FAZER LOGIN— Não! — gritei, sem acreditar no que via.
O gesto do meu pai foi tão rápido que não me deu nem tempo de agir. Quando dei por mim, ele já havia picotado o documento e jogado no chão.
— Você vai procurar um emprego de verdade amanhã mesmo, Fabiane! — ele continuou. — Você não é melhor que seus irmãos e nunca será!
Ao dizer isso, ele cuspiu no chão e depois saiu dali, indo em direção à porta da rua.
Olhei para cada pedaço de papel no chão e comecei a ver tudo embaralhado. Meus olhos estavam sendo tomados pelas lágrimas ao sentir que meu sonho de mudar de vida estava agora em pedaços no chão da sala.
— Fabi, tenha calma.
Minha mãe tentava me acalmar, enquanto eu permanecia olhando para os pedaços de papel rasgados no chão, sem conseguir acreditar que tudo aquilo estava acontecendo.
— Como posso ter calma se meu pai acaba de destruir meu sonho?
— Ele não destruiu nada, Fabi. Você pode muito bem pedir para a Talita imprimir outra cópia desse papel.
— Não, eu não posso!
Meu nervosismo era tão grande que acabei gritando com a minha mãe.
— Isso aqui era um documento único, não entende? Eu não posso imprimir outra via!
Quando minha mãe percebeu realmente a gravidade da situação, seus olhos se arregalaram. Aquilo doeu na minha alma, mas eu estava nervosa demais para falar alguma coisa.
— Você pode explicar o que houve, talvez eles relevem — ela sugeriu.
— Acha mesmo que as pessoas ligam para assuntos pessoais de uma simples candidata, mãe? — gritei. — Eles não querem saber de nada. O que vai acontecer é simples: vão me descartar e entregar a vaga para outra pessoa.
Sem dizer nada, minha mãe apenas se ajoelhou e começou a catar os pedaços de papel espalhados pelo chão. Eu sabia o que ela estava sentindo. Mesmo inocente, ela carregava nos ombros a culpa pelo que acabara de acontecer.
— Me desculpe, filha, foi minha culpa.
Por mais que eu estivesse com raiva naquele momento, sabia que não podia culpá-la pelos erros do bêbado do meu pai.
— Não, não foi — falei, me sentando no chão ao lado dela e respirando fundo. — Talvez isso seja apenas um sinal de que não era para ser.
— Não fale isso, Fabi.
— Olha — toquei sua mão. — Vamos deixar isso de lado. Não tem mais jeito, simples assim.
Sem falar mais nada, apenas me levantei e fui em direção ao meu quarto. Meu peito estava apertado e naquele momento eu só tinha vontade de chorar, porém não queria fazer aquilo na frente da minha mãe.
Eu queria pensar positivo e lembrar que poderia tentar novamente no próximo ano, mas sentia seriamente que a sorte não bateria na minha porta uma segunda vez.
Aquele era o fim… Meu sonho havia se despedaçado com aquele papel.
[…]
Quando acordei pela manhã, senti um cheiro forte de perfume no quarto. Abri os olhos e vi minha irmã Viviane deitada na cama ao lado, com a maquiagem forte toda borrada. Sempre que eu olhava para ela naquela situação, meu coração apertava, mas ela era o tipo de pessoa que não gostava de escutar conselhos. Minha irmã havia escolhido um caminho completamente errado, seduzida pela promessa de dinheiro fácil, contudo, a cada dia que passava, ela se destruía um pouco mais.
Sem fazer barulho, saí do quarto e fui diretamente para a cozinha. Quando cheguei ali, vi a minha mãe concentrada em algo. Aproximei-me em silêncio para ver do que se tratava e, quando vi que ela estava colando com fita adesiva, pedaço por pedaço, o papel que meu pai havia rasgado ontem à noite, eu engoli em seco.
Sabia que ela estava se sentindo culpada pelo que aconteceu, mas não imaginava que faria tudo aquilo para tentar consertar um erro que não era seu.
Quando notou a minha presença, ela parou o que estava fazendo no mesmo instante e olhou para mim, com um sorriso cansado no rosto.
— Bom dia, Fabi.
— O que está fazendo, mãe?
— Estou dando um jeito nisso — disse, levantando o papel. — Você não pode perder essa oportunidade.
— Mãe… — tentei argumentar e dizer que não tinha jeito, mas ela não deixou.
— Você vai pelo menos tentar, está me ouvindo? — disse, séria. — Vá se arrumar para a entrevista. Não pode permitir que um papel rasgado defina você. Mostre a eles o quanto é capaz e apta para o cargo.
Eu queria dizer que não, mas havia um brilho tão intenso nos olhos da minha mãe que me fez incapaz de questioná-la. Sabia que eles não me aceitariam com aquele papel rasgado, mesmo assim, eu devia ao menos fazer aquilo pelo esforço dela.
— Tudo bem — sorri meio sem jeito.
Voltei para o quarto, peguei a roupa mais arrumada que possuía e fui para o banheiro. Tomei um banho rápido, me vesti e ajeitei o cabelo. Para alguém da minha realidade, eu estava bem arrumada. Ainda assim, tinha plena consciência de que continuava simples demais para o lugar onde iria estagiar.
Estava correndo contra o tempo. Percebendo meu desespero, minha mãe conseguiu o dinheiro para um táxi, determinada a me fazer chegar ao fórum antes que fosse tarde demais. Saí de casa, dando graças a Deus que não me deparei com o meu pai, pois sabia que ele encontraria um jeito de estragar o meu dia.
Quando cheguei ao local indicado, já havia várias pessoas esperando. Pelo jeito, eram os outros aprovados. Assim que me aproximei, senti diversos olhares se voltarem para mim. Fui analisada da cabeça aos pés sem o menor constrangimento, e não foi difícil imaginar o que estavam pensando. Minhas roupas simples me destacavam entre eles, e eu tinha a sensação de que muitos já haviam decidido que eu não pertencia àquele lugar antes mesmo de me conhecer.
Ignorando aquele pensamento, sentei-me e esperei pacientemente. Os candidatos foram chamados um a um para entrar numa sala. Cada vez que uma porta se abria, meu nervosismo aumentava um pouco mais.
Quando finalmente chegou a minha vez, aproximei-me da mesa e fui recebida por uma mulher de cara fechada. Assim que me viu, ela me analisou da cabeça aos pés. Seu olhar percorreu minhas roupas, meu cabelo e até os meus sapatos. Em seguida, balançou a cabeça discretamente em desaprovação. Foi um gesto pequeno, mas suficiente para me atingir.
Ainda assim, permaneci em silêncio.
— Seus documentos.
Entreguei tudo o que ela solicitou. Porém, no instante em que seus olhos encontraram a carta de convocação emendada com fita adesiva, sua expressão mudou completamente.
— O que é isso? — Sua voz ecoou na sala.
— Houve um pequeno incidente — respondi sem graça.
— Um pequeno incidente? — repetiu, olhando para o papel e depois para mim. — Que tipo de pessoa é você?
Senti meu rosto esquentar.
— Por favor… preciso muito dessa oportunidade.
— Se realmente precisasse, teria cuidado melhor de um documento tão importante.
Suas palavras me atingiram em cheio, porque no fundo sentia que ela tinha razão.
— Se tivesse um pouco de noção, nem apareceria aqui — revirou os olhos. — Mas… não sou eu quem decide quem fica ou quem vai embora. Quem decidirá isso será o juiz Dante Alencar.
Um pequeno alívio percorreu meu peito.
— Obrigada.
— Não me agradeça. Não estou lhe fazendo favor algum. — Ela devolveu meus documentos. — Pelo que conheço do magistrado, você vai sair daquela sala escorraçada mais rápido do que entrou — disse, abrindo um sorriso sarcástico.
Dante AlencarAquela tinha tudo para ser uma das melhores noites da minha vida; eu tinha plena certeza disso. Não apenas por finalmente ter colocado um ponto final no que existia entre mim e Juliana, mas porque Fabiane acreditou em mim. Depois de tudo que contei, de mostrar a ela uma parte da minha vida que eu fazia questão de esconder de todo mundo, ainda assim ela escolheu confiar na minha palavra.E depois havia acontecido aquilo entre nós.Fabiane tinha finalmente parado de fugir do que existia entre a gente e cedido à atração que eu sabia que sentia por mim. Mas, diferente do que imaginei tantas vezes, não havia sido apenas desejo. Pelo menos não para mim. Era a primeira vez em muito tempo que eu não estava pensando apenas em levar uma mulher para a cama; eu queria ter o prazer de acordar e vê-la ao meu lado. Queria aquela noite, queria o dia seguinte e, por mais estranho que fosse admitir, queria descobrir o que aconteceria entre nós dia após dia.Só não esperava que, justamente
Ele se aproximou e me segurou pela cintura.— Confie em mim — pediu, enquanto me puxava devagar para a parte mais funda da piscina.Eu não sabia se confiar nele era realmente o certo, principalmente depois de tudo que havia acontecido naquela noite, mas, naquele momento, pelo menos uma coisa eu sabia: eu queria estar ali.Não esperava dele palavras românticas, muito menos promessas de amor. Sabia muito bem como ele era, conhecia sua fama e também sabia o quanto a nossa situação era complicada. Mas talvez eu não precisasse pensar tanto no que aconteceria depois. Talvez pudesse simplesmente parar de tentar encontrar uma explicação para tudo e aceitar o que estava sentindo.Eu queria aquele homem. Queria seus beijos, queria continuar sentindo aquela sensação estranha que surgia toda vez que ele me olhava daquele jeito e, principalmente, queria descobrir até onde aquilo entre nós poderia chegar.Já havia namorado alguns rapazes quando era mais nova, mas com nenhum deles senti o que estava
Me abaixei rapidamente para tentar pegar a toalha, mas Dante me surpreendeu ao segurar minha cintura e me levantar antes que eu conseguisse alcançá-la. Meu coração disparou com a atitude e, quando voltei a ficar de pé, fiquei ainda mais nervosa ao perceber o quanto estávamos próximos.— Dante… — falei, completamente sem jeito.Ele continuou me segurando pela cintura.— Você é linda, Fabi — disse baixo. — Tudo em você é lindo.Sem esperar por uma resposta minha, me ergueu pela cintura. Por puro reflexo, passei as pernas ao redor de seu corpo e, no instante seguinte, senti minhas costas encostarem na parede. Meu coração disparou ainda mais quando nossos olhos se encontraram novamente.— Não há uma noite em que eu não pense em você — confessou, mantendo o rosto próximo ao meu. — Não importa com quem eu esteja ou o quanto tente ocupar minha cabeça com outras coisas. No final, é sempre você que aparece nos meus pensamentos.Fiquei sem reação. — Você não faz ideia do quanto tentei ignorar
— Fabiane… — murmurou.Dessa vez, foi o rosto dele que ficou vermelho. Ele desviou os olhos por um instante e pareceu realmente constrangido. Com certeza estava com vergonha do que havia feito.— O que você colocou na minha água, hein? — questionei, já sentindo o nervosismo tomar conta de mim novamente.— Não é o que você está pensando — rebateu rapidamente.— O que estou pensando? — Minha voz saiu mais alterada do que eu pretendia. — Dante, eu não estou falando do que penso. Estou falando do que vi. Você colocou alguma coisa na minha água e, quando saí do banho, fez questão de se certificar de que eu bebesse aquilo.Ele abriu a boca para responder, mas eu não deixei.— Você tem ideia do que senti naquele momento? Eu fiquei com medo de você. — Só de admitir aquilo, minha garganta secou. — Eu não sabia o que havia colocado ali e muito menos o que pretendia fazer depois que eu apagasse. Dessa vez, ele não tentou se defender imediatamente. Apenas ficou me olhando, e a vergonha estampada
Fabiane Alvarez Eu não sei exatamente o que aconteceu comigo, mas, depois que fingi beber aquela água e percebi que Dante estava mesmo tentando me dopar, perdi ainda mais a admiração que começava a sentir por ele. Porque, sinceramente, nós não tínhamos nada. Eu não tinha nada a ver com a vida dele. Se quisesse sair daquele quarto no meio da madrugada e se meter em qualquer problema, aquilo não era problema meu. Então, por que precisava que eu dormisse? Por que era tão importante que eu não o visse sair do quarto?Seja lá o que pretendesse fazer, não precisava fazer nada comigo. Bastava dizer que precisava sair e pedir que eu ficasse no quarto. Não era tão simples? Mesmo que inventasse qualquer desculpa, eu provavelmente nem questionaria. Mas não. Ele simplesmente escolheu fazer uma coisa horrível. Colocou alguma coisa na minha água escondido, fez questão de que eu bebesse e depois esperou até acreditar que eu estava dormindo para sair.Só de pensar naquilo, meu corpo tremia de nervos
Vi o quanto ela ficou nervosa com aquela situação, ainda mais pelo lugar onde estávamos. Seu olhar desviou do meu por alguns segundos e suas mãos apertaram a toalha ao redor do corpo, como se só naquele momento tivesse se lembrado de que estava praticamente sem roupa diante de mim.— Acho melhor sairmos daqui.— Não — respondi rapidamente.Ela me olhou, surpresa com a minha resposta.— Por quê?— Porque, se sairmos agora, essa conversa vai acabar ficando para depois. E eu não quero mais adiar isso.Seus dedos apertaram ainda mais a toalha ao redor do corpo.— Sinceramente, não precisa me explicar nada. Você é dono da sua vida e faz o que bem quer com ela.— Sim, eu sei, mas eu não queria estar em uma situação como a que viu quando chegou aqui — rebati rapidamente. — Juro para você.Ela ficou em silêncio, apenas me encarando, e eu sabia que provavelmente não acreditaria em mim. Afinal, o que havia visto? Eu sozinho em uma sauna, no meio da madrugada, com a esposa do meu amigo completame







