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Samanta
O sol da cidade não perdoa, nem mesmo às dez da manhã, e eu já sentia a pele do meu pescoço arder. Eu caminhava apressada pela calçada, sentindo o suor começar a brotar na base da nuca sob meus cabelos castanhos. Minha sapatilha, já gasta de tanto percorrer os corredores da faculdade e as ruas do centro, parecia pesar uma tonelada. Eu acabava de sair do estágio em uma repartição pública — um lugar cinza, onde eu passava quatro horas organizando arquivos que ninguém leria, por uma bolsa-auxílio que mal cobria o valor do meu transporte. Meu celular vibrou no bolso da calça jeans. Um sorriso automático, quase doloroso, surgiu no meu rosto antes mesmo de eu atender. — Oi, mãe! — Minha voz saiu dois oitavos acima do tom normal, vibrante, cheia de uma energia que eu definitivamente não possuía. — Samanta, minha filha! Como você está? — A voz doce de dona Fátima do outro lado da linha me trouxe um aperto instantâneo no peito. — Antônio e eu estávamos comentando que você quase não tem ligado. Está descansando? — Descansar, mãe? Quem tem tempo para isso quando se está conquistando o mundo? — Soltei uma risada leve, forçada, enquanto desviava de um vendedor de guarda-chuvas. — A vida aqui está incrível! O estágio é fascinante, estou aprendendo tanto sobre os processos administrativos... E a correria? Ah, eu amo essa correria! A cidade pulsa, mãe. Sinto que estou exatamente onde deveria estar para crescer na carreira. — Que orgulho, minha guerreira — meu pai, Antônio, gritou ao fundo, provavelmente perto do telefone para não perder nada. — Sabíamos que você ia brilhar aí. Não deixe nada te abalar. — Nunca, pai. Eu sou uma rocha, lembram? — Minha garganta deu um nó seco. — Preciso desligar, estou chegando na empresa de consultoria agora para o segundo turno do dia. Amo vocês! Assim que o "click" do encerramento da chamada soou, meu rosto desabou. A máscara de "jovem executiva de sucesso" caiu no asfalto quente. Eu não estava indo para uma consultoria. Eu estava indo para um prédio comercial decadente, onde passaria as próximas seis horas em um cubículo de um metro quadrado, ouvindo xingamentos através de um headset. "Em que mentira você está se enfiando, Samanta?", pensei, sentindo meus olhos cor de âmbar arderem. Eu olhei para o reflexo de uma vitrine e vi uma farsa. Eu prometi a eles que venceria por conta própria. Prometi que não precisariam se preocupar. Mas a verdade é que eu estava a um passo de ser despejada do meu mini apartamento e a dois passos de uma crise de nervos. O turno no telemarketing foi um inferno particularmente criativo hoje. — Senhor, eu entendo que a sua fatura veio alta, mas... — Tentei falar, mas fui interrompida por um grito tão alto que precisei afastar o fone do ouvido. — Você não entende nada, sua imbecil! — o homem gritava do outro lado. — Vocês são todos ladrões! Eu respirei fundo, contando até dez. Olhei para a tela do computador, o brilho azulado cansando minha vista já exausta. Eu tive uma vontade súbita e quase incontrolável de levantar e bater com a cabeça naquele monitor até que ele — ou eu — parasse de funcionar. Eu sentia cada centímetro do meu corpo protestar. Meus dedos doíam de tanto digitar protocolos inúteis enquanto minha mente vagava pelas contas de luz, água e o boleto da faculdade de Administração que vencia em três dias. Saí de lá às 19:00, sentindo-me como se tivesse sido atropelada por um caminhão. O metrô estava entupido, como sempre. Eu era apenas mais um corpo espremido entre centenas, segurando-me na barra de metal fria enquanto o trem balançava em direção à estação da faculdade. Meu estômago roncou, um lembrete cruel de que meu almoço tinha sido uma barra de cereal murcha. Quando finalmente entrei no campus, a iluminação amarelada dos postes parecia zombar da minha olheira. Mas então, eu a vi. — Samanta!!! Minha deusa das finanças e da desgraça! — Emma veio correndo, os cabelos coloridos balançando e um sorriso que parecia iluminar todo o pátio. Emma era o oposto de mim: leve, descontraída e com uma capacidade única de ver graça no caos. No momento em que ela me abraçou, eu simplesmente desabei. Não chorei — eu não tinha energia nem para lágrimas —, mas meus ombros caíram e eu me apoiei nela como se minhas pernas tivessem virado gelatina. — Amiga, eu não aguento mais... — confessei, minha voz saindo como um sussurro quebrado. — Trabalhar em dois lugares está me matando. O estágio paga tão mal que eu não consigo nem comprar um lanche aqui na lanchonete da faculdade, Emma. O telemarketing está drenando minha alma. Eu estou exausta de mentir para os meus pais. Emma me afastou um pouco, segurando meus ombros com firmeza. Ela me olhou de cima a baixo, seus olhos brilhando com uma ideia que eu sabia que seria perigosa. — Escuta aqui, Sam. Você é muito bonita, magra e tem esses olhos âmbar que são um crime contra a humanidade de tão lindos. Eu conheço alguém... minha prima, Anna, é modelo e vive fazendo uns extras que pagam muito bem. Coisa de nível alto, sabe? E o melhor: é tudo no final de semana. — Extras? Que tipo de extras, Emma? — Perguntei, desconfiada, enquanto nos sentávamos em um banco. — Eventos, recepção de luxo, coisas assim. Espera aí! — Ela pegou o celular e já começou a discar. — Vou ligar para a Anna agora. — Emma, não! Eu não levo jeito para... — Shh! — Ela me calou e colocou no viva-voz. — Oi, priminha! — Anna atendeu após o terceiro toque. Sua voz era elegante, arrastada. — Anna, preciso de um favor. Tenho uma amiga aqui, a Samanta, que é um espetáculo de mulher. Tem algum evento esse fim de semana que você consiga encaixar ela? Ela precisa de um extra urgente. Houve um silêncio do outro lado. Eu prendi a respiração. — Na verdade, tenho sim — Anna respondeu. — É uma feira internacional de carros de luxo. Precisamos de meninas para apresentar os modelos novos para uns velhos bilionários que adoram ostentar. O pagamento é excelente, Emma. Daria para pagar as mensalidades dela por uns dois meses só com esse sábado. Meu coração deu um salto. Dois meses de sossego? Aquilo soava como um milagre. Eu poderia comer algo decente ao invés de miojo todas as noites. Mas a voz da minha consciência, sempre alerta, gritou. — Anna, desculpa... aqui é a Samanta — falei, aproximando-me do celular. — Não tem nada de errado nisso, né? Quero dizer, é só recepção mesmo? — Claro que não tem nada errado, querida! — Anna riu pelo viva-voz. — É um evento de elite, segurança total. Você só precisa ficar bonita ao lado de um motor potente e sorrir. Nada de toques, nada de conversas estranhas. É business. Topa? Eu olhei para Emma. Ela fez um sinal de positivo com as mãos. Eu pensei no boleto da faculdade. Pensei na poltrona velha do meu pai que eu queria trocar. Pensei no mofo do meu apartamento. — Eu topo — respondi, sentindo o peso do meu destino mudar de direção. O sábado chegou com uma ansiedade que me fez perder o apetite. Anna passou no meu pequeno apartamento no horário combinado. Quando ela entrou, parecia um ser de outro planeta naquele cubículo cinza. Ela trazia uma capa de proteção de roupas nos braços. — Aqui está, Cinderella. Seu uniforme — ela disse, estendendo a peça. Era um vestido preto tubinho, de um tecido que parecia seda fria. Ele era simples, mas o corte era impecável, moldando-se ao meu corpo de uma forma que eu nunca tinha visto. Junto com ele, um par de saltos agulha que me deixariam com quase um metro e oitenta de altura. — Veste logo. Estamos atrasadas. Quando terminei de me arrumar e me olhei no espelho do banheiro, eu não reconheci a mulher que me devolvia o olhar. O vestido realçava minhas curvas naturais, e a maquiagem leve que Anna me ajudou a fazer destacava meus olhos âmbar de uma forma quase predatória. Estávamos vestidas iguais, como duas estátuas de ébano prontas para um desfile. Entramos no carro dela e o trajeto até o pavilhão de exposições pareceu durar segundos. O prédio era imponente, cercado por seguranças de terno e uma fila de carros que custavam mais do que eu ganharia em dez vidas. — Samanta — Anna disse, colocando a mão no meu braço enquanto descíamos do carro. Eu estava tremendo por dentro. — Respire. Você é linda, está poderosa e ninguém aqui sabe que você mora em um apartamento de um cômodo. Hoje, você é o que esse vestido diz que você é. Não tenha medo. Eu assenti, forçando o queixo para cima. O ar condicionado do pavilhão me atingiu assim que as portas de vidro se abriram. O cheiro de couro novo, champanhe caro e perfumes importados era inebriante. Eu não sabia, mas naquele oceano de luxo e testosterona, um par de olhos castanhos e gélidos já estava pronto para me encontrar Eu respirei fundo. Ajeitei o decote do tubinho preto. Dei o primeiro passo em direção ao meu maior erro — e ao meu único destino.AnnaO meu dia tinha começado a mil por hora, em um ritmo frenético que parecia tentar compensar a calmaria dos últimos meses. Logo cedo, quando o Matteo me deixou na porta da agência, Sônia já estava me esperando no saguão com aquela postura discreta, mas impecável, que denunciava o seu treinamento militar rigoroso.Eu havia aceitado a imposição do Matteo sobre a segurança pessoal, mas fiz questão de impor uma cláusula inegociável: ela não podia parecer um segurança clássico de filme de ação. Nada de terno preto formal, óculos escuros dentro de recinto fechado ou fone auricular visível. Resultado? Sônia — ou melhor, Soninha, como eu passei a chamá-la para provocá-la — vestia uma calça alfaiataria estilizada, uma blusa de seda moderna e um blazer leve, parecendo muito mais uma executiva chique do que uma guarda-costas.Com o passar das semanas, acabamos nos tornando muito mais do que patroa e funcionária; criamos uma amizade genuína baseada em confidências e trocas de olhares divertid
MatteoQuando aquelas palavras finalmente cruzaram os lábios do Mário, o chão debaixo dos meus pés pareceu sumir, e o meu mundo inteiro desabou em uma fração de segundo.— Então, sobrinho... — disse ele, ajeitando a lapela do paletó amassado com uma calma asquerosa, enquanto o sangue ainda secava no canto da sua boca. — Me leve até a sua sala. Vamos conversar como dois cavalheiros.Eu permaneci estático, com os punhos cerrados com tanta força que os nós dos meus dedos doíam. A minha mente girava em um turbilhão violento, incapaz de processar a dimensão daquela crueldade. Como ele tinha tido coragem? Como o Mário conseguiu chegar até a Anna bem debaixo do meu nariz?Em poucas horas, eu a havia deixado na agência. E a segurança dela — Sônia, a profissional de elite que eu contratei pessoalmente para proteger cada passo da Anna quando eu não estivesse, especialista em gestão de riscos — simplesmente não havia me ligado. Como diabos aquilo aconteceu? Como a Sônia permitiu que a Anna fosse
MatteoQuatro meses. Cento e vinte dias.Se alguém me dissesse há um ano que eu estaria vivendo em uma espécie de transe doméstico pacífico, com um Golden Retriever dormindo aos pés da minha cama e uma mulher que virou o meu mundo do avesso compartilhando a minha rotina, eu riria na cara da pessoa. Mas a verdade é que o meu relacionamento com a Anna não podia estar melhor. Nós construímos a nossa própria bolha de felicidade, blindada contra o caos corporativo e as cobranças externas. Ela tinha o espaço dela, eu tinha o meu, e o fim de semana na minha cobertura tinha se tornado o nosso refúgio favorito. No nosso pequeno universo, tudo parecia ter finalmente encontrado o seu eixo.No entanto, a paz completa é um luxo que os homens com o meu sobrenome raramente conseguem desfrutar por muito tempo.E o que estava me incomodando profundamente nos últimos dias — além da tensão iminente dos tribunais — era o estado absolutamente deplorável em que o Lorenzo tinha afundado. O meu amigo parecia
AnnaO silêncio que se instalou na sala depois de tudo o que Matteo revelou não era pesado, mas denso de um alívio quase doloroso. Toda a raiva, a angústia sufocante e a sensação de impotência que vinham corroendo meu peito ao longo daquele dia derreteram como neve ao sol. Em seu lugar, uma onda avassaladora de amor e c compreensão inundou cada célula do meu corpo.Apertei meus braços ao redor do pescoço dele com força, afundando o rosto na curva quente da sua pele e inalando o perfume amadeirado que era a minha maior fraqueza e o meu único porto seguro. Sentir o peito dele inflar contra o meu, o bater acelerado do seu coração se alinhando perfeitamente ao ritmo do meu, me trouxe uma paz que eu não experimentava há meses.— Eu te amo, Matteo... — murmurei contra a pele da garganta dele, sentindo os braços dele se fecharam ao redor da minha cintura com um aperto quase desesperado, como se quisesse garantir que eu não sumiria dali.Matteo afastou suavemente o rosto apenas o suficiente p
AnnaA mudança na postura de Matteo foi tão brusca que o ar no meu apartamento pareceu congelar em questão de segundos. Aquele homem provocante, de sorriso de canto e olhar divertido que estava me provocando até um momento atrás, desapareceu por completo. Em seu lugar, emergiu a versão mais fria, sombria e calculista de Matteo Bianchi.Ele não se afastou. Suas mãos continuaram firmes na minha cintura, mas o aperto mudou de um toque de desejo para um aperto de proteção quase desesperado. O olhar dele, fixo no meu, carregava uma densidade que fez meu coração acelerar por um motivo completamente diferente.— O que está acontecendo com o Mário, Matteo? — repeti, com a voz quase em um sussurro, buscando a verdade no fundo daqueles olhos escuros.Ele soltou uma respiração pesada, um sopro quente que bateu contra a minha pele, e desviou o olhar por um segundo antes de voltar a me encarar.— Eu quis te preservar de tudo, Anna — começou ele, a voz rouca e grave, ressoando direto contra o meu p
AnnaO final da tarde se arrastava no estúdio com aquele cansaço típico de pós-produção. O barulho constante dos disparos da câmera, as ordens do fotógrafo e o calor dos refletores já estavam deixando os meus ombros pesados. Eu só queria tirar a maquiagem, tomar um banho demorado e me afundar no meu sofá.Foi quando, entre os flashes da última sessão do dia, meus olhos cruzaram o estúdio e o vi.Matteo estava parado de pé ao lado da equipe de produção, encostado com uma elegância quase ofensiva contra uma das divisórias de madeira. Usava um paletó escuro impecável, os braços cruzados sobre o peito e a postura ereta de quem parecia dono daquele prédio inteiro. Os olhos dele, atentos e intensos, acompanhavam cada movimento meu diante das lentes, sem piscar.Assim que o fotógrafo gritou que tínhamos finalizado por hoje e a equipe começou a recolher os equipamentos, soltei uma respiração funda. Mantenha a compostura, Anna. Contornei dois assistentes que seguravam sombrinhas difusoras e ca







