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Fabiane Alvarez
Meus dedos doíam a ponto de ficarem roxos, de tanto que eu os mantinha entrelaçados em cima do balcão de atendimento do fórum. Meus olhos mal piscavam, enquanto eu via a atendente imprimir o papel que mudaria a minha vida.
Havia conseguido passar na lista de aprovados para estagiar no gabinete de um juiz.
Ao terminar de autenticar a emissão da carta de convocação, a atendente olhou mais uma vez para o papel e comentou.
— Minha nossa. Você vai estagiar no gabinete do juiz Dante Alencar — arqueou as sobrancelhas, com o olhar surpreso. — Vai precisar de sorte.
Estranhei o comentário.
— Como assim?
— O magistrado é conhecido por ser muito exigente com a sua equipe, que é bem profissional. Imagino como ele a tratará por ser apenas uma estagiária inexperiente.
De repente, me veio um frio na barriga e minhas mãos começaram a suar.
— Calma, Fabi. Você vai se sair muito bem, porque você é ótima em aprender as coisas com facilidade. — A voz da minha melhor amiga Talita veio atrás de mim, tentando me tranquilizar.
Ela havia me acompanhado até ali, porque percebeu que eu estava nervosa demais para ficar sozinha num momento tão importante quanto aquele. Mas não adiantou de nada, na verdade eu nem virei o rosto. O nervosismo já havia me pegado por dentro, porque eu sabia que não podia errar.
Não queria acabar como a minha família, sem nenhuma perspectiva de vida. Meu pai era alcoólatra, que chegava em casa quebrando tudo. Meu irmão mais novo era viciado em drogas e devia ao bairro todo, e minha irmã mais velha, que além de criar um filho sem saber quem era o pai, também era dançarina em uma casa noturna.
Com esse currículo familiar, era quase de se admirar que eu ainda quisesse alguma coisa decente para a minha vida. Mas queria! Queria com uma força que às vezes me assustava. Acho que puxei à minha mãe, que mesmo com toda a dureza da vida, nunca perdeu a dignidade.
Eu queria quebrar o ciclo na minha família e sabia que o primeiro passo era conseguir aquele estágio.
— Aqui está.
A atendente estendeu o papel para que eu pegasse, mas antes que minha mão alcançasse o documento, ela o puxou de volta.
— Antes de entregar isso, preciso que saiba de uma coisa.
A mulher colocou o papel em cima do balcão e começou a falar:
— Este é um documento único e autenticado. Se você perdê-lo, perde automaticamente a vaga.
— Não posso fazer uma cópia? — perguntei, aflita.
Ela negou com a cabeça.
— Não. Eles só aceitam o documento original, então, mocinha, trate de cuidar desse papel como se fosse a sua própria vida.
O modo como ela me chamou de “mocinha” me fez perceber um desdém em sua voz, como se estivesse me subestimando, no entanto, ignorei e assenti, pegando o documento.
— Não se preocupe, irei cuidar muito bem disso. Obrigada!
Guardei o papel na bolsa e saí dali com Talita.
— Você quer ir lá para casa? A Daniela fez torta para a sobremesa. — Talita comentou.
Eu queria negar e dizer que não, mas havia uma coisa que separava o meu mundo do de Talita. Ela era filha de uma médica e um delegado da Polícia Federal. Cresceu com quarto próprio, viagens nas férias, empregados e a certeza tranquila de que o futuro estava garantido.
Quando me convidava para sua casa, sempre havia uma fartura de comida, o que na minha casa era bem escasso. Por isso, eu sempre ia. Comia e aproveitava um pouco da paz que tinha lá, já que sabia que, quando chegasse em casa, a minha realidade seria bem diferente da dela.
— Você sabe que não resisto às comidas que a sua funcionária faz.
Saímos dali em direção ao carro dela, presente dos pais quando ela completou dezoito anos.
Quando cheguei à casa dela, o pai dela estava lá. Ele era muito educado e me tratava muito bem. No fundo, eu tinha um pouco de inveja da Talita. Não uma inveja maldosa, e sim a admiração de perceber que parecia que ela tinha tudo: pais amorosos, uma família estabilizada, casa confortável num bairro nobre…
Enquanto eu…
Eu não tinha quase nada.
Fiquei lá até a noite. Quando saí, garanti que iria pegar um táxi no ponto que ficava uma rua após a casa dela. Ela insistiu em ir comigo, mas dei a desculpa de que já estava tarde para ela voltar sozinha. Fiquei feliz que ela não insistiu, na verdade, eu iria para casa a pé, pois não tinha nem um centavo para pagar um táxi.
Quando cheguei em casa, era quase meia-noite.
Entrei sem tentar fazer nenhum barulho, mas encontrei minha mãe na sala, sentada no sofá velho com a cabeça baixa.
— Mãe, aconteceu alguma coisa?
Ela levantou o olhar e me encarou aliviada.
— Que bom que chegou, Fabi. Estava preocupada com você.
— Eu estava na casa da Talita.
— Até esse horário?
— É que ela me convidou para o jantar — expliquei, sentando ao lado dela.
— E aí, como foi no fórum? Deu certo, minha filha?
Sem dizer nada, apenas abri a bolsa e dei o papel para ela ler.
Vi os olhos da minha mãe ganhando brilho ao ver que fui aprovada.
— Você conseguiu, filha.
— Sim, mãe. Mas agora estou nervosa — revelei. — Eu não faço ideia de como vai ser.
— Vai dar certo, Fabi. Você é muito inteligente.
— O que é isso?
A voz embriagada do meu pai tomou conta da sala. Ele apareceu na porta do quarto que dava para a sala e nos encarou.
Minha mãe se retraiu um pouco, mas respondeu.
— A nossa filha irá fazer um estágio no fórum, Inácio.
— Um estágio? — Ele se aproximou, olhando para o papel que estava nas mãos dela. — E isso vai trazer algum dinheiro para a nossa casa? — perguntou ríspido.
— Se eu me sair bem, posso ser efetivada, pai…
— Quanta falação — ele me interrompeu. — Todo mundo dá um duro para trazer dinheiro para casa e você é a única que não se esforça! — gritou. — Você fica se achando melhor do que seus irmãos só porque faz faculdade, não é? — Se aproximou mais, colocando o dedo na minha cara. — Mas para mim, já deu! Você vai parar com esse negócio de estágio e vai procurar um emprego de verdade!
Sem falar mais nada, meu pai puxou o papel da mão da minha mãe e o rasgou bem na minha frente.
Dante AlencarAquela tinha tudo para ser uma das melhores noites da minha vida; eu tinha plena certeza disso. Não apenas por finalmente ter colocado um ponto final no que existia entre mim e Juliana, mas porque Fabiane acreditou em mim. Depois de tudo que contei, de mostrar a ela uma parte da minha vida que eu fazia questão de esconder de todo mundo, ainda assim ela escolheu confiar na minha palavra.E depois havia acontecido aquilo entre nós.Fabiane tinha finalmente parado de fugir do que existia entre a gente e cedido à atração que eu sabia que sentia por mim. Mas, diferente do que imaginei tantas vezes, não havia sido apenas desejo. Pelo menos não para mim. Era a primeira vez em muito tempo que eu não estava pensando apenas em levar uma mulher para a cama; eu queria ter o prazer de acordar e vê-la ao meu lado. Queria aquela noite, queria o dia seguinte e, por mais estranho que fosse admitir, queria descobrir o que aconteceria entre nós dia após dia.Só não esperava que, justamente
Ele se aproximou e me segurou pela cintura.— Confie em mim — pediu, enquanto me puxava devagar para a parte mais funda da piscina.Eu não sabia se confiar nele era realmente o certo, principalmente depois de tudo que havia acontecido naquela noite, mas, naquele momento, pelo menos uma coisa eu sabia: eu queria estar ali.Não esperava dele palavras românticas, muito menos promessas de amor. Sabia muito bem como ele era, conhecia sua fama e também sabia o quanto a nossa situação era complicada. Mas talvez eu não precisasse pensar tanto no que aconteceria depois. Talvez pudesse simplesmente parar de tentar encontrar uma explicação para tudo e aceitar o que estava sentindo.Eu queria aquele homem. Queria seus beijos, queria continuar sentindo aquela sensação estranha que surgia toda vez que ele me olhava daquele jeito e, principalmente, queria descobrir até onde aquilo entre nós poderia chegar.Já havia namorado alguns rapazes quando era mais nova, mas com nenhum deles senti o que estava
Me abaixei rapidamente para tentar pegar a toalha, mas Dante me surpreendeu ao segurar minha cintura e me levantar antes que eu conseguisse alcançá-la. Meu coração disparou com a atitude e, quando voltei a ficar de pé, fiquei ainda mais nervosa ao perceber o quanto estávamos próximos.— Dante… — falei, completamente sem jeito.Ele continuou me segurando pela cintura.— Você é linda, Fabi — disse baixo. — Tudo em você é lindo.Sem esperar por uma resposta minha, me ergueu pela cintura. Por puro reflexo, passei as pernas ao redor de seu corpo e, no instante seguinte, senti minhas costas encostarem na parede. Meu coração disparou ainda mais quando nossos olhos se encontraram novamente.— Não há uma noite em que eu não pense em você — confessou, mantendo o rosto próximo ao meu. — Não importa com quem eu esteja ou o quanto tente ocupar minha cabeça com outras coisas. No final, é sempre você que aparece nos meus pensamentos.Fiquei sem reação. — Você não faz ideia do quanto tentei ignorar
— Fabiane… — murmurou.Dessa vez, foi o rosto dele que ficou vermelho. Ele desviou os olhos por um instante e pareceu realmente constrangido. Com certeza estava com vergonha do que havia feito.— O que você colocou na minha água, hein? — questionei, já sentindo o nervosismo tomar conta de mim novamente.— Não é o que você está pensando — rebateu rapidamente.— O que estou pensando? — Minha voz saiu mais alterada do que eu pretendia. — Dante, eu não estou falando do que penso. Estou falando do que vi. Você colocou alguma coisa na minha água e, quando saí do banho, fez questão de se certificar de que eu bebesse aquilo.Ele abriu a boca para responder, mas eu não deixei.— Você tem ideia do que senti naquele momento? Eu fiquei com medo de você. — Só de admitir aquilo, minha garganta secou. — Eu não sabia o que havia colocado ali e muito menos o que pretendia fazer depois que eu apagasse. Dessa vez, ele não tentou se defender imediatamente. Apenas ficou me olhando, e a vergonha estampada
Fabiane Alvarez Eu não sei exatamente o que aconteceu comigo, mas, depois que fingi beber aquela água e percebi que Dante estava mesmo tentando me dopar, perdi ainda mais a admiração que começava a sentir por ele. Porque, sinceramente, nós não tínhamos nada. Eu não tinha nada a ver com a vida dele. Se quisesse sair daquele quarto no meio da madrugada e se meter em qualquer problema, aquilo não era problema meu. Então, por que precisava que eu dormisse? Por que era tão importante que eu não o visse sair do quarto?Seja lá o que pretendesse fazer, não precisava fazer nada comigo. Bastava dizer que precisava sair e pedir que eu ficasse no quarto. Não era tão simples? Mesmo que inventasse qualquer desculpa, eu provavelmente nem questionaria. Mas não. Ele simplesmente escolheu fazer uma coisa horrível. Colocou alguma coisa na minha água escondido, fez questão de que eu bebesse e depois esperou até acreditar que eu estava dormindo para sair.Só de pensar naquilo, meu corpo tremia de nervos
Vi o quanto ela ficou nervosa com aquela situação, ainda mais pelo lugar onde estávamos. Seu olhar desviou do meu por alguns segundos e suas mãos apertaram a toalha ao redor do corpo, como se só naquele momento tivesse se lembrado de que estava praticamente sem roupa diante de mim.— Acho melhor sairmos daqui.— Não — respondi rapidamente.Ela me olhou, surpresa com a minha resposta.— Por quê?— Porque, se sairmos agora, essa conversa vai acabar ficando para depois. E eu não quero mais adiar isso.Seus dedos apertaram ainda mais a toalha ao redor do corpo.— Sinceramente, não precisa me explicar nada. Você é dono da sua vida e faz o que bem quer com ela.— Sim, eu sei, mas eu não queria estar em uma situação como a que viu quando chegou aqui — rebati rapidamente. — Juro para você.Ela ficou em silêncio, apenas me encarando, e eu sabia que provavelmente não acreditaria em mim. Afinal, o que havia visto? Eu sozinho em uma sauna, no meio da madrugada, com a esposa do meu amigo completame







