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Capítulo 3

last update publish date: 2026-05-30 10:07:44

O restante da tarde acabou sendo muito diferente do que Sarah imaginava quando aceitou encontrar Peter.

A loja de fantasias ocupava uma esquina pequena entre duas ruas movimentadas do centro, iluminada demais para o céu nublado daquela tarde de outono.

Assim que entraram, Peter pareceu mudar completamente de energia.

Mais leve, ele mesmo.

Sarah o acompanhava com o olhar enquanto ele caminhava pelos corredores com familiaridade: tecidos, perucas, lentes, maquiagens, acessórios.

Peter comentava tudo com entusiasmo quase técnico, explicando diferenças de acabamento, iluminação, cores que funcionavam melhor em câmera e pequenos truques para criar personagens convincentes.

Em algum momento, Sarah percebeu que aquilo ia muito além de estética para ele.

Era transformação. Quase liberdade.

Primeiro experimentou perucas por brincadeira.

Depois vieram as lentes e a maquiagem.

Peter corrigia postura, ajustava ângulos do rosto, ensinava pequenos movimentos de câmera e poses que valorizavam mais expressão do que exposição.

— Ombros relaxados. Queixo um pouco mais baixo. Não olha pra câmera como se estivesse prestes a processar alguém.

Sarah acabou rindo mais do que esperava.

O jeito exageradamente dramático de Peter transformava tudo em algo leve, mesmo quando o assunto ainda deixava parte dela desconfortável.

Em determinado momento, ele apareceu segurando uma fantasia inspirada em uma personagem de um jogo online.

— Confia em mim.

Ela soltou uma pequena risada.

— Isso parece ridículo.

— Exatamente. E é por isso que funciona.

Peter colocou a peruca rosada sobre ela poucos minutos depois.

E então algo mudou.

O espelho devolvia alguém diferente, mais distante da garota cansada da universidade.

Distante das dívidas, do metrô e do loft silencioso em Austin.

Não era exatamente ela.

Talvez fosse justamente por isso que continuava olhando.

Peter percebeu a mudança.

Mas, pela primeira vez naquela tarde, não brincou.

Apenas observou Sarah encarar o próprio reflexo por um instante.

Como se ela finalmente estivesse experimentando a sensação de poder escolher quem queria ser.

✦ ✦ ✦

O edifício da empresa se erguia no centro de Chicago como uma estrutura de vidro e aço que assumia uma quietude anormal à noite.

Mesmo quando a cidade pulsava do lado de fora, ali dentro o tempo seguia outro ritmo.

Controlado. Medido. Quase clínico.

No topo, o escritório de Thiago ocupava um andar inteiro.

Minimalista demais para ser ostentação, sofisticado demais para ser apenas funcional. Vidro do chão ao teto, linhas retas, tons escuros e iluminação indireta que evitava qualquer sensação de calor.

Cada detalhe projetado para blindar o foco. Não havia espaço para dispersão.

Estava sentado atrás da mesa quando a noite já tinha avançado demais.

Ele não parecia deslocado naquele ambiente — era a própria extensão dele.

Alto, postura firme, presença silenciosa.

O rosto carregava uma beleza precisa, quase perigosa. Traços bem definidos e um olhar intenso que media o ambiente antes de reagir.

Não era o tipo de homem que buscava atenção, mas costumava recebê-la.

Ele passou a mão pelo rosto, sem pressa, como se tentasse reorganizar pensamentos que não eram exatamente profissionais.

A tela do computador ainda brilhava à sua frente.

Relatórios. Prazos. Decisões.

Fechou o arquivo. Abriu outro.

E permaneceu ali por mais tempo do que deveria.

Ele hesitou um momento antes de recolher o paletó.

Não havia urgência em ir embora. Apenas repetição.

Em casa, o ambiente se mostrava grande demais para uma pessoa só. Vazio demais para ser confortável.

Largou a chave na mesa e afrouxou a gravata sem realmente terminar o gesto. Foi até a cozinha, abriu a geladeira, fechou sem pegar nada.

Café. Mais tarde, sempre mais tarde.

Vidro, concreto e as luzes distantes da cidade atravessando as janelas enormes.

Tudo meticulosamente impecável.

O sono veio de forma irregular e fragmentada. Sem profundidade, sem restauração.

Poucas horas depois, Thiago já estava acordado outra vez.

O relógio ainda nem marcava cinco da manhã quando ele atravessou a cobertura até a academia particular que ocupava uma das extremidades do imóvel.

O espaço seguia o mesmo padrão do restante do apartamento: minimalista, escuro e

funcional.

Nada ali existia por estética, tudo tinha utilidade.

Treinava da mesma forma que fazia qualquer outra coisa: com disciplina silenciosa.

Corrida. Peso. Repetição.

O corpo funcionava no automático enquanto a mente permanecia presa em relatórios, decisões e problemas que nunca desaceleravam.

Treinar não relaxava, só organizava o excesso de tensão em algo mais controlável.

Quando terminou, a cidade ainda despertava do lado de fora.

Banho rápido. Terno impecável. Café preto forte.

E então o retorno ao escritório antes do mundo acordar completamente.

Nos dias seguintes, o padrão se repetiu.

Escritório. Noite longa. Poucas horas de sono. Treino antes do amanhecer. Retorno antes da cidade ganhar movimento.

Amanda, sua assistente de longa data, percebeu antes dele.

Ela entrou na sala sem bater, como sempre fazia.

Carregava uma pasta e uma expressão que misturava familiaridade e impaciência.

— Você tá piorando.

Thiago não tirou os olhos da tela.

— Estou trabalhando.

— Você sempre está.

Ele digitou mais uma linha antes de responder.

— Isso não é um problema.

Ela soltou um suspiro curto, encostando na mesa dele.

— Claro que não. Dormir mal, comer mal, viver aqui dentro… super normal.

Ela o observou por um instante, não como funcionária, como alguém que já tinha visto aquele padrão antes.

— Você precisa sair daqui.

— Eu saio.

— Não pra ir embora à meia-noite.

Ele finalmente a olhou.

Curto, direto. Sem abertura.

Amanda deu de ombros.

— Você precisa transar.

O silêncio mudou por um instante. Thiago franziu levemente o cenho e ergueu os olhos devagar.

— Isso não é relevante.

— Não é uma ordem, chefe. É um diagnóstico social.

Ela se inclinou levemente.

— Você tá virando um desses caras que só funcionam trabalhando. E isso não acaba bem.

Ele voltou a atenção para o monitor, mas não com o mesmo foco de antes.

Amanda permaneceu ali mais do que o necessário.

Não por insistência profissional.

Ela sempre fazia isso, observava. E esperava uma resposta que ele raramente dava.

Não era invasivo, não era controle — era cuidado.

Um tipo de cuidado que ele nunca precisou pedir, mas que também nunca soube como retribuir direito.

Horas depois, ele desligou tudo e foi embora.

Não por vontade de voltar para casa, mas por falta de alternativa.

Naquela noite, o ambiente incomodou mais do que acalmou.

Ele precisava de distração.

Ficou no vazio do apartamento por alguns minutos que não serviram para nada.

Depois abriu o computador.

Sem intenção clara, apenas movimento.

A tela acendeu junto de uma sequência automática de hábitos: e-mails, notícias econômicas,

relatórios pendentes, alguma matéria jurídica aberta sem realmente ser lida.

Em algum momento, acabou pesquisando algo aleatório demais para merecer atenção consciente.

Insônia. Distrações rápidas. Fóruns.

Qualquer coisa que ocupasse espaço suficiente para impedir que o apartamento o engolisse por completo.

Foi então que o anúncio apareceu discretamente entre uma página e outra.

Nyx.

A imagem mostrava uma mulher usando máscara parcialmente iluminada por luz neon, acompanhada de uma frase curta demais para soar agressiva:

“Conteúdo exclusivo. Fantasia, conexão e desejo.”

Thiago normalmente ignoraria algo assim.

Mas o cursor permaneceu parado sobre o anúncio por um segundo a mais do que deveria.

Talvez pelo horário. Ou pelo eco do apartamento, intolerável naquela noite.

A página carregou lentamente, exigindo um cadastro rápido antes de liberar o acesso.

Quando o cursor piscou no campo do nome de usuário, escolheu o anonimato mais autoexplicativo que conhecia: John. Uma referência direta ao John Doe dos processos judiciais, a identidade genérica usada para preencher o vazio de quem não podia — ou não queria — ser identificado.

Um homem sem rosto para um ambiente sem regras.

Navegou por perfis no Nyx, que se repetiam à exaustão.

Sorrisos calculados, câmeras posicionadas com precisão.

Tudo ensaiado.

Um controle que matava a espontaneidade, frio a ponto de soar falso.

Ele fechou algumas abas, abriu outras.

Nenhuma imagem prendia. Nenhum interesse permanecia.

Até que parou.

Não foi uma decisão, foi ausência de motivo para continuar procurando.

A imagem carregou lentamente.

E, quando apareceu por completo, algo nele simplesmente parou.

Uma mulher com estética de fantasia.

Traços delicados, composição visual milimetricamente planejada, a câmera valorizando o cenário em vez de qualquer provocação direta.

Cabelos longos em tom rosado caindo com leveza sobre os ombros. O olhar suave, quase distante, como se não estivesse realmente interagindo com quem a observava.

Ao lado da imagem, o perfil trazia informações discretas:

Samantha — 25 anos.

“Artista. Cosplayer. Late night streams.”

Nada explícito ou agressivamente sensual. Suave demais para uma plataforma como aquela.

Ele demorou um segundo a mais do que o normal para reconhecer a figura de um jogo que costumava distraí-lo alguns anos antes.

A skin de inspiração floral dava à imagem um aspecto mais artístico do que explícito.

Ele recostou-se levemente na cadeira, ainda encarando a tela.

As outras abas pareceram, de repente, mais distantes do que estavam antes.

E pela primeira vez naquela sequência de buscas, ele não moveu o mouse.

A imagem permaneceu aberta.

Depois veio outra camada, um aviso discreto de transmissão ao vivo.

Em algum momento entre o primeiro minuto e o seguinte, a observação deixou de ser racional.

Não havia mais comparação com os outros perfis, nem julgamento.

Ele recostou-se na cadeira, o olhar fixo na tela como se o resto do apartamento tivesse perdido densidade ao redor.

O tempo desacelerou.

A música ao fundo preenchia os espaços vazios com uma cadência baixa e constante.

Thiago reconheceu a voz melancólica de The Weeknd quase de imediato, flutuando pelo áudio da live.

So call out my name...

A mulher na tela tinha uma postura diferente das outras.

Não havia pressa, nem exagero. Nada daquele sorriso treinado que denunciava intenção.

Era mais lento, contínuo e distraído.

Ela se movia com suavidade, como se estivesse alheia à própria audiência — apenas existindo dentro do enquadramento.

Havia sensualidade ali, mas sem urgência, sem esforço.

E justamente por isso não permitia ignorar.

Permaneceu estático.

Naquela noite, ele não fechou a aba.

E nas noites seguintes, não precisou procurar.

O aviso passou a aparecer sozinho – notificação de transmissão ao vivo.

Ele começou a reconhecer o padrão.

Horários. Fim do expediente. Chegada em casa. Cadeira. Tela acesa.

E, sempre que a notificação surgia, algo nele já respondia antes da escolha consciente.

Ele não se movia com pressa, não havia aquela urgência comum, aquele comportamento automático de quem clicava, consumia e desaparecia em seguida.

Não era esse tipo de presença.

Ele permanecia hipnotizado diante dela, como se não estivesse apenas assistindo a uma transmissão, mas tentando entender uma variação dentro de um padrão que já conhecia demais.

Havia outras iguais, outros perfis, outros movimentos. Mas algo ali não se encaixava da mesma forma.

Não era intenso, sequer explícito. Mas o prendia, justamente por ser diferente.

E isso o incomodava de um jeito que não exigia reação imediata — apenas permanência.

Thiago não buscava mais a distração, tampouco companhia.

Ele buscava entender.

E, sem perceber, começou a observar menos o que ela fazia… e mais o que ela não fazia.

Ela mantinha uma leveza constante, sem exageros ou encenações.

Não havia nela o esforço para atrair atenção.

Mesmo assim, continuava ali.

Ela era bonita, isso era evidente. Mas não era aquilo que o fazia permanecer.

Era a previsibilidade do comportamento que nunca se tornava excessiva.

O controle que não se transformava em exposição.

O limite que nunca parecia ultrapassado — mas também nunca parecia recuado.

E isso não se encaixava nas outras variáveis que ele já conhecia.

Foi então que ele testou. Havia um recurso de interação privada na plataforma.

Thiago o acionou não por impulso, por curiosidade.

O envio foi registrado, sem expectativa declarada.

Do outro lado, o silêncio não durou muito.

A resposta veio dentro do mesmo padrão que ele já começava a reconhecer.

Sem exagero ou mudança de comportamento.

Uma imagem enviada diretamente. Não havia performance ou cenário construído para o público, apenas ela.

A iluminação da foto era limpa, suave o suficiente para destacar as linhas do corpo sem transformar aquilo em provocação explícita.

O vestido branco e azul pendia de forma mais solta sem o cinto ajustando na cintura, criando uma leve abertura frontal que sugeria mais do que mostrava. O tecido acompanhava seus movimentos com naturalidade, enquanto a composição da imagem mantinha a mesma estética delicada que ele já começava a associar àquela presença.

Não havia pose exagerada, nem tentativa evidente de sedução.

Era uma imagem construída com calma, pensada para ser observada devagar.

Thiago congelou diante da tela.

Não porque aquilo fosse novo, mas porque não se comportava como as outras interações que ele já tinha mapeado.

Não havia progressão, nem tentativa de captura emocional.

Ela respondia dentro de um limite fixo e não se desviava dele.

Isso deveria tornar a dinâmica simples, mas provocava o efeito oposto.

O enigma morava justamente aí: ela jamais se esforçava para reter o público.

Mesmo assim, Thiago permanecia ali — observando por muito mais tempo do que deveria.

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