já pareceu estranho.

Por um segundo, com o quarto ainda mergulhado na penumbra azulada da madrugada, ela esqueceu onde estava. Então o som constante e suave do oceano chegou pela janela aberta, e a realidade se encaixou de uma vez só.

Surf House, San Clemente, primeiro dia de treinamento. Seu coração acelerou levemente.

Jordan ainda dormia, encolhida sob o lençol, respirando profundamente. Luna caminhou em silêncio até o banheiro, tentando não fazer barulho no piso de madeira que rangia.

Ela não dormira bem. O sono fora leve, agitado, entrecortado por sonhos confusos e sons desconhecidos — passos no corredor, portas abrindo e fechando, o rangido distante da madeira da casa se acomodando à noite.

Os músculos reclamavam da viagem, da ansiedade, da expectativa que nunca chegara a desligar completamente. Ainda assim, por baixo do cansaço, algo pulsava, e era empolgação. Uma empolgação real, vibrante, que fazia o estômago se apertar e a ponta dos dedos formigar. Ela mal podia esperar para entrar na água.

No banheiro, vestiu as roupas de treino, o biquíni por baixo, prendeu o cabelo para trás sem muito cuidado. Lavou o rosto, escovou os dentes, respirou fundo. Ao checar o horário, soltou o ar devagar. Ainda é cedo. Bom.

Quando saiu do banheiro, Jordan não estava mais em sua cama. Luna desceu as escadas, e entrou na cozinha que já estava viva.

Oito jovens atletas dividindo o mesmo espaço às seis da manhã criava um tipo muito particular de caos. Coqueteleiras de proteína ocupavam quase toda a bancada. A tampa do liquidificador estava aberta, espalhando respingos de um smoothie verde pela ilha da cozinha como uma cena de crime. A máquina de café sibilava, como se reclamasse de tanto trabalhar.

Jordan estava descalça perto da geladeira, completamente desperta — energética demais para aquele horário. Tyler e John discutiam em voz alta sobre quem tinha usado o último resto da pasta de amendoim.

— Você engole comida como se fosse um aspirador de pó! — acusou John.

— Isso se chama abastecer o tanque desta máquina de alta performance, mano — respondeu Tyler, já abrindo outro pote.

Meg comia em silêncio, fones no ouvido, tranquila, centrada. Kira se apoiava no balcão, braços cruzados, já arrumada, já afiada para começar o dia. Peter estava sentado à mesa, olhando para o nada, como se a alma ainda não tivesse voltado completamente para o corpo.

Luna hesitou por um segundo, absorvendo o ambiente — o barulho, a intimidade fácil entre eles, o sentimento de estar entrando em algo que já funcionava antes dela. Murmurou um tímido “bom dia” e foi se servir de café.

Foi então que Ethan apareceu. Estava descalço, com uma camiseta jogada sobre o ombro nu, o cabelo totalmente bagunçado, e uma bermuda de surf caindo baixa nos quadris. Tinha o abdômen definido, algo que Luna não tinha percebido no dia anterior já que ele usava camisetas mais largas, e a sua pele ainda estava marcada pelos lençóis. Os olhos, inchados de sono, encontraram os de Luna e ficaram ali por um instante.

Ela foi a primeira a desviar o olhar, corando levemente. 

Meu Deus… Por que isso está acontecendo comigo?

Ethan passou a mão pelo cabelo — um gesto que já se percebia como sendo uma mania sua — e abriu a geladeira, montando o seu café da manhã com movimentos automáticos: iogurte, granola, mel, frutas. Ele parecia confortável ali, era parte daquele lugar.

Luna percebeu que o observava de novo. Não conseguia evitar.

Ele notou. Droga!

— Bom dia — disse ele, a voz rouca, ainda carregada de sono.

— Bom dia — respondeu ela, olhando para a caneca entre as mãos.

A porta dos fundos se abriu e as conversas cessaram imediatamente. O treinador entrou.

Era um homem de meia-idade, alto e magro, com a pele marcada pelo sol como de quem vivera mais tempo no oceano do que fora dele. A expressão era neutra, quase dura, e a atitude era de um homem que não desperdiçava palavras.

— Certo. Atenção, pessoal.

Todos se viraram para ele. O olhar dele percorreu o grupo e então parou em Luna.

— Você deve ser a Luna — disse, estendendo a mão. — Sou o treinador Harris.

Ela apertou a mão dele, tentando parecer segura.

— Eu conheci sua mãe. — ele disse.

O mundo pareceu dar um pequeno solavanco. Um frio deslizou pela espinha de Luna, lento e preciso, como a água gelada entrando por dentro da roupa de mergulho. O seu estômago se contraiu. O passado — aquele que ela sempre carregava dobrado, bem guardado — abriu uma fresta.

— Sempre me perguntei o que tinha acontecido com ela — continuou ele. — Era uma excelente surfista.

Luna forçou o ar para dentro dos pulmões. Sentiu o peso daquelas palavras pressionando o peito. Ninguém ali sabia o quanto aquela frase significava. O quanto sua história começava muito antes dela mesma.

Harris bateu as mãos uma na outra, quebrando o momento.

— Mas chega de conversa fiada.

O silêncio ficou denso.

— Hoje é simples. Lowers. Duas a três horas na água. Análise de vídeo logo depois. Treino de força e condicionamento à tarde.

Ele fitou cada um deles, sem pressa.

— Vocês surfam por si mesmos, mas treinam como um time. — Falou olhando diretamente para Luna.

Ninguém respondeu.

— Quero todo mundo na praia, com as pranchas prontas e prontos para entrar na água às sete da manhã.

Sem esperar confirmação, virou-se e saiu, como se já tivesse dito tudo o que precisava.

Luna respirou fundo, tentando afastar a sensação estranha que ainda escorria por dentro dela.

Quando Ethan passou por ela a caminho da escada, murmurou, baixo o suficiente para que só ela ouvisse:

— O primeiro dia sempre é pesado. Você vai se sair bem.

Ela encontrou o olhar dele, e disse firmemente.

— Eu sei.

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