LOGINA expressão dela se desfez, ele acariciou suas faces com os polegares, afastando inutilmente algumas lágrimas que se misturavam à chuva.— Nunca — repetiu, com uma firmeza quase dolorosa. — Foi por isso que não consegui esquecer você, mesmo quando acreditava que tinha me abandonado. Foi por isso que nenhuma outra mulher conseguiu ocupar o seu lugar, por mais que eu tentasse convencer a mim mesmo de que precisava continuar vivendo.Iara começou a chorar silenciosamente, ele aproximou o rosto, mantendo os olhos presos aos dela.— E foi por isso que não consegui ficar longe quando reencontrei você na Atikos. Mesmo quando disse que estava casada, mesmo quando acreditei que aquele homem dividia sua vida e ocupava um lugar que deveria ter sido meu, eu simplesmente não consegui aceitar que tudo entre nós havia terminado.Ela apertou os dedos contra os braços dele.— Lucas...— Eu sei que estraguei muita coisa — continuou, sentindo a própria voz ameaçar falhar. — Sei que fiz você sofrer desde
LucasA chuva continuava desabando sobre San Pedro de Atacama com uma violência extraordinária, mas já não conseguia distinguir o estrondo dos trovões do ruído ensurdecedor que parecia ter se instalado dentro de sua própria cabeça.Havia alguma coisa profundamente errada com o mundo.A sensação era tão absurda que, durante alguns segundos, permaneceu imóvel diante de Iara, incapaz de organizar os pensamentos ou encontrar uma explicação minimamente aceitável para as palavras que acabou de ouvir.O estômago se contraia com uma intensidade quase nauseante.A imagem de Noah surgiu imediatamente em sua memória, tão nítida que chegou a provocar uma dor física. Os cabelos claros, os olhos azuis extraordinariamente semelhantes aos seus e o sorriso encantador que iluminou o pequeno rosto quando o menino descobriu que poderia telefonar para ele sempre que desejasse.As lágrimas dela aumentaram quando acariciou sua face fria.Seus pais estavam mortos, ele não poderia atravessar a porta da antiga
A expressão de Lucas se alterou.— Iara...isso não pode ser... Isso é...— Como me recusei a abortar, ela contou aos meus pais sobre a gravidez me acusando de coisas horríveis e disse que se nós não fossemos embora, ela nos faria se arrepender, e nos deu um prazo curtíssimo para sair da propriedade.A voz dela começou a tremer e sua garganta trancou. Lucas permaneceu em silêncio, os olhos dele se estreitaram lentamente.— Ela não pode ter feito isso. Não... Isso não pode ser real!Iara riu amargamente.— Ah, Lucas... como eu queria que fosse mais uma mentira.A observação fez o silêncio retornar entre os dois.Por um instante, Iara percebeu que ele estava tentando organizar mentalmente aquelas informações, procurando conciliá-las com a imagem da mãe que conheceu e com as lembranças de uma época que ambos haviam interpretado de maneiras completamente diferentes.Por alguns segundos, apenas observou o rosto dele, tentando compreender como era possível que aquele homem desconhecesse comp
Iara sentiu a garganta apertar.A pergunta despertou uma lembrança tão nítida que, por um instante, o cheiro de terra molhada da rua pareceu desaparecer, substituído pelo perfume delicado das flores que decoravam a sala onde Cora Bitencourt a recebeu naquele dia.A maneira como os funcionários circulavam discretamente pelos corredores, evitando demonstrar qualquer curiosidade diante da presença daquela jovem que jamais seria considerada suficientemente importante para pertencer à família.E, sobretudo, recordava a expressão de Cora, a elegância absoluta, os cabelos cuidadosamente arrumados, o sorriso simulado que não alcançava os olhos.Iara apertou os lábios, sentindo o corpo estremecer.— Não finja que você não sabia que seus pais nos pressionaram para deixar a cidade antes que a sua verdadeira namorada descobrisse o seu casinho comigo.O silêncio entre os dois pareceu se aprofundar, até que ela o viu franzir ainda mais a testa.— Isso não faz sentido algum. Por que eu saberia de al
A chuva continuava desabando sobre San Pedro de Atacama com uma violência quase ensurdecedora, entretanto, nada parecia tão perturbador quanto a expressão do homem diante dela.Lucas Bitencourt permanecia imóvel, com os ombros largos rigidamente alinhados apesar de segurá-la firmemente, a mandíbula contraída, observando-a com uma intensidade que ela conhecia desde a juventude, embora houvesse algo muito mais profundo naquele olhar agora.A arrogância habitual não desaparecera, tampouco a determinação implacável que parecia fazê-lo acreditar que qualquer problema poderia ser resolvido mediante influência, mas havia também uma mágoa tão profunda por trás daqueles olhos azuis que, durante alguns segundos, ela sentiu uma vontade desesperada de simplesmente abraçá-lo.A vontade desapareceu quando ele voltou a falar.— Você continua fazendo exatamente a mesma coisa. — A voz grave atravessou o ruído da tempestade, carregada de um desprezo que a fez estremecer. — Mente, esconde o que lhe conv
Iara sentiu os dedos dele roçarem sua mandíbula, afastando uma mecha de cabelo molhado, grudado sobre seus olhos. O toque provocou uma lembrança tão intensa que precisou prender a respiração.— Olhe para mim.Ela tentou desviar.— Não...não faz isso...— Olhe para mim, Iara.Quando finalmente ergueu os olhos, encontrou uma expressão carregada de desejo e sofrimento, como se ele estivesse lutando contra sentimentos que se recusava a reconhecer.Por um segundo, Iara acreditou que ele simplesmente voltaria a acusá-la, mas Lucas inclinou o rosto e tomou sua boca num beijo abrupto, quase furioso, carregado por toda a frustração que parecia consumi-lo desde o reencontro.A surpresa fez Iara enrijecer imediatamente, não correspondendo ao toque alucinante. Permaneceu imóvel, sentindo a pressão dos lábios dele e a violência emocional daquele contato despertar lembranças que surgiam sem qualquer ordem, misturando o presente doloroso, a primeira vez que transaram feito loucos sobre a mesa dela n







