LOGINLua sentiu os olhos arderem, ele olhou para ela uma vez mais. A dureza triunfal se suavizou.— Essa é a nossa família, Sra. Bitencourt.A médica e o neonatologista se afastaram com discrição depois de explicar os próximos cuidados, prometendo voltar em pouco tempo. Iara havia sido obrigada a descansar em outro quarto, depois de ameaçar morder alguém se a separassem completamente de Lua antes de saber que Máximos estava bem.O silêncio que ficou era diferente do silêncio da cabana. Era uma pausa plena, preenchida pelo som baixo dos aparelhos, pela respiração suave do bebê e pela presença de Eros ao lado da cama.Lua virou o rosto para o berço, Máximos dormia com a boca entreaberta, completamente alheio ao abalo que causou em todos ao seu redor.— Ele parece tão tranquilo agora — ela murmurou. — Como se não tivesse acabado de assustar meio mundo.— Meio mundo não — Eros respondeu, sério. — A mim.Lua sorriu, cansada.— Você ficou com medo? Isso é novidade.— Vocês dois tramaram esse gol
O bebê fez um som pequeno, irritado, a boca de Eros tremeu, Lua levou uma das mãos ao rosto, tentando conter um soluço.— Ele sabe, meu amor.Eros ergueu os olhos para ela, havia tantos sentimentos naquele olhar que Lua sentiu o peito se abrir calorosamente.— Ele passou todo esse tempo aqui — ele disse, olhando de novo para o bebê, depois para o ventre dela, agora vazio e dolorido. — Dentro de você. Enquanto tudo acontecia, ele estava aqui. Poderia ter dado tantas coisas erradas....A culpa apareceu nos olhos dele antes mesmo que dissesse qualquer coisa, como se Eros estivesse prestes a se responsabilizar até pelo impossível. Lua conhecia aquela expressão. Ele se acusaria por não ter percebido, por não ter protegido melhor, por não ter trazido médicos antes, por ter ficado longe, por ter permitido que ela enfrentasse sozinha um segredo que nem ela sabia carregar.Então Lua estendeu a mão, fraca, mas determinada, e tocou o braço dele.— Mas não deu, e ele chegou de surpresa, nosso men
LuaO primeiro choro de Máximos ainda tremia dentro da cabana quando Lua compreendeu, com um espanto lento, profundo e surreal, que a dor não havia sido o fim de alguma coisa, mas o início de uma vida inteira que acabou de se abrir diante dela.Por alguns minutos, talvez segundos, talvez uma eternidade, ela não conseguiu pensar em nada com clareza. O mundo parecia ter encolhido até caber no calor úmido daquele corpinho colocado sobre seu peito, coberto por uma toalha macia, pequeno demais para o tamanho do milagre que representava.Máximos chorava contra sua pele, indignado, vivo, forte, mexendo os bracinhos com uma energia quase ofensiva para um bebê prematuro, e Lua, exausta, dolorida, trêmula e encharcada de lágrimas, só conseguia tocá-lo com a ponta dos dedos, como se tivesse medo de que tanta felicidade fosse delicada demais para suportar uma carícia inteira.Parecia um de seus lindos sonhos em que Eros e ela tinham uma família....Ela pensou que se fosse não queria nunca mais ac
A frase fez os olhos dela se arregalarem.Nosso filho.... Ouviu sua boca pronunciando aquelas palavras tão estranhas e sentiu o coração tropeçar dentro do peito, como se aquela verdade enfim tivesse encontrado caminho até ele não pela razão, mas emoção.Lua soltou um soluço.— Nosso bebê...Outra contração veio, arrancando dela um som que fez Eros apertá-la contra si, não para contê-la, mas para emprestar ao corpo dela tudo que o dele pudesse oferecer.Iara tomou uma das mãos de Lua e o médico guiou a respiração com uma calma firme, pedindo que empurrasse quando a onda viesse, que descansasse quando passasse, que confiasse no próprio corpo, mesmo que tudo parecesse rápido, impossível e absurdo demais.Eros nunca se sentiu tão inútil e tão necessário ao mesmo tempo.Não haviam inimigos para esmagar, ordem a dar que pudesse fazer aquilo por Lua. Sua força, sua fortuna, sua fúria, seus homens, suas armas, suas empresas, tudo aquilo era irrelevante diante do esforço brutal que atravessava
Então Lua gritou de novo, o som atravessou seu corpo e quebrou o transe.— O que está acontecendo?! — perguntou, mas a própria voz lhe pareceu distante, baixa, quase irreconhecível.O doutor Salles entrou atrás dele carregando a maleta e parou apenas um instante, o suficiente para absorver a cena com a rapidez de um homem acostumado a emergências reais. Sua expressão mudou primeiro para surpresa, depois para uma concentração clínica imediata.— Ela está grávida?!— disse, como se declarasse o óbvio mais absurdo do mundo. — Meu Deus, Bitencourt, por que não disse nada? Eu teria trazido material obstétrico, neonatal, incubadora portátil, oxigênio adequado para esse tipo de situação! Quantas semanas?Eros olhou para o médico e depois para Lua, em seguida para o ventre dela.A palavra grávida parecia não inconcebível...fora de realidade.— Eu não sabia... Isso não é possível, ela... — disse, num tom tão baixo e incrédulo que a frase saiu quase sem som.Lua fechou os olhos, apertando o lenç
Eros não lembrava de se sentir amedrontado daquela forma em nenhum outro momento da vida.Não era o tipo de sensação administrável que acompanhava riscos financeiros, emboscadas empresariais, ameaças jurídicas ou qualquer outro desafio enfrentado.Esse tipo de coisa, ele conhecia bem, dominava, reorganizava e transformava em estratégia, vantagem, antes que tivesse chance de paralisá-lo.O que atravessou seu corpo quando ouviu o grito agonizante de Lua pelo telefone de emergência não tinha disciplina ou linguagem. Era primitivo, uma força brutal que arrancou o chão sob seus pés e apagou, em um único segundo tudo ao seu redor.Lua estava gritando.E ele não estava com ela.A viagem até a cabana se tornou uma sequência de imagens cortadas pela velocidade, pela chuva fina que começou a cair quando o helicóptero decolou. Na sensação insuportável de que o percurso de carro de vinte minutos, mata adentro em estradas de terra batida, roubava tempo de uma mulher que talvez não tivesse tempo.E







