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A ESTRADA DEBAIXO DE CHUVA

ผู้เขียน: Sofie Márquez
last update วันที่เผยแพร่: 2026-07-02 08:18:17

A chuva começou a cair sobre a Fazenda Santa Aurora pouco depois das dez da noite, primeiro fina, quase tímida, depois pesada, violenta, batendo contra as telhas antigas da casa grande como se quisesse arrancar o passado de dentro das paredes. 

O vento sacudia as árvores altas que cercavam o casarão, fazia ranger as janelas fechadas e espalhava pelo ar o cheiro frio de terra encharcada, capim molhado e madeira antiga. 

Dentro do escritório, Raul Fontes de Alvarenga permanecia sentado diante de uma mesa coberta por papéis que ele fingia ler havia mais de meia hora, mas seus olhos não conseguiam acompanhar uma única linha. 

A casa estava silenciosa demais, e aquele silêncio sempre o incomodava quando Amélia ainda não havia voltado.

 Ele já conhecia aquele tipo de noite. 

Conhecia o atraso, as desculpas, os sorrisos tortos dos empregados ao tentarem fingir que não sabiam, o olhar preocupado de Rosa quando servia café, e principalmente conhecia a sensação amarga de esperar por uma esposa que ele nunca conseguiu amar como deveria.

O telefone tocou de repente, cortando o silêncio com uma violência que fez Raul erguer o rosto. 

Por um segundo, ele ficou imóvel, como se seu corpo já soubesse antes da mente que aquela ligação carregava problema. O aparelho vibrou sobre a mesa escura, iluminando o nome de Sávio, seu amigo de infância e dono do pub mais frequentado da cidade. 

Raul fechou os olhos, inspirou devagar e atendeu sem dizer nada nos primeiros segundos, ouvindo apenas o barulho abafado de música, vozes e chuva do outro lado da linha. O maxilar dele se apertou antes mesmo que Sávio falasse.

— Raul... 

A voz do amigo veio baixa, constrangida, carregada de cuidado. 

— Desculpa te ligar essa hora, mas achei melhor avisar antes que a coisa ficasse mais feia. A Amélia tá aqui. Bebeu demais. Tá discutindo com todo mundo, derrubou uma taça, quase caiu perto do balcão. Eu tentei convencer ela a esperar num canto, mas cê conhece o gênio dela. Ela tá dizendo que vai embora dirigindo.

Raul passou a mão pelo rosto, sentindo o peso daquela rotina esmagar seus ombros. Do outro lado da porta, em algum ponto distante da casa, ouviu o riso baixo de Clara adormecida talvez se mexendo no quarto, ou apenas a memória daquele riso perseguindo sua culpa. 

Clara tinha seis anos e já sabia distinguir o som dos passos do pai quando ele estava preocupado. Sabia demais para uma criança. Sentia demais. 

E Raul odiava Amélia por isso em alguns momentos, depois odiava a si mesmo por não conseguir protegê-la melhor daquela vida torta que todos fingiam ser casamento.

— Ela tá muito alterada? Perguntou, a voz controlada demais para parecer natural.

— Tá embrulhada, Raul. Daquelas de mal parar em pé. Eu não queria me meter, mas se ela pegar a estrada com essa chuva, vai dar ruim. 

—E tem mais... 

—Ela tá falando coisa que não devia. Falando alto. Citou seu nome, citou a fazenda, citou... 

 Sávio hesitou.

Raul abriu os olhos.

— Citou quem?

O silêncio de Sávio respondeu antes das palavras.

— Mariana.

O nome entrou no peito de Raul como uma lâmina antiga, daquelas que a gente acha que já enferrujaram, mas ainda cortam fundo quando encostam na carne. Mariana Valença. A filha de Bento e Rosa. 

A menina que um dia corria descalça pelos arredores da cozinha, com os cabelos presos de qualquer jeito e os olhos cheios de uma coragem que ele nunca teve.

 A mulher que ele havia amado antes de ser empurrado para um casamento que uniu terras e destruiu vidas. 

Raul ficou de pé devagar, a cadeira arranhando o assoalho, e caminhou até a janela. Lá fora, a chuva transformava a escuridão em uma cortina prateada.

— Segura ela aí. Eu tô indo.

— Raul, vem com calma. A estrada tá um sabão.

— Eu sei.

Ele desligou antes que Sávio dissesse mais alguma coisa. 

Por alguns segundos, permaneceu parado no escritório, sentindo o coração bater pesado, não de medo, mas de cansaço. 

Cansaço daquele casamento. 

Cansaço dos escândalos. 

Cansaço de ser punido todos os dias por ter amado a pessoa errada aos olhos da família. 

Quando saiu para o corredor, encontrou Rosa perto da cozinha, enxugando as mãos no avental, os olhos pequenos e preocupados acompanhando cada movimento dele. 

A luz amarelada do fogão à lenha escapava pela porta entreaberta, trazendo cheiro de café velho e bolo de fubá guardado.

— Seu Raul... vai sair nessa tormenta?  Ela perguntou, com aquela voz interiorana cheia de cuidado e medo.

 — A estrada pro povoado tá perigosa demais. Chuva dessa num presta pra ninguém botar roda no barro.

Raul parou por um instante, e a culpa atravessou seu rosto antes que ele conseguisse escondê-la.

— Preciso buscar Amélia.

Rosa abaixou os olhos por um segundo, sem julgamento aberto, mas com uma tristeza funda demais para ser disfarçada.

— Deus acompanhe o senhor, então. E vá manso. Tem criança dormindo nessa casa que precisa muito do pai.

A frase o atingiu com mais força do que qualquer acusação. Raul assentiu, incapaz de responder, pegou a chave do carro e atravessou a varanda larga enquanto a chuva o recebia como uma condenação. 

O vento gelado entrou por baixo do casaco, colando a camisa ao corpo. O chão de pedra estava escorregadio, refletindo as luzes fracas da casa grande. 

Ao longe, os estábulos surgiam como sombras compridas, e por um momento Raul ouviu Relâmpago relinchar, inquieto, como se o cavalo pressentisse alguma coisa que os homens ainda não conseguiam nomear.

A estrada até a cidade parecia mais longa naquela noite. Os faróis cortavam a chuva em feixes brancos, revelando apenas pedaços da pista, curvas alagadas, árvores se inclinando sob o vento e trechos de barro que escorriam para o asfalto como feridas abertas na terra. 

Raul dirigia com as duas mãos firmes no volante, o corpo tenso, a respiração pesada. Em sua mente, vozes antigas se misturavam à tempestade: 

A do pai ordenando que ele se casasse com Amélia, a de Mariana perguntando, com olhos marejados, se ele havia aceitado, a de Clara chamando por ele no meio da noite, a de Amélia rindo com desprezo quando percebia que nunca conseguiria ocupar o lugar de uma mulher ausente.

Quando chegou ao pub, encontrou o estacionamento quase vazio, tomado por poças enormes e luzes vermelhas refletidas no chão. 

A música vazava pelas janelas embaçadas, abafada pelo barulho da chuva. Raul entrou e imediatamente sentiu o cheiro de bebida, cigarro antigo impregnado na madeira e perfume caro demais misturado ao suor de uma noite que já havia passado do limite. 

Sávio estava atrás do balcão, olhando para ele com alívio e vergonha. Em uma mesa próxima à janela, Amélia ria alto, os cabelos loiros úmidos caindo sobre o rosto, um copo quase vazio entre os dedos e os olhos brilhando de uma fúria que não vinha apenas do álcool.

— Veio me buscar como se eu fosse uma égua fugida, Raul? Ela perguntou, arrastando as palavras, mas ainda assim ferina. 

— Que bonito. O grande fazendeiro salvando a esposa inconveniente.

Raul se aproximou devagar, tentando manter a voz baixa.

— Vamos embora, Amélia. A Clara tá em casa. Já chega por hoje.

Ela bateu o copo na mesa, fazendo o vidro vibrar.

— Não use minha filha pra me controlar. Você não liga pra mim, mas sempre usa a Clara pra parecer decente.

Algumas pessoas fingiram não ouvir. Outras nem tentaram disfarçar. Raul sentiu a nuca endurecer, mas segurou a raiva. Aproximou-se mais e estendeu a mão.

— Eu não vou discutir aqui. Levanta. Eu te levo pra casa.

Amélia olhou para a mão dele como se fosse uma ofensa. Depois sorriu com uma crueldade triste.

— Casa? Aquilo nunca foi minha casa. Aquilo é um mausoléu cheio de empregados que ainda suspiram pela santinha da Mariana Valença. Até a cozinheira olha pra mim como se eu tivesse roubado alguma coisa.

Raul enrijeceu.

— Não fala da Rosa.

— Ah, pronto. A cozinheira também é sagrada? Igual à filha dela?

— Amélia.

O nome saiu como aviso. 

Mas ela já havia passado do ponto em que avisos alcançavam qualquer lugar dentro dela. Levantou-se num movimento brusco, cambaleou, recusou a ajuda de Sávio e caminhou até a porta com a dignidade quebrada de quem preferia cair a admitir fragilidade.

 Raul a seguiu, sentindo o olhar de todos nas costas. Do lado de fora, a chuva os engoliu imediatamente.

— Eu dirijo Ela disse, estendendo a mão para a chave.

— Você mal consegue andar.

— Eu disse que eu dirijo!

— Não.

Amélia riu, mas havia lágrimas presas em seus olhos.

— Você gosta de dizer não pra mim, não gosta? Pena que não teve coragem de dizer não quando mandaram você casar comigo. Pena que não teve coragem de dizer sim pra ela.

Raul abriu a porta do passageiro.

— Entra no carro.

— Covarde.

Ele fechou os olhos por um instante. O peito subia e descia com força.

— Entra no carro, Amélia. Por favor. Vamos acabar com isso em casa.

Talvez tenha sido o “por favor”. Talvez tenha sido o cansaço. Talvez tenha sido o desejo desesperado de evitar mais um espetáculo. 

Amélia entrou, batendo a porta com violência. 

Raul contornou o carro, sentou-se ao volante e deu partida. Nenhum dos dois falou nos primeiros minutos. Apenas os limpadores raspavam o vidro em ritmo desesperado, tentando abrir caminho através da chuva. Mas o silêncio entre eles nunca durava. 

Era sempre uma pausa antes da próxima explosão.

— Você ainda pensa nela?  Amélia perguntou, olhando para a escuridão da estrada.

Raul manteve os olhos fixos à frente.

— Não começa.

— Responde.

— Não é hora.

— É sempre hora de falar da morta-viva que mora dentro do meu casamento.

— Mariana foi embora há anos.

— Mas nunca saiu de você.

A mão dele apertou o volante.

— Você está bêbada.

— E você é um mentiroso.

Raul respirou fundo, tentando se lembrar de Clara, da casa, da necessidade de chegar vivo, inteiro, calado.

 Mas Amélia virou o rosto para ele com uma dor tão crua que, por um segundo, a raiva dele vacilou. Ela não era apenas fútil, não era apenas cruel, não era apenas uma mulher perdida na bebida. 

Era também alguém quebrada por ter entrado em uma história onde nunca houve espaço para ela.

— Eu tentei, Raul Ela disse, a voz mais baixa, mais perigosa. 

— Eu tentei ser bonita o suficiente, elegante o suficiente, mãe o suficiente, esposa o suficiente. Mas você olhava através de mim. Como se eu fosse uma parede. Como se eu fosse um contrato com um vestido de noiva.

Ele engoliu em seco.

— Eu nunca quis te humilhar.

— Mas humilhou. Todos os dias. Com seu silêncio. Com essa sua decência fria. Com esse jeito de dormir do meu lado como se estivesse de luto.

A curva do açude apareceu adiante, parcialmente encoberta pela chuva. Raul reduziu a velocidade. 

O pneu passou por uma poça funda e o carro deslizou levemente. Ele corrigiu o volante, sentindo o estômago contrair.

— Segura firme. A pista tá ruim.

Amélia soltou uma risada quebrada.

— Até agora você me manda segurar firme? Em quê, Raul? Nesse casamento morto? Nessa vida que você me deu pela metade?

— Para.

— Não. Hoje você vai ouvir. Hoje você vai admitir que nunca me amou porque sempre amou aquela filha de empregado.

O corpo de Raul reagiu antes da razão. O maxilar travou, os olhos escureceram, a respiração ficou mais pesada. O silêncio dele respondeu tudo. 

E Amélia percebeu. Percebeu com uma clareza cruel demais para uma noite encharcada de álcool e dor.

— Meu Deus... 

Ela sussurrou, rindo e chorando ao mesmo tempo.

 — Até hoje.

— Amélia, olha pra mim. A gente conversa quando chegar em casa.

— Não olha pra mim com pena!

Ela avançou a mão em direção ao volante. Raul tentou segurá-la.

— Amélia, não!

Tudo aconteceu depressa demais. 

Um puxão. 

Um grito. 

O carro invadindo a lateral da pista. 

Os faróis iluminando a cerca molhada. O som brutal dos pneus perdendo aderência. Raul girou o volante tentando corrigir, mas a traseira escapou, e o mundo se transformou em metal, vidro, chuva e impacto. 

O carro capotou uma vez. Duas. Três. O corpo de Raul foi lançado contra o cinto, a cabeça bateu com força, o gosto de sangue invadiu sua boca. Amélia gritou seu nome, ou talvez ele tenha apenas imaginado.

Então veio a queda.

O carro rompeu a cerca e despencou no açude.

A água escura engoliu tudo com um baque surdo.

Por alguns segundos, houve apenas silêncio.

Depois, frio.

Muito frio.

Raul abriu os olhos com dificuldade. A água invadia o carro pelas frestas, subindo rápido, gelada e impiedosa. 

Sua visão estava turva, o peito ardia, e uma dor desconhecida atravessava sua coluna como fogo. Ao lado dele, Amélia permanecia caída contra a porta, imóvel, os cabelos flutuando lentamente na água que subia.

— Amélia... 

Ele tentou chamar, mas a voz saiu afogada, fraca, rasgada.

Moveu o braço. Tentou alcançar a esposa. Tentou soltar o cinto. Tentou mexer as pernas.

Nada.

O pânico veio inteiro.

As pernas não responderam.

A água subiu até sua cintura.

Depois até seu peito.

Raul puxou o ar com violência, os dedos tremendo, o coração batendo como se quisesse quebrar as costelas. 

Lá fora, a chuva continuava caindo sobre o açude, apagando marcas, engolindo rastros, transformando a noite em uma boca escura. 

E enquanto a água alcançava seu pescoço, Raul teve apenas um pensamento antes do mundo desaparecer de vez.

Clara.

Então tudo ficou escuro.

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