LOGINEros pegou a ficha de Clara outra vez e observou a fotografia, mas não enxergava a investigadora. Via Lua na cabana, pálida, talvez tentando convencer Iara de que estava bem. Via os olhos verdes cheios de lágrimas quando disse que o amava, a mão dela em seu peito, sentindo seu coração bater forte demais.A coragem absurda daquela mulher tentando impedir que ele destruísse a Atikos por ela.— Eles não chegarão até a minha mulher— disse, finalmente.Jhones guardou a pasta.— Vou acionar Clara e preparar Higienópolis.— Quero tudo funcionando hoje à noite.— É pouco tempo, senhor, isso pode comprometer a operação...Eros olhou para ele duramente.— Então comece agora.Jhones quase sorriu, mas não o fez. Ele sabia que Eros Bitencourt não tolerava obstáculos.— Sim, senhor.A casa em Higienópolis estava pronta às vinte e três horas.Por fora, não tinha nada de extraordinário. Um sobrado antigo, discreto, com muros claros, portão de ferro escuro, uma pequena árvore projetando sombras sobre
O silêncio que se seguiu não foi surpresa.Jhones o conhecia bem demais para imaginar que aquilo não significava entregar a mulher que ele amava. Conhecia também o suficiente para entender que, quando Eros dizia uma frase daquela forma, alguma parte perigosa da estratégia já estava montada dentro dele antes mesmo de ser verbalizada.— Uma isca — Jhones disse.— Uma possibilidade cuidadosamente administrada de fazer tudo acabar.— Isso exige alguém muito preparado.— Por isso você vai me trazer alguém preparado.Jhones abriu a pasta que carregava e colocou três fichas sobre a mesa.— Eu antecipei que poderíamos precisar de campo, mas não exatamente nesse formato.Eros olhou para os documentos.Três mulheres.Todas investigadoras particulares com experiência em vigilância, infiltração discreta, leitura de risco e operações civis de contenção. A primeira era baixa demais. A segunda tinha um histórico excelente, mas traços físicos muito distantes. Mas a terceira, porém, fez Eros manter os
ErosA situação jurídica de Lua começou a melhorar alguns dias depois, mas Eros não sentiu alívio algum.Alívio era uma palavra inadequada para qualquer vitória que ainda a mantivesse escondida, longe dele, sem poder ouvir sua voz, sem poder saber o que acontecia de verdade, sem poder sair à luz do dia sem nada a temer.Os advogados haviam conseguido derrubar partes importantes da narrativa construída contra ela. A auditoria externa validou a integridade de registros que a colocavam com ele em horários incompatíveis com o assassinato de Nádia.A perícia independente encontrou falhas grosseiras na cadeia de custódia de uma das supostas evidências.Helena conseguiu fazer um delegado recuar de uma afirmação pública maliciosa, e Dantas informou que duas testemunhas começavam a contradizer sobre a pessoa que viram no hotel naquela madrugada, com medo demais para parecer espontâneo, detalhes que antes pareciam convenientes aos Vila Real.Era progresso.Mas progresso não significava liberdad
O dia passou em uma lentidão úmida, arrastada.Choveu no começo da tarde, uma chuva fina que escureceu a varanda e transformou o cheiro da mata em algo mais denso. Lua tentou ler, mas as letras embaralhavam. Tentou ajudar Iara a organizar a despensa, mas cansou antes da terceira prateleira.Tentou dormir, porém acordou com o estômago revirando e uma sensação estranha no baixo ventre, como um deslocamento interno, leve, quase imperceptível, que a fez levar a mão à barriga e ficar imóvel.De novo, culpou o intestino enlouquecido.Essa era uma explicação menos assustadora e mais prática, que não exigia pensar em datas, menstruação desregulada e noites com Eros, cheiro de pele, lençóis amassados, a primeira vez, a segunda, a ausência de qualquer cuidado realmente seguro, o modo como ambos haviam sido engolidos por desejo, contrato, medo e intensidade sem jamais parar tempo suficiente para olhar para uma consequência maior.Lua se recusou a contar, não queria montar um calendário com a pró
Lua desviou o olhar para a janela.— Estou cansada, Iara. Todo mundo ficaria cansado vivendo escondido numa cabana, sendo acusada por um assassinato que não cometeu e tentando não enlouquecer de saudade do próprio noivo.A palavra noivo saiu baixa, natural demais, e Lua sentiu o peito apertar porque, naquele momento, nem sabia se o mundo ainda permitiria que usasse aquele nome sem transformá-lo em mais uma prova contra eles.Iara suavizou o rosto, mas não recuou.— Eu sei que está cansada, mas isso não explica tudo. Você está enjoando todos os dias, quase não consegue manter comida, suas mãos estão inchadas, seus pés também, e essa fraqueza não parece só emocional.Lua foi até a cadeira mais próxima e se sentou devagar, porque o simples ato de permanecer em pé por tempo demais fazia sua cabeça ficar leve de um jeito desagradável. A cozinha parecia se mover um pouco nas bordas, não a ponto de fazê-la cair, mas o bastante para obrigá-la a piscar algumas vezes.— Pode ser uma virose, ach
LuaOs dias se passaram lentamente, e para Lua parecia uma eternidade que estava longe de Eros. Naquela manhã, acordou com a sensação desconfortável de que o próprio corpo havia se rebelado muito mais do que seu coração cheio de saudades.Os dedos estavam inchados quando ela tentou fechar a mão ao redor do lençol fino, e os pés, apoiados no assoalho frio ao lado da cama, pareciam mais pesados do que deveriam, com uma pressão estranha na pele, como se as sandálias que ela nem estava usando tivessem apertado a noite inteira.Lua ficou sentada por alguns segundos, respirando devagar para não provocar o enjoo que já a aguardava no fundo da garganta.A cabana era silenciosa demais de manhã, o tipo de silêncio que não descansava, apenas lembrava que estavam escondidas no meio do nada. Do lado de fora, as árvores balançavam sob um vento úmido, espalhando sombras irregulares pela janela pequena do quarto.A madeira antiga rangia quando a temperatura mudava. Havia cheiro de terra molhada, café







