Mag-log inJá perto da meia-noite, em West Side, Sarah terminava mais uma transmissão.
O pequeno loft estava diferente agora – ainda apertado, simples e improvisado – mas Peter tinha conseguido transformar um canto específico em algo quase cinematográfico.
Luzes baratas posicionadas estrategicamente.
Tecidos presos na parede escondendo parte do concreto gasto. Alguns elementos de fantasia espalhados pelo cenário. A câmera posicionada no único ângulo que não denunciava a precariedade do lugar.Ela jamais teria conseguido montar aquilo sozinha.
O amigo havia ajudado em tudo, desde a maquiagem resistente para horas sob iluminação quente até a forma certa de prender a peruca para que não saísse do lugar.
Também tinha ensinado a posar, como olhar para a câmera, como sugerir sem entregar completamente.
E, principalmente: a não sair do personagem.
“Você controla o ritmo.”
“Não tenta agradar demais.” “Homem carente compra fantasia emocional antes de comprar nude.”Sarah lembrava das frases dele constantemente.
Naquela noite, usando novamente o cosplay floral que Peter insistia ser “o mais perigosamente bonito”, ela arrecadara dinheiro suficiente para finalmente pagar uma das parcelas atrasadas da universidade.
Não resolvia sua vida, mas dava a ela o primeiro fôlego real em meses.
A transmissão foi encerrada poucos minutos depois.
As notificações privadas começaram a pipocar na tela. E entre os nomes na tela, ele se repetia. John.Já era a quinta noite consecutiva.
Sarah recostou-se na cadeira observando a conversa aberta enquanto tentava pensar em algo diferente para responder.
As outras interações na plataforma eram previsíveis demais.
Homens diretos, explícitos e ansiosos.John não.
Ele fixava nos detalhes, o que a deixava estranhamente consciente de si mesma.Já estava ficando sem ideias para novas fotos e poses quando decidiu tentar algo diferente.
Um áudio. Nada explícito ou exagerado.Peter provavelmente aprovaria, provocação suficiente para manter curiosidade, sem perder a postura.
Sarah gravou a mensagem.
Depois ouviu a própria voz antes de enviar.O cursor piscava na tela enquanto ela permanecia imóvel, como se ainda tentasse decidir até onde estava realmente disposta a ir.
Não era uma pergunta explícita, mas também não era inocente.
Ficava exatamente naquele espaço intermediário que ela vinha aprendendo a ocupar desde que começara aquilo.Então enviou.
Do outro lado da cidade, Thiago percebeu a notificação surgir na tela.
A reprodução do áudio começou.
A voz veio baixa, suave, levemente rouca pelo cansaço do fim da noite.Sem atuação exagerada, sem aquele tom artificial que ele já tinha aprendido a reconhecer em outras mulheres da plataforma.
— Oi, querido… você gosta de ficar sozinho comigo?
A atmosfera do apartamento ganhou um peso diferente.
Thiago permaneceu imóvel no sofá.O áudio terminou.
E, desde que começara a observá-la, percebeu algo diferente: havia hesitação.
Como se aquela mensagem tivesse exigido mais coragem do que deveria. Ele permaneceu olhando para a tela antes de responder.Não por impulso, por análise.
JOHN: Eu gosto porque você parece esquecer da câmera às vezes.
A resposta não dizia exatamente o que ela havia perguntado.
E talvez tenha sido justamente isso que fez Sarah permanecer olhando para a tela por mais tempo do que deveria.
Ela releu a mensagem devagar.
Depois voltou a ela outra vez.Já estava acostumada com homens objetivos, explícitos e previsíveis demais.
Mas aquele homem notava coisas diferentes.E, pela primeira vez desde que começara na plataforma, Sarah sentiu a desconfortável sensação de ser percebida além da personagem.
O cursor piscava no campo de resposta, mas ela não digitava nada.
Porque não sabia exatamente o que responder àquilo.Nenhum homem naquela plataforma tinha dito algo parecido antes.
Eles normalmente elogiavam seu corpo, a fantasia, sua voz… Pediam mais, sempre mais.Como se todos assistissem esperando que alguma barreira finalmente desaparecesse.
Mas John capturava os intervalos.
As distrações, os momentos em que ela relaxava sem perceber.Sarah apoiou os braços sobre a mesa improvisada do computador e soltou o ar devagar.
O loft ainda estava iluminado pelas luzes rosadas que usava nas transmissões. Fora daquele enquadramento específico, porém, o cenário encolhia, mais real.
Ela olhou para a própria imagem refletida parcialmente na tela escura ao lado da conversa.
Por um instante, sentiu vontade de fechar tudo.
Desligar as luzes, fingir que aquela interação não tinha mexido com ela.Mas não fechou.
Antes que pudesse pensar demais, respondeu:
SAMANTHA:
Talvez eu esqueça porque você fica quieto demais.Ela enviou antes de reconsiderar, o coração acelerou logo depois.
Uma reação desproporcional para alguém que estava apenas falando com um desconhecido na internet.A resposta demorou alguns minutos, mais do que as anteriores.
Quando finalmente apareceu, veio simples:
JOHN: Fico quieto porque você parece mais interessante quando esquece que está sendo observada.
Sarah sentiu o estômago apertar de forma involuntária.
Não era flerte direto, nem provocação. O problema era justamente esse.Ela retirou a peruca, e passou a mão pelos cabelos, desviando o olhar da tela por um instante.
As luzes rosadas da transmissão ainda permaneciam acesas, tingindo as paredes gastas do apartamento com uma estética bonita demais para aquele lugar.
Bonita demais para a realidade dela.Sem perceber, Sarah olhou ao redor.
A cama desarrumada. Os livros empilhados perto da mesa. As contas. O figurino cuidadosamente montado para esconder tudo aquilo durante as transmissões.Então surgiu uma pergunta desconfortável:
O quanto aquele homem estava realmente enxergando?Thiago permanecia na mesma posição, o celular apoiado entre os dedos.
Aquilo deveria ser superficial. Limitado. Controlado.
Mas a conversa começava a ganhar pausas e respiros espontâneos.Como duas pessoas que ainda não sabiam exatamente por que continuavam ali.
Percebia a direção que aquela conversa começava a tomar.
Desta vez, decidiu parar de apenas observar. Os dedos deslizaram lentamente pela tela. Então ele digitou:JOHN:
E você… gosta quando esquece?Sarah leu a mensagem devagar.
O calor subiu pela pele, desconfortável pela naturalidade com que aquilo a atingia. Porque era pior do que algo explícito, era íntimo. Demorou mais para responder dessa vez. Tentou pensar em algo leve e distante, que devolvesse o jogo para um território seguro. Mas a verdade era que aquele homem a desarmava, justamente por nunca agir como os outros. Apoiou o queixo na mão, depois digitou:SAMANTHA:
Talvez dependa de quem está olhando.Ambos sabiam que aquela linha invisível tinha ficado para trás.
A mandíbula dele tensionou discretamente ao ler a mensagem.
A resposta dela saía da defensiva, atingindo direto o subtexto dele. E aquilo alterou alguma coisa no ambiente.A cidade continuava brilhando atrás dos vidros enormes, mas ele já não prestava atenção em mais nada além daquela conversa.
Sarah percebeu tarde demais que já não estava conduzindo a conversa, e isso a deixou perigosamente alerta.
Normalmente, naquele ponto, os homens começavam a pedir coisas.
Fotos. Vídeos. Detalhes.A conversa deixava de ser conversa e se tornava consumo, mas John demonstrava conforto com o ritmo lento, como se não tivesse pressa de transformar aquilo em alguma coisa menor.
A próxima mensagem surgiu.
JOHN: Então me diz uma coisa. Você fica assim com todo mundo?
Thiago observava atentamente o indicador de digitação aparecer e desaparecer. Ela estava pensando antes de responder, isso também era diferente.
Finalmente, a mensagem chegou:
SAMANTHA:
Como você acha que eu estou agora?Sarah sentiu o coração acelerar outra vez, e odiou perceber isso.
Tentou rir sozinha da própria reação. Ridículo, era só um desconhecido. Um nome falso. Uma conversa atravessando a madrugada.O intervalo foi arrastado, carregado de intenção.
JOHN:Menos distante do que tenta parecer.
O olhar dela caiu para o relógio no canto da tela. Já passava muito da meia-noite.
Os dedos pairaram sobre o teclado antes de digitarem por impulso:SAMANTHA: Você sempre fica acordado até essa hora?
Depois de enviar, ela percebeu a mudança. A pergunta já não fazia parte do jogo da plataforma.
Não era provocação. Nem personagem. Era curiosidade.
Do outro lado da cidade, Thiago apoiou uma das mãos no vidro frio da janela enquanto pensava na mensagem, simples, casual. O que exigia uma resposta real.
JOHN:Quase sempre. O trabalho ajuda nisso.
Sarah leu, o olhar desceu involuntariamente para as próprias apostilas espalhadas pela cama.
Livros de Direito.
Anotações. Prazos. Exaustão.Ela apoiou a cabeça na parede atrás de si, ainda segurando o celular.
SAMANTHA:Achei que pessoas como você dormissem cedo.
JOHN:E que tipo de pessoa eu sou para você?
Sarah soltou um riso cansado.
SAMANTHA:
Não sei. Alguém que tem tudo sob controle.Do outro lado da cidade, Thiago permaneceu imóvel.
Aquela frase atingindo um lugar que ele normalmente mantinha inacessível.
Porque controle era exatamente a máscara que ele usava. A couraça que sustentava e ninguém questionava.Mas naquela madrugada, olhando para a conversa aberta no celular, Thiago percebeu algo desconfortável: fazia muito tempo que não se sentia genuinamente presente em uma conversa simples assim.
Ele observou a própria resposta por alguns segundos antes de enviar.
Sabendo exatamente o tipo de linha que aquela conversa começava a atravessar.JOHN:Talvez o que eu esteja buscando seja alguém que me faça perder o controle.
Sarah sentiu o ar prender por um instante.
A frase não trazia impulsividade nem carência. Foi justamente a calma dela que a tornou perigosa.Ela releu devagar, tentando entender se aquilo era provocação… ou honestidade.
A conversa começava a adquirir um ritmo diferente, menos analítico. Mais íntimo.Ela imaginou como seria a voz dele dizendo aquelas palavras – calma, baixa, tranquilo demais para alguém falando sobre se perder.
Ela mordeu levemente o canto dos lábios antes de responder:
SAMANTHA:E você costuma encontrar isso?
O indicador de digitação piscou na tela, mas cessou antes que a mensagem ganhasse forma.
Sarah observava, sem perceber o pequeno sorriso cansado que surgia no canto da boca.
Era algo totalmente novo, conversar com alguém que não queria apenas consumir uma fantasia. Mas atravessá-la.SAMANTHA: Você sempre pensa tanto antes de falar?
JOHN Só quando a pessoa do outro lado tela parece estar a um segundo de fugir.
SAMANTHA: Eu não tô fugindo. Só tô tentando entender que tipo de hobby estranho é esse de passar a madrugada conversando com uma garota na internet.
JOHN: Não chame de hobby. Faz parecer trivial.
SAMANTHA:E não é?
JOHN: Se fosse, eu já teria parado há quatro noites.Normalmente as pessoas querem ser desejadas.Você parece querer ser compreendida.
O coração dela deu um salto, porque aquilo atravessava lugares intensos demais para uma conversa entre desconhecidos.
Sarah afastou o rosto da tela, encarando o teto como se precisasse de ar.
SAMANTHA:E isso é ruim?
Thiago soltou uma respiração baixa enquanto lia.
Ele poderia ter encerrado ali, transformado a interação em algo superficial outra vez. Seria o mais lógico, o mais seguro. Mas não fez isso.JOHN:Acho que depende do que acontece quando alguém realmente consegue.
Sarah ficou imóvel olhando para a frase.
Sentindo que já não existia tanta distância entre personagem e realidade quanto deveria existir.E isso talvez fosse mais denso do que qualquer desejo explícito.
O relógio na parede do escritório já passava das nove quando Thiago empurrou a cadeira para trás, massageando a têmpora. Precisava de café, ou de qualquer coisa que mantivesse sua mente funcionando por mais uma hora. Ele abriu a porta da sala. Na antessala, apenas a luminária permanecia acesa, projetando um facho dourado sobre a pilha de documentos. Sarah estava lá, inclinada sobre a mesa, com os óculos de leitura na ponta do nariz e os dedos deslizando pelo teclado.Thiago parou a poucos metros dela, encostando-se na parede, os braços cruzados contra o peito, observando-a por alguns segundos antes de se fazer notar.— Você não tem vida fora daqui? — ele perguntou, a voz grave fazendo-a se sobressaltar.Sarah ergueu o rosto de supetão, piscando algumas vezes antes de soltar uma risada curta.— Pelo visto, você também não tem.Thiago a encarou, medindo o cansaço evidente sob a expressão desafiadora dela.— Então vamos embora.Ele voltou para a sala, fechou o notebook, recolheu-o e ves
Segunda-feira chegou com a pontualidade implacável de um relógio suíço.O escritório já fervilhava de atividade quando Sarah cruzou a portaria, com o tailleur impecável e a mente focada no relatório de fusão que precisava estar na mesa do chefe até o meio-dia.Ela cumprimentou os colegas com um aceno rápido e subiu para o andar executivo, abrindo documentos antes mesmo de tirar o casaco.Thiago chegou um pouco mais tarde que o habitual.Atravessou o escritório com passos firmes. A expressão estava mais tensa que o normal, a mandíbula marcada e olheiras discretas denunciavam uma noite mal dormida.Passou pela mesa de Sarah sem desacelerar e depositou um copo térmico ao lado do teclado.— Bom dia, Senhor Kane.— Bom dia — murmurou, com a voz rouca.E entrou na própria sala.Sarah piscou, paralisada com os dedos sobre o teclado.Esticou a mão e puxou o copo para perto. Ao abrir a tampa, o cheiro doce e inconfundível subiu — café com leite, baunilha e canela. Exatamente do jeito que pedia
Sarah evitou falar com Peter. Sabia que ele estava passando o fim de semana em uma viagem romântica com o namorado.Passou o sábado inteiro enterrada sob o edredom, deixando as horas passarem sem fazer esforço para acompanhá-las.Foi o toque estridente do celular, já no final da tarde, que quebrou o transe. O nome de Amanda piscava na tela. Com a convivência forçada no último andar da Kane Group, as duas haviam desenvolvido uma afinidade genuína.— Ei, Sarah. Vamos tomar uns drinks hoje? — a voz de Amanda veio animada.Sarah soltou um suspiro pesado, afundando o rosto no travesseiro.— Ai, não sei, Amanda… Não estou muito legal hoje.— Mais um motivo para encher a cara — Amanda rebateu sem margem para drama. — Te encontro no The Violet Hour em uma hora. Sem desculpas.A relutância durou pouco. A perspectiva de ficar remoendo o fim com Thomas era pior do que qualquer esforço social. Ela se arrumou, buscando recuperar algo de sua própria identidade, e tomou um táxi para Wicker Park.O T
Passaram-se algumas semanas, e a rotina na Kane Group consolidou-se como um relógio de precisão. Em uma tarde de terça-feira, enquanto o refeitório fervilhava com o barulho de xícaras e o burburinho de prazos, Sarah estava em um canto, tentando ignorar a conversa na mesa ao lado.— A Jennifer tentou de novo? — uma das associadas perguntou, com um riso abafado. — Tentou — respondeu a outra, com um tom de quem trazia notícias de guerra. — E? — Chamou o Kane pra beber depois do expediente.Sarah sentiu a respiração travar, mesmo que fingisse ler um relatório.— O que ele respondeu? — “Qual o prazo da campanha?” — A associada imitou o tom seco e impessoal. Risadas contidas ecoaram pela mesa. — Ela insistiu. “Sexta-feira?”— “Tenho compliance.”— Juro. Ele nem se deu conta de que ela estava dando em cima dele.Durante anos, Sarah convencera-se de que Thiago era o tipo de homem que colecionava mulheres. Era a única explicação que tornava suportável o desaparecimento dele depois daquela
Sarah entrou no apartamento de Thomas esperando encontrar a paz que o escritório lhe roubava. Ele a recebeu com aquele sorriso que, até poucas semanas atrás, era tudo o que ela precisava para sentir que o dia tinha valido a pena.— Você está exausta — ele disse, puxando-a para um abraço e tirando a bolsa de suas mãos.Encostou a cabeça no ombro dele, fechando os olhos. O perfume dele era suave, mas, contra a própria vontade, ela pensou em Thiago.— Fui promovida hoje. Estou trabalhando direto com o CEO. — A voz soou um pouco mais baixa do que pretendia.Thomas se afastou ligeiramente, o sorriso brilhando com um orgulho genuíno que fez Sarah se sentir em casa novamente.— Isso é incrível, Sarah! — Ele a beijou na testa, conduzindo-a para o sofá. — Você merece. Eu vi o quanto você tem se dedicado, o quanto tem sacrificado das suas noites por esse cargo.Ele serviu uma taça de vinho para cada um. Enquanto celebrava a notícia, ela continuava com a mente em outro lugar.— Ouvi dizer que o K
Eram quase 22h quando o movimento na Kane Group se reduziu a um zumbido distante de sistemas de climatização. Thiago estava sentado à mesa, a gravata afrouxada, debruçado sobre uma pilha de petições e contratos que exigiam uma revisão minuciosa. O trabalho não era apenas produtividade; era um sedativo para a mente.Uma batida firme, porém despretensiosa, soou na porta. Antes que ele pudesse responder, Augusto entrou, ainda carregando o cansaço de um turno exaustivo no hospital.— Você precisa de uma vida, ou de um hobby, ou talvez de um terapeuta que não seja eu — Augusto brincou. — Vamos. Conheço um bar em North River que serve um uísque capaz de fazer você esquecer até seu nome.Thiago hesitou, mas a exaustão física finalmente venceu a rigidez mental. Ele fechou a pasta com um suspiro seco.Meia hora depois, estavam em um canto reservado de um bar sofisticado em North River.O ambiente era ruidoso, mas a conversa entre os irmãos parecia isolada do restante do bar. Augusto, com a fac







