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Capítulo 5

last update publish date: 2026-05-30 10:11:37

Sarah permaneceu fitando a última mensagem.

Ela não respondeu imediatamente.

Os dedos travaram sobre o aparelho enquanto a mente tentava reorganizar a sensação estranha que aquela dinâmica deixava.

Devagar, ela bloqueou o visor e largou o aparelho sobre a mesa ao lado da cama.

O ambiente voltou ao marasmo, restando apenas o sopro distante do aquecedor antigo do prédio.

As luzes rosadas ainda permaneciam acesas.

Por um tempo ela apenas ficou sentada, olhando o reflexo delas nas paredes desgastadas. Até começar a desmontar o cenário.

Guardou os pequenos elementos da transmissão com movimentos lentos, quase automáticos. O tecido delicado da fantasia deslizou pelos braços quando ela a retirou, abandonando aos poucos aquela versão cuidadosamente construída de si mesma.

Apenas Sarah outra vez.

Cansada, sozinha e confusa demais para alguém que deveria estar apenas falando com um desconhecido na internet.

Ela vestiu uma camiseta larga e caminhou até a cama.

Os livros da universidade ainda estavam espalhados ali, lembrando que a realidade continuava esperando quando a fantasia acabava.

Ela puxou um dos livros.

Leu a mesma página três vezes.

Não absorveu uma única linha.

Então apagou as luzes do loft. A escuridão tomou conta, deixando apenas os reflexos frios da cidade entrando pela janela.

Ela se deitou, mas a insônia estendeu o relógio antes que conseguisse fechar os olhos.

Irritada consigo mesma, pegou o celular.

O chat ainda estava aberto.

A última mensagem permanecia ali.

Simples.

Inofensiva.

E, ainda assim, ela voltou a lê-la.

Como se as palavras pudessem significar algo diferente.

Era ridículo.

Ela sequer sabia o nome dele.

Não sabia sua idade.

Não sabia sua aparência.

Não sabia quase nada.

E ainda assim conseguia imaginar a voz. O tom calmo. As respostas pensadas.

Soltou um suspiro. Bloqueou a tela novamente.

Tentando ignorar uma constatação óbvia:

Ela estava começando a procurar por ele nas próprias noites.

E aquilo era uma péssima ideia.

Peter teria percebido.

Sarah decidiu não pensar nisso.

✦ ✦ ✦

Do outro lado da cidade, Thiago continuava parado diante da janela mesmo depois da conversa terminar.

A tela do celular já havia apagado há alguns minutos.

Mas ele ainda permanecia ali.

Imóvel, pensando.

Ela tinha ido embora da conversa sem tentar prolongar nada.

Sem última provocação, sem insistência.

E aquilo o intrigava.

Todas as outras pessoas naquela plataforma sempre queriam atenção.

Mais tempo, mais interação, mais monetização.

Mas Samantha não. Ela simplesmente desaparecia quando decidia que era o momento de desaparecer.

Como se ainda existisse uma linha que ela se recusava a ultrapassar.

Thiago passou os dedos pelo maxilar, pensativo.

O relógio já marcava tarde demais, o sono estava distante outra vez.

Ele voltou para o sofá, abriu novamente o histórico.

Releu as mensagens, mais devagar dessa vez.

Tentando encontrar alguma coisa escondida.

“Você parece querer ser compreendida.”

A frase permaneceu na mente dele, um eco insistente.

Talvez aquilo dissesse mais sobre ele próprio do que sobre ela.

Abriu o perfil dela novamente.

Analisou as poucas informações disponíveis.

As fotos. Os horários das transmissões. Os limites cuidadosamente mantidos.

E percebeu algo simples: ele queria mais contato.

Não necessariamente mais exposição, queria mais proximidade.

Aquilo era novo, desconfortavelmente novo.

Os dedos deslizaram pela tela até a área de interações privadas da plataforma.

Havia formas simples de aumentar proximidade ali.

Pedidos exclusivos. Conversas prioritárias. Valores altos o suficiente para chamar atenção.

Ele permaneceu refletindo.

Não porque o dinheiro significasse alguma coisa, mas porque sabia exatamente o que estava tentando fazer.

Criar espaço, permanência. Mais acesso.

Ele conhecia aquele tipo de comportamento, reconhecia obsessão quando via uma.

Já tinha assistido clientes perderem empresas, casamentos e reputações tentando preencher vazios que nunca souberam explicar.

Sempre começava da mesma forma: pequenos desvios, pequenas justificativas, nada grande o suficiente para parecer preocupante no início.

E ainda assim, continuava ali.

O cursor pairou sobre uma das opções por alguns segundos.

Ele soltou uma respiração baixa, quase impaciente consigo mesmo.

Aquilo era ridículo.

Uma mulher desconhecida, uma conversa atravessando madrugadas.

Nada daquilo deveria ter importância suficiente para alterar sua rotina mental daquele jeito.

O problema nem era desejo.

Era expectativa.

A ideia de esperar a próxima transmissão.

A próxima resposta.

O próximo momento em que ela esquecesse da câmera.

Thiago apoiou a cabeça no encosto do sofá, fechando os olhos para forçar o descanso.

Enquanto isso, em algum lugar de Chicago, uma mulher que ele sequer conhecia de verdade começava a ocupar espaços da mente dele que há muito tempo pertenciam apenas ao trabalho.

E, depois de anos de pura apatia, ele experimentou algo perigosamente próximo de ansiedade.

Não pela presença dela, mas pela possibilidade de ela simplesmente desaparecer.

O sono veio tarde. Fragmentado. Como quase tudo na rotina dele ultimamente.

Thiago adormeceu na sala, ainda com o celular próximo.

E então ela apareceu.

Não como uma pessoa real, mas como uma impressão.

O apartamento permanecia silencioso, iluminado apenas pela cidade do lado de fora.

E, no centro daquele silêncio, a personagem surgia.

Os longos cabelos rosados emoldurados pelas orelhas fofas de raposa. O vestido branco e azul. As caudas suaves acompanhando os movimentos com leveza quase hipnótica.

Ela caminhava pelo recinto como se pertencesse àquele espaço.

Os movimentos eram lentos, fluídos, quase irreais.

Ele a acompanhava sem conseguir desviar os olhos.

Não havia lógica no sonho, nem narrativa clara.

Apenas imagem. Som. Essência.

Ao fundo, a mesma música preenchia o ambiente outra vez.

Ela parou próxima à janela.

E Thiago sentiu algo estranho no próprio peito quando ela olhou diretamente para ele.

Não desejo imediato.

Algo pior, reconhecimento.

Como se aquela figura construída por pixels, distância e isolamento, já estivesse ocupando espaço demais dentro da mente dele.

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