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01

Author: Autora NB
last update publish date: 2026-10-17 07:39:23

Margareth "Meg"

Acordei naquela manhã com uma dor de cabeça dos infernos. Isso era o que dava sair para baile na favela com a Sarah, em pleno domingo, sabendo que segunda-feira teria aula bem cedo. Por Deus! O que eu fui fazer?

Juro que, se alguém me oferecesse a oportunidade de voltar no tempo, eu voltaria exatamente para o momento em que minha melhor amiga apareceu na minha casa com aquele sorriso de quem estava prestes a cometer uma atrocidade. Teria fechado a porta na cara dela, desligado o celular e dormido até segunda-feira à tarde.

Mas não. A bonita aqui precisava viver experiências novas, sair da própria bolha e descobrir o que existia além das festas de gente rica.

Pois bem, descobri.

Descobri que minhas botas caríssimas não foram feitas para andar por qualquer lugar, que música alta depois de algumas horas se transforma em tortura e que o irmão da minha melhor amiga era um homem absurdamente convencido.

Felipe.

Ou, como todos o chamavam, Cobra.

Só de lembrar daquele homem, revirei os olhos.

- Nunca mais. - murmurei contra o travesseiro. - Nunca mais na minha vida.

Mentira, provavelmente.

Mas, naquele momento, precisava acreditar nisso para conseguir sobreviver à manhã.

Levantei com uma coragem que, sinceramente, não sei de onde tirei. Meus pés tocaram o chão frio, e imediatamente me arrependi de todas as decisões que me levaram até ali. Caminhei até o banheiro arrastando os pés, peguei uma aspirina e tomei com um copo de água antes de entrar no banho.

Gelado.

A água estava gelada.

- Ah, não! Não, não, não!

Girei o registro desesperadamente, mas parecia que até o encanamento da minha casa tinha decidido conspirar contra mim.

Depois de alguns minutos de sofrimento, consegui terminar o banho, cuidar da pele e me arrumar. Escolhi uma calça jeans de corte reto, uma blusa branca e um blazer bege. Fiz uma maquiagem leve para esconder as olheiras e deixei meus cabelos soltos, caindo em ondas sobre os ombros.

Diante do espelho, observei meu reflexo.

Continuava linda.

Pelo menos alguma coisa naquela manhã estava funcionando.

Peguei minha bolsa, coloquei o celular dentro e desci as escadas da mansão.

Eu poderia ir dirigindo até a escola, como fazia quase todos os dias, mas estava sem a menor condição de enfrentar o trânsito. Não confiava nem na minha capacidade de atravessar a rua naquele estado, imagine dirigir.

Por isso, decidi ir com o motorista.

Assim que cheguei à sala de jantar, encontrei minha mãe sentada à mesa, tomando café enquanto lia alguma coisa no tablet. Meu pai estava do outro lado, com o celular em uma mão e uma xícara de café na outra.

- Bom dia, meus amores. - falei, depositando um beijo na bochecha da minha mãe e outro na do meu pai.

Minha mãe ergueu os olhos e franziu a testa.

- Meu Deus, Margareth! O que aconteceu com você?

Puxei uma cadeira.

- Bom dia para você também, mamãe.

- Você está com uma cara péssima.

- Obrigada. É exatamente o que uma filha precisa ouvir logo cedo.

Meu pai abaixou o celular, observando-me por alguns segundos.

- Você saiu ontem?

Peguei uma torrada e passei geleia.

- Saí.

- Onde?

Mordi a torrada, mastiguei tranquilamente e respondi:

- Na casa da Sarah.

Não era exatamente mentira. Eu tinha saído com Sarah, e em algum momento da noite também estive na casa dela.

Antes de ir para o baile.

Detalhes.

Minha mãe estreitou os olhos.

- E por que não nos avisou que chegaria tão tarde?

Engoli a comida e tomei um gole de suco.

- Mãe, eu já tenho idade para sair com minhas amigas sem precisar apresentar um relatório completo das minhas atividades.

- Enquanto morar sob o nosso teto, vai nos dar satisfação, sim, mocinha. - meu pai respondeu, com aquela voz séria que costumava usar quando queria deixar claro que o assunto não estava aberto para discussão.

Suspirei.

- Eu cheguei em casa, estou inteira, ninguém me sequestrou e, como podem ver, continuo sendo a filha mais bonita de vocês. Podemos encerrar o interrogatório?

Minha mãe tentou segurar o sorriso.

Meu pai, infelizmente, não tinha o mesmo senso de humor.

- Margareth.

- Sérgio. - imitei o tom dele, levando outra torrada à boca.

- Não abuse da minha paciência.

- E você não abuse da minha dor de cabeça. Estamos todos sofrendo nesta manhã.

Minha mãe soltou uma risada, e meu pai balançou a cabeça antes de voltar ao celular.

Aproveitei a distração para terminar meu café.

- Vou com o motorista hoje. - avisei, levantando-me.

- Por quê? - minha mãe perguntou.

- Porque estou cansada.

- Cansada de quê? Você passou o fim de semana inteiro descansando!

Parei ao lado da cadeira e a encarei.

- Mãe, eu te amo, mas, por favor, não me faça explicar o conceito de cansaço às sete da manhã.

Ela riu novamente.

Peguei minha bolsa e fui até a porta, agradecendo mentalmente por ter conseguido escapar sem mais perguntas.

Ou quase.

- Margareth! - meu pai chamou.

Virei-me devagar.

- Oi, papai?

- Hoje você vai voltar direto para casa.

Arqueei uma sobrancelha.

- Por quê?

- Porque eu quero.

Respirei fundo.

Homens.

Às vezes, eu tinha certeza de que meu pai e Felipe compartilhavam algum tipo de parentesco espiritual quando o assunto era querer mandar na vida dos outros.

- Está bem.

Saí antes que ele pudesse acrescentar qualquer coisa.

O motorista já me esperava diante da entrada, e entrei no carro praticamente me jogando no banco.

- Bom dia, seu Antônio.

- Bom dia, senhorita Meg. Tudo bem?

- Tirando a vontade de voltar para a cama e esquecer que o mundo existe, estou ótima.

Ele riu discretamente e deu partida.

Encostei a cabeça no banco, fechei os olhos e tentei aproveitar o silêncio.

Tentei.

Porque meu celular resolveu vibrar.

Uma vez.

Duas.

Três.

Peguei o aparelho, pronta para reclamar com quem quer que estivesse perturbando minha paz, e encontrei uma sequência de mensagens no grupo das meninas.

Bianca: BOM DIA, RESSACADAS!

Júlia: Eu ainda estou tentando descobrir como voltei para casa.

Bianca: KKKKKKKKKKK.

Júlia: Meg, você sobreviveu?

Eu: Infelizmente.

Bianca: AHAHAHAHAHAHA.

Júlia: E aí, como foi o baile?

Fiquei olhando para a tela, pensando em como resumir a experiência.

Como explicar que tinha ido parar em um lugar completamente diferente do meu cotidiano, que havia conhecido pessoas que provavelmente nunca encontraria nos nossos círculos habituais e que o irmão da Sarah tinha o péssimo hábito de me olhar como se conseguisse enxergar todos os meus pensamentos?

Digitei apenas:

Eu: Diferente.

Bianca: DIFERENTE BOM OU DIFERENTE RUIM?

Eu: Sim.

Elas começaram a mandar mensagens e emojis, mas deixei o grupo de lado quando outra notificação apareceu no topo da tela.

Uma mensagem privada.

De um número que eu não tinha salvo.

Abri a conversa.

Bom dia, patricinha. Sobreviveu à noite?

Fiquei imóvel.

Meu coração deu uma batida esquisita.

Não porque eu estivesse feliz.

Claro que não.

Era indignação.

Pura indignação.

Quem aquele homem pensava que era para conseguir meu número e ainda ter a audácia de me chamar de patricinha antes das oito da manhã?

Eu sabia exatamente quem era.

Felipe.

O infeliz.

Olhei para o motorista pelo retrovisor, como se ele pudesse me oferecer alguma explicação para aquela situação.

Não ofereceu.

Voltei à mensagem e digitei:

Eu: Quem é?

A resposta chegou em segundos.

Desconhecido: Sério?

Revirei os olhos.

Eu: Não costumo salvar números de homens convencidos.

Desconhecido: Então salva o meu.

Fiquei encarando a tela.

Ele tinha algum problema?

Algum tipo de deficiência emocional que o impedia de conversar normalmente?

Eu: Você sempre é assim?

Desconhecido: Assim como?

Eu: Insuportável.

Desconhecido: Só com quem merece.

Soltei uma risada incrédula.

- Filho da mãe!

- Algum problema, senhorita? - seu Antônio perguntou.

- Não, seu Antônio. Só estou descobrindo que existem pessoas que deveriam ser proibidas de usar celular.

Ele riu, e eu voltei à conversa.

Eu: E como conseguiu meu número?

A resposta demorou um pouco mais.

Desconhecido: Tenho meus contatos.

Eu: Isso não responde à minha pergunta.

Desconhecido: Pergunta para sua amiga.

Mordi o lábio, irritada.

É claro.

Sarah.

Aquela traidora tinha entregado meu número para o irmão sem nem me consultar.

Abri a conversa com ela imediatamente.

Eu: VOCÊ DEU MEU NÚMERO PARA O SEU IRMÃO?

A resposta veio quase instantaneamente.

Sarah: BOM DIAAAAAA! ❤️

Eu: SARAH!

Sarah: O que foi, mulher?

Eu: O SEU IRMÃO ESTÁ ME MANDANDO MENSAGENS!

Sarah: Ah, ele já acordou?

Parei.

Li novamente.

Eu: COMO ASSIM, ELE JÁ ACORDOU?

Sarah: Ué, Meg. Ele tem que trabalhar, né?

Fechei os olhos.

Eu precisava urgentemente de amigas novas.

Eu: Você deu meu número para ele?

Sarah: Dei.

Eu: SEM ME PEDIR PERMISSÃO?

Sarah: Amiga, calma! Ele perguntou se você tinha chegado bem em casa ontem, e eu falei que sim. Aí ele pediu seu número porque queria confirmar.

Fiquei alguns segundos em silêncio.

Aquela explicação era razoável.

O que não tornava a situação menos irritante.

Eu: Ele poderia ter perguntado para você.

Sarah: E perder a oportunidade de conversar com você? KKKKKKKKK.

Meu rosto esquentou.

Não.

Não, não, não.

Eu não aceitaria aquilo.

Eu: Você está delirando.

Sarah: Sei.

Eu: Vou bloquear vocês dois.

Sarah: Te amo, amiga! ❤️

Joguei o celular no colo e encarei a paisagem pela janela.

A cidade passava diante dos meus olhos, mas minha cabeça estava ocupada demais tentando entender por que Felipe tinha demonstrado qualquer interesse em saber se eu havia chegado bem.

Talvez fosse apenas educação.

Talvez ele se sentisse responsável porque eu era amiga da irmã dele.

Talvez estivesse apenas se divertindo às minhas custas.

A terceira opção parecia a mais provável.

E eu não daria a ele o prazer de perceber que tinha conseguido chamar minha atenção.

Nem pensar.

Cheguei à escola pouco antes do sinal.

Seu Antônio parou diante da entrada, e agradeci antes de descer do carro.

O movimento já era intenso. Alunos conversavam em pequenos grupos, alguns corriam para não se atrasar, enquanto outros aproveitavam os últimos minutos para terminar atividades que deveriam ter feito no fim de semana.

Assim que atravessei o portão, Bianca apareceu ao meu lado.

- Finalmente! Pensei que tivesse sido sequestrada.

- Não tive essa sorte.

Ela gargalhou.

Bianca era uma das minhas amigas mais próximas na escola. Diferentemente de Sarah, que conseguia me convencer a fazer coisas absurdas com uma facilidade assustadora, Bianca geralmente era a responsável por rir das consequências.

Júlia apareceu logo atrás, segurando um copo de café.

- Amiga, você precisa contar tudo sobre ontem.

- Não aconteceu nada.

As duas pararam de andar.

Bianca me encarou.

Júlia quase derramou o café.

- Como assim, não aconteceu nada? - Bianca perguntou. - Você foi a um baile na favela com a Sarah! Alguma coisa aconteceu!

- Eu dancei, conversei com algumas pessoas e voltei para casa.

- E o irmão dela?

Parei de andar.

As duas trocaram um olhar.

Droga.

- Que irmão?

Bianca abriu um sorriso malicioso.

- Ah, não. Você está fazendo exatamente essa cara porque tem história.

- Não estou fazendo cara nenhuma!

- Meg, querida, eu conheço você desde o primeiro ano. Quando você mente, começa a mexer no cabelo.

Soltei os fios imediatamente.

As duas caíram na gargalhada.

- Vocês são insuportáveis.

- E você está escondendo alguma coisa. - Júlia afirmou, tomando um gole de café.

Suspirei.

- O nome dele é Felipe.

Bianca arregalou os olhos.

- O famoso Cobra?

Olhei para ela.

- Famoso para quem?

- Meg, pelo amor de Deus! Você não tem internet?

- Tenho, mas costumo usá-la para coisas úteis.

- Como comprar roupas que você não precisa? - Júlia provocou.

- Exatamente. Cada uma com suas prioridades.

Bianca ignorou meu comentário.

- Dizem que ele é o dono do morro.

Meu sorriso desapareceu um pouco.

Eu tinha ouvido o nome Cobra diversas vezes na noite anterior, mas ainda não sabia exatamente o que pensar sobre aquilo.

- Ele é irmão da Sarah. - respondi, tentando encerrar o assunto.

- Isso nós sabemos, criatura! Quero saber se ele é bonito.

Revirei os olhos.

- Não reparei.

As duas começaram a rir tão alto que alguns alunos olharam em nossa direção.

- Mentira! - Bianca exclamou. - Você reparou, sim!

- Posso garantir que existem coisas mais interessantes no mundo do que aquele homem.

- Tipo?

Abri a boca.

Fechei.

Pensei por alguns segundos.

- Tipo... matemática.

Júlia levou a mão à boca, tentando conter a gargalhada.

- Meu Deus, você está apaixonada!

- EU NÃO ESTOU APAIXONADA!

O grito saiu mais alto do que eu pretendia.

O corredor inteiro pareceu silenciar por um instante.

Fechei os olhos.

Perfeito.

Absolutamente perfeito.

Agora, além de estar atrasada, com dor de cabeça e irritada com um homem que mal conhecia, eu ainda tinha acabado de anunciar aos quatro ventos que existia um assunto que me deixava nervosa.

Bianca passou o braço pelos meus ombros.

- Tudo bem, amiga. A primeira fase é a negação.

- Eu vou bater em você.

- A segunda é a agressividade!

Júlia começou a rir novamente.

E eu decidi que não conversaria mais com nenhuma das duas até o fim do ano letivo.

As aulas da manhã se arrastaram como se cada minuto tivesse decidido durar uma eternidade.

Tentei prestar atenção à explicação de literatura, fiz algumas anotações e respondi a duas perguntas da professora. Entretanto, sempre que o celular vibrava dentro da minha bolsa, minha atenção era imediatamente desviada.

Eu não precisava olhar para saber quem era.

E isso era irritante.

Muito irritante.

No intervalo, sentei-me com Bianca e Júlia em uma mesa próxima ao jardim da escola. Comprei um suco e tentei me concentrar em qualquer assunto que não envolvesse o homem responsável por perturbar minha paz.

Não funcionou.

- Você está olhando para o celular há dez minutos - Bianca observou.

- Estou esperando uma mensagem.

As palavras saíram antes que meu cérebro tivesse a oportunidade de me impedir.

As duas ficaram em silêncio.

Lentamente, Bianca virou a cabeça na minha direção.

- De quem?

Suspirei.

- De ninguém.

- Meg.

- Bianca.

- É do Cobra?

- NÃO!

O grito fez Júlia engasgar com o suco.

Peguei um guardanapo e entreguei a ela, tentando ignorar a expressão vitoriosa de Bianca.

- Você é muito irritante.

- E você é péssima mentindo.

Antes que eu pudesse responder, meu celular vibrou.

Olhei para a tela.

Uma mensagem.

Felipe: Sua amiga me disse que você chegou bem à escola.

Franzi a testa.

Como aquele homem sabia que eu tinha chegado à escola?

Digitei imediatamente.

Eu: Você está me vigiando?

Felipe: Não se acha tão importante, patricinha.

Apertei os lábios.

Eu: Então pare de me mandar mensagens.

Felipe: É só não responder.

Fiquei encarando a tela, incrédula.

Aquele homem precisava de um curso intensivo de como conversar com uma mulher sem ser um completo idiota.

Eu: Você é sempre tão convencido assim ou fez algum curso?

Felipe: Nasci com o dom.

Eu: Meus pêsames.

Felipe: Obrigado, patricinha. Sua preocupação me comoveu.

Mordi o lábio para não rir.

Não que tivesse achado graça. De jeito nenhum. Eu estava apenas reconhecendo o nível absurdo de deboche daquele homem.

Eu: Olha, Felipe, eu não sei o que você quer comigo, mas pode parar de me chamar de patricinha.

Felipe: E você pode parar de me responder.

Eu: Você é insuportável!

Felipe: Já me disseram.

Eu: Imagino que muitas mulheres.

Dessa vez, ele demorou um pouco mais para responder.

E eu odiei perceber que estava esperando.

Felipe: Tá com ciúmes, Meg?

Meu queixo caiu.

- Ah, não! - exclamei, atraindo a atenção das minhas amigas.

Bianca praticamente se jogou sobre a mesa.

- O QUE ELE DISSE?

Virei o celular contra o peito.

- Nada!

- MEG, EU VOU TOMAR ESSE CELULAR DA SUA MÃO!

- Encosta nele para você ver!

Júlia começou a rir, enquanto Bianca estendia o pescoço, tentando enxergar a tela.

Eu não ia mostrar.

Nem morta.

Meu celular vibrou novamente.

Felipe: Ficou quietinha agora.

Eu: Estou ocupada.

Felipe: Fazendo o quê?

Eu: Tentando descobrir como alguém consegue ser tão irritante em tão poucas mensagens.

Felipe: E eu tentando descobrir por que você continua respondendo.

Mordi a parte interna da bochecha.

Droga.

Ele tinha um ponto.

Um ponto irritantemente válido.

Eu: Porque sou educada.

Felipe: Então imagina quando você perder a educação.

Eu: Você não sobreviveria.

Felipe: Agora fiquei curioso.

Revirei os olhos, largando o celular sobre a mesa.

- Eu odeio esse homem.

Bianca abriu um sorriso enorme.

- Você nem conhece esse homem!

- Exatamente! E ele já conseguiu acabar com a minha paz.

- Isso tem nome. - Júlia comentou.

Apontei o dedo para ela.

- Não termina essa frase.

Ela levantou as mãos, rendendo-se.

- Tudo bem, tudo bem.

Peguei o celular novamente, decidida a encerrar aquela conversa de uma vez por todas.

Eu: Tenho aula. Não me mande mais mensagens.

A resposta demorou alguns segundos.

Felipe: Vai estudar, patricinha.

Logo depois, chegou outra.

Felipe: E toma cuidado na saída.

Franzi a testa.

Eu: Por quê?

Dessa vez, ele não respondeu imediatamente.

Fiquei olhando para a tela, esperando que os três pontinhos aparecessem. Quando finalmente apareceram, meu coração acelerou de um jeito ridículo.

Felipe: Porque você parece o tipo de pessoa que atravessa a rua olhando para o celular.

Arregalei os olhos.

Eu: EU NÃO FAÇO ISSO!

Felipe: Claro que não.

Eu: Felipe!

Felipe: Tchau, Meg.

Fiquei encarando a última mensagem.

Ele havia conseguido.

O desgraçado havia conseguido me fazer rir sozinha olhando para o celular.

E eu não sabia se queria jogar aquele aparelho longe ou descobrir o que mais ele seria capaz de fazer para me tirar do sério.

Talvez fosse a curiosidade.

Talvez fosse o desafio.

Ou talvez eu simplesmente estivesse entediada demais com a minha vida perfeitamente organizada para não me interessar por alguém tão diferente de tudo o que conhecia.

Mas uma coisa era certa: Felipe não combinava com o meu mundo.

E eu não combinava com o dele.

Era exatamente por isso que deveria manter distância.

O problema era que, quanto mais eu tentava me convencer disso, mais me lembrava do jeito como ele havia me olhado na noite anterior.

Como se eu fosse um enigma que ele queria desvendar.

Como se, por trás das minhas roupas caras, das minhas respostas afiadas e da minha pose de garota que tinha tudo sob controle, ele tivesse enxergado alguma coisa que nem eu mesma sabia explicar.

Balancei a cabeça, afastando aqueles pensamentos.

Não.

Eu não seria mais uma garota encantada por um homem misterioso, tatuado e convencido.

Minha vida não era um romance.

E Felipe não era um príncipe encantado.

Era Cobra.

O dono do morro.

O irmão da minha melhor amiga.

E, a partir daquele momento, o homem que eu faria questão de manter longe de mim.

Pelo menos era esse o plano.

O sinal tocou, anunciando o fim do intervalo.

Levantei-me, ajeitei a bolsa no ombro e acompanhei minhas amigas até a sala.

Meu celular vibrou uma última vez.

Olhei para a tela contra a minha vontade.

Felipe: Ah, e Meg?

Fiquei parada no meio do corredor.

Eu: O quê?

A resposta chegou quase imediatamente.

Felipe: Você fica bonita quando está brava.

Meu coração deu um salto.

Fiquei olhando para aquelas palavras, sentindo minhas bochechas esquentarem, enquanto um sorriso involuntário ameaçava surgir no meu rosto.

Apaguei a tela imediatamente.

- Filho da mãe - murmurei.

- O que foi agora? - Bianca perguntou.

Guardei o celular na bolsa e ergui o queixo.

- Nada.

- Meg...

- Bianca, eu juro que, se você falar mais uma palavra, vou trocar de melhor amiga.

Ela gargalhou.

- Você não consegue viver sem mim!

- Infelizmente, estou começando a perceber que esse é o meu maior problema.

Entrei na sala e me sentei no meu lugar, tentando prestar atenção à aula.

Mas, pela primeira vez em muito tempo, minha cabeça estava longe dos livros, das festas da elite e das preocupações que sempre fizeram parte da minha rotina.

Estava em um morro.

Em um baile.

E em um homem que me chamava de patricinha como se tivesse todo o direito do mundo de fazer isso.

Eu ainda não sabia, mas aquela troca de mensagens era apenas o começo.

Porque Felipe tinha acabado de entrar na minha vida.

E, pelo visto, não pretendia sair tão cedo.

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