FAZER LOGINMary Anne
Meses antes... Sangue cigano, liberdade, música e fogo… isso é o que me define. Aliás, é o que define toda a família Brown. Sou Mary Anne Brown, nunca herdei o sobrenome do meu pai, porque minha mãe achava ele fraco demais para dar a mim seu sobrenome. Não o vejo desde pequena, mas sinceramente? Não sinto falta. O amor e acolhimento na família Brown é a característica mais forte que nós, descendentes de Romanis temos. Todos se amam incondicionalmente. Nós brigamos? Sim! E muito, mas ninguém de fora pode se meter à besta conosco, porque se mexeu com um, mexeu com todos.Entro pelos portões da grande mansão Carmichael, em Greenwitch, estou ansiosa para pular para uma nova etapa da minha vida. Vim para Connecticut por causa de uma campanha publicitária. Três semanas de fotos, estúdios chiques e luzes quentes. Meu sonho de montar meu próprio estúdio de fotografia, que está cada dia mais próximo. Enquanto isso eu modelo, poso para fotos e ficarei na minha tia Magda, até encontrar um apartamento. Ela insistiu que eu ficasse na casa dela. “Família não paga hotel”, disse ela com aquele tom que não aceita discussão.
Hoje era noite das garotas, e estávamos reunidas para beber, comer e contar as últimas fofocas. Mas minha cabeça estava um pouco longe, eu ia fazer uma campanha que me renderia um bom dinheiro para montar meu estúdio de fotografia, finalmente esse projeto iria sair do papel. Mais duas campanhas boas e pronto.A noite foi tranquila e divertida como sempre. Conheci Samantha e Benjamin, passei um tempo com a família depois de meses viajando a trabalho e uma estadia longa no Brasil.
— Esse Logan safado! Finalmente criou coragem! — gritei, vendo meu primo de trinta e seis anos ajoelhado no tapete persa da sala pedindo a namorada em casamento.
Foi bom ver meu primo se amarrando com alguém tão livre e feliz. Peguei Benjamin e fui para o quarto, ele pecisava brincar e os aduktos iam comemorar esse momento com champanhe. Brinquei um pouco com ele enquanto desfazia as malas e quando descemos, faço caretas e barulhos engraçados para Benjamin dar gargalhadas, ele é tão fofo e especial, que meu útero coça. Chegando na sala de jantar me surpreendo com a presença de um homão da porra. Ele é branco bronzeado, alto, ombros largos veste uma camisa branca de linho aberta no colarinho, revelando um pedaço de pele bronzeada. Calça escura bem cortada, dando destaque as suas coxas grossas e volume bem avidente entre suas pernas... Seus cabelos são escuros com mechas grisalhas nas têmporas e barba bem aparada quase branca que o deixam absurdamente sexy. Um homem que parecia ter saído de um comercial de perfume caro. Porte atlético, queixo marcado, olhos azuis escuros qua pararou em mim. — Clarke, essa é a minha sobrinha Mary Anne, ela é filha da irmã mais velha de Magda. — Meu tio me apresentou. — acho que não viu ela depois que cresceu. — Ah, então ele é o padrinho de Logan? Ouvi falar muito dele, mas achei que era mais velho. — Você quer dizer que achava que eu fosse um velhote como Tony? — Ele fala finalmente rindo, mas seus olhos ainda não desgrudam dos meus. Ouvi Logan falar dele diversas vezes, mas só agora ele ganhava corpo e rosto. *Padrinho* de Logan. Morava na Itália, isso era tudo que eu sabia, mas me surpreendi como ele me olhava. Eu conhecia esse olhar, mas não esperava isso do padrinho do meu primo mais velho. — Prazer em conhecê-lo, Clarke!Ele estava hipnotizado que até eu… eu, Mary Anne Brown estava envergonhada. Eu não estendi a mão, não queria ficar ali. Seu olhar era insistente, cheio de segundas inteções. Então me despedi e fui para meu quarto, tomei banho, coloquei um pijama, mas não consegui dormir.
—
Ouvi passos no corredor, e me levantei para ver se era tia Magda. Mas assim que saí do quarto me esbarro numa parede dura e cheiroso. Ele segura a minha cinta para eu não cair. Clarke. — Oi, padrinho do Logan, eu pensei que era a tia Magda! — Falo sem ar. — Mary Anne! Sua voz grossa e rouca me causou arrepios. — Esse é o meu nome! Por acaso está procurando o banheiro, tem um no final do corredor... — Falo me afastando dele e tentando me recompor.— Acabei de encontrar o que eu queria!
Ele interrompe e fiquei embasbacada com suas palavras. Ele me devorava com o olhar, e juro que fiquei sem ação. Ele coloca meu cabelo atrás da orelha, e seu toque provoca choque na minha pele.
— Como nunca te vi antes, Mary? Eu juro que precisei inventar uma desculpa para vir até aqui, só para ter certeza de que você é mesmo real.
— Eu sempre estive por aqui, Eu que nunca te vi na vida...
— Eu garanto que isso vai mudar, Mary Anne! —Ele fala voltando para o corredor.
Entro para o quarto e fecho a porta rapidamente, respirando fundo. O que foi isso? Ele é padrinho do meu primo.Clarke Bellomo Quando o avião tocou o asfalto americano, meu coração pareceu parar por um segundo inteiro. Aterrissar nunca tinha me causado isso. Eu já tinha feito aquela rota dezenas de vezes. Mas agora cada metro de pista parecia carregar um peso diferente. Eu desci do avião com a mala de mão, os óculos escuros ainda no rosto e a certeza de que não conseguiria esperar mais nenhum dia. Não fui para casa. Fui direto para o apartamento de Mary Anne. O porteiro me reconheceu assim que me aproximei da recepção. Um homem mais velho, educado, que já tinha me visto algumas vezes quando eu buscava ela. — Senhor Bellomo. A senhorita Brown não está. Ela está viajando a trabalho. A amiga dela saiu para o emprego mais cedo. Eu fiquei parado alguns segundos, processando. Claro. As últimas campanhas do contrato. Eu tinha esquecido completamente. O último destino era Milão, daqui a um mês. Eu tinha atravessado o oceano à toa. Ela não estava. E não voltaria tão cedo. Agradeci ao
Mary Anne O barulho me arrancou do sono. Um som úmido, repetido, vindo do banheiro. Eu abri os olhos no escuro do quarto e fiquei alguns segundos tentando entender se era sonho ou realidade. Depois veio outro gemido baixo, seguido do barulho característico de alguém vomitando. Levantei na hora. — Lívia? Não houve resposta. Só mais um esforço abafado. Empurrei a porta do banheiro e a encontrei ajoelhada no chão, debruçada sobre o vaso, o cabelo preso de qualquer jeito com uma mão enquanto a outra segurava a borda. O corpo dela tremia. — Meu Deus, Li… o que foi? Ela acenou com a mão, pedindo um segundo. Eu molhei uma toalha pequena, torci e coloquei na nuca dela. O cheiro azedo tomava conta do banheiro. Quando finalmente ela se afastou do vaso, o rosto estava pálido, os olhos marejados e a boca trêmula. — Eu… eu não sei — murmurou, a voz rouca. — Acho que foi alguma coisa que eu comi. Tentei puxar a memória dos últimos dias. Estávamos no meio da semana. Lívia era a pess
Mary Anne Eu acordei num dia qualquer e decidi que precisava mudar alguma coisa no corpo. Não era sobre ficar mais bonita. Era sobre marcar território. Sobre provar para mim mesma que eu ainda era dona da minha pele. Marquei hora no estúdio de tatuagem no mesmo dia. Primeiro foi o braço. Linhas finas, um desenho que subia do pulso até quase o cotovelo, folhas, espinhos e pequenos detalhes que só faziam sentido para mim. A agulha doía de um jeito bom. Cada picada era um lembrete de que eu ainda sentia alguma coisa além de saudade. Depois veio a guirlanda. Delicada, logo abaixo dos seios, um arco de flores e folhas que só aparecia se eu levantasse a blusa. O tatuador levantou a sobrancelha quando expliquei o lugar. Eu apenas deitei e fechei os olhos. Quando saí dali, o corpo ardia e eu me sentia um pouco mais minha. No dia seguinte cortei o cabelo. Não foi um corte tímido. Foi tesoura, coragem e o espelho do salão refletindo uma mulher que eu mal reconhecia. Os fios longos
Clarke A notificação apareceu na tela enquanto eu ainda estava no escritório, olhando números que não faziam mais sentido. Era da conta oficial da agência onde Mary Anne trabalhava. Eu não a seguia, mas vi que seu perfil era aberto. O algoritmo, cruel e eficiente, me entregou exatamente o que eu não deveria ver, postagens do nosso ensaio deles, onde ela participava. Cliquei. O ensaio da próxima campanha. Fotos polidas, luz perfeita, cenários urbanos e naturais misturados. Eu passei por cada uma com o dedo lento demais. Até chegar nos bastidores. Ela estava ali. Linda. Radiante. O cabelo solto, o sorriso fácil, brincando com os parceiros de ensaio. Em uma foto ela ria de cabeça jogada para trás. Em outra fazia careta para a câmera. Em outra ainda estava sentada no chão, conversando animada com uma maquiadora. Parecia leve. Parecia feliz. Parecia… longe. Eu sorri junto com a tela. Um sorriso pequeno, automático e dolorido. Será que ela realmente estava feliz? Realizada? S
Mary AnneA volta para casa foi estranha. O apartamento cheirava a poeira e a ausência. Lívia abriu as janelas assim que entramos, como se o ar de Connecticut pudesse apagar o cheiro de Toscana que ainda carregávamos nas malas. Eu larguei a bolsa no chão e fiquei parada no meio da sala. Nada parecia meu. O sofá, a mesa de centro, a prateleira de livros… tudo estava no lugar, mas eu não. Eu tinha passado semanas vivendo uma vida que nunca imaginei. Dormindo em villas, pisando uvas, brigando, amando, saindo pela porta no meio da madrugada. Lívia tinha passado pouco mais de vinte e quatro horas na Itália, mas uma única noite tinha mudado o eixo dela. As duas estávamos quietas. Vazias. Eu pensava em Clarke o tempo inteiro. Imaginava se ele tinha falado alguma coisa na festa. Se estava bem. Se tinha se divertido. Se estava triste. Se tinha chorado de novo. Pegava o celular dezenas de vezes por dia, abria a conversa e fechava sem digitar nada. Eu tinha decidido me afastar. Então ia es
Mary AnneEu já estava alta. Não um pouco. Alta de verdade. O tipo de alta que faz o mundo balançar devagar e as palavras saírem mais soltas do que deveriam. Giuseppe tocava violão perto da fogueira improvisada, os dedos grossos deslizando nas cordas com a mesma habilidade que usava nas videiras. Eu reconheci a melodia imediatamente. Clarke ouvia aquela música quase todas as noites na villa. Às vezes cantarolava baixo enquanto preparava café. Eu tentei acompanhar. A melodia eu sabia. A letra em italiano… não tanto. Errava as palavras. Trocava sílabas. Inventava finais. A cada erro os funcionários caíam na gargalhada e me corrigiam em coro. Alguns só falavam italiano. Outros eram bilíngues, graças à insistência de Clarke em que todos pudessem se virar com compradores estrangeiros. Eu aprendia rápido, mesmo bêbada. Repetia a frase certa, errava de novo na seguinte, e todo mundo ria mais. Eu também ria. Ria alto. Ria para não sentir o buraco no peito. A festa foi morrendo deva







