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작가: Autora NB
last update 게시일: 2026-11-01 06:55:40

Felipe “Cobra”

Eu nunca imaginei que sentiria tanta dor por ver alguém partir.

Passei a vida inteira vendo pessoas entrarem e saírem do morro. Algumas prometiam voltar, outras juravam lealdade e muitas simplesmente desapareciam. Aprendi cedo que não podia me apegar demais a ninguém, porque, naquele mundo, o amanhã nunca era uma certeza.

Então Meg apareceu.

E, sem perceber, comecei a construir um futuro que nunca tive coragem de admitir em voz alta.

Um futuro em que eu acordava ao lado dela, rec
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  • Morro Acima   Epílogo

    Margareth Romano**Cinco anos depois.**— Doutora Margareth Romano, o juiz está aguardando a senhora.Ergui os olhos dos documentos espalhados sobre a mesa e conferi, pela última vez, os argumentos que havia preparado.Cinco anos.Cinco anos desde que deixei o morro pela segunda vez, carregando comigo a promessa que fizera ao homem que nunca consegui esquecer.Cinco anos de estudos, noites sem dormir, provas, estágios, audiências e incontáveis momentos em que pensei que não conseguiria chegar até ali.Mas cheguei.Eu me formei em Direito, conquistei minha carteira da OAB e construí uma carreira que jamais imaginei alcançar tão cedo. Meu nome começou a circular pelos corredores dos tribunais, primeiro discretamente, depois com uma força que nem eu mesma esperava.Aprendi a defender pessoas que o mundo já havia condenado antes mesmo de ouvi-las.Aprendi que justiça e vingança não eram a mesma coisa.E aprendi que amar alguém não significava fechar os olhos para seus erros, mas também nã

  • Morro Acima   25

    Margareth “Meg”O luto tinha um jeito cruel de transformar tudo em lembrança.A casa continuava no mesmo lugar, os móveis permaneciam onde sempre estiveram e o sol ainda entrava pela janela do meu quarto todas as manhãs. Mas nada parecia igual.Minha mãe não estava mais na cozinha. Não havia sua voz me chamando para almoçar, nem seus passos pelo corredor, nem aquele costume de perguntar se eu estava bem mesmo quando meu rosto denunciava que não.O mundo continuava funcionando.E eu não entendia como.Fazia alguns dias desde o enterro, e eu ainda acordava procurando o celular para ligar para ela. Em alguns momentos, esquecia. Pensava em contar alguma coisa que tinha acontecido durante a viagem, em perguntar uma receita, em ouvir sua opinião sobre alguma decisão.Então lembrava.E a realidade voltava a me esmagar.Sarah tinha passado quase todos os dias comigo. Trazia comida, tentava me fazer sair do quarto e ficava sentada ao meu lado quando eu não queria conversar.Ela não me cobrava

  • Morro Acima   24

    Margareth "Meg"Eu sempre achei que teria tempo.Tempo para voltar para casa com a cabeça erguida, mostrar à minha mãe tudo o que eu tinha conquistado, abraçá-la sem pressa e contar cada detalhe do lugar que, durante tanto tempo, existiu apenas nos meus sonhos.Tempo para dizer que eu estava bem.Que tinha aprendido a me virar sozinha, que já conseguia conversar em outra língua sem pensar tanto nas palavras e que, apesar de todas as noites em que chorei escondida, eu estava me tornando a mulher que sempre quis ser.Eu achava que teria tempo para tudo isso.Até o telefone tocar numa tarde aparentemente comum.Eu estava sentada à mesa da pequena cozinha do apartamento onde morava, com alguns livros abertos e uma xícara de café esquecida ao lado do caderno. A janela estava entreaberta, deixando entrar o vento frio, e eu tentava terminar um trabalho da universidade quando meu celular vibrou.O nome de Sarah apareceu na tela.Sorri imediatamente.Fazia alguns dias que não conversávamos por

  • Morro Acima   23

    Margareth “Meg”Um ano.Trezentos e sessenta e cinco dias desde que entrei naquele táxi com duas malas, um passaporte na bolsa e um coração que parecia ter ficado para trás.Um ano desde que deixei minha cidade, minha mãe, Sarah e o homem que eu amava.Um ano desde que aprendi que era possível continuar respirando mesmo quando uma parte de nós parecia ter morrido.Eu havia imaginado tantas vezes como seria viver no exterior. Nos meus planos, eu conheceria lugares incríveis, faria amizades, estudaria muito e aproveitaria cada oportunidade. Imaginava que sentiria saudade de casa, é claro, mas nunca pensei que essa saudade pudesse assumir tantas formas diferentes.Havia dias em que eu sentia falta da comida da minha mãe.Em outros, sentia falta das conversas intermináveis com Sarah, das nossas risadas por motivos idiotas e até das discussões sobre quem tinha razão.E havia os dias em que sentia falta de Felipe.Esses eram os piores.Porque não existia uma receita de casa, uma ligação ou

  • Morro Acima   22

    Felipe “Cobra”Eu nunca imaginei que sentiria tanta dor por ver alguém partir.Passei a vida inteira vendo pessoas entrarem e saírem do morro. Algumas prometiam voltar, outras juravam lealdade e muitas simplesmente desapareciam. Aprendi cedo que não podia me apegar demais a ninguém, porque, naquele mundo, o amanhã nunca era uma certeza.Então Meg apareceu.E, sem perceber, comecei a construir um futuro que nunca tive coragem de admitir em voz alta.Um futuro em que eu acordava ao lado dela, reclamava do café que ela preparava, ouvia suas histórias sobre os livros que lia e fingia não gostar quando ela se sentava no meu colo para me roubar um beijo.Um futuro em que eu chegava em casa e encontrava sua bolsa jogada no sofá, seus cadernos espalhados pela mesa e aquela voz doce me chamando de Cobra só para me provocar.Um futuro simples.Tão simples que, para mim, parecia impossível.E agora eu precisava assistir à mulher que amava partir para viver a vida que sempre sonhou.O problema er

  • Morro Acima   21

    Felipe “Cobra”Os dias passaram, mas eu continuava preso àquela noite.O morro tinha voltado à rotina, os homens estavam novamente nas ruas e o silêncio que sucedeu os tiros já havia sido substituído por música, conversas e motores. Para quem olhava de fora, tudo parecia ter voltado ao normal.Para mim, não.Havia alguma coisa errada.Eu sentia isso desde o momento em que Meg deixou o QG naquela tarde, depois da nossa discussão. Tentei me convencer de que ela só precisava de tempo, de que logo me mandaria uma mensagem reclamando da minha teimosia ou apareceria na minha frente com aquele olhar que me fazia esquecer todas as respostas que havia preparado.Mas ela não apareceu.Na noite da invasão, tentei ligar para ela tantas vezes que perdi a conta. As chamadas não eram atendidas, e minhas mensagens permaneciam sem resposta.Quando finalmente consegui falar com Sarah, ela disse que Meg estava bem.Bem.Aquela palavra deveria ter sido suficiente para me tranquilizar, mas não foi.— Ela

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