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2: SONHOS DESPEDAÇADOS

last update publish date: 2026-07-07 08:21:20

— Não! — gritei, sem acreditar no que via.

O gesto do meu pai foi tão rápido que não me deu nem tempo de agir. Quando dei por mim, ele já havia picotado o documento e jogado no chão.

— Você vai procurar um emprego de verdade amanhã mesmo, Fabiane! — ele continuou. — Você não é melhor que seus irmãos e nunca será!

Ao dizer isso, ele cuspiu no chão e depois saiu dali, indo em direção à porta da rua.

Olhei para cada pedaço de papel no chão e comecei a ver tudo embaralhado. Meus olhos estavam sendo tomados pelas lágrimas ao sentir que meu sonho de mudar de vida estava agora em pedaços no chão da sala.

— Fabi, tenha calma.

Minha mãe tentava me acalmar, enquanto eu permanecia olhando para os pedaços de papel rasgados no chão, sem conseguir acreditar que tudo aquilo estava acontecendo.

— Como posso ter calma se meu pai acaba de destruir meu sonho?

— Ele não destruiu nada, Fabi. Você pode muito bem pedir para a Talita imprimir outra cópia desse papel.

— Não, eu não posso!

Meu nervosismo era tão grande que acabei gritando com a minha mãe.

— Isso aqui era um documento único, não entende? Eu não posso imprimir outra via!

Quando minha mãe percebeu realmente a gravidade da situação, seus olhos se arregalaram. Aquilo doeu na minha alma, mas eu estava nervosa demais para falar alguma coisa.

— Você pode explicar o que houve, talvez eles relevem — ela sugeriu.

— Acha mesmo que as pessoas ligam para assuntos pessoais de uma simples candidata, mãe? — gritei. — Eles não querem saber de nada. O que vai acontecer é simples: vão me descartar e entregar a vaga para outra pessoa.

Sem dizer nada, minha mãe apenas se ajoelhou e começou a catar os pedaços de papel espalhados pelo chão. Eu sabia o que ela estava sentindo. Mesmo inocente, ela carregava nos ombros a culpa pelo que acabara de acontecer.

— Me desculpe, filha, foi minha culpa.

Por mais que eu estivesse com raiva naquele momento, sabia que não podia culpá-la pelos erros do bêbado do meu pai.

— Não, não foi — falei, me sentando no chão ao lado dela e respirando fundo. — Talvez isso seja apenas um sinal de que não era para ser.

— Não fale isso, Fabi.

— Olha — toquei sua mão. — Vamos deixar isso de lado. Não tem mais jeito, simples assim.

Sem falar mais nada, apenas me levantei e fui em direção ao meu quarto. Meu peito estava apertado e naquele momento eu só tinha vontade de chorar, porém não queria fazer aquilo na frente da minha mãe.

Eu queria pensar positivo e lembrar que poderia tentar novamente no próximo ano, mas sentia seriamente que a sorte não bateria na minha porta uma segunda vez.

Aquele era o fim… Meu sonho havia se despedaçado com aquele papel.

[…]

Quando acordei pela manhã, senti um cheiro forte de perfume no quarto. Abri os olhos e vi minha irmã Viviane deitada na cama ao lado, com a maquiagem forte toda borrada. Sempre que eu olhava para ela naquela situação, meu coração apertava, mas ela era o tipo de pessoa que não gostava de escutar conselhos. Minha irmã havia escolhido um caminho completamente errado, seduzida pela promessa de dinheiro fácil, contudo, a cada dia que passava, ela se destruía um pouco mais.

Sem fazer barulho, saí do quarto e fui diretamente para a cozinha. Quando cheguei ali, vi a minha mãe concentrada em algo. Aproximei-me em silêncio para ver do que se tratava e, quando vi que ela estava colando com fita adesiva, pedaço por pedaço, o papel que meu pai havia rasgado ontem à noite, eu engoli em seco.

Sabia que ela estava se sentindo culpada pelo que aconteceu, mas não imaginava que faria tudo aquilo para tentar consertar um erro que não era seu.

Quando notou a minha presença, ela parou o que estava fazendo no mesmo instante e olhou para mim, com um sorriso cansado no rosto.

— Bom dia, Fabi.

— O que está fazendo, mãe?

— Estou dando um jeito nisso — disse, levantando o papel. — Você não pode perder essa oportunidade.

— Mãe… — tentei argumentar e dizer que não tinha jeito, mas ela não deixou.

— Você vai pelo menos tentar, está me ouvindo? — disse, séria. — Vá se arrumar para a entrevista. Não pode permitir que um papel rasgado defina você. Mostre a eles o quanto é capaz e apta para o cargo.

Eu queria dizer que não, mas havia um brilho tão intenso nos olhos da minha mãe que me fez incapaz de questioná-la. Sabia que eles não me aceitariam com aquele papel rasgado, mesmo assim, eu devia ao menos fazer aquilo pelo esforço dela.

— Tudo bem — sorri meio sem jeito.

Voltei para o quarto, peguei a roupa mais arrumada que possuía e fui para o banheiro. Tomei um banho rápido, me vesti e ajeitei o cabelo. Para alguém da minha realidade, eu estava bem arrumada. Ainda assim, tinha plena consciência de que continuava simples demais para o lugar onde iria estagiar.

Estava correndo contra o tempo. Percebendo meu desespero, minha mãe conseguiu o dinheiro para um táxi, determinada a me fazer chegar ao fórum antes que fosse tarde demais. Saí de casa, dando graças a Deus que não me deparei com o meu pai, pois sabia que ele encontraria um jeito de estragar o meu dia.

Quando cheguei ao local indicado, já havia várias pessoas esperando. Pelo jeito, eram os outros aprovados. Assim que me aproximei, senti diversos olhares se voltarem para mim. Fui analisada da cabeça aos pés sem o menor constrangimento, e não foi difícil imaginar o que estavam pensando. Minhas roupas simples me destacavam entre eles, e eu tinha a sensação de que muitos já haviam decidido que eu não pertencia àquele lugar antes mesmo de me conhecer.

Ignorando aquele pensamento, sentei-me e esperei pacientemente. Os candidatos foram chamados um a um para entrar numa sala. Cada vez que uma porta se abria, meu nervosismo aumentava um pouco mais.

Quando finalmente chegou a minha vez, aproximei-me da mesa e fui recebida por uma mulher de cara fechada. Assim que me viu, ela me analisou da cabeça aos pés. Seu olhar percorreu minhas roupas, meu cabelo e até os meus sapatos. Em seguida, balançou a cabeça discretamente em desaprovação. Foi um gesto pequeno, mas suficiente para me atingir.

Ainda assim, permaneci em silêncio.

— Seus documentos.

Entreguei tudo o que ela solicitou. Porém, no instante em que seus olhos encontraram a carta de convocação emendada com fita adesiva, sua expressão mudou completamente.

— O que é isso? — Sua voz ecoou na sala.

— Houve um pequeno incidente — respondi sem graça.

— Um pequeno incidente? — repetiu, olhando para o papel e depois para mim. — Que tipo de pessoa é você?

Senti meu rosto esquentar.

— Por favor… preciso muito dessa oportunidade.

— Se realmente precisasse, teria cuidado melhor de um documento tão importante.

Suas palavras me atingiram em cheio, porque no fundo sentia que ela tinha razão.

— Se tivesse um pouco de noção, nem apareceria aqui — revirou os olhos. — Mas… não sou eu quem decide quem fica ou quem vai embora. Quem decidirá isso será o juiz Dante Alencar.

Um pequeno alívio percorreu meu peito.

— Obrigada.

— Não me agradeça. Não estou lhe fazendo favor algum. — Ela devolveu meus documentos. — Pelo que conheço do magistrado, você vai sair daquela sala escorraçada mais rápido do que entrou — disse, abrindo um sorriso sarcástico. 

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