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Capítulo 2

Autor: Dona Morena
last update Fecha de publicación: 2026-06-09 19:31:20

O Silêncio que Quebra

Seis meses haviam se passado desde aquela noite no Burj Al Arab. Seis meses que pareciam ao mesmo tempo um piscar de olhos e uma eternidade.

Melina e Ferith estavam namorando e ele a pediu em noivado. O pedido havia sido feito numa noite de luar no deserto, com um anel de diamante que brilhava mais que as estrelas. Ela aceitou com alegria nos olhos verdes, o coração explodindo de felicidade. Os primeiros meses foram um sonho: viagens curtas juntos quando ele conseguia escapar da “família tradicional”, jantares à luz de velas, noites em que ele a via dançar só para ele, em quartos de hotel com vista para o mar. Ferith a olhava como se ela fosse o único tesouro do mundo, mas ele guardava algo, já tinha uma noiva, ele estava preparando o terreno para dar essa notícia a ela. Afinal, na cultura dele, ele podia ter quantas esposas quisesse.

Mas nem tudo era perfeito.

O trabalho dele, que ele ainda não explicava direito, o prendia em reuniões intermináveis, viagens secretas e obrigações que ele chamava vagamente de “deveres”. Melina, por sua vez, dançava mais do que nunca. Contratos choviam: Cairo, Marrakesh, Abu Dhabi, até uma temporada em Istambul. Quanto mais ela brilhava, menos tempo eles tinham. E quanto menos tempo, mais as brigas cresciam.

A última havia sido feia.

Dois dias antes, no apartamento que Ferith mantinha em Dubai para os momentos que passavam juntos, ele explodira:

— Eu não aguento mais isso, Melina! Você some por semanas, volta exausta. Eu te dou tudo, entendeu? Tudo! Casas, carros, joias, uma vida de princesa. Pare de dançar. Só… pare.

Ela estava parada no meio da sala, ainda de maiô de ensaio, cabelos pretos longos presos num coque alto, olhos verdes flamejando.

— Eu não vou parar, Ferith. Nunca. Essa dança é quem eu sou, se você me ama, ama a mim inteira, com a dança ou sem mim. Acho que é melhor darmos um tempo.

Ele passava as mãos pelo rosto, frustrado, e saía batendo a porta. Depois voltava, arrependido, pedindo desculpas com beijos. Mas a semente estava plantada. Ele reclamava cada vez mais. Ela resistia cada vez mais forte. Melina não queria mais se sentir presa e incompreendida, o que aconteceu no passado não foi suficiente? Não serviu de exemplo?

E agora, o contrato mais lucrativo da sua carreira chegara: uma apresentação exclusiva para uma reunião fechada de “homens poderosos” num palácio privado nos arredores de Dubai. Não era um show comum. Era uma reunião de sheiks, empresários, governantes de pequenos emirados e convidados de honra. Dez dançarinas foram contratadas, as melhores do Oriente Médio. Melina era a atração principal. O cachê era obsceno. O suficiente para comprar um apartamento em Moscou e ainda sobrar para meses.

Ela aceitou sem pestanejar. Ferith ficou furioso quando soube, mas engoliu o orgulho. “Só mais essa”, disse ele. “Depois a gente conversa sério sobre o futuro.”

O palácio era um sonho de mil e uma noites. Cúpulas douradas, jardins internos com fontes de mármore, salão principal com teto de cristal que refletia as luzes como um céu estrelado. As dançarinas tinham um camarim coletivo luxuoso, com espelhos enormes e criadas particulares.

Melina ajustava o traje especial para a noite: sutiã dourado com pérolas negras, saia vermelha profunda com fendas altíssimas, véu transparente bordado com fios de ouro. Seus cabelos pretos soltos caiam como uma cascata até a cintura. Maquiagem dramática: olhos verdes realçados com sombra esfumada, lábios vermelhos sangue.

— Você vai arrasar — sussurrou uma das dançarinas egípcias ao seu lado. — Mas nem se esforce tanto, esses homens são chatos… alguns nem olham. Conversam sobre petróleo e política o tempo todo, parece que…

Melina sorriu com confiança.

— Eles vão olhar hoje, pois eu não danço para estátuas.

A ordem das apresentações era rigorosa. As primeiras dançarinas foram recebidas com aplausos educados, mas o burburinho de conversas nunca parava. Homens de thobes brancos e kanduras pretas sentados em almofadas baixas ao redor de mesas baixas cheias de chá, doces e narguilés. O ar cheirava a oud, tabaco de maçã e poder.

Quando chegou a vez de Melina, o mestre de cerimônias anunciou em árabe clássico:

— E agora, direto de Moscou, a estrela russa que conquistou o Oriente: Melina Petrova!

Ela entrou no círculo central com passos leves. A música começou, o derbak lento, cítara sensual, flauta que parecia gemer. Ela ergueu os braços, quadris iniciando o movimento ondulante perfeito. Os cabelos negros balançavam como seda. Cada giro fazia as moedas tilintarem, a saia rodopiar revelando pernas claras e torneadas.

Mas os homens… eles só conversavam em voz baixa, mas constante. Acordos, números, risadas abafadas, apenas alguns olhavam. A maioria continuava como se ela fosse fundo musical.

Melina sentiu o sangue ferver. Isso não era aceitável, não para ela, não pelo cachê que pagavam, era pela arte que ela carregava no corpo.

No meio de um giro dramático, ela parou. Parou completamente. A música continuou por dois segundos até que o músico, confuso, diminuiu o ritmo. O silêncio caiu como uma bomba.

Melina plantou as mãos na cintura, ergueu o queixo e falou em árabe perfeito, aprendido em anos de viagens e com Ferith:

— Senhores… se vieram aqui para fechar negócios e ignorar a arte que está diante de vocês, por favor, vão para a sala ao lado. Eu não danço para paredes. Eu danço para homens que sabem apreciar uma mulher que oferece sua alma no palco. Se não conseguem parar de falar por cinco minutos, então eu paro de dançar agora.

O salão inteiro congelou.

Alguns homens riram, surpresos. Outros ergueram as sobrancelhas, indignados. Mas a maioria… a maioria virou o rosto para ela. O burburinho morreu completamente.

E no centro da mesa principal, sentado numa almofada mais elevada que as outras, o homem mais imponente do salão a encarava.

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